Pipira na plantação de abacaxis que começou antes do SAF e continua até hoje. Foto: Cícero Pedrosa Neto/O Joio e O Trigo

Pipira viu a banana (e sua vida nunca mais foi a mesma)

, de Rondon do Pará (PA)

A história de como dois pequenos agricultores preocupados com o meio ambiente foram em busca de soluções que aliassem sustentabilidade e geração de renda – e encontraram a resposta nos sistemas agroflorestais

“Para segurar o céu” é uma série de reportagens que investiga e mapeia iniciativas produtivas e modos de vida de povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos, comunidades tradicionais e camponeses. Nas investigações, contamos como a contribuição desses povos para o meio ambiente faz parte de algo amplo e que essas formas de vida não são alternativas sistêmicas, mas soluções sistêmicas, que precisam ter centralidade na atuação governamental e da sociedade como um todo.

No caminho de Francisco Vieira da Silva não tinha uma casca de banana, mas um cacho inteiro. Ao olhar as frutas já amarelinhas numa tarde de 2023, o agricultor de 58 anos, conhecido como Pipira, teve certeza de que a aposta num jeito diferente de fazer agricultura não o faria escorregar. “Ainda não tinha visto um cacho de banana tão bonito criado dentro de uma terra crua. Aí eu disse: ‘Meu Deus, a coisa funciona, sim!’”

A coisa à que Pipira se refere é conhecida por uma sigla de três letrinhas. Os SAFs, ou sistemas agroflorestais, se baseiam na imitação do que seriam processos ecológicos que já acontecem na natureza para recuperar solos degradados e, de quebra, produzir alimentos e gerar renda. “Eu passei a acreditar no SAF”, contou ele, sorrindo. 

Pipira não estava sozinho. Aqueles exemplares perfeitos de banana tinham crescido no lote do vizinho e amigo José Marcos Moraes Dias. Ambos moram no Projeto de Assentamento da Reforma Agrária Deus te Ama, localizado em Rondon do Pará (PA), município no sudeste do estado e colado à fronteira com o Maranhão. Apesar de fazer parte do bioma mais biodiverso do planeta – a Amazônia –, a região foi degradada por desmatamento e pecuária. O resultado são solos pobres, a tal “terra crua” à qual Pipira se refere. 

Pipira e José Marcos há anos buscavam uma forma de produzir mais e melhor – o que, para eles, passava necessariamente por uma relação harmônica com o meio ambiente. Com esse objetivo, fundaram o Grupo Reflorestamento e Sustentabilidade, e saíram em busca de parcerias e conhecimento. Bateram na porta do Sindicato dos Trabalhadores Rurais da cidade, que os colocou em contato com a Comissão Pastoral da Terra (CPT).

José Marcos e Pipira caminham pela plantação de abacaxis deste último, no assentamento Deus te Ama / Foto: Cícero Pedrosa Neto

Os agentes da pastoral baseados em Marabá, cidade a 147 quilômetros de Rondon, estavam acostumados a procurar agricultores, não a serem procurados. “A organização deles chamou a atenção”, relembra Lucas Gomes, que junto com os colegas Geuza Morgado e Francisco Alves de Souza cruza centenas de quilômetros todo mês visitando acampamentos de sem-terra e assentamentos para incentivar a transição agroecológica por meio dos SAFs. 

“A gente tenta trabalhar esse sistema a partir da viabilidade econômica. Que o agricultor possa se enxergar ganhando dinheiro”, destaca Lucas. A preocupação de Pipira e José Marcos com a recuperação da floresta e com a sustentabilidade das práticas agrícolas foi recebida como uma exceção bem-vinda.

Além de acompanhar os agricultores, a CPT os colocou em contato com a Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa). E lá foram Pipira e José Marcos participar de uma oficina oferecida pela instituição. “Eles participaram para aprender. E aí, no final, falaram pra gente: ‘Muito bom isso aí, como é que a gente faz para levar para o assentamento?’”, recorda Diego de Macedo Rodrigues, diretor-geral do Instituto de Estudos em Desenvolvimento Agrário Regional da universidade. “Uma coisa é quando a gente chega com um projeto. Outra coisa é quando o agricultor vem e pede. A chance de sucesso é maior.”

