O que o Milton Santos diria do iFood? (transcrição)

Vinte anos sem Milton Santos. Para mostrar a atualidade absurda do professor de Geografia da USP, um dos maiores pensadores do Brasil em todos os tempos, nada melhor do que confrontar as teorias dele com aquilo que se apresenta como mais moderno. O que ele diria do iFood e de todas as empresas-símbolo da uberização? O Prato Cheio te convida a um diálogo inédito (e nunca ocorrido) entre Milton Santos e o diretor financeiro da empresa que simboliza um modelo precário não apenas de trabalho, mas de vida.

Victor Matioli
Alguns pensadores enxergam tão lá na frente que parecem viver no futuro. O legado deles atravessa décadas. É o caso do geógrafo brasileiro Milton Santos, que morreu há vinte anos, em 24 de junho de 2001. Não existiam smartphones, whatsapp, uber e ifood. A gente ainda se deslumbrava com os primórdios da internet. 
O pensamento dele não só sobreviveu à era mais veloz de inovações da história da humanidade, como se tornou mais e mais atual. 
Ele alertava que as corporações estavam usando as técnicas surgidas da informática e da internet pra produzir uma era violenta e cruel. Tão violenta que, na visão dele, se tornaria insuportável, a ponto de o capitalismo cavar a própria cova.
Milton Santos
O capitalismo está com os dias contados. Esse capitalismo tem os seus dias contados  
Victor Matioli
Essa é a voz do Milton. A gente vai usar vários áudios retirados da internet. Os créditos todos estão na descrição.
Nesses 20 anos, a crueldade chegou com tudo. O fim do capitalismo, não. O que não quer dizer que o Milton tenha errado na previsão. 
Milton Santos
Nós, os países pobres. Esses é que farão a história
Victor Matioli
Pra mostrar a atualidade de um dos maiores pensadores do Brasil em todos os tempos, nada melhor do que confrontar as teorias dele com aquilo que se apresenta como mais moderno. 
Afinal, o que o Milton Santos diria do iFood?
Diego Barreto
Agora você quer ser um trabalhador? Ou você quer ser um empreendedor? 
Victor Matioli
Esse é o Diego Barreto, CFO do iFood, numa palestra que deu a estudantes em 2020. A gente vai chamar o CFO de diretor financeiro, tá? Ele não vai gostar, mas também não sei se ele vai gostar de debater com o Milton Santos… 
Diego Barreto
O fator escolha ele se torna primordial. Há 20, 30 anos atrás você não tinha opção de escolha. O que aparecia na sua frente você tinha que agarrar. Hoje as pessoas têm escolha
Victor Matioli
O iFood é a maior empresa de entregas por aplicativo do Brasil. Atrás dela vêm Rappi e Uber Eats. As três integram o chamado capitalismo de plataforma, também conhecido como economia dos bicos ou economia do compartilhamento. 
A gente vai adotar a expressão uberização pra enfatizar a empresa-símbolo dessa era, a Uber. E o fato de que pra nós a principal característica desse sistema é a produção de um modelo de trabalho precário. Ou melhor, de um modelo de vida precário. Escuta aqui o Mateus Silva dos Santos, entregador do iFood.
Mateus Silva dos Santos
Mas eu não vou pra casa para descansar, ver meus familiares. E eu fico nessa rotina todo dia. Chega a ser de 14 a 18 horas por dia. Mas eu agradeço muito ao iFood, porque mudou minha vida realmente. 
Victor Matioli
Se você não conhece a obra do Milton Santos, não se preocupa: a gente tá aqui pra viajar junto. 
Se você conhece, certamente vai se divertir. Mas lembra desde já que isso é um podcast de meia hora. A gente não tem a intenção de passar por todos os pontos de uma obra composta por mais de 40 livros. 
Lembra, também, que o Prato Cheio não é um podcast de ciência. Nós somos jornalistas que investigam sobre alimentação. Nós lemos e relemos uma parte importante da obra do Milton Santos. Nos últimos meses, assistimos a umas trinta horas de entrevistas, debates e palestras. Mas não temos pretensão de fazer ciência em cima disso. 
É importante agradecer ao Billy Malachias, que foi aluno do Milton na graduação e é um especialista na obra dele. O Billy integra o Núcleo de Apoio à Pesquisa em Estudos Interdisciplinares do Negro Brasileiro da USP. Quando a gente teve essa ideia, foi perguntar o que ele achava. Essa conversa foi muito importante pra pensar nos caminhos de pesquisa. 
