Denise Matsumoto/ O Joio e O Trigo

O guardião de sementes da Caatinga

(fotos e vídeos), de Serranópolis de Minas (MG)

No semiárido de Minas Gerais, um catingueiro divide a casa com a memória de seus ancestrais e de gerações de variedades de plantas

“Para segurar o céu” é uma série de reportagens que investiga e mapeia iniciativas produtivas e modos de vida de povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos, comunidades tradicionais e camponeses. Nas investigações, contamos como a contribuição desses povos para o meio ambiente faz parte de algo amplo e que essas formas de vida não são alternativas sistêmicas, mas soluções sistêmicas, que precisam ter centralidade na atuação governamental e da sociedade como um todo.


De pé, chapéu na cabeça, óculos no rosto e sanfona na mão, seu Geraldo Gomes canta uma das músicas de sua autoria: “Eu moro no meio do mato, junto da mãe natureza, desfrutando o perfume das flores… A minha roça é uma diversidade, planto um pouquinho, de muitas variedades…”. Enquanto ele toca, sua mãe, dona Rita, dança. 

Estamos na sala da casa da família, na comunidade de Touro, Serranópolis de Minas, norte de Minas Gerais. Nas paredes do cômodo, estão penduradas fotos de família, muitos diplomas e certificados dos inúmeros cursos que seu Geraldo fez. Há de tudo um pouco.

Há, também, uma mesa com uma variedade de potes cheios de sementes e de licores que ele mesmo fabrica, a partir das plantas que tem na sua roça: “O licor, eu faço de várias plantas. De abóbora, banana, milho, juá de boi, de moringa. Deve ter umas 30 espécies que a gente faz aqui.”

Geraldo Gomes tem 62 anos e nasceu na casa onde nos recebe, local onde também sua mãe veio ao mundo e sua avó se casou. Filho e neto de agricultores, ele começou a ir para a roça aos sete anos de idade, acompanhando o pai e o avô, que diziam que “roça tem que ser igual mato, tem que ter diversas plantas”. Plantavam de tudo: arroz, amendoim, cana, abóbora, maxixe, milho, feijão, mandu, fava… “E várias outras coisas. Eu aprendi dessa forma”, relata.

Uma prática da família, que faz parte da tradição sertaneja, transmitida por gerações e que seu Geraldo mantém viva, é guardar e trocar sementes. “[A gente] guardava pra não ficar dependendo. Às vezes, na hora que ia comprar, não achava, e, muitas vezes, quando achava, não tinha dinheiro. Eu fui aprendendo com eles”.

Se a sala do agricultor chama atenção pela riqueza de detalhes, a casa de sementes chama ainda mais. Há estantes com potes e garrafas pet com centenas de sementes, de muitas cores e tamanhos. Por todo o chão, mais garrafas. E dezenas de cabaças. Ele conta que há mais de 200 variedades de sementes.

Além de guardião de sementes e agricultor familiar, seu Geraldo Gomes é cantor e compositor.


Há mais de cem anos 

Seu Geraldo é conhecido e celebrado como um importante guardião de sementes crioulas do norte de Minas. “O guardião é aquele que tem várias espécies de muitas plantas, as preserva e busca outras variedades que estão sumindo. Guarda e multiplica. Temos sementes que são plantadas há mais de cem anos. Temos elas para mostrar a importância que tiveram. E que poderão ter para as futuras gerações”, explica. “Hoje, vemos que a tendência é que a maioria dessas espécies está sumindo, seja nativa ou plantada”. 

Na agricultura familiar do semiárido, os alimentos são produzidos sem veneno. E as sementes são selecionadas e armazenadas. Há as de melancia, abóbora, algodão, de mais de 70 tipos de feijão – branco, preto, amarelo, vermelho, listrado, catador, de moita. As de fava, quiabo, maxixe, mamonas,amendoim. Há, também, sementes de espécies medicinais, como mucunã, olho de boi, umburana e mulungu, conta o agricultor. De milho, são inúmeras variedades: como o branco, usado para fazer canjica, e o coruja, que é colorido, fofo e com espiga grande, bom para os animais. Há ainda o crioulo preto, milho tupiniquim, catingueiro, cateto… 

Na entrada da casa de sementes, há uma placa que indica que a iniciativa é apoiada pelo Programa Uma Terra e Duas Águas, da Articulação do Semiárido, rede que atua em defesa da convivência com o semiárido. O Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas, destinado à promoção da agroecologia e dos direitos de povos e comunidades tradicionais do norte de Minas, também é uma das organizações que apoiam o trabalho de Geraldo Gomes. 

