Chiquinho (em pé na caminhonete) e Lucas (de vinho) entregam uma semente de açaí para o pequeno produtor rural Josenilson Foto: Cícero Pedrosa Neto/O Joio e O Trigo

Em assentamento palco de assassinatos, Comissão Pastoral da Terra disputa imaginário do boi com “floresta de alimentos”

, de Marabá e Nova Ipixuna (PA)

Acompanhamos um dia na vida de três agentes da CPT que tentam reanimar moradores do Praialta Piranheira, onde lideranças extrativistas foram mortas em 2011. Trio roda sudeste do Pará apresentando sistemas agroflorestais como alternativa à pecuária e ao desmatamento

“Para segurar o céu” é uma série de reportagens que investiga e mapeia iniciativas produtivas e modos de vida de povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos, comunidades tradicionais e camponeses. Nas investigações, contamos como a contribuição desses povos para o meio ambiente faz parte de algo amplo e que essas formas de vida não são alternativas sistêmicas, mas soluções sistêmicas, que precisam ter centralidade na atuação governamental e da sociedade como um todo.

Chove fino, mas sem parar. Na PA-150, rodovia que liga a cidade de Marabá, no Pará, à região da Grande Belém, uma caminhonete branca some e reaparece em meio ao fluxo intenso de caminhões transportando commodities, como a soja. Uma juta preta cobre a carroceria, carregada de mudas de açaí, planta nativa da Amazônia que existia em abundância naquelas terras. 

A bordo do veículo, dois homens conversam. As mudas têm destino, mas ainda não têm dono. Depende um pouco deles fazer com que isso aconteça. O mais novo, na casa dos 20 anos, veste blusa de malha vinho, calça bege e botas. Tem um temperamento calmo, apaziguador. Seria um bom diplomata. O mais velho, na casa dos 40, veste camisa polo azul, calça jeans e botas. Tem um daqueles carismas magnéticos, de gente que basta abrir a boca para ocupar salas inteiras. 

A soma das duas personalidades vem a calhar no trabalho que ambos desenvolvem na Comissão Pastoral da Terra (CPT). Nos últimos anos, a tarefa de Francisco Alves de Souza – o mais velho, conhecido como Chiquinho – e Lucas Gomes – o mais novo – tem sido apresentar a pequenos produtores rurais alternativas à pecuária em uma região que se orgulha de ter sido “aberta” na pata do boi. 

A obsessão por bovinos está presente em todo o trajeto. Nas porteiras das fazendas, com representações entalhadas na madeira ou reproduções em tamanho real em plástico, no estilo cow parade. Nas linhas de transmissão da Eletronorte, que alternam estruturas que representam bois (de orelha levantada e brinco) com outras representando vacas (de orelhinha baixa). Mas está, principalmente, na cabeça das pessoas. 

Em Nova Ipixuna – cidade paraense a 60 quilômetros de Marabá por onde a caminhonete branca dobra à esquerda e, agora, avança por uma estrada de terra – não é diferente. Nosso destino é o Projeto de Assentamento Agroextrativista Praialta Piranheira, onde as coisas tampouco são diferentes. Mas há vontade de que sejam. 

Uma última tentativa

Da janela do carro, as pastagens se sucedem. Um boi ou outro aparece para justificar o cenário. “Tá vendo aquela árvore ali? É uma castanheira”, aponta Geuza Morgado, que nos acompanha na viagem. Olho para a árvore, única sobrevivente da devastação. Me entristeço. Ela também, mas por inúmeros outros motivos. Agente da CPT há 31 anos, Geuza é a última peça do time integrado por Lucas e Chiquinho. A batuta da orquestra está nas mãos dela. A visita ao Praialta Piranheira, me conta, é uma última tentativa de rearticular os assentados.  

“Dona Maria era uma pessoa maravilhosa. Ela se doou – o tempo e a vida dela – pro povo dessa comunidade. Ela buscava política pública, corria, organizava as mulheres, trazia formação…”, relembra. Dona Maria, no caso, é Maria Espírito Santo, liderança extrativista assassinada no assentamento em 2011 junto com seu companheiro, José Cláudio Ribeiro. 

