Ilustração: Ronald Ferro

Nossa majestade, o cuscuz

De um preconceituoso “comida de pobre” à ícone cultural, o alimento à base de milho é uma verdadeira celebridade nas redes sociais

Toda celebridade que se preze tem hashtag, artes, edits e declarações. O cuscuz não fica fora dessa. Entre poesias e tweets rotineiros, o alimento deixou de ser encarado como uma comida “de baixo” (coisas comuns em um país infelizmente elitista como o Brasil) para ser um dos queridinhos das redes sociais nos últimos anos.

A frase “cuscuz é melhor do que muita gente” virou bordão, o cuscuz paulista se tornou uma espécie de vilão gastronômico na internet, restaurantes passaram a vender um cuscuz com leite por R$ 33 (com outros acompanhamentos, a partir de R$ 51), como no Cuscuz da Irina em São Paulo. Resumindo: o cuscuz virou item cool, servindo de base para um sem número de receitas. No Tik Tok (116.8 mil publicações), tem dica para tudo que é gosto. Ah: tem uma “padroeira” que começou todo esse processo: a cantora e ex-BBB Juliette (jajá voltamos a falar sobre ela).

Com a chegada das festas juninas, os flocos amarelos (que podem ser de outra cor, como você vai ler nesta reportagem) ganham ainda mais atenção.

O alimento que virou sinônimo de debates que mesclam moda e resistência ganhou as redes sociais. Reprodução: TikTok

De acordo com a ferramenta de monitoramento de mídia social, Brand24, a massa acumula mais de 1.800 menções nas redes sociais nos últimos 14 dias (26 de maio — 09 de junho), com potencial de alcance de 9 milhões de usuários. No Google, com 3,900 pesquisas no último ano, a principal temática é a receita e a pergunta clássica “Como fazer cuscuz sem cuscuzeira?”.

O fato é que essa exposição do alimento através de outros filtros — não o da pobreza e o da falta, mas o da graça e do glamour — trouxe de certa forma uma nova “cara” para a própria ideia de Nordeste.

Como a indústria não é boba nem nada, tratou de pegar o 19 de março, dia dedicado a São José no calendário católico (é o protetor das chuvas), para celebrar o dia do cuscuz. Em 2017, uma das principais indústrias de alimentos da região Nordeste, a São Braz, instituiu o novo significado a data através de uma campanha publicitária. Segundo a tradição, se chove no dia 19 de março, é sinal de uma boa colheita. Se a plantação ocorrer em março, se colhe 3 meses depois, em junho, época de São João. Bastou esse movimento para que os holofotes tivessem um novo personagem. O dia é recheado de felicitações ao cuscuz em perfis de rede sociais de influencers, secretarias de prefeituras e figuras públicas. Mas não se enganem: é criação de empresa para vender produto mesmo.

Com uma média de R$ 3 por pacote, o cuscuz traz uma carga nutricional que sacia uma família com um baixo custo (em 50 gramas de cuscuz cozido, há cerca de 170 calorias, 38 gramas de carboidratos, 4 gramas de proteína, 2 gramas de fibras e 0,5 gramas de gordura). Por vezes referido como “comida de pobre”, ele encontra hoje um patamar de patrimônio imaterial, se tornando um símbolo de identidade nordestina e prato apreciado em outras regiões do país. O que aconteceu nesse meio tempo?

Podemos resumir em um Big Brother Brasil (Rede Globo) e uma maior aversão (e ao mesmo tempo adesão) aos estereótipos espalhados no contexto das redes sociais. 

“O cuscuz já tá pronto, Juliette?”

Nasce um clássico: Fiuk e Juliette na já clássica briga por conta do preparo do alimento. Reprodução

A cantora Juliette, 35 anos, foi nacionalmente conhecida pela sua participação no Big Brother Brasil 2021. O crescimento de sua fama também impulsionou a visibilidade do alimento, objeto de algumas cenas virais como a briga com Fiuk sobre o modo de preparo (o cantor estava preparando o cuscuz nos moldes de uma farinha), quando Juliette preparava a refeição e avisava “Meu povo, o cuscuz tá pronto!” e ainda quando ela se emocionou trazendo um relato de como o cuscuz salva uma vida.

De lá pra cá, os memes e trends só crescem. A influenciadora Larissa Oliveira fez uma prenda com seu marido no qual finge que não quer mais comer cuscuz na janta mas sim pratos mais sofisticados. A reação do marido gerou 2.5 milhões de visualizações.

