Jornal Nacional exibe “solidariedade” dos empresários brasileiros no combate à pandemia em horário nobre, mas omite que parte das empresas expõe trabalhadores a riscos e desrespeita legislação, além de apresentar volume de doações fora de contexto

“Empresas e empresários estão unindo esforços para ajudar o Brasil na crise. A indústria de alimentos JBS vai doar 400 milhões de reais para o combate à pandemia no Brasil. O dinheiro vai ser usado para construir hospitais, ampliar leitos e comprar equipamentos médicos. Uma parte vai para entidades de pesquisa e tecnologia focadas na área da saúde […] A empresa já doou mais 200 toneladas de alimentos, itens de higiene e proteção.”

O texto acima foi lido no dia 21 de maio por Renata Vasconcellos, âncora do Jornal Nacional (JN), principal telejornal da Rede Globo. O quadro, de 2 minutos, vem sendo transmitido desde o dia 15 de abril, quando a Globo lançou a campanha “Solidariedade S/A”, destinada a divulgar “ações de empresas brasileiras empenhadas a ajudar o Brasil a enfrentar a crise” provocada pela Covid-19. 

O programa de estreia teve duração de 11 minutos e marcou uma mudança na linha editorial do telejornal, que até então nunca expunha nomes de empresas em suas reportagens. A justificativa para a mudança foi a gravidade do momento e a importância de mostrar as iniciativas solidárias dos empresários brasileiros. No quadro de apresentação da campanha, a Globo mencionou as ações de Itaú-Unibanco, Bradesco, Santander, Sírio Libanês, Rede Dor, iFood, Qualicorp e Banco do Brasil.

No quadro, sobram elogios e faltam críticas. É a “benevolência” dos empresários que é exaltada. Nada sobre o fato de que muitas dessas grandes empresas expõem trabalhadores a riscos de contaminação ao vírus, sobre as dezenas de demissões durante o período da pandemia, sobre o histórico de desrespeito à legislação trabalhista ou sobre produtos que estão associados a doenças crônicas – um claro agravante dos casos de Covid-19.

Além disso, um espectador distraído pode se impactar com os valores de doação divulgados com destaque em horário nobre pelo Jornal Nacional, sem se dar conta de quanto esse valor corresponde comparado ao faturamento total da empresa. 

O telejornal divulgou que o maior banco brasileiro, o Itaú, doará R$ 1 bilhão para o combate à pandemia no Brasil. Mas o lucro do banco em 2019 foi de R$ 28,4 bilhões em 2019. Ou seja, a doação representa apenas 3,5% desse valor.

O Santander, que também teve suas ações de “solidariedade” divulgadas pelo JN, planeja demitir 20% dos funcionários no Brasil durante a pandemia de Covid, de  acordo com matéria do jornal Folha de S. Paulo de 9 de junho. O banco tinha 47 mil empregados no final de março, e com o corte de 20%, quase dez mil pessoas podem perder o emprego.

A Nestlé doou R$ 55 milhões, boa parte em produtos, frente a um faturamento de R$ 4,6 bi em 2019.

Um comercial de 30 segundos no Jornal Nacional custa R$ 850 mil, segundo a tabela de preços da emissora. Ou seja, uma exposição positiva como a trazida pela campanha ao longo de um minuto por marca teria um custo médio de R$ 1,7 milhão. Um valor interessante, considerando que algumas empresas divulgaram doações no valor de uns poucos milhões. 

A Danone, por exemplo, doou R$ 5,5 milhões em produtos (não em espécie), e pôde falar durante um minuto no JN sobre a importância de estar “ao lado dos menos privilegiados”.

Hipocrisia

Já os R$ 400 milhões anunciados pela JBS, uma das maiores indústrias de alimentos do mundo (processa carnes bovina, suína, ovina e de frango), não representam muito ao se considerar o lucro líquido da empresa, que foi de RS 6,06 bilhões em 2019 – ou seja, 6,5%.

Aliás, o suposto esforço da JBS em combater os efeitos do coronavírus no Brasil também contradiz com a prática, de um histórico nada solidário. Para se ter uma ideia, desde o início da pandemia há casos de funcionários colocados para trabalhar em situações de risco de vida.

Um deles é o do frigorífico de aves da Seara Alimentos, que é da JBS, no município de Ipumirim, em Santa Catarina, que em 18 de maio foi interditado após fiscalização do Ministério do Trabalho. Na operação, foram encontradas irregularidades. A unidade vivia um surto de Covid, com 86 casos da doença confirmados.

Os auditores fiscais encontraram aglomerações de trabalhadores em vários setores da produção, sobretudo na sala de corte, onde funcionários trabalhavam “ombro a ombro”, muito próximos um do outro. Também havia casos de pessoas com sintomas de Covid que não foram afastadas do trabalho e, ainda, funcionários que haviam testado positivo para coronavírus que receberam prescrição de medicamentos para a doença e seguiram trabalhando.

Havia, também, mais de 40 trabalhadores do grupo de risco que seguiam em atividade. Um deles, com hipertensão, foi contaminado. Internado, teve de ser entubado e ficou por dez dias na UTI. Outra unidade da JBS também foi interditada em Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, após a descoberta de um surto de coronavírus. 