Na casa de sementes de seu Geraldo há mais de 200 variedades de espécies.

O agricultor integra, ainda, a Articulação Rosalino Gomes, da qual fazem parte catingueiros, geraizeiros, veredeiros, vazanteiros, indígenas, quilombolas, vacarianos e apanhadores de flores sempre-vivas. Criado em 2010, o coletivo é um espaço de organização e construção de alianças entre os povos tradicionais da região do norte de Minas e Alto Vale do Jequitinhonha.

Mudanças climáticas

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A função de guardião de sementes começou bem cedo na vida de seu Geraldo. Foi logo que ele fez sua primeira roça, quando plantou algodão, feijão e milho. No começo, não havia uma casa para elas, que eram mantidas em um paiol de milho. “E, a cada ano que passa, a gente vem fazendo uma seleção dessa sementes. Hoje, o que mais se acha no mercado são espécies transgênicas”, lamenta. Seu Geraldo as comercializa em feiras livres, em feiras de trocas ou sob encomenda. 

O trabalho de preservação enfrenta muitas dificuldades. “Se você não tiver muita paciência e amor pelas sementes, acaba desistindo. Há poucos incentivos e poucas pessoas que se interessam por esse trabalho. E eu olho os benefícios que vai se adquirir com o que se planta. É uma garantia diante dessa dificuldade, quando há tanto veneno. Porque mudaram todo o sistema de plantio”. 

Seu Geraldo tem uma roça agroecológica, onde planta algodão, amendoim, feijão, melancia e batata doce. Adota um sistema agroflorestal (SAF). Caminhando em seu sítio, ele vai nos mostrando as árvores frutíferas, como de tamarindo, pinha, caju e jamelão, e as plantas medicinais. “É uma forma de ter tudo ao mesmo tempo, uma agrofloresta consorciada de produção de alimentos e adubação, além de preservar o meio ambiente.”

Caminhando em seu sítio, o agricultor nos mostra árvores frutíferas, como de tamarindo, pinha, caju e jamelão, e as plantas medicinais.

A diversidade de plantas e do que produz é inegável, mas não sem dificuldades: a chegada de fazendas de monocultura no entorno e as mudanças climáticas afetam a produção. “Quando você não usa veneno, mas o outro usa, quando ele está passando veneno, você sente o mau cheiro bater. Então, prejudica. E hoje estão usando até drones para passar veneno”. Além disso, a água do rio está contaminada, relata. “A gente vê isso com tristeza, porque antes da monocultura do algodão, ele corria, podia ser pouca chuva, mas corria. Com a destruição que foi acontecendo, veio o desmatamento. Hoje, tudo vem acabando, e a mudança climática é por causa disso mesmo.” 

Na década de 1970, chegaram à região projetos de pecuária, irrigação e monocultura de algodão, que utilizavam práticas agrícolas promovidas pela chamada Revolução Verde: uso de sementes híbridas, adubos químicos, agrotóxicos e mecanização. De acordo com Geraldo, “foi uma época de muita destruição. Muitas plantas nativas foram derrubadas para o plantio do algodão. E o pessoal passava muita dificuldade. Porque a monocultura do algodão era financiada pelo banco e o pessoal ficava dependente do banco. Com isso, muitas pessoas perderam os seus terrenos para pagar dívidas”, relata o agricultor. Além disso, muitos morreram envenenados, pois as águas ficaram contaminadas. “Tinha vezes que você estava no rio, ia banhar à tarde, e via aquele filezinho de veneno chegar, meio verde, feito uma gordura.”