Bom, vamos nessa? Eu sou Victor Matioli, e esse é o Prato Cheio, o podcast de alimentação de O Joio e O Trigo. Esse aqui é um episódio extra, pra você matar a saudade enquanto a quarta temporada não chega. 
A primeira coisa é entender de que lugar no mundo o Milton Santos tá falando. 
Milton Santos
Eu tive a sorte de ser negro em pelo menos quatro continentes. Em cada um desses lugares é diferente ser negro. E é diferente de ser negro no Brasil
Victor Matioli
Nos anos 80 e 90 ele foi professor do curso de Geografia da USP. 
Em 94 ele ganhou o Prêmio Internacional de Geografia Vautrin Lud, que alguns consideram como uma espécie de prêmio Nobel da área – foi o único latino-americano até hoje. 
Mas, calma, geografia não é só ficar olhando uns mapas e tal? Não, os mapas são a cartografia, que é uma área de estudos relevante. A geografia estuda o espaço geográfico.
E quem é o Milton Santos na fila do pão? É simplesmente a pessoa que redefiniu o conceito de espaço. 
Milton Santos
O espaço pode ser entendido como um conjunto indissociável de objetos em sistema e de ações em sistema. De sistemas de objetos e sistema de ações. Esse que é o centro de minha proposta atual.
Victor Matioli
Boa parte da obra do Milton Santos foi escrita no exílio. Ele foi preso já em 64, no ano do golpe. O conceito de espaço vai tomando forma nos anos 70 e tem um momento-chave no livro O Espaço dividido, de 1979. 
Olha pela janela. Você tá vendo uma paisagem, que é o sistema de objetos. Mas, segundo o Milton, o espaço é a soma do sistema de objetos com o sistema de ações. É a maneira como objetos e ações se transformam mutuamente. 
Você não tem como enxergar o espaço, porque o espaço tá em constante movimento devido às ações.  
Uma das importâncias dessa ideia é que apenas os seres humanos são capazes de produzir um espaço. 
O Milton Santos redireciona totalmente os olhares ao propor que o estudo da realidade num território deve analisar não só a paisagem, como o espaço. 
A relação com a natureza se tornava cada vez mais artificial e distante. Hidrelétricas, portos, estradas, ferrovias, tudo isso dava ao espaço um conteúdo extremamente técnico. Isso forma o chamado meio técnico-científico. Guarda essa expressão. 
Esse espaço é, também, onde se materializa a exclusão.
Milton Santos
Os lugares têm um valor. O valor que cada lugar tem determina de alguma forma o tipo de pessoa que vai nele se instalar. 
Victor Matioli
Ou seja, a capacidade de utilização do território separa os humanos. 
Pensa no período em que essas ideias vão surgindo. O país tinha 45% da população vivendo na cidade em 1960, e chegou a 70% 20 anos depois, na década de 80.
Mesmo no exílio, o Milton Santos enxergou que a urbanização galopante do Brasil era única. 
Na visão dele, o êxodo rural brasileiro era um processo de migração forçada. As pessoas tavam migrando em busca de consumo e de acesso a bens e serviços. 
Os militares alimentaram um crescimento econômico acelerado, mas concentrado; instalaram um regime de opressão; garantiram a concentração midiática pra que a versão oficial fosse a única.
E incentivaram a expansão do consumo de massa, criando uma filosofia de vida que transforma o consumo no próprio motivo da existência. Essa é uma questão fundamental. 
Milton Santos
E é por isso que a cidade não apenas recebe pobres, ela cria pobres, pela maneira como ela é.
Victor Matioli
Quer ver só? 
Reportagem
Ah, porque eu acho Higienópolis um bairro tão mais tradicional. Não acho que seria legal vir esse povão, esse monte de gente pra cá, porque pode trazer mais problema de segurança, assalto. 
Victor Matioli
Essa é uma reportagem do UOL sobre um episódio emblemático. No começo da década passada, alguns moradores de Higienópolis, um bairro de classe alta da cidade de São Paulo, se juntaram pra barrar a abertura de uma estação de metrô. E conseguiram. A estação acabou mudando de lugar. 
Aqui vem uma outra sacada fundamental na obra do Milton Santos: entender que o processo de urbanização se dá com base em dois circuitos da economia: o superior e o inferior. 