Reportagem do Joio mostra como cidades pequenas abrigam a maior parte dos frigoríficos. Sem estrutura de saúde pública nem atuação de entidades sindicais, tornaram-se um importante foco de transmissão da Covid-19. Revelamos casos nos quais as corporações do setor não notificaram os órgãos de saúde sobre a presença de trabalhadores infectados.

A JBS tem um histórico de violações de direitos trabalhistas, ao não aceitar atestados médicos, constranger funcionários, ter casos de demissões irregulares e descumprir normas de saúde e segurança. O frigorífico tem uma lista de condenações em ações trabalhistas e danos morais coletivos.

Em 2017, a JBS foi punida pela Operação Carne Fria por comprar gado de áreas desmatadas ilegalmente com uma multa de R$ 24,7 milhões. Dois anos depois, seguiu adquirindo bois de uma empresa que produz em áreas desmatadas ilegalmente, como mostrou reportagem da Repórter Brasil, do veículo britânico The Guardian e do Bureau of Investigative Journalism.

Setores privados

Outro aspecto que chama a atenção na campanha do Jornal Nacional é a onipresença dos setores privados nas matérias do Solidariedade S/A. As ações de solidariedade e filantropia de movimentos sociais, por exemplo, não ganham espaço no horário nobre do JN.

Uma iniciativa é a “Vamos precisar de todo mundo”, da Frente Brasil Popular e da Frente Povo Sem Medo, que reúne organizações urbanas e do campo que arrecadam alimentos e levam para as periferias. Até 1º de maio, a campanha havia distribuído 1,5 mil toneladas de alimentos. O MST distribuiu mais de 600 toneladas de alimentos da agricultura familiar.

Mas quem teve suas doações anunciadas foram empresas de produtos alimentícios ultraprocessados e associados a epidemias de saúde pública como obesidade, diabetes e doenças cardiovasculares, como a Mondelez Brasil e a PepsiCo. 

A primeira doou mais de 220 toneladas de produtos, entre chocolates, biscoitos e produtos não perecíveis para 14 estados. A empresa informou também que distribuiu produtos alimentícios para funcionários do Hospital das Clínicas, em São Paulo, e do Hospital do Trabalhador, em Curitiba. O total gasto até aqui foi de R$ 5,3 milhões, frente a um faturamento de quase R$ 4 bi em 2019.

Já a PepsiCo informou que doará a oito estados brasileiros mais de um milhão de unidades de produtos, entre alimentos e bebidas, num total de 105 toneladas. Entre as marcas da empresa estão Elma Chips, Quaker, Toddy, Toddynho, Ruffles, Doritos, Cheetos, Fandangos e Pepsi. O total doado é de R$ 6 milhões, contra um faturamento de R$ 3,2 bi no ano passado.

Merchandising

Os interesses em divulgar o “esforço” das empresas intrigam a coordenadora executiva do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, Marina Pita. “Eu acompanho a linha editorial da Globo. Sempre que eles entrevistam um executivo de uma empresa, não citam o nome da empresa. Então, o que vemos é uma mudança muito radical.” 

Para ela, não é possível analisar esse quadro sem levar em conta que a Globo “está num embate gigantesco com o governo e a linha adotada pelo quadro ajuda a desmontar a estratégia do governo de que as pessoas precisam voltar a trabalhar pois não têm como sobreviver. Pode ser uma tentativa de trazer apoio para desmontar a estratégia do governo”, afirma Pita.

Ela também pontua que o conteúdo exibido no quadro é muito “acrítico”. “Eles divulgam, por exemplo, as doações da Mondelez, que é uma empresa de chocolates. Uma empresa distribuindo seus produtos, sendo que diabetes mata, sendo que açúcar é um veneno para as famílias.” 

E essa falta de crítica, acredita, “demonstra que é uma estratégia de merchandising”. “Se há valores envolvidos ou se é uma forma de aproximação da Globo às empresas para enfrentar um governo que é crítico à concessão da Globo, eu não sei. Ela [Globo] está fazendo merchandising, que é um dos maiores problemas na comunicação, pois influencia e não observa as regras de transparência do código de defesa do consumidor. Não dá para fazer publicidade e não escancarar que é merchandising.” 

De acordo com Pita, deveria haver uma investigação em relação ao quadro. “Se a gente estivesse num país que contasse com órgãos que fizessem monitoramento de publicidade velada, isso não passaria ileso.”

A reportagem de O Joio e o Trigo procurou a Globo para saber se o quadro é remunerado pelas empresas, mas não teve resposta até o fechamento do texto.

Ao veículo Meio & Mensagem, a Globo informou que o quadro Solidariedade S/A é uma iniciativa editorial, sem vínculo com a área comercial. “O quadro Solidariedade S.A. foi criado para valorizar as ações que as empresas estão fazendo para ajudar no combate ao novo Coronavírus. A pandemia provocou uma infinidade de ações solidárias no Brasil: de cidadãos e de empresas”, esclareceu.

“Os exemplos de cidadãos solidários, o Jornal Nacional já mostrava quase todo dia, com nome e sobrenome. Já as iniciativas das empresas eram apresentadas sem mencionar as marcas. O Jornal Nacional mudou isso, porque a TV Globo acredita que, para superar um desafio tão grande, é importante mostrar o que muitas empresas e empresários têm feito nesse período”, declarou.