Situada no semiárido mineiro, a comunidade de Touro está localizada na Caatinga. “Ela tem uma riqueza imensa. Muitas espécies diferentes, de plantas, de frutas, alimentos, dos tipos de pastagem. A terra da Caatinga tem umas plantas diferentes do Cerrado. Mas muitas espécies de plantas que tinha aqui já foram destruídas”, explica seu Geraldo.

“E esse sistema que eu planto aqui, muitas vezes as pessoas falavam que era roça de doido, se eu estava doido para fazer esse sistema”, conta. “Mas pelo menos eu preservei a vida de muitas espécies. Foi devido a essa doidura. Se não, podia estar tudo acabado. Então eu vejo a Caatinga dessa forma. Ser catingueiro é uma forma de vida.”                                      

A ‘roça de doido’ de Geraldo é fundamental para a preservação do bioma. Entre 1985 e 2023, a Caatinga perdeu 14,4%, ou 8,6 milhões de hectares, de sua cobertura vegetal nativa, de acordo com a plataforma MapBiomas. O que restou representa 59,6% do bioma, ou 51,4 milhões de hectares. Em quase quatro décadas, a área dedicada à agricultura expandiu 1,8 milhão de hectares. Eram 115 mil hectares ocupados pela atividade em 1985 e, em 2023, chegou a 1,9 milhão de hectares. As pastagens foram as que mais aumentaram: 12,1 milhões de hectares, uma expansão de 112% entre 1985 e 2023, passando de 10,8 milhões de hectares para 22,9 milhões de hectares.

Desmatamento da Caatinga

  • Entre 1985 e 2023, a Caatinga perdeu 14,4%, ou 86 milhões de hectares, de sua cobertura vegetal nativa
  • O que restou representa 59,6% do bioma, ou 51,4 milhões de hectares
  •  Em quase quatro décadas, a área dedicada à agricultura expandiu 1,8 milhão de hectares
  • Pastagens expandiram 12,1 milhões de hectares

Fonte: MapBiomas


Medicamentos e sanfona

Além das sementes, dos licores e dos produtos da roça, seu Geraldo também faz alguns medicamentos e outros produtos, como azeite de mamona, azeite de gergelim e a raspa do juá de boi, que é vendida para a França para fazer xampu. “E temos também mulungu e umburana, que são medicinais”, diz Geraldo. O umbu, usado para os licores, também é uma planta medicinal. “Os fazendeiros que estiveram aqui na região derrubaram muitos pés de umbu para pastagem, é uma tristeza. Um pé de umbu tem muito valor. Além do licor, com ele podemos preparar vários pratos”                                                           

Além de agricultor familiar, seu Geraldo é cantor e compositor. A música é, também, uma tradição familiar, herança de gerações anteriores. Em 1955, quatro tios fundaram um grupo musical que animava as festas de Serranópolis e do município vizinho de Porteirinha. “Era em clube, no Carnaval, festa de São João, danças de quadrilha”, recorda. “Meu pai era sanfoneiro, tocador de pé de bode [tipo de sanfona], meu avô e tios também, então eu aprendi um pouco”, diz.                   

Os integrantes do quarteto, chamado “Seresteiros do Luar”, foram sendo substituídos, e hoje, seu Geraldo é um deles. “A gente está fazendo esse trabalho resgatando um pouco a Folia de Reis, a cultura do passado, a cultura sertaneja que não quero deixar perder”, conta.                                                                                              

Mas manter o grupo também tem suas dificuldades. Uma semana antes da nossa visita ao sítio do agricultor, um dos integrantes havia falecido. “Ele tocava agogô, falava poesia, fazia as aberturas”. Os Seresteiros tocam em muitas festas e Geraldo canta e compõe músicas. Ele nos cantou algumas. 

Em 2013, seu Geraldo recebeu o prêmio TRIP Transformadores, como uma forma de reconhecimento da contribuição dos agricultores familiares do semiárido. Ele conta que quer transformar a casa de sementes em um museu de sementes. O sítio é um ponto turístico da região, que recebe pessoas de vários estados e países. “Quem vem, sempre leva os licores. E reforçamos a importância de preservarmos a importância da agricultura familiar”. 

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