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Crônica | Cozinhar, um impasse dos tempos modernos

Fugimos da bronca da geladeira e do fogão, mas já passou da hora de valorizarmos o trabalho doméstico. Que 2020 marque o reencontro com a cozinha

Da profusão de autoajudas por aí, embora não seja delas um adepto, tenho uma frase favorita: “Nunca desista!” Há uma anedota pessoal que explica o gosto. Quando eu era criança, meu pai afixou em casa um cartaz com estes dizeres no qual uma garça tenta engolir um sapo, enquanto o anfíbio, por sua vez, esgana o pássaro. A situação cria um impasse em que uma não devora, nem o outro se livra do devorador. Os dois brigam cada qual pela sobrevivência.

Talvez a minha analista interprete melhor este lapso lírico e dramático, mas, diante do fogão, a mesma frase e imagem me vêm à mente: “Nunca desista!” Por livre associação, penso que a relação com a cozinha nos tempos modernos guarda semelhanças com o episódio envolvendo os dois animais. Cozinhar, nos dias de hoje, é um impasse — dependemos para sobreviver, mas lutamos contra este fato imponderável. 

Afirmo isso, porque, a meu ver, não existe caminho para vida e mundo mais saudáveis distante do ato de preparar as refeições. Não me refiro a cozinheiros de final de semana ou àqueles, homens em sua maioria, que cozinham como um privilégio. Refiro-me ao prato nosso de cada dia, ao almoço, ao arroz com feijão, à salada lavada, à treta.

Convenhamos, sim, não é fácil incorporar a tarefa de cozinhar à rotina. E o mundo inteiro vai forçar a não fazê-lo. Tem um pê-efe logo ali na esquina, saiu um novo congelado com teor reduzido (e ainda assim muito alto) de sódio, chama um Rappi… Soluções fáceis. E erradas.

Saídas do tipo externalizam nossas responsabilidades. Fugimos de assumir a bronca da geladeira e do fogão. O problema é de ordem ética. Terceirizamos o trabalho doméstico. E creio que, em pleno século 21, já passou da hora de valorizarmos algo tão importante quanto é cuidar da casa e de si.

Autoajuda pura, mas tem o seu valor (Imagem: Reprodução/Autor desconhecido)

De início, vai dar ruim. O arroz, de primeira, vai ficar papa. O feijão, aguado. A salada vai murchar. Mas volto ao sofisma mequetrefe que reside no inconsciente: “Nunca desista!” Afinal, não precisamos de motivação para algo tão vital, tão trivial, ainda assim, fundamental. O princípio é tentativa e erro. Não faltam, além disso, livros, dicas, informações úteis para auxiliar neste processo.

Somos ensinados a gerenciar o tempo de trabalho no escritório. E por que não o do trabalho doméstico

Pergunto na contramão de um mundo que repete: trabalhe mais, tente ficar rico (e provavelmente fracasse), invista na carreira profissional. Um mundo que não diz, silenciando, aliás, quem o faz: cozinhe mais, lave a louça, busque ser feliz (e também fracasse, na maioria das vezes). No entanto, nunca desista.

Tenho muitos amigos que se orgulham de trabalhar doze horas diárias, a maioria jornalistas. Comem mal. “Tenho que almoçar correndo”, declaram hoje o que anunciaram ontem e repetirão amanhã. Vivem mal. 

É verdade, eles se queixam das jornadas extensas, mas reclamam que ninguém faz nada a respeito. Eu, então, convido-os nesta crônica a uma cobertura-especial sobre a cozinha de casa. Investiguem a combinação dos temperos, apurem as pautas do livro de receitas dos avós, lavem a louça, organizando-a metodicamente no escorredor, assim como na edição de um texto.

Ir à cozinha é um reencontro. Não só com a memória — e a minha analista disse que a lembrança paterna vem daí. Cozinhar é um ato estoico. Você levou um fora, mas lavou a louça, que está pronta para cozinhar. Você foi demitido, mas vai preparar o melhor almoço que já fez em muito tempo. Você está cansado e sem dinheiro, mas deixou comida fresca na geladeira. Você (ainda) não consegue ter tempo para cozinhar, mas… Nunca desista! 

Que 2020 seja o ano do reencontro com a cozinha.

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