Clara Borges

JBS ignorou relatos de intoxicação que terminou com 25 funcionários no hospital em SC

Empresa havia sido avisada do problema com antecedência; mesmo intoxicada, equipe do frigorífico de Nova Veneza continuou trabalhando

A JBS foi alertada com uma semana de antecedência sobre funcionários intoxicados em Nova Veneza, no interior de Santa Catarina – mas ignorou os alertas até 25 colaboradores da unidade terem sido hospitalizados.

De acordo com Jéssica Koguta, ex-funcionária da companhia, os trabalhadores vinham reclamando de ardência nos olhos, dores de garganta e náuseas, mas suas queixas não receberam atenção da chefia da unidade. Depois de uma semana do aparecimento dos sintomas, Koguta conta que, com a ajuda de um colega, tiveram de levar os funcionários em carros particulares ao Hospital Municipal São Marcos, na mesma cidade. 

Também segundo a ex-funcionária, a água utilizada na limpeza do frigorífico vinha sendo contaminada com amônia, o que teria causado a intoxicação da equipe.

O caso de Nova Veneza integra um conjunto de milhares de acidentes de trabalho ocorridos em unidades da JBS. Uma investigação publicada pelo Joio no ano passado mostrou que 4.677 comunicações de acidentes de trabalho (CATs) foram emitidas pela empresa ao INSS apenas entre julho de 2018 e março de 2020 – uma média de sete acidentes por dia. 

Segundo levantamento realizado pelo Brasil de Fato, desde 2014 foram registrados pelo menos 11 vazamentos de amônia em diferentes frigoríficos da JBS, com mais de 300 funcionários afetados. 

Arte: O Joio e O Trigo

Amônia ou cloro?

No caso de Nova Veneza, a água que abastecia o setor de limpeza vinha sendo contaminada com amônia em razão de uma reforma feita recentemente na tubulação do frigorífico, segundo a ex-funcionária Jéssica Koguta. O problema só teria sido identificado pela empresa depois que os trabalhadores foram levados ao hospital. 

Na versão difundida pela JBS aos funcionários na época, a intoxicação havia sido causada pela diluição de cloro a granel na água destinada ao setor de limpeza 

A água utilizada na limpeza noturna do frigorífico é misturada ao cloro em duas etapas: uma primeira vez na torre da Estação de Tratamento de Água, ou ETA, da unidade, e uma segunda no chão de fábrica, pelos próprios funcionários da higienização. 

O funcionário da limpeza responsável pela segunda diluição na época do acidente foi procurado pela reportagem e afirmou que as quantidades de cloro que vinham sendo aplicadas eram as mesmas de sempre. “A quantidade de cloro era passada para nós pelo setor de controle de qualidade. O que eles mandavam a gente fazia. Naquela época estávamos diluindo o mesmo de sempre.”

Ele conta que em uma reunião de Diálogo Diário de Segurança (DDS) realizada três dias antes da hospitalização, a técnica de segurança do frigorífico e o gerente da unidade responderam às reclamações dos funcionários afirmando que as causas da intoxicação estavam sendo investigadas e que o problema poderia ter sido causado pela diluição de cloro a granel feita na estação de tratamento de água. Após a reunião, a diluição de cloro feita no chão de fábrica foi suspensa, mas os sintomas de intoxicação persistiram.

A então encarregada de turno, Koguta, afirma que uma investigação posterior à hospitalização, conduzida pela própria empresa, concluiu que o cloro granulado apenas mascarou o cheiro da amônia, dificultando a identificação do vazamento. Segundo ela, a investigação foi conduzida pelo coordenador da unidade, pela técnica de segurança do frigorífico e pelos supervisores dos setores de tratamento de água e manutenção.

“Depois de investigarem, eles viram que a amônia vazou na tubulação da higienização e reagiu com o cloro granulado, que anulou o cheiro da amônia”, diz a ex-funcionária. “O pessoal não sentia o cheiro, então só apareciam as reações físicas.” 

