Foto: Yamini Benites

O cerco do malte sobre terras negras

, especial para o Joio

Após décadas de expulsões violentas, o único quilombo titulado do Paraná luta pela integralidade de sua terra contra o avanço da cevada industrial.

São cerca de cinquenta minutos entre Pinhão e as terras do quilombo Invernada Paiol de Telha. A estrada começa em asfalto e, pouco depois, se abre em terra avermelhada, cruzando lavouras. Dos dois lados, o verde uniforme da monocultura se estende até o horizonte. “Aqui era tudo pra ser nosso”, diz Luiz Carlos Alves de Lima, presidente da Associação de Moradores do Quilombo Invernada Paiol de Telha, apontando para um campo coberto por cevada.

O cereal, cuja plantação se move como ondas num grande tapete verde, é uma das principais matérias-primas para gigantes do setor de bebidas, como Ambev e Heineken. “Agora nós estamos brigando desse pinheiro pra frente aqui”, continua Luiz. Ao volante de um Siena preto que mostra conhecer bem aquele trajeto, e com a trilha de música regional no pendrive, ele conta as histórias do território e da paisagem de campo.

O quilombo fica no município de Reserva do Iguaçu, na região centro-sul do Paraná, onde o frio é quase uma constante. É o primeiro – e ainda o único – quilombo titulado do estado. Apenas parte do território demandado pela comunidade foi reconhecida oficialmente. 

Entre os campos de cevada, uma placa indica o caminho para o Quilombo Invernada Paiol de Telha. Foto: Yamini Benites

No dia 20 de novembro de 2025, Dia da Consciência Negra, a luta histórica da comunidade por seu território integral alcançou um ponto de virada definitivo. Em um ato durante a COP30, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assinou o Decreto nº 12.741, declarando de interesse social, para fins de desapropriação, a área restante do território, que soma 1.473 hectares. O decreto viabiliza a titulação integral, mas joga a tensão para a fase de execução e indenização, que depende de orçamento público.

A batalha judicial, iniciada em 2018 para contestar a demora do governo, subiu recentemente aos dois tribunais mais importantes do país – o Superior Tribunal de Justiça e o Supremo Tribunal Federal. Embora o novo decreto presidencial seja um avanço crucial e celebrado pelas famílias, ele falha em estabelecer uma data final para a desapropriação da área restante. Essa omissão, segundo os quilombolas, permite que a titulação se arraste por tempo indeterminado. Por isso, a comunidade exige agora que o Judiciário determine um calendário de execução obrigatório, garanta os recursos financeiros necessários e defina uma indenização maior pelos danos morais sofridos.

Segundo o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), o processo de regularização fundiária começou em 2004, mas o Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID), necessário para encaminhar o pedido, só foi concluído em 2010. Em 2015, um decreto presidencial declarou de interesse social 1.460 hectares para desapropriação, de 3 mil hectares reconhecidos como área de direito pelo relatório. 

Por ironia do calendário judicial, que atrasou o cumprimento da decisão, a titulação oficial se deu em 2019, sob o governo de Jair Bolsonaro – o mesmo que havia prometido não demarcar “nem um centímetro para quilombola ou reserva indígena”. Cada etapa do processo foi e segue sendo caracterizada pela pressão constante das famílias em manifestações, ocupações e ações no Judiciário.

Créditos: Rodolfo Bragança

A herança dos onze

Chegando a um entroncamento da rodovia PR-459, uma placa grande indica o caminho para a comunidade: Associação Quilombola Invernada Paiol de Telha – Fundão. A partir dali, a estrada de chão fica mais acidentada, ladeada por pequenas casas e hortas. Luiz estaciona em frente a um dos primeiros portões, onde vive Maria Jaculino de Camargo, uma anciã de 87 anos que carrega a história da comunidade. Dona Maria se lembra de quando os primeiros colonos chegaram à região. Os filhos se juntam na cozinha enquanto a matriarca conta das ameaças do delegado de Guarapuava: “Se vocês não saírem, vocês vão morrer tudo. Vai sair caminhão de gente morta!”. Foi a primeira de uma série de expulsões violentas que costuram a linha do tempo da comunidade.