CPT de Marabá tenta apresentar a pequenos produtores rurais alternativas à pecuária, hegemônica no sudeste do Pará  Foto: Cícero Pedrosa Neto/O Joio e o Trigo

Existem seis tipos de assentamento da reforma agrária atualmente no Brasil. O assentamento agroextrativista é um deles. Mencionada pela primeira vez pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) num documento de 1987, essa modalidade prevê a exploração ecologicamente sustentável do território. 

A história desses assentamentos está ligada diretamente a outro assassinato, o do seringueiro Chico Mendes em 1988. 

E a conquista não foi fácil. No livro O silêncio da motosserra (Cia.das Letras, 2024), o jornalista Claudio Angelo conta um episódio que ilustra bem a forma como o Estado brasileiro encarava a demanda dos extrativistas. 

Em 1987, Celso Furtado – então ministro da Cultura do governo Sarney (1985-1990) – recebeu em Brasília representantes da União das Nações Indígenas e do Conselho Nacional dos Seringueiros. O economista teria ouvido o pleito dos indígenas por demarcações e concordado prontamente. Os extrativistas não tiveram tanto sucesso. “Como assim cultura extrativista? O extrativismo é um momento da história da humanidade, do passado, isso não existe mais. Desde lá o homem passou pela agricultura e a indústria, e o extrativismo acabou”, teria dito Furtado. 

Com a repercussão da morte de Chico Mendes no mundo inteiro, o governo foi pressionado a fazer alguma coisa. E, assim, nasceram os assentamentos agroextrativistas, em 1996. 

Criado em 1997, com 22 mil hectares, o assentamento Praialta Piranheira sofreu com o mesmo tipo de ideologia que povoava o imaginário de Celso Furtado. Madeireiros estavam de olho nas árvores do assentamento. “Faziam churrasco nas fazendas do entorno, chamavam aquelas pessoas mais influentes da comunidade e diziam: ‘Olha, aqueles lá não querem deixar vocês progredirem na vida. Vocês estão no atraso’”, diz Geuza.

“Aqueles lá” – Maria e Zé Cláudio – articulavam uma cooperativa de extração e beneficiamento de andiroba e castanha do Pará, numa tentativa de gerar renda para a comunidade mantendo a floresta de pé. “E essa era a briga de Zé Cláudio e dona Maria; para barrar, porque era um projeto de assentamento onde não podia acontecer isso [desmatamento]. Mas eles ficaram sozinhos. Boa parte da comunidade, senão a maioria, era contra eles defenderem a floresta. E, por conta disso, a vida dos dois foi levada”, acredita Geuza. 

Com a morte das lideranças do Praialta Piranheira, muitos assentados venderam sem maiores embaraços grande parte, quando não toda a madeira de seus lotes. “E continuaram a viver da mesma forma ou talvez pior”, lamenta a agente da CPT. 

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A nova presidente do sindicato

Como se estivesse cronometrada, a história acaba no momento em que chegamos à casa da pessoa que acendeu um pavio de esperança no time da Comissão Pastoral da Terra: a agricultora Maria Nilza Oliveira Lopes, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Nova Ipixuna desde janeiro de 2024. “É a primeira diretoria desse sindicato comandada por uma mulher”, arremata Geuza, com um sorriso no rosto. 

Maria Nilza Oliveira Lopes é a primeira mulher a dirigir o sindicato dos trabalhadores rurais de Nova Ipixuna. Foto: Cícero Pedrosa Neto/O Joio e O Trigo

Aos 49 anos, Nilza tem uma figura impressionante. Alta, séria. Ela nos recebe com o almoço na panela. Enquanto a comida fica pronta, conversamos. O assunto não poderia ser outro senão o que aconteceu com o assentamento – e o que pode ser dele daqui pra frente. “O madeireiro foi selecionando. Ele apanhava aquela árvore que servia no momento, depois ele voltava e apanhava outra. O que restou eles derrubaram e fizeram carvão. E aí jogaram a pastagem pra criação de bovinos”, contextualiza. 

O Praialta Piranheira é mais um de muitos exemplos do ciclo de devastação da Amazônia: primeiro, se derruba a madeira. Depois, se formam pastagens – onde, na maior parte das vezes, se pratica uma pecuária de baixíssima produtividade. Depois se espera a infraestrutura pública chegar e se vende a terra, com lucro. Ou, como no caso dos vizinhos de Nilza, por falta de alternativa. 

