Unindo as produções de dois assentamentos e um acampamento de São Paulo, o movimento sem terra doou 10 mil quilos de legumes, 17 mil quilos de frutas, 25 mil maços de verduras e 9 mil maços de temperos

Num cenário em que a fome volta aos lares brasileiros, a solidariedade do Movimento dos Trabalhadores  Rurais Sem Terra (MST) tem ajudado famílias que estão em insegurança alimentar. Só em 2020, o movimento já doou mais de 4 mil toneladas de alimentos por todo o Brasil. Em abril deste ano, foram 100 toneladas.  Nas periferias de São Paulo, os assentamentos e acampamentos localizados nas bordas da cidade tiveram parcela significativa nessa produção, realizando entregas de cestas de alimentos para organizações e pessoas em situação de vulnerabilidade social. 

É com o trabalho de mulheres como Maria Alves, 47, que organizações e pessoas em situação de vulnerabilidade social vêm se alimentando em meio à pandemia. Quem chega num dia qualquer ao acampamento Irmã Alberta, em Perus, região noroeste de São Paulo, tem a chance de ouvir a agricultora contar a história do acampamento. E também os aprendizados sobre agroecologia e alimentação saudável que a militante acumulou nos quase 20 anos que integra o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Nascida na divisa de Pernambuco com a Paraíba, Maria migrou para o interior de São Paulo com a família, aos três anos de idade, fugindo da seca e da fome, como tantas outras famílias.

Analfabetos, os pais sempre a incentivaram a estudar nas unidades de ensino rural. Mais tarde, Maria se tornou educadora popular na periferia de São Paulo e foi em uma aula que conheceu o MST e decidiu se juntar à luta pelo acesso à terra, indo morar no acampamento. 

Ela chegou ao Acampamento Comuna Irmã Alberta, em 2003, quando o sonho ainda estava sendo desenhado. Hoje, cerca de 50 famílias vivem em quatro núcleos do acampamento, que está em vias de se transformar em assentamento, por meio de regularização do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária).

Agora, em isolamento social, as atividades educativas que realizava foram interrompidas, mas o momento não impediu a agricultora de ser uma mão que planta, alimenta e apoia as comunidades ao seu redor.  

Alimentação saudável para moradores da cidade

Embora horizontal, a organização desses espaços parte principalmente das mãos de agricultoras que, para além da contribuição diante da crise social, atuam na conscientização sobre a importância do campo para as cidades, principalmente nas periferias e defendendo a importância da alimentação saudável para quem está nas franjas da metrópole.

“Nesse um ano, aumentamos e avançamos um pouco mais na produção, porque tivemos ações do movimento no Brasil inteiro e aqui não foi diferente”, diz Maria Alves.

Na produção do Irmã Alberta, conta, não faltam frutas frescas, como acerola, amora e uva. “Nós escoamos a nossa produção com o apoio de muitas pessoas e entidades, que ajudaram a produção da nossa Cooperativa Terra e Liberdade”, diz.

A Cooperativa Terra e Liberdade, do MST, organiza a distribuição dos alimentos produzidos nos acampamentos e assentamentos urbanos do movimento e atua principalmente na região metropolitana da cidade de São Paulo, abrangendo cinco territórios diferentes. 


A cooperativa reúne e distribui os alimentos produzidos no acampamento Irmã Alberta e nos assentamentos Dom Tomás Balduíno, em Franco da Rocha, e Dom Pedro Casalgálida, em Cajamar e vem servindo como apoio para doações no período da pandemia.

Alimentação, emprego e qualidade de vida

Juntos, os dois assentamentos e o acampamento somam mais de 150 famílias produtoras. “São territórios envolvidos na produção de alimentos sem veneno, da alimentação saudável, de condições de emprego e qualidade de vida e acesso a essas pessoas”, afirma Marília Leite, engenheira ambiental e também integrante da cooperativa na frente de distribuição.

Unindo as produções dos dois assentamentos e do acampamento, de março a dezembro de 2020, a cooperativa entregou mais de 10 mil quilos de legumes, mais de 17 mil quilos de frutas, 25 mil maços de verduras e 9 mil maços de temperos.