E, assim, a experiência dentro do assentamento começou em 2023. “Esse SAF nasceu lá em casa”, conta José Marcos, orgulhoso.  Num espacinho em seu lote, um mutirão se reuniu para plantar abacaxi, mamão, andiroba, urucum – e, é claro, banana. “De 16 pessoas, ficaram duas: eu e Pipira”, ri. 

Visão aérea do SAF de José Marcos, que já tem mais de 30 plantas / Foto: Cícero Pedrosa Neto/O Joio e O Trigo

Adesão ainda é baixa

As dificuldades que os agentes da pastoral da terra enfrentam ao andar por aí incentivando a adesão aos SAFs  também são conhecidas de Pipira e José Marcos. A dupla tenta mobilizar outros agricultores no Deus te Ama, onde estão assentadas 60 famílias. Desde a implantação do SAF, conseguiram animar de verdade apenas um agricultor. 

“O compadre não acreditava”, disse Pipira, apontando para Agnaldo Peres, que recebeu a reportagem em casa com um banquete quase inteiramente vindo da roça da família. “Foi difícil eles me convencerem. Eu era todo ‘acanhadão’, não queria entrar”, reconheceu. Naldo, como todos o chamam, trabalhou em garimpo e serraria. Para fechar o bingo das atividades que ameaçam o bioma amazônico, durante muito tempo ele também criou gado. 

“Eu achava que eu ia plantar e não ia comer daquela fruta. Que ia demorar cinco, dez anos”, conta. Hoje, devidamente convencido da viabilidade dos SAFs, Naldo acredita que fazer parte de um grupo fez a diferença. Trocar dia na roça dos amigos, e ter a certeza de que, quando chegasse a sua vez, teria apoio. “Se não fosse assim não dava certo”, garante. 

Assim que chegou na terra, Naldo recebeu do seu pai um conselho: plantar açaí e buriti. Hoje, convencido de que o SAF é viável, ele se arrepende de não ter plantado mais espécies nativas. Foto: Cícero Pedrosa Neto/O Joio e O Trigo

Lucas explica que muitas pessoas têm o mesmo medo de Naldo, de que o SAF demore a dizer a que veio. O agente da CPT afirma que o primeiro passo para evitar frustrações é começar pelo plantio de culturas que dão renda mais imediata ao agricultor. Milho, abóbora, inhame e feijão são boas pedidas. Além do retorno financeiro, é a folhagem amealhada ao longo da colheita dessas plantas que vai servir de ‘cama’ para dar força para as seguintes, como açaí, cacau, castanha e mogno. “A matéria orgânica vai dar uma melhor condição de fixação para essas outras”, ensina. 

Muitas pessoas abandonam o SAF nesse estágio, assustadas com os caprichos de cada uma das várias plantas cultivadas. Por isso, parcerias – como a que o grupo tem com a CPT e com a universidade – são fundamentais. Na prática, agentes e pesquisadores acabam ocupando o lugar da assistência técnica municipal, quase sempre frágil. “Tem coisa que está a um palmo do seu nariz e você não descobre, mas nós estamos buscando conhecimento”, diz Pipira.

Mas a verdade é que os SAFs dão um nó na cabeça até de agrônomos formados, garante Diego, da Unifesspa. “Por que pouca gente quer trabalhar com isso? Por que é tão difícil organizar um sistema agroflorestal? Porque dá trabalho, é complexo. A homogeneização gera facilidade. A diversificação gera dificuldade”, constata. 

Mas é justamente a diversidade o que define os SAFs. É que as diferentes plantas colaboram entre si, e também com microrganismos presentes no solo. “O milho e o feijão exploram uma camada superficial. As árvores exploram outras camadas, inclusive trazendo aqueles nutrientes que o milho não conseguiria alcançar, mas a raiz da árvore consegue jogar novamente na superfície através das folhas que caem ou da poda”, explica Diego.