“Depois disso, muitos venderam, né? As pessoas desistem, vão para a cidade e aí acabam ficando numa situação triste. Alguns conseguiram comprar casa, outros nem isso. Não têm estudo, não têm um serviço. Então fica bem difícil”, constata.

Em pouco tempo de conversa, dá para perceber que Nilza tem certeza de que o modelo de desenvolvimento que prevaleceu no Praialta Piranheira na última década é a senha para expulsar da terra quem tanto lutou por ela. Fico com a impressão de que essa realidade despertou um senso de missão na agricultora – que, a princípio, não queria estar à frente do sindicato. Mas foi convencida de que era a pessoa certa, na hora certa. 

“Estou nessa luta aí, minha irmã. Buscando parcerias para que esses agricultores possam não vender, não continuar desmatando. E que onde a gente já fez a besteira de desmatar, dê pra reflorestar”, diz placidamente, enquanto debulha o feijão que vai cozinhar no almoço do dia seguinte. 

A convicção de Nilza vem da prática. Ela mora no assentamento desde os anos 90. Seu companheiro, Pedro, é mais antigo: está por lá desde 1975. O casal morou um tempo na casa dos sogros, mas em 2000 recebeu o lote onde está até hoje.  

Durante esse tempo, Nilza e Pedro tiraram o sustento de uma mescla de atividades. Criando animais, como galinhas e porcos. Plantando quase tudo o que consomem. E também botando gado para pastar. 

O lote do casal fica em um dos sete núcleos do assentamento, o Tracuá. Antes de ser incorporado ao Praialta Piranheira, o local era uma fazenda, com áreas desmatadas e outras preservadas. O lote deles, de 30 hectares, tem um pouco das duas coisas. 

Nilza e Lucas mostram uma pitaya colhida no quintal da agricultura. Foto: Cícero Pedrosa Neto/O Joio e O Trigo

O casal tem cinco filhas, uma delas engenheira, e duas agrônomas. Na medida em que elas foram se formando – e também Nilza, que com muita luta foi recuperando o tempo perdido na escola –, os planos do que fazer com o lote foram mudando. Novas possibilidades se abriram.

A família se tornou um terreno fértil para o diálogo com o pessoal da Comissão Pastoral da Terra – que, por sua vez, também estava se aprofundando numa nova forma de fazer agricultura: o SAF, sigla para sistema agroflorestal. 

“SAF é uma floresta de alimentos”, resume Chiquinho, sentado num banco de madeira na cozinha de Nilza. “É uma produção imitando a natureza.”

A floresta de alimentos (que dá dinheiro) 

Pode parecer contraditório, mas o solo da Amazônia é pobre. Lavados durante milênios pelas chuvas, os nutrientes foram embora. Sem atividade tectônica que pudesse puxar de dentro da Terra algo que os substituísse, a região padece sem a floresta.  É ela que cria vida, fertilidade, com a sobreposição de folhas e matéria orgânica que vai se depositando no solo graças à vegetação – camada conhecida como serrapilheira. 

A floresta como a conhecemos é obra, em parte, dos seres humanos. Povos originários foram selecionando e domesticando as plantas que mais lhes serviam. Açaí, mandioca, pupunha, cacau, guaraná– para ficar em poucos exemplos. E deixaram de pé variedades que não faziam tanto sentido prático. Não as trataram como “pragas”. 

O manejo se apoiava na diversidade. Na colaboração entre espécies. “É a lógica da sintropia, contrária da entropia”, inicia Chiquinho. “Na entropia, há uma certa competição para ver quem é melhor. Na sintropia, não.” Os estudos mais interessantes e recentes sobre o mundo das plantas apontam o mesmo. De acordo com esses achados, as plantas – e também os fungos e bactérias presentes no solo – colaboram entre si. Fazem parte de uma rede. Sem um, os outros sofrem. 

“Dentro da floresta você vai ver isso. Você vai perceber que tem as plantas rasteiras. E tem plantas intermediárias de vários tamanhos, até chegar às pioneiras, que são as castanhas, o jatobá. Plantas enormes”, continua Chiquinho. Uma ajuda a outra. E, de uma perspectiva utilitarista, todas podem ajudar as pessoas a terem renda o ano todo. 

