Depois da violenta luta por reforma agrária em Anapu (PA), falta de água castiga plantações, mas não desanima família de agricultores em um dos pedaços de terra mais simbólicos do Brasil

“Para segurar o céu” é uma série de reportagens que investiga e mapeia iniciativas produtivas e modos de vida de povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos, comunidades tradicionais e camponeses. Nas investigações, contamos como a contribuição desses povos para o meio ambiente faz parte de algo amplo e que essas formas de vida não são alternativas sistêmicas, mas soluções sistêmicas, que precisam ter centralidade na atuação governamental e da sociedade como um todo.
“Tá morrendo tudo. É cacau. É banana. Nada está aguentando.” Recebo essa mensagem de voz numa tarde de sexta-feira, 14 de novembro de 2025. É o relato de um agricultor que conheci nove meses antes, no município de Anapu, no Pará, em circunstâncias muito mais felizes. Na época, Agnaldo Costa Lima e sua companheira, Vanessa Ferreira Vitorino, me mostraram com orgulho seu pedaço de chão, verdinho e diverso. Uma terra em que se misturavam cacau e banana. Coco, pupunha e café. Mogno, andiroba, mandioca e milho – para ficar em alguns exemplos.
As fotos e o vídeo que acompanham a mensagem dão conta de um mundo que, de repente, virou de ponta cabeça. O verde foi substituído por vários tons de laranja e marrom de planta seca. Seiscentos pés de cacau saudáveis deram lugar a cem plantas mortas, contabiliza Naldo, como o agricultor é conhecido. “E continuam morrendo. A água está sumindo. A seca está muito forte e nós não estamos conseguindo… Estamos lutando para sobreviver, na verdade.”
Nossa conversa à distância acontece enquanto se desenrola, em Belém, a COP 30, conferência do clima para debater soluções para um planeta em convulsão. Mas Naldo e eu sabemos que não há solução à vista para o drama que ele e sua família vivem.

Luta, suor e orgulho
A visão de uma terra que seca e regride é especialmente dolorosa para Agnaldo e Vanessa. O lote em que constroem uma vida nova foi designado para eles apenas três anos antes. Quando chegaram, era tudo capim. “Desses brutão, que você mete o ‘enxadeco’, arranca e, mesmo assim, brota de novo”, contou ela.
Aquele solo degradado era, literalmente, a parte que lhes cabia de um latifúndio – terra federal grilada, desapropriada para fins de reforma agrária que, desde junho de 2022, virou oficialmente o Projeto de Assentamento Irmã Dorothy Stang.

“Dorothy Stang: esse nome, para nós, é importante demais”, emendou Agnaldo, na ocasião em que estive com eles. Quando ele chegou em Anapu, a gente pobre da cidade vivia o trauma do assassinato da missionária ocorrido poucos meses antes, em fevereiro de 2005. “A luta que ela teve pelas pessoas, pelos agricultores… Ficou esse aprendizado para todo mundo. E todo mundo valoriza aquilo que ela deixou”, resumiu. Ao homicídio de Dorothy, se seguiram outros 29 na cidade – sempre tendo como pano de fundo a reforma agrária.
Honrar o legado de quem morreu lutando pelo direito à terra em uma das cidades mais violentas do Brasil não é tarefa das mais simples. Implica fazer do chão conquistado com sangue algo vivo, produtivo. E resistir diante das dificuldades que surgem pelo caminho. Por isso, Naldo e Vanessa não planejam desistir. “Vou continuar plantando. É o nosso alimento. É de onde a gente tira o nosso sustento”, fala Naldo, desta vez por mensagem de voz.
Apesar do desalento da seca, o casal não está sozinho. Eles são uma das famílias atendidas pelo projeto Pomares e Florestas, uma iniciativa da Comissão Pastoral da Terra (CPT) em Anapu para incentivar a adoção dos sistemas agroflorestais, os SAFs, que se baseiam na imitação do que seriam processos ecológicos que já acontecem na natureza para recuperar solos degradados e, de quebra, produzir alimentos e gerar renda.
“Eu cheguei ontem do lote do Naldo e da Vanessa”, me contou, também por mensagem de voz, o técnico agrícola do projeto, Eudson Carlos da Silva. Em fevereiro, foi graças a ele que eu conheci o casal. Agora, já em novembro, foi por meio dele que eu fiquei sabendo do revés na plantação. “Agora no verão, morreu bastante cacau deles.”

Na Amazônia e em alguns locais do semiárido brasileiro, “verão” se refere ao período em que as chuvas escasseiam ou cessam. No caso de Anapu, Eudson conta que o “verão” começou em julho. “Mas até que foi bastante chuvoso”, pondera o técnico.
O que houve então? Naldo relata que o problema está embaixo da terra. O poço artesiano construído pelo agricultor secou. Um segundo poço foi aberto por Naldo, com cerca de dez metros de profundidade, mas também secou. O agricultor abriu um terceiro poço, cavando 12 metros na terra, mas a água é pouca e a prioridade passou a ser o consumo da família, composta ainda por Maria Júlia, 8 anos, e João Vítor, 14. “A Volta Grande do Xingu pede socorro”, me escreveu Naldo, ainda sem saber como contornar a falta de água.
“Estamos tristes, né? As plantas estão sofrendo muito com essa seca, o cacau morreu… Mas é assim mesmo, é a vida, né? Nós não vamos parar não, vamos continuar plantando”, sentencia Vanessa. Para quem conquistou a terra após a luta de tantos que vieram antes, desistir não é uma opção.
