Uma das principais epidemiologistas do mundo, a médica sanitarista Emily Banks considera países como Brasil e Índia têm tido mais sucesso em combater epidemia de tabagismo proibindo dispositivos

Uma das principais epidemiologistas do mundo, a médica sanitarista Emily Banks, 57 anos, avalia que cigarros eletrônicos têm um objetivo muito claro: viciar crianças e adolescentes. É para isso que a indústria do tabaco os projetou e não há boas evidências científicas para seu uso como “redução de danos” ou ajuda para cessar tabagismo.
Em seu lobby junto ao governo brasileiro e na imprensa, a indústria costuma argumentar que países como o Reino Unido e Nova Zelândia tiveram experiências exitosas no controle do tabagismo ao liberar vapes. Em muitos países estrangeiros, sobretudo na Europa e América do Norte, esse tipo de dispositivo é legal. No Brasil, eles são proibidos desde 2009 por decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Só que, de acordo com as evidências, não é bem assim. Banks explica que vários países que proíbem os cigarros eletrônicos têm tido resultados no controle do tabagismo tão promissores quanto os que liberaram. Na verdade, vapes se tornaram um grande problema em países como Nova Zelândia e Reino Unido, que viram o consumo por jovens e adolescentes saltar a níveis alarmantes, afirma a pesquisadora. Ela cita Brasil, Índia e Uganda – que proíbem os vapes – como exemplos melhores.
Banks dá aulas na Universidade Nacional da Austrália, onde tem o cargo de “professora ilustre” – a posição de maior prestígio acadêmico em universidades de língua inglesa. Ela também é consultora da Organização Mundial da Saúde (OMS) para cigarros eletrônicos e novos produtos de nicotina.
Com dupla nacionalidade – britânica e australiana –, Banks iniciou sua carreira científica na universidade inglesa de Oxford com foco em saúde da mulher. Em 2003, ela participou do grupo que descobriu que terapias hormonais para menopausa aumentam o risco de câncer de mama, achado que fez médicos do mundo inteiro reverem o modo como prescrevem esse tipo de tratamento.
Em seguida, ela investigou como a mutilação genital feminina torna partos e gestações mais arriscados em um grupo de experts da OMS. Esse trabalhou serviu de guia para que as Nações Unidas (ONU) iniciassem campanhas pela erradicação desse tipo de mutilação genital, prática que era comum em alguns países como forma de preparar uma mulher para o casamento ou rito de passagem à vida adulta.
A pesquisadora concedeu a entrevista ao Joio em Genebra, na Suíça, durante a 11ª Conferência de Controle do Tabaco (COP11), que reúne até 183 países em negociações para os próximos passos da implementação da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco (CQCT), um tratado global coordenado pela OMS.
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Leia a entrevista:
Algumas pessoas costumam dar o exemplo de países como a Inglaterra para dizer que cigarros eletrônicos podem ser úteis ao controle do tabagismo, seja como redução de danos ou meio para ajudar adultos a pararem de fumar. Qual a sua avaliação?
Sabemos que, para se alcançar um excelente nível de controle do tabaco, os cigarros eletrônicos e sachês de nicotina não são necessários. Temos exemplos de vários países ao redor do mundo que trabalharam muito para minimizar o uso de cigarros eletrônicos, os proíbem ou simplesmente têm baixa prevalência de uso que fizeram progressos excepcionais no controle do tabaco. Por exemplo, a Índia proíbe cigarros eletrônicos e teve uma queda de 43% no uso de tabaco desde 2010. Podemos ver Uganda e as Américas com um progresso realmente grande. Sabemos que não precisamos ter acesso a esses produtos para melhorar o controle do tabaco. Há certos países que realmente abraçaram os dispositivos eletrónicos, como o Reino Unido e a Nova Zelândia. Eles tiveram bom progresso no tabaco [convencional], mas também estão tendo um uso excepcionalmente alto desses novos produtos por jovens. Se olharmos para a Nova Zelândia na faixa etária de 18 a 24 anos, cerca de um quarto desses jovens usa vapes todos os dias. Vemos essa promoção para cessação do tabagismo em adultos, mas a indústria, na verdade, tem como alvo crianças e jovens. Cerca de 10% dos jovens de 15 anos na Nova Zelândia usam cigarros eletrônicos todos os dias e essa taxa é maior em estudantes e adultos jovens maoris [povo indígena neozelandês]. A questão se vapes são eficazes como ferramenta de cessação do tabagismo ou se são menos danosos do que fumar [cigarros comuns] tem que ser considerada nesse contexto mais amplo.
O que as evidências realmente dizem?