E renda é o ponto central do discurso da CPT. “A Amazônia é um grande SAF. Só que com os agricultores, se a gente for falar só da floresta, não rola. Floresta para nós aqui talvez não tenha muito valor. Mas se você fala: ‘É uma floresta de alimentos que vai te dar dinheiro’… As pessoas começam a ver com outros olhos”, afirma Chiquinho. 

O açaí e o cacau têm sido a porta de entrada do time da CPT no diálogo com os agricultores. Mas às vezes é preciso adaptar – foi o caso da família de Nilza.

Pedro, companheiro da presidente do sindicato, a princípio resistia a esse papo de SAF. Ficou mais aberto depois que Chiquinho lhe apresentou as abelhas sem ferrão.  “Elas trabalham pra gente, né?”, constata Pedro, abrindo uma caixa com um enxame de abelhas saudáveis, de onde retira favos de mel pros visitantes provarem. 

A criação de abelhas se tornou o xodó de Pedro; a novidade foi apresentada por Chiquinho Fotos: Cícero Pedrosa Neto/O Joio e O Trigo

As filhas agrônomas também ajudaram o pai a deixar as ideias pré-concebidas de lado. “Porque no início era difícil. Se não queimar, se não derrubar, não dá. Porque ele viu a vida toda a família fazendo isso, né? Então de repente ter essa mudança não é fácil”, conta Nilza. “Aí foi melhorando, foi abrindo a cabeça dele. As meninas dizendo: ‘Vamos fazer, dá certo.’”

O SAF, porém, ainda não ganhou o coração de Pedro. Principalmente depois que os pés de cacau trazidos pela CPT e plantados pela família morreram por conta da estiagem de 2024.   

“Aí ele desanima. Fala ‘eu não vou plantar mais nada’. A gente diz: ‘Moço, mas é assim mesmo. Vamos continuar tentando’. E a gente está aqui, levando nessa luta”, diz Nilza, sorrindo.

A tentativa de engajar Pedro não é supérflua: a participação de toda a família é importante para o SAF dar certo. Demanda esforço aprender a lidar com várias plantas no mesmo espaço, ao mesmo tempo. E sem agrotóxicos – que é o que propõe a CPT.

Depois do almoço, passamos no meio do pasto onde vivem as vacas e bois da família rumo à área preservada do lote. O limite entre uma coisa e outra parece um portal para outro mundo. Na floresta, a temperatura cai. O olho é poupado da claridade excessiva, encontra uma iluminação mais sutil. Sai o mugido da vaca. Entra a cacofonia de incontáveis bichos – insetos, aves, macacos. 

A árvore manejada no lote de Nilza e Pedro recebeu da Embrapa uma plaquinha. Foto: Cícero Pedrosa Neto/O Joio e O Trigo

O casal, com o apoio da CPT e também da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), tem se empenhado no manejo de plantas nativas presentes na área, como a copaíba, a andiroba, a bacaba e o açaí. O manejo consiste em garantir luz e nutrientes suficientes para elas com vistas à produtividade. No caso do açaí, por exemplo, são retiradas algumas folhas da palmeira. 

“A que está alta demais, a que está nova demais; às vezes tem muita nova e isso acaba sugando o adubo”, explica Chiquinho. Essa matéria orgânica retirada da planta é devolvida ao solo para formar a serrapilheira, retroalimentando o sistema. O resultado são cachos de açaí maiores e mais baixos, o que facilita a coleta. 

Hoje, a renda dessa área vem toda do açaí. Nilza até construiu uma casinha para beneficiar o fruto, o que aumentaria a receita gerada por ele. Mas ainda não conseguiu a certificação sanitária necessária para poder vender a polpa para o comércio local. 

“O nosso maior gargalo é esse, o escoamento”, conta. “Eu tentei fazer um selo para comercializar dentro do município, mas é difícil, é muita burocracia… Te vence pelo cansaço. Não consegui certificar.” O produto tem sido vendido para conhecidos. “Eles vêm, compram uma, duas [polpas]. O importante seria fazer em maior quantidade”, constata. 

Sem certificação sanitária, Nilza vende a polpa que produz para conhecidos Foto: Cícero Pedrosa Neto/O Joio e O Trigo

Em busca dos vizinhos 

Uma saída seria se articular com mais gente no Praialta Piranheira. Uns ajudando os outros. No limite, quem sabe, montando uma cooperativa – como fizeram, no passado, Maria e Zé Cláudio. Mas, primeiro, é preciso apresentar a ideia de SAF aos assentados. Esse é o objetivo do time da CPT. É por isso que a carroceria da caminhonete está carregada. Partimos para a primeira visita do dia. 