“Em poucos minutos nossa equipe toda estava intoxicada, com os olhos ardendo. Não dava para enxergar um palmo à frente”

“Muitos sentiram enjôo, tontura, garganta muito seca e vermelhidão nos olhos, como se tivessem queimado com solda”, recorda Leonardo Damiani, ex-funcionário do setor de limpeza da JBS Nova Veneza, também vítima de intoxicação.

Funcionários passaram vários dias sentindo forte ardência nos olhos (Ilustração: Clara Borges)

Um outro funcionário afetado pelo episódio, que ainda trabalha no frigorífico e falou sob condição de anonimato, disse que os primeiros sintomas foram sentidos no momento da aplicação do cloro na sala: “Todo o mundo começou a sentir que estava diferente. Em poucos minutos nossa equipe toda estava intoxicada, com os olhos ardendo. Não dava para enxergar um palmo à frente”, descreve. 

“Nós passamos mais de oito dias recebendo cloro na cara”, afirma um trabalhador que também continua na empresa. “Aí chegou o dia em que estava todo o mundo intoxicado e teve que ser levado ao hospital.” 

Procurada pelo Joio, a JBS negou que tenha havido vazamento de amônia: “A ocorrência em questão foi decorrente de procedimento técnico realizado pela companhia, que prontamente adotou todas as medidas de segurança”. A companhia afirmou ainda que “faz sólidos investimentos em saúde e segurança em todas as suas unidades no Brasil”.

Também consultada sobre qual foi o procedimento técnico mencionado, a empresa não respondeu até a publicação desta reportagem. 

Os 25 funcionários que sofreram intoxicação tiveram Comunicações de Acidente de Trabalho registradas pela JBS no INSS sob a classificação X496 – “Envenenamento (intoxicação) acidental por exposição a outras substâncias químicas nocivas e às não especificadas”. 

O agente causador do acidente foi classificado nos registros como “substância química”, e a função desempenhada pelos colaboradores intoxicados foi assinalada como “abatedor”, apesar de as vítimas atuarem na limpeza noturna.

A amônia (NH³) é um gás tóxico, altamente solúvel em água, utilizado na refrigeração de grandes instalações industriais. 

De acordo com a Norma Regulamentadora 36 – da Secretaria Especial de Previdência e Trabalho do Ministério da Economia – os frigoríficos devem ter sistemas de detecção, controle e evacuação para casos de vazamento da substância.

“Trabalha até onde aguentar, e depois volta” 

Segundo Koguta, a administração do frigorífico foi alertada repetidamente sobre os sintomas de intoxicação que os funcionários vinham apresentando desde a quarta-feira da semana anterior à intoxicação, no dia 14 de agosto.

“Eles não conseguiam deixar o olho aberto nem respirar”, diz ela. “Foi aí que a gente começou a pedir para alguém ver o que estava acontecendo, já que não eram sintomas normais do cloro, tipo irritação nos olhos e tosse.” 

Damiani confirma que o ardor era atípico. “A gente trabalhava com cloro, já estava acostumado com certo ardume”, conta o ex-funcionário. “Mas passou daquele nível normal, começamos a estranhar.” 

“Eles não conseguiam deixar o olho aberto nem respirar”

Koguta diz ter relatado o problema com os funcionários da limpeza e sinalizado a possibilidade de um vazamento de amônia, já que os sintomas eram semelhantes a episódios anteriores que ela havia testemunhado. Segundo ela a chefia rejeitou a possibilidade de vazamento e mandou que fossem feitas pausas periódicas no trabalho: “Eles diziam: ‘Trabalha até onde aguentar, quando não aguentar desliga as mangueiras, aguarda baixar o vapor e depois volta’.”

“O que eles queriam era atestado” 

Os trabalhadores intoxicados foram levados ao Hospital Municipal São Marcos pela encarregada e por outro funcionário do frigorífico, em dois carros particulares, por volta de 5h da manhã da quinta-feira, dia 22 de agosto de 2019.