Já a poeta e influenciadora Janielly Souza, 29 anos, natural de Lagoa Nova-RN, conhecida como “a menina do cuscuz”, atualmente com 488 mil seguidores conta: “Comecei do zero, sem internet em casa, sou do interior e mulher então passei por situações difíceis, mas foi no humor e na cultura nordestina que eu me encontrei.”

Quando questionada sobre o cuscuz, Janielly responde que. quando fazia faculdade, uma colega sempre esquecia do seu nome e, como ela falava muito de cuscuz, acabou sendo chamada pelo nome da comida. A partir disso, se tornou sua marca e primeiro ponto de identificação com seu público.

A massa também já foi tema de prova no Masterchef em 2024, episódio com participação da influencer Blogueirinha, no qual o prato a ser executado foi o polêmico cuscuz paulista, eleito o pior prato do Brasil segundo o ranking internacional TasteAtlas. A avaliação média do prato é de 2,8 estrelas em uma escala de 0 a 5. O ranking levou em consideração 7.456 avaliações.

Já no outro lado do país, temos um cuscuz gigante. O maior cuscuz do mundo em Caruaru-PE é uma tradição junina realizada anualmente no Alto do Moura, um dos polos da festividade na cidade. Foi criado em 1993 e é a comida gigante mais antiga do São João de Caruaru. E, sim…. há outras comidas gigantes como tapioca, bolo de milho, quentão, pipoca e entre outros.

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Um prato brasileiro

Preciso dizer que precisei dar uma pausa na pesquisa para colocar um cuscuz no fogo. Para mim, enquanto estudante universitária, é um prato acessível, prático para o meu dia a dia, uma “comfort food”. Pensando nisso, conversei com alguns amigos sobre suas memórias de cuscuz e pude passear um pouco ao redor do Brasil a partir dessas perspectivas e sentimentos. 

O kuscussú nasceu na África

Símbolo cultural, o alimento passou por diversas mudanças em seu modo de preparo e apresentação

Ronald Ferro

O cuscuz se originou há cerca de dois séculos antes de Cristo pelos povos mouros que habitavam a região do Magreb, norte da África.
O prato levava o nome de “kuscussú” e consistia em um farelo de grão moído (a sêmola), que posteriormente era transformado em uma pasta e modelado em formatos esféricos.
O prato chegou à Europa levado pelos árabes. Apesar da expulsão destes povos e a formação dos países europeus, o cuscuz continuou popular na região e se espalhou para outras áreas colonizadas por franceses, portugueses e espanhóis.
Por volta do século 16, com a chegada dos portugueses ao Brasil, o cuscuz teve o uso da sêmola substituído pelo milho nativo da América (chamado zea mays), dando a cara e o sabor que hoje reconhecemos no prato. Se tornou uma das bases alimentares dos negros escravizados e era preparado para a venda.
Possivelmente, a primeira forma de preparo do prato com o uso do milho, o “cuscuz de cabeça virada”, era feito com o milho hidratado dentro de um prato envolto com um pano, que era virado de cabeça para baixo, voltado para uma panela com água fervendo e cozinhado a partir do vapor.
A cuscuzeira como conhecemos hoje (apesar de suas várias versões e formas) foi introduzida pela cozinha magrebina, com o nome de couscussier.
Hoje, o cuscuz pode ser encontrado em preparos diferentes dependendo da região brasileira. Dentre os mais populares, o cuscuz paulistano se destaca pelo uso de diversos ingredientes para incrementar a receita: mandioca, tomate, pimentão, sardinha, entre outros.
O cuscuz mineiro também se diferencia pelo uso do prato em uma versão doce, usando fubá junto do milho, açúcar, canela, erva-doce e o acompanhamento de queijo.
No nordeste, o cuscuz é geralmente preparado de maneira básica, recebendo uma série de acompanhamentos: queijo, ovos, galinha ou carne guisada, bode, etc. Há também versões da massa embebida com leite de coco ou leite de vaca, adocicados.

Fontes: 
CASCUDO, L. C. História da alimentação no Brasil. 3 ed. São Paulo: Global, 2004.
MONTANARI, M. Comida como cultura. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2010.
FLANDRIN, J; MONTANARI, M. História da alimentação. São Paulo, SP: Estação da Liberdade, 1998.

Pesquisa e arte: Ronald Ferro/OVA

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