De modo que a variedade é a principal característica dos sistemas agroflorestais. Pipira, um frasista de primeira linha, oferece algumas definições valiosas. Para ele, a regra de ouro é: ‘nada muito, tudo pouco – e de tudo um pouquinho’. “O SAF é como se fosse uma feijoada, tem vários ingredientes”, resume. 

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Cooperativa traz mais possibilidade de renda

O trio atualmente fornece alimentos plantados nos respectivos lotes para duas iniciativas públicas de compra da agricultura familiar: o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae). Alguns dos gêneros vendidos vêm dos SAFs, outros de culturas manejadas de uma forma mais tradicional, mas sem o uso de agrotóxicos – caso dos abacaxis de Pipira. 

José Marcos corre atrás da burocracia para implementar uma cooperativa e, no futuro, conseguir financiamento para beneficiar os produtos dos SAFs do assentamento Foto: Cícero Pedrosa Neto/O Joio e O Trigo

José Marcos – cujo SAF já tem mais de 30 plantas – conta que o grupo, em breve, vai virar uma cooperativa – o que vai facilitar o beneficiamento e a venda dos alimentos. “Porque hoje nós temos açaí, cacau, abacaxi; nós temos muitas frutas que precisam ser processadas. Nós não entregamos ainda a polpa porque nós não temos agroindústria”, observa.

Depois de vencer o cipoal burocrático para formar a cooperativa (o grupo buscou o auxílio do Sebrae para vencer essa etapa), ele vê no financiamento o próximo grande desafio. “Hoje você vai acessar um projeto e o que eles querem [de garantia] hoje? Gado”, critica José Marcos, sobre a dificuldade de conseguir empréstimos para implementar agricultura biodiversa em pequenas áreas. 

Todos – agricultores e parceiros – concordam que os obstáculos não são poucos. A começar pelo contexto mais geral no Pará, de extrema violência no campo. O próprio Deus te Ama é, de certa forma, fruto dela: o assentamento foi criado como resposta do Estado ao assassinato da principal liderança camponesa da cidade, José Dutra da Costa, o Dezinho.

Foi Dezinho quem convidou Pipira para se somar à luta por terra no final dos anos 1990. E foi a morte da liderança, em 21 de novembro de 2000, o estopim de revolta que o levaria a ocupar a área do assentamento. “Eu era um leão medroso. Eu tinha vontade, mas tinha medo porque Rondon do Pará foi conhecida ‘a cidade sem lei’. Era muito perigoso. Mas no dia em que eu vi o Dezinho estendido morto, criei coragem. Não sei… Eu acho que eu pensei que ele só morreu por uma luta pelos trabalhadores.”

Pipira e a companheira, Maria Leude, no SAF que ambos tocam no seu lote Foto: Cícero Pedrosa Neto/O Joio e O Trigo

Pipira entrou na terra no dia 3 de dezembro de 2003. A ocupação durou dez anos. Só em setembro de 2013 o Incra criou oficialmente o assentamento Deus te Ama na área da antiga Fazenda Santa Mônica, com 2.765 hectares. A criação do assentamento fez parte de um compromisso firmado pelo Incra com a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) para amenizar o conflito que levou à morte de Dezinho.

Mas a hegemonia do agronegócio está longe de ser superada na região. Os agentes da CPT veem um novo risco socioambiental se somando à pecuária, até então dominante: o avanço da soja em Rondon do Pará. E, com ela, a intensificação da pulverização aérea de agrotóxicos. “Nessa região altamente conflituosa vemos, mais uma vez, o avanço de um modelo totalmente contraditório. O agronegócio exclui os agricultores, literalmente busca retirar eles dos territórios, agora por meio da soja”, denuncia Lucas. 

Resiliência e fé no futuro são a receita de Pipira para quem não quer desistir de viver da terra – e em harmonia com ela. “Você tem que acreditar. Eu queria que mais trabalhadores acreditassem na agricultura. A agricultura ainda é a solução.”

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