“Eu comecei a tirar os funcionários da sala de corte, porque alguns estavam até vomitando ali dentro. Pedi para se encaminharem para o ambulatório da empresa, mas no ambulatório não tinham carro que os levasse ao pronto-socorro”, diz Koguta. 

Apesar de também estar sob efeito da amônia, ela conta que organizou a turma da limpeza e levou todos para o São Marcos: “Peguei meu carro, o de um amigo e pedi para ele me ajudar a levar todos. Acho que fiz umas quatro viagens.”

No hospital, segundo relato dos trabalhadores, o médico de plantão, Fabrício Dall’Igna, afirmou que só atenderia os funcionários intoxicados na presença da gerência do frigorífico. 

“Fomos bem mal atendidos”, diz um trabalhador que não quis se identificar. “O médico não queria atender porque não sabia por qual motivo a gente estava lá, muito menos que tipo de produto tinha sido usado e por que não tinha nenhum representante da empresa junto”, conta outra empregada. 

À reportagem, o médico diz ser “mentira” o que contam os trabalhadores. “Até porque o pessoal do frigorífico chegou logo em seguida. A única coisa que eu precisava saber era qual substância tinha sido. Acho que era cloro, não me lembro exatamente”, ele afirma. “E não tinha ninguém grave, levaram mais por precaução. O que eles queriam era atestado, afastamento. Agora, negar atendimento, de maneira nenhuma.” 

Célio Elias, vereador na cidade vizinha de Forquilhinha e ex-diretor do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Alimentação de Criciúma e Região (Sintiacr), afirma que a equipe do hospital começou a examinar os funcionários depois da chegada do sindicato e dos representantes da JBS. 

“Quando a empresa soube que eu estava no hospital, mandou todo o pessoal deles. Gerente, médico do trabalho, enfermeiros e técnico de segurança”, diz. “Aí o hospital começou a fazer os procedimentos corretos e medicar os trabalhadores.”

“O que eles queriam era atestado, afastamento. Agora, negar atendimento, de maneira nenhuma.”

Por volta das 10h os funcionários foram levados de volta para a empresa, onde receberam medicamentos e tomaram o café da manhã. A maioria teve direito a licenças médicas de dois a três dias. Alguns voltaram a trabalhar no sábado, dois dias depois da intoxicação. A encarregada, Jessica Koguta, retomou o trabalho no dia seguinte ao atendimento. 

Recorrência 

Entre os casos semelhantes relatados pelo Brasil de Fato, está um vazamento ocorrido na unidade JBS de Forquilhinha (SC), a 15 km de Nova Veneza, em novembro de 2017.

Outro princípio de vazamento, que não consta desse levantamento, ocorreu na própria unidade de Nova Veneza, em novembro de 2018.

Em 12 de agosto de 2019, três dias antes de os funcionários da JBS Nova Veneza sentirem os primeiros sintomas da intoxicação por amônia – e dez dias antes de serem levados ao hospital –, o funcionário terceirizado Aparecido Raimundo da Silva, de 45 anos, morreu ao receber um choque elétrico trabalhando no telhado da unidade.

No início da crise sanitária, em março de 2020, a Justiça do Trabalho de Santa Catarina chegou a determinar que as atividades da JBS em Nova Veneza e Forquilhinha fossem interrompidas até que a empresa adotasse medidas de proteção contra a Covid-19 aos seus funcionários. A decisão foi revertida um dia depois, em tribunal de segunda instância. 

No início de maio, o mesmo juiz responsável por derrubar a ordem de interrupção de atividades determinou que a empresa elaborasse um plano emergencial de contingência do novo coronavírus, realizasse busca ativa por colaboradores contaminados e afastasse todos os funcionários com sintomas da doença.


Atualizado às 13:32 de 08/04/2021: Célio Elias é vereador em Forquilhinha (SC), e não em Nova Veneza, como informado anteriormente.

Por Marcos Hermanson Pomar

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