Josenilson Pereira tem 47 anos e vive da terra desde sempre. Junto com a mulher, Geni Viana de Souza, 44 anos, mora num lote de 12 alqueires no Praialta Piranheira. Mas as coisas não andam muito bem. A principal renda da família são as diárias que Josenilson ganha trabalhando para outros produtores. Seu lote está voltado para a criação de gado – mas, de próprio, o casal dispõe de apenas quatro vacas. 

Como é costume na roça, criam porco, galinha. Têm uma hortinha. Isso garante a subsistência de ambos e de dois dos quatro filhos que ainda moram com eles. Não sobra muita coisa.  

Josenilson e Geni sentados na varanda de casa, depois de aceitar as mudas da CPT Foto: Cícero Pedrosa Neto/O Joio e O Trigo

Assim que chegamos, Nilson (como todos o chamam), começa a tirar dúvidas sobre plantio. Semanas antes, tinha conseguido sementes de açaí e uma muda de banana. Plantou, mas não deu certo. “Eu acho que deixei a terra muito solta e, devido ao tempo de chuva, a água acumulou no pé da banana e apodreceu”, explica para Lucas e Chiquinho. 

Fico pensando como é importante ter algum tipo de assistência técnica. E também como deve ser difícil – e inseguro – mudar de atividade. Do gado para a agricultura. É esse o salto que Nilson está prestes a tentar.

Ele já tinha manifestado essa vontade numa reunião convocada pelo sindicato, que contou com a participação da CPT. Agora, é a hora do ‘vamos ver’. A conversa dura uma hora. Para os agentes da Comissão Pastoral da Terra – que fica responsável pela doação de sementes e mudas, além da assistência técnica — é importante que Nilson se comprometa com algumas metas.  

Cento e cinquenta mudas de açaí foram separadas para ele começar um SAF – ou “floresta de alimentos”. Elas chegam no ponto de plantio. A ideia é aproveitar o período das chuvas – que vai de novembro a abril – para que as plantas consigam se fixar bem no solo, a ponto de sobreviver ao período seco (que não tem sido fácil). Em maio, a CPT traria sementes de cacau. As duas variedades seriam um começo, um novo horizonte de renda. 

Ao final de uma hora de conversa, chega a definição. 

“O senhor tem coragem? Topa?”, pergunta Chiquinho. 

“Eu vou na hora”, responde Nilson. 

 Nilson com uma das mudas de açaí que ganhou dos agentes da CPT para começar seu SAF Foto: Cícero Pedrosa Neto/O Joio e O Trigo

O projeto da Comissão Pastoral da Terra funciona por meio de contrapartidas. Acordos verbais. Compromissos. Na linha de frente, muita conversa com os agricultores. Visitas periódicas para acompanhar o andamento das coisas. Nos bastidores, uma teia de parcerias. Com a Secretaria de Agricultura de Marabá, que fornece grande parte das mudas. Com o Instituto Florestal e da Biodiversidade do Pará (Ideflor), que fornece as sementes. Com sindicatos de trabalhadores rurais, como o de Nova Ipixuna.  

Saímos da casa de Nilson e Geni rumo à segunda visita do dia. No caminho, paramos na porta de um assentado que vende um queijo fresquinho, ainda morno. Passam das 16 horas, aquele momento em que a barriga ronca. Para nossa sorte, somos recebidos na casa de Lindiomar de Oliveira Costa, 65 anos, com café quente e biscoitos. Acrescentamos o queijo e o lanche fica completo. 

Sentamos em uma varanda ampla, reformada. Lidiomar, que pede para ser chamada como Dona Nega – apelido pelo qual todos a conhecem – senta numa cadeira de balanço e olha curiosa para toda aquela gente. Não demora muito, começa a contar histórias.

Fala da infância em Nova Canaã, na Bahia. Conta que perdeu a mãe aos 11 anos e ficou responsável pela criação dos sete irmãos. Como se mudou para o Pará, casou e chegou ao Praialta Piranheira em 1991. Dois anos depois, já estavam criando gado – atividade que ainda mobiliza toda a família, mas da qual cansou.