Os relatos dos mais velhos remontam ao fim do século 19, quando onze pessoas negras libertas receberam, por herança, o terreno que deu origem ao quilombo. As histórias, repetidas nas casas e nas reuniões da comunidade, misturam lembranças e lendas sobre a descoberta de ouro e o nome de Balbina Francisca de Siqueira, dona da antiga Fazenda Capão, que teria deixado as terras a seus antigos cativos. Os depoimentos orais confirmam o que está documentado no Laudo Antropológico do Quilombo, que reconhece a origem do território a partir dessa doação e descreve a continuidade histórica da comunidade até o presente. 

O nome dos pioneiros no testamento foi – e ainda é – motivo de orgulho, mas não impediu que outros reivindicassem e tomassem pela força a posse da propriedade. Por décadas, o território foi sendo tomado pedaço a pedaço. Nos anos 1970, a chegada de imigrantes europeus trouxe consigo a promessa de modernização agrícola – e a concretização da violência. “Teve gente que eles amarraram no forte do inverno, em cima do caminhão. Deixaram eles amarrados e queimaram a casa”, conta Luiz. A violência deixou marcas que atravessaram gerações e fragmentou a comunidade.

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Resistência sob lonas

Após a chegada dos chamados “alemão” – como a comunidade se refere aos descendentes de imigrantes europeus ligados à Cooperativa Agrária –, os quilombolas se espalharam entre Guarapuava, Pinhão e Reserva do Iguaçu. A dispersão dificultou o trabalho na terra e o acesso a políticas públicas. Dezenas de famílias ficaram na beira da estrada, em barracos de lona, num ponto apelidado de Barranco. Neli dos Santos, filha de uma das principais lideranças, lembra os dias de tensão: “Às vezes nós estávamos fazendo almoço quando vinha a turma da Cooperativa Agrária, encostavam com os pistoleiros tudo com espingarda em nós. Diziam que era área da Agrária e que nós tínhamos que sair. Eu dizia: ‘Nós vamos ficar aqui, eu quero criar meus filho aqui e aqui é da minha finada bisavó. Como é que eu vou sair?’”.

Neli dos Santos e a filha Jucemara exibem camiseta com campanha de resistência pelo território com a foto de Jucemara criança. Foto: Yamini Benites
Seu Zé, morador e produtor do quilombo, relata o desafio de cultivar a terra após os impactos da monocultura. Foto: Yamini Benites

Entre o discurso e a cevada

A disputa territorial que atravessa a história do Paiol de Telha tem como contraponto uma das cooperativas mais poderosas do país. Fundada por imigrantes europeus no pós-guerra, a Cooperativa Agrária se expandiu sobre antigas fazendas no centro-sul do Paraná  – entre elas, áreas que fazem parte do perímetro reconhecido pelo relatório técnico referente ao  quilombo. O avanço da cooperativa sobre a área foi, inclusive, formalizado por uma Ação de Usucapião movida em 1981 sobre a Invernada Paiol de Telha. A cooperativa foi derrotada no processo, mas a ação formalizou a disputa territorial.

No campo jurídico, a Agrária tentou impedir a titulação do território ainda em 2013, quando questionou o processo administrativo de titulação do Incra. A cooperativa sofreu, contudo, uma derrota expressiva no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4), que votou por 12 a 3 em favor dos quilombolas.

A Agrária não detém mais propriedades nas terras que já foram tituladas para o quilombo, tendo deixado o perímetro após o processo de desapropriação executado pelo Incra. As áreas restantes, ainda não tituladas e que integram o perímetro reivindicado pela comunidade, agora declarado como área de interesse social, são ocupadas por terceiros.

Lideranças quilombolas alegam que os agricultores que ocupam essas áreas estariam vinculados à cooperativa. A produção da cevada dessas terras vai, de acordo com eles, para a Agrária, que por sua vez abastece as gigantes da cerveja. A reportagem esteve no Cartório de Imóveis da cidade, mas não conseguiu ter acesso aos documentos de propriedade das terras em disputa.

