Foto: Divulgação/Expointer

Repórter do Joio é hostilizado por deputado federal em feira agrícola

Durante evento da cadeia produtiva do fumo, parlamentar Marcelo Moraes atacou o Joio e expôs a presença de repórter em plateia

O repórter Pedro Nakamura, de O Joio e O Trigo, foi hostilizado pelo deputado federal Marcelo Moraes (PL-RS). O fato ocorreu na última terça-feira (3) durante a cobertura da Expointer, principal feira de agronegócio do Rio Grande do Sul. 

Na ocasião, a Associação Brasileira da Indústria do Fumo (Abifumo) promovia um seminário em uma pequena sala que acomodava cerca de 30 participantes. Estavam presentes deputados, autoridades do poder executivo, um senador, um ministro do Tribunal de Contas da União, executivos da indústria do tabaco e diretores de entidades do setor. No início do evento, a mestre de cerimônias saudou os presentes, inclusive veículos de imprensa, entre os quais O Joio e O Trigo.

Isso bastou para Moraes, minutos depois, atacar o veículo e intimidar o repórter que, sendo setorista na cobertura da indústria do fumo, fazia seu trabalho de acompanhar os posicionamentos do setor. O parlamentar usou a totalidade do seu tempo para discursar contra o Joio.

“Me chamou a atenção, presidente [do Sinditabaco], estar aqui O Joio e O Trigo. E quando isso foi anunciado, Valmor [Thessing, presidente da entidade], ali por onde eu estava houve alguns cochichos em função de que esse veículo de comunicação sistematicamente bate na cadeia produtiva do tabaco”, iniciou. 

“Eu, particularmente, presidente, eu quero agradecer a eles. Em relação a mim, em várias oportunidades fizeram charges debochadas, desrespeitosas em relação à minha pessoa, mas, de certo fato eles acabaram demonstrando o lado que eu tenho, que é defender os empregos, os agricultores e toda uma cadeia produtiva que gera riqueza não só para o Rio Grande do Sul, mas para todo o nosso país.”

A “charge” a que Moraes se refere é uma arte que ilustra a reportagem “Deputado vice-líder de Bolsonaro confessa ter ‘combinado’ com Onyx extinção de colegiado antitabaco”, na qual o Joio mostrou com exclusividade um vídeo em que Marcelo Moraes se gaba de ter articulado com o então ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, a extinção da Comissão Nacional para a Implementação da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco (Conicq). Tanto Moraes, quanto Lorenzoni foram procurados pela reportagem via suas respectivas assessorias de imprensa para se posicionar diante do teor do texto, mas não responderam. 

Durante a sua fala, o deputado pressionou o repórter para que se identificasse na plateia e apontou para onde ele estava. Moraes publicou o vídeo na íntegra em suas redes sociais. O episódio também teve transmissão ao vivo da TV Pampa, uma emissora local.

“Aí vem a pergunta para o teu veículo de comunicação. Será que vocês já pararam para pensar que o dinheiro desses fumicultores é que mantém aberto o posto de gasolina, o supermercado, a loja de calçados, de roupa e gera emprego para esses da cidade, que muitas vezes não têm de onde tirar o dinheirinho para poder botar a comida na mesa?”, continuou.

Após a fala do político, o também deputado federal Rafael Pezenti (MDB-SC) se juntou aos ataques contra o veículo e se somou à tentativa de constrangimento do jornalista. “Que legal que o Marcelo falou sobre O Joio e O Trigo. Porque eu falaria também. Muito obrigado pela sua presença”, ele disse, dirigindo-se ao repórter. 

“Tomara que tenha vindo o trigo. Porque até hoje eu só vi o joio. Eu sou jornalista também. E o princípio básico do jornalismo é ouvir os dois lados da moeda. Vocês fazem isso. Só que vocês só publicam um. Não dou mais entrevista pra vocês. Já me procuraram, eu já recusei e continuarei recusando porque o que vocês fazem não é jornalismo. É um ataque. Eu não gosto de ser atacado”, disse.

O Joio lamenta a postura dos dois deputados e se solidariza com Pedro Nakamura. Trata-se de uma clara tentativa de constrangimento à presença dos nossos profissionais em espaços de debate sobre a cadeia do fumo. Também é uma tentativa de intimidar representantes do setor para que não nos deem entrevistas, o que constitui uma clara tentativa de cerceamento à liberdade de imprensa.

Temos sempre buscado construir uma cobertura que contemple diferentes visões sobre o assunto, respeitando, em especial, a posição das dezenas de milhares de famílias atreladas à produção de tabaco em folha.

As críticas de Moraes e Pezenti expõem desconhecimento em relação ao nosso trabalho. Nossas primeiras reportagens sobre a cadeia do fumo são anteriores à própria existência do Joio. Nos últimos 15 anos, temos acompanhado com frequência essa agenda, tanto na promoção da saúde, como na produção de tabaco e de cigarros. Fomos a diversas áreas produtoras no Paraná, no Rio Grande do Sul e em Alagoas – em alguns casos, mais de uma vez – sempre dialogando com a população local para entender e retratar a situação de quem vive da fumicultura. 

Os ataques proferidos em público são particularmente graves no contexto brasileiro, no qual a violência contra jornalistas é um fato cotidiano. Nos últimos anos, a vida política do país tem sido marcada por uma série de estratégias de cerceamento do exercício da profissão: espaços dos quais repórteres são excluídos ou nos quais são hostilizados; exposição pública de dados pessoais, como número de telefone e endereço; ações judiciais contra veículos ou jornalistas; e tentativas de intimidação. 

Nota da Fenaj/Sindjor-RS
https://jornalistas-rs.org.br/nota-de-repudio-em-defesa-da-liberdade-de-imprensa-e-do-exercicio-profissional-do-jornalismo/

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