As doações foram endereçadas a espaços como Ocupação Esperança, em Osasco, Comunidade do Montanhão, em São Bernardo do Campo, complexo de favelas da Vila Mariana, com apoio do Grupo de Consumo da cooperativa da Vila Mariana, zona sul de SP, mães do Crusp (Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo), tekoas (aldeias) indígenas do Jaraguá e Ocupação Queixadas, em Cajamar. Foram entregues também doações de cestas a trabalhadores da Saúde na Vila Nova Cachoeirinha.

A agricultora Ediana Silva, 53, moradora do Assentamento Dom Pedro Casaldáliga, em Cajamar, também foi uma das que colaborou com a construção das cestas. Com a pandemia, a produção de Ediana e outras famílias diminuiu. Isso porque realizavam uma parceria com a prefeitura municipal oferecendo a alimentação escolar. Com a paralisação das escolas, a produção também diminuiu. 

Mesmo assim, Ediana não deixou de plantar aquilo que sempre vingou em suas terras. “Estou mantendo o que eu já tinha plantado. O colorau, a lima, cebola, tempero caseiro, alho e jiló”, diz a agricultora, que chegou a colaborar com cerca de 20 quilos de coloral, 15 quilos de temperos e média de 200 porções de ora-pró-nobis para doação ao longo do último ano.

Nascida em Belo Horizonte, Ediana chegou ao assentamento em 1998, quando ainda era um acampamento. “A gente ocupou aqui sete vezes. Só conseguimos ficar na oitava vez”, relembra. O assentamento foi oficialmente criado em 2006, por meio de uma área adquirida pelo Incra. Inicialmente, foram assentadas 28 famílias e hoje 38 famílias vivem no local. 

Sem veneno

A cerca de 25 quilômetros de Cajamar, outro assentamento também tem atuado diretamente junto à população periférica metropolitana de São Paulo: o Dom Tomás Balduíno, que existe desde 2002 e está localizado praticamente ao lado da unidade prisional do município de Franco da Rocha, para onde o assentamento fornecia alimentos orgânicos pouco antes de a pandemia ser declarada no país.

Quem planta doa e também aprende a viver a partir do que colhe da terra. Luana dos Anjos Mori, 35, chegou ao Dom Tomás Balduíno há mais de dez anos. É lá onde ela reside com seu companheiro, Givanildo, e os quatro filhos. “Fui me adaptando aos poucos e hoje vejo que, apesar da distância para certas coisas, é uma vida que vale muito a pena. Meus filhos têm um ar mais puro para respirar, uma alimentação mais saudável onde tem itens que plantamos, que sequer eu conhecia. Temos espaço e mais segurança”, conta. 

Em mais de uma década como assentada, Luana se orgulha da trajetória de aprendizados que teve. Seja na prática, com o dia a dia da plantação, ou nos cursos e reuniões do MST

Desde a chegada do coronavírus ao Brasil, o espaço vem colaborando com os esforços do movimento para a doação de alimentos.  “Foram mais de dez toneladas de alimentos do Dom Tomás Balduíno desde o início da pandemia. Também fizemos arrecadações para ajudar os agricultores dos assentamentos, e kits e cestas para doar nas periferias, terras indígenas e para funcionários em hospitais”, relata.

Atualmente, Luana faz parte da direção do MST na Grande São Paulo, onde seu papel é justamente priorizar o alimento saudável e a qualidade de vida nos territórios onde atuam. “A alimentação saudável é um direito de todos, mas infelizmente não é assim que acontece, principalmente agora com essa pandemia onde muitos estão nem, ao menos, com acesso a saneamento básico”, comenta.

Mesmo em meio à pandemia, o governo de Jair Bolsonaro liberou a comercialização de 150 novos agrotóxicos em 2020, totalizando 493 desde que chegou ao governo. Segundo a FAO, em 2013, o Brasil foi o país que mais gastou com agrotóxicos em todo o mundo. Segundo o DataSus, o contato com os venenos impregnados nos produtos agrícolas foi o motivo da morte de 700 pessoas por ano nos últimos 10 anos.