Sabemos que esses produtos podem ajudar algumas pessoas que fumam a parar, mas para um produto ser um produto de cessação do tabagismo apropriado, ele não precisa só ser eficaz, ele também precisa ser seguro. Sou médica e, se estou à procura de algo para uma terapia, quero saber, primeiro, se é eficaz, depois, se é seguro. E se o equilíbrio entre riscos e benefícios é positivo. Na verdade, não sabemos o que os cigarros eletrônicos fazem a longo prazo, sabemos que são altamente viciantes, e quando olhamos e perguntamos se eles seriam benéficos a nível populacional, sabemos que independentemente do que a indústria disser sobre o uso por adultos, o público-alvo são crianças e jovens. Então esses produtos não são seguros a nível populacional. O último estudo da OMS mostra que, se você tem países onde se pode comparar o uso adulto e infantil de cigarros eletrônicos, a prevalência de uso em crianças de 13-15 anos é 9 vezes maior que a dos adultos para os vapes, então nesta questão de ser menos prejudicial ou eficaz para cessação do tabagismo, esses não são produtos de segurança e eficácia comprovadas para esse propósito. Além disso, sabemos que em nível populacional, por causa da forma como a indústria age, eles são prejudiciais porque têm como alvo crianças.
Na hora de fazer lobby pelo vape, a indústria tenta enquadrar a nicotina como uma substância relativamente inofensiva. Ela diz que “as pessoas ficam viciadas pela nicotina, mas morrem pelo alcatrão” para exemplificar porque cigarros eletrônicos seriam menos danosos. Como você responderia a esse tipo de comparação?
Antes de mais nada, ninguém nasce precisando usar nicotina. Não precisamos dela. É quase como se a indústria quisesse que assumíssemos que as pessoas precisam usar nicotina, então deveriam usar este tipo, não aquele outro. Na verdade, a dependência em si já é um dano. Quando falo com jovens que estão sofrendo com a dependência de nicotina, eles explicam como é estar viciado. Em primeiro lugar, a nicotina tem sintomas de abstinência muito, muito desagradáveis, e é por isso que as pessoas que fumam, mesmo se estiverem incrivelmente doentes, mesmo prestes a morrer se não deixarem de fumar, ainda têm dificuldade em parar. É uma substância profundamente viciante. E o prazer real da nicotina é o alívio dos sintomas desagradáveis da abstinência, como se sentir nervoso, irritável e mesmo muito infeliz. Fizemos estudos comparando pessoas que experimentam dependência de nicotina com pacientes em tratamento psiquiátrico. Há níveis muito semelhantes de angústia. A dependência em si é uma condição de saúde mental muito negativa, e muitas vezes as pessoas entram neste ciclo muito rapidamente. Sei que há pediatras no Reino Unido preocupados com a narrativa que vê crianças usando vapes como “danos colaterais” de um produto alegadamente projetado para adultos, mas do ponto de vista da indústria, os mais jovens são o alvo principal.
Mas se no Reino Unido as coisas não vão tão bem, por que há quem use esse tipo de país como exemplo?
Há um aspecto colonial nisso. Eles ignoram experiências de países africanos que têm prevalência muito baixa, por exemplo. Uganda [que proíbe cigarros eletrônicos] tem menos de 1% de prevalência de uso de cigarros eletrônicos, mas fez progressos excepcionais no controle do tabaco. Muitos desses países têm resultados ótimos, mas as pessoas falam sobre a Inglaterra ou a Nova Zelândia. Se olharmos para a Índia, uma queda de 43% na prevalência de uso de tabaco num país com 1 bilhão de pessoas é uma diferença grande. O Brasil é o mesmo. O Brasil tem uma prevalência realmente baixa de uso de cigarros eletrônicos e teve um progresso excecional no controle do tabaco.
Mas por aqui a indústria diz o contrário. Ela afirma que o contrabando está fora de controle e que deveríamos rever a proibição para proteger adequadamente os jovens.
Sou epidemiologista e médica de saúde pública, então sou guiada pelas evidências. Há estatísticas realmente confiáveis mostrando baixo uso de cigarros eletrônicos e grande progresso no controle do tabaco no Brasil. A indústria age como se houvesse um problema para o qual só eles têm a solução.
Por que você passou a estudar tabaco?
Tenho trabalhado em controle do tabaco há talvez 12 anos. Sempre estive interessada no tabaco como a causa mais comum de morte evitável. Se olharmos para as principais causas de morte em muitos países, encontraremos várias delas relacionadas ao tabaco. E muitas pessoas não percebem que o câncer de pulmão é uma causa de morte mais comum em mulheres do que o de mama. O fumo é responsável por cerca de 20% de todas as mortes por câncer no mundo, mais de 10% das mortes globais e uma grande proporção de mortes prematuras. Passei muito tempo trabalhando em coisas que eu chamaria de ‘problemas óbvios’, como o câncer de mama ou doenças crônicas. O tabaco é o problema mais óbvio dos óbvios. Ele é muito evidente e importante. Mas porque tem uma indústria que tem trabalhado durante décadas, mais de meio século, para nos fazer pensar que ele não é um problema, as pessoas o normalizaram. Se fosse, digamos, a malária, matando 10% da população todos os anos, ou se fosse um vírus, estaríamos fazendo algo de diferente, mas mosquitos e vírus não têm grupos de lobby que andam pelos corredores dos parlamentos.