O “tapete verde” da cevada industrial cerca o território do Quilombo Paiol de Telha, no Paraná. Foto: Yamini Benites

O Relatório de Sustentabilidade de 2024 da Ambev afirma que “a produção das melhores cervejas depende diretamente de um meio ambiente saudável e de comunidades fortes”. O texto também garante que a empresa “trabalha para gerar impactos ambientais e sociais positivos em toda a cadeia de fornecimento”.

A Heineken, por sua vez, destaca em seu Combined Financial and Sustainability Report 2024 que “desenvolver cadeias agrícolas responsáveis é prioridade” e aponta preocupação em “apoiar as condições sociais e econômicas dos agricultores e de suas comunidades”. O mesmo relatório também reconhece riscos de violações de direitos humanos em países com contextos políticos instáveis e afirma ter atualizado sua metodologia de diligência para “avaliar continuamente impactos na cadeia de valor e mitigar riscos ligados a condições de trabalho e segurança”

Mais explícita, a Política Global de Fornecimento Responsável da AB InBev, controladora da Ambev, determina que os parceiros “devem garantir que aquisições de terra e mudanças de uso sejam feitas respeitando os direitos de indivíduos e comunidades afetadas” e que os parceiros de negócios devem “conduzir a devida análise e diligência em torno dos direitos e títulos fundiários” e “buscar consentimento livre, prévio e esclarecido”.

O principal fornecedor agrícola da Ambev no Brasil, a Cooperativa Agrária, figurou como proprietária formal de áreas sobrepostas ao território quilombola. Documentos obtidos pela reportagem comprovam que a Cooperativa não apenas detinha os títulos de parte das terras em litígio, como já recebeu indenizações do governo federal pelas áreas desapropriadas e tituladas em favor da comunidade em 2019. Procurada pela reportagem, a Cooperativa Agrária chegou a responder às primeiras mensagens, mas deixou de retornar após ser informada de que o tema envolvia a disputa fundiária com o quilombo.

Embora a Ambev detalhe em sua política global de fornecimento que parceiros devem respeitar direitos fundiários e submeter-se a diligência prévia, não há evidência pública de como essas exigências são monitoradas ou aplicadas em casos sensíveis como disputas territoriais quilombolas. Em seus relatórios ESG, a empresa afirma monitorar “relatórios de impacto e incidentes ao longo do ano”, mas não detalha como as auditorias são realizadas nem cita casos concretos de correção ou sanção.

Procurado pela reportagem, o Grupo Heineken se manifestou por meio de nota: “Atuamos orientados pelos nossos valores de Respeito e Cuidado, que guiam nossa política de Direitos Humanos e nosso processo interno de due diligence [diligência devida]. Seguimos fortalecendo critérios de engajamento e o diálogo com nossos fornecedores para promover práticas cada vez mais responsáveis ao longo da cadeia de valor em uma jornada de aprendizados que conduzimos com compromisso e responsabilidade.” Já a Ambev, apesar de procurada reiteradamente, não enviou seu pronunciamento até o fechamento desta edição.

Em casos anteriores envolvendo fornecedores, a Ambev seguiu o mesmo roteiro: reafirmou o compromisso com os direitos humanos, disse cumprir a legislação e prometeu revisar procedimentos internos. As respostas, porém, não vêm acompanhadas de relatórios públicos que mostrem investigações, auditorias ou sanções efetivas. Nos últimos anos, denúncias em diferentes pontos da cadeia – de transportadoras a produtores rurais – revelaram violações trabalhistas e disputas fundiárias ligadas a empresas fornecedoras da gigante das bebidas. A distância entre o discurso de responsabilidade e a transparência sobre as práticas da empresa permanece, assim, como uma das contradições mais evidentes em sua cadeia de produção.

Histórico da luta do quilombo Invernada Paiol de Telha

1865

A Herança da Liberdade

Ao morrer, a proprietária Balbina Francisca de Siqueira deixa em testamento suas terras para 11 trabalhadores que ela havia escravizado. Nascia o território do Paiol de Telha.

1972

A Expulsão Violenta

Cerca de 70 famílias são expulsas de suas casas por jagunços e grileiros. É o início de um exílio forçado, enquanto as terras passavam para o controle da Cooperativa Agrária para a produção de cevada.