Conectados por meio de doações

Em Cajamar, Ediane sente falta das visitas que recebia no assentamento, tanto por parte da comunidade no entorno, quanto de pessoas vindas de outros países que vinham conhecer o trabalho do MST.  “A gente convidava os professores [da região] para trazer os alunos aqui, porque eles não tinham consciência de como era tirado um alface do pé ou o adubo da plantação. Muitas crianças não têm noção do que estão comendo”, relata.

Mesmo não podendo realizar visitas in loco, tanto o assentamento de Cajamar quanto os demais se mantiveram conectados às comunidades de seu entorno por meio das doações de alimentos. 

As doações do MST também chegaram à Ocupação Queixadas,  da CSP Conlutas. (Central Sindical e Popular Conlutas) onde vivem 100 famílias, beneficiadas pelas cestas disponibilizadas pelos assentamentos metropolitanos da organização. Inaugurada em julho de 2019, a Queixadas reúne 400 pessoas. Todos receberam as doações. 

Uma das moradoras é Vanessa dos Santos, 32. Atriz de profissão e atualmente desempregada, ela diz que receber esses alimentos fez a diferença não só na vida dela, mas também na de seus vizinhos. “Nesse período de pandemia, que está se agravando, as pessoas estão desempregadas. No ano passado, ainda tinha um auxílio, mas mesmo assim era pouco para a maioria das pessoas. A galera tá passando perrengue mesmo”.

Em abril de 2021, o governo passou a pagar a nova rodada do auxílio emergencial no país. Se em 2020 a primeira etapa do benefício chegou a auxiliar 68,2 milhões de pessoas, agora esse número baixou para 45 milhões, deixando milhares sem a ajuda.

De R$600, o valor foi drasticamente para R$250. O pagamento pode variar a depender da composição familiar. Para as mulheres chefes do lar, a quantia será de R$375, e quem vive sozinho vai receber apenas R$150 por mês. A primeira parcela do auxílio foi disponibilizada a partir de 6 de abril e o cronograma de saques depende do mês de nascimento de cada beneficiado ou beneficiada.

“A gente vê a necessidade e a importância de quando tem essas campanhas de solidariedade entre os de baixo, entre o campo e a cidade. E além da doação dos alimentos, são alimentos de extrema qualidade. A doação fez uma diferença enorme no prato das pessoas”, reforça.

As doações aconteceram principalmente entre julho e agosto do ano passado, quando boa parte da população da ocupação ainda não havia conseguido o auxílio emergencial. 
A ocupação e os assentamentos mantêm atividades em conjunto desde antes da crise sanitária. Próximos dos dois lugares, educadores que já atuam no assentamento Dom Pedro também dão aulas no Irmã Alberta e realizam trocas de conhecimento. “Nesse momento, no qual o governo quer que a gente morra, acho que é importante os de baixo se unirem. É ‘nóis por nóis’”, diz Vanessa.

Não tão longe de Cajamar, estão situadas seis tekoas (aldeias) das terras indígenas do Jaraguá, ainda na região noroeste de São Paulo, bairro vizinho também da Comuna Irmã Alberta. Ao longo do ano passado, diversas famílias também foram contempladas com as cestas do MST.

Tamikuã Txihi é uma das lideranças e moradoras da Tekoa Ytakupe, uma das seis que compõem o território, com cerca de 700 indígenas.  “A gente se alegra em saber que nesse momento que a humanidade está vivendo, dessa catástrofe em que muitas pessoas estão passando por dificuldades por conta dos governantes e ganância, há organizações ao nosso redor que estão segurando uma na mão da outra”, afirma.

“O alimento orgânico, sem agrotóxico, simboliza a vida e o cuidado. É um alimento que vem das mãos das mulheres e das comunidades, que também têm uma conexão com a Mãe Terra e a Irmã Natureza”, diz Tamikuã. “A gente cuida da saúde, tanto física quanto mental, através da alimentação. A alimentação de qualidade traz qualidade de vida, saúde, bem-estar, alegria de viver, vigor e força.”