“Eu tô com um plano de vender as criações”, confidencia. Ela tem 32 cabeças. “De três anos pra cá, nós já gastamos uns R$ 40 mil aqui dentro. É com girico [um tipo de trator], é com capim, é com veneno, é com roçador de juquira [mata rasteira]; é com tudo.” Com ração, Dona Nega continua, são uns R$ 3 mil por mês no verão, quando não chove. “Pra não deixar o gado morrer de fome.”

Mas sua paixão, confessa, é a mandioca. “Até o ano passado, eu plantava era muita mandioca. Aí eu vendia muita coisa mesmo, na feira. Era farinha, era goma, era biscoito, era tudo.” Os netos e filhos a proibiram de trabalhar na roça. “Porque essa perna aqui, ela incha, sabe?”, aponta para a perna esquerda. 

Desde então, tudo parou. “Eu sou o mourão, a forquilha e a cumeeira da casa”, diz. Mais tarde, tenho que olhar essas palavras no dicionário. Todas se referem a partes fundamentais de uma construção. Dona Nega deixa escapar que o marido e o cunhado (que também mora com ela) são um pouco desanimados. “Eles só banham. Se tiver merenda, merendam. Sentam aqui, um com o celular, o outro também.”

Dona Nega e Geuza conversam sobre a possibilidade de manejar uma área preservada no lote da agricultora, começando o SAF por lá. No detalhe, Dona Nega Fotos: Cícero Pedrosa Neto/O Joio e O Trigo

“Mas vocês querem mudar? Querem permanecer na terra?”, pergunta Geuza. 

“Eu tenho casa na rua, mas a minha vida é aqui”, devolve Dona Nega. 

“A senhora tem vontade de mudar. Mas é muito importante que a família esteja inserida nessa mudança. Porque se a vontade for só da senhora… É complicado. Não é para esmorecer, não. A gente está aqui para dizer o que é, como funciona. Se tiver alguém que tope, a gente vai estar junto.”

Por trás do diálogo, mora um dilema cada vez mais comum no campo. E particularmente dramático em assentamentos. As gerações que conquistaram a terra envelhecem. As condições são difíceis. E os mais novos não necessariamente estão dispostos a lidar com elas – até porque, frequentemente, lhes falta a memória de quando não havia um pedaço de chão para chamar de seu. Não deveria ser um problema enfrentado individualmente e, sim, no nível das políticas públicas. Mas é o que acontece.

A conversa continua. 

“Essas mudas de açaí… É como? É pago?”, indaga Dona Nega. 

Era a senha que Chiquinho precisava.

“A gente está aqui pra trazer uma proposta de serviço. Não é uma proposta de serviço rápida, que você resolve e vai ter retorno agora. Nós estamos preocupados com o mundo. Nós estamos preocupados com a vida. Nós estamos preocupados com a produção de alimentos”, começa o agente da CPT. 

Ele explica o que é a floresta de alimentos. Que é possível plantar várias plantas em consórcio. Diz que os agentes trarão mudas, sementes, formação. 

“A ideia é começar com um hectare. Em um hectare você bota uma cabeça de gado por ano. Nesse hectare não vai ter gado. Vai ser cercado. E a senhora colocar dentro aquilo que gosta”, prossegue Chiquinho. “ Mandioca, cacau, cupu, andiroba…”

Ele faz uma conta rápida para mostrar o potencial financeiro apenas do cacau. “O preço chegou a R$ 70. Mas vamos dizer que a senhora vai vender a R$ 35. Cinco mil pés de cacau vezes 35. Dá R$ 175 mil por ano.” 

Dona Nega tem dúvidas sobre o cacau. Conhece gente que plantou e perdeu os pés. E assim a conversa segue, com os agentes apresentando alternativas; ela questionamentos. Ao final, eles concordam que daria para começar o SAF num trecho de mata nativa presente no lote. Ela nos leva para ver.

Mas, ainda sim, tudo depende da família topar. 

“Eu não banco moleza, não. Meu neto que mora ali também, a minha nora também. Ela é disposta, sabe?”, garante.

Descemos exatamente para a área onde mora esse neto, de onde se tem uma visão limpa do trecho de mata nativa, mais distante. O sol vai se despedindo. E a visita termina sem um desfecho conclusivo. Aberto como é o destino das terras em todo o assentamento.

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