1995

A Resistência do “Barranco” 

As famílias retornam à região e acampam sob lonas na beira da rodovia PR-459. O “Barranco” torna-se, por 15 anos, o símbolo da sobrevivência da comunidade.

2010

Publicação do RTID

Após intensa pressão da comunidade, o INCRA publica o Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID). Este documento é o marco jurídico que define os limites oficiais do território quilombola.

2015

Primeiro Decreto de Desapropriação

O governo federal assina o decreto que declara a primeira metade do território (1.460 hectares) como de interesse social. É o passo que autoriza o Estado a retirar os ocupantes atuais e devolver a terra ao quilombo.

2019

A Primeira Titulação Oficial

Após uma batalha judicial o INCRA emite o primeiro título de propriedade. No entanto, a conquista é parcial: apenas 225 hectares são efetivamente entregues à comunidade.

2025

O Segundo Decreto e a Nova Batalha

Em novembro, o governo assina o decreto de desapropriação da área restante. A comunidade aciona o STF e o STJ, exigindo um cronograma obrigatório e verba garantida para a titulação definitiva de todo o território.

A conta não fecha

O Paiol de Telha está entre os 28 Decretos de Interesse Social de Área Quilombola assinados por Lula no 20 de Novembro, durante a COP30. Foto: Yamini Benites

Ao mesmo tempo, o governo federal renuncia anualmente a cerca de R$ 158 bilhões em impostos para o agronegócio, de acordo com o Ministério da Fazenda. O valor pago pelo Incra à Cooperativa Agrária pela desapropriação de 228 hectares – menos de 10% do território quilombola total – foi de cerca de R$ 10 milhões.

A disparidade torna-se ainda mais evidente quando se observa o outro lado dessa cadeia. A Ambev  figura entre as cinco maiores empresas do agronegócio brasileiro, segundo a Forbes Agro de 2024, com receita líquida de R$ 79,74 bilhões. Já a Cooperativa Agrária aparece entre as maiores cooperativas do mundo, segundo o World Cooperative Monitor 2023, e registrou, em seu Relatório Anual de 2024, um faturamento de R$ 7,5 bilhões.

A advogada Kathleen Tie, da Terra de Direitos, explica que o custo da desapropriação é sempre um obstáculo, mas considera que, no fundo, a morosidade é política. Ela também chama atenção para a injustiça do processo em si: “Eles herdaram aquela terra, descendem daquelas pessoas que herdaram em um testamento. Eles foram desapropriados lá atrás, sem indenização, sem nada. A terra foi tomada deles com muita violência e agora, para recuperar a terra, precisam pagar.”

Leoni Antunes, 71 anos, esteve entre os 36 manifestantes quilombolas detidos em março de 2025. Foto: Yamini Benites.

A Terra de Direitos e a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) denunciaram o caso como violação de direitos humanos. Estudo das organizações mostra que, entre 2022 e 2024, o Paraná registrou um aumento de mais de 200% nos casos de violência contra defensores de direitos humanos – 80% deles relacionados a disputas fundiárias. As entidades destacam ainda que povos indígenas e comunidades tradicionais, como os quilombolas, estão entre os grupos mais vulneráveis a esse tipo de agressão, especialmente em regiões onde o avanço do agronegócio intensifica os conflitos por terra.

A advogada Kathleen Tie  explica que parte dessa vulnerabilidade se deve à falta de estrutura institucional no estado. O Paraná, diferente de outras regiões, não possui um órgão específico responsável por acompanhar a política quilombola, o que deixa comunidades como Paiol de Telha sem um canal direto de apoio e acompanhamento local.

Dona Maria, seus filhos e Seu Luiz: a luta pelo território integral é um legado passado entre gerações. Foto: Yamini Benites

A conquista veio no papel, mas a luta pela terra está viva no cotidiano e na cobrança por prazos e recursos. O quilombo segue plantando, colhendo e mobilizado. Luiz, que passou a vida entre a resistência e a incerteza, sabe que o tempo da terra é outro: “É daqui que a gente veio, e é aqui que a gente quer ficar.”

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