O superior tem o capital.

O inferior tem o trabalho.

O superior tem acesso a crédito e a ajudas governamentais.

O inferior, não. 

O superior imita os padrões externos, incorpora lógicas de ação e de consumo que são exógenas. Por exemplo, a arquitetura da Europa, a tecnologia dos Estados Unidos, a comida de vários lugares do mundo.

O inferior é o espaço que não tá completamente dominado por esse padrão externo, pelas técnicas. E, então, é um espaço criativo. O Milton Santos olhava para as periferias urbanas com extremo otimismo, e esse é um ponto que a gente vai retomar lá no fim do episódio.
Milton Santos
A comunicação, ela está entre os pobres do mundo sobretudo nas grandes cidades. Eles se comunicam. Eles é que criam
Victor Matioli
Os dois circuitos coexistem e se sobrepõem. Por exemplo, pessoas pobres prestam serviços para pessoas ricas. Fazendo faxina, limpando jardins. Entregando comida
Entregador
Eu moro no Jardim Angela, Jardim Guarujá. 

Entregador
Trampo de domingo a domingo. Acordo 7h da manhã, tomo café, tomo banho e já pego o trem no Grajaú pra vir na Fradique Coutinho.

Entregador
Vocês vêm de onde?
CAMPO LIMPO
TABOÃO DA SERRA
Victor Matioli
Essas entrevistas com entregadores do iFood feitas pelo repórter Marcos Hermanson, do Joio, têm um padrão: todos são integrantes dos circuitos inferiores de São Paulo. E todos os dias atravessam 20, 30 quilômetros pra chegar até as áreas de entrega. A onipresença do iFood nos bairros do circuito superior é tanta que até o espaço vai se transformando: em algumas ruas os entregadores se concentram à espera dos clientes. Muitas vezes precisam ficar na chuva enquanto aguardam ser chamados.
Olha o que diz o Frank Rocha, de 23 anos. 
Frank Rocha
Tem estabelecimentos que a gente é informado que não pode ficar no local. (…) a gente sente na pele que não pode ficar no mesmo local 
Victor Matioli
Uma cena chamou a atenção do Marcos. Quando ele fez as gravações, os entregadores tavam fazendo fila pra pegar marmitas doadas por uma igreja em Pinheiros, outro bairro de classe alta. As marmitas eram pra população de rua. 
Marcos Hermanson
Quando você compra um bagulho na rua, o que você costuma comprar?

Lucas
Bolacha, né, a gente vai pela opção mais barataM: mais barata e que enche maisM: suponhamos: eu ganho 40 reais por dia. eu tiro 10, compro várias bolacha, alimenta mais, e segura até à noite
Victor Matioli
Tem uma ferramenta usada pela Uber que ajuda bem a entender essa questão dos circuitos superior e inferior. Quando a empresa precisa que os motoristas se desloquem rapidamente até lugares de alta demanda, usa o chamado preço dinâmico, que aumenta a remuneração. Saída de shows e estádios, horário de pico dos executivos, aeroportos: nada disso atende aos circuitos inferiores. 
O que é o iFood? É uma empresa de alta tecnologia com uma mão de obra muito qualificada na área técnica – são apenas três mil funcionários diretos, o que seria impensável em outros tempos pra uma empresa bilionária. Essa é uma boa hora pra chamar de volta alguém que ficou meio esquecido: Diego Barreto, o diretor financeiro do iFood. 
Diego Barreto
Quais eram as empresas que existiam há 15 anos atrás em cada segmento? vocês são capazes no máximo de listar três quatro empresas por segmento
Victor Matioli
Verdade. Hoje em dia o mercado tá bem mais desconcentrado, né? No setor de entrega de comida, mesmo, tem iFood, Uber Eats, Rappi e… é… e… 

O Diego Barreto parece falar de um outro mundo. Nesse mundo, o iFood não tá sendo processado pelos outros dois gigantes por concorrência desleal. Não tá sendo pressionado pelos restaurantes por impor cláusulas de exclusividade. 
O segredo da uberização é justamente transferir todos os custos pros outros. São os entregadores que arcam com a moto, o combustível, o baú usado na entrega. Os entregadores carregam comida o dia todo, mas não recebem nada pra comer. E assumem todos os riscos. 
Victor Matioli
Se alguém pensa que isso é problema do entregador, melhor repensar. Um acidente de moto vai parar no SUS. Uma aposentadoria por invalidez vai parar no INSS. E os anos de vida perdidos devido ao trabalho penoso são anos perdidos por toda a sociedade. 
Tem um ponto importante trazido pelo Hugo Fanton, responsável pelo trabalho de pesquisa pra esse episódio. O Hugo é jornalista de formação e pós-doutorando em Ciência Política pela USP. 
Hugo Fanton
O iFood é uma expressão, é uma expressão cabal desse processo porque a gente está falando de uma relação de consumo, de uma relação de trabalho, de um modo de vida, de um modo de vida das pessoas, os modos de vida alimentar das pessoas e a reprodução e a acumulação de capital. 
Victor Matioli
A nossa interpretação é de que a uberização tá transformando essa relação entre os circuitos inferior e superior. Nesse caso, transformando pra pior. 
E o elemento moderníssimo presente no discurso da uberização oculta um fator: a relação extremamente arcaica de trabalho. 
Milton Santos
As grandes empresas não necessitam do território como um todo, elas trabalham com pontos particulares que são as alavancas da realização de sua riqueza, pontos escolhidos, que elas escolhem antes e pegam os Estados para aparelhar. 
Victor Matioli
Agora a gente precisa falar sobre o espaço derivado. São os espaços em que os processos de modernização são produzidos por forças externas a um território. Então, esses processos não levam em conta as necessidades dos lugares.
O iFood diz que tá em mil cidades. E em 2020 dobrou o número de entregas realizadas. Agora são 48 milhões de pedidos por mês, segundo a página institucional. Ou seja, se a pandemia durar mais cinco anos, vai ser uma beleza pro iFood.
É impossível retratar a realidade em cada uma dessas mil cidades. Mas é fácil saber que boa parte não precisa de um serviço como esse. É a gloriosa produção social de necessidades. 
Milton Santos
Com a relação íntima entre ciência e técnica a serviço do mercado global, essa produção de necessidades foi acelerada. Há uma produção ilimitada de necessidades, e não de respostas
Victor Matioli
Sim, este episódio tá mais cabeçudo, cheio de termos técnicos e reflexões profundas. Então a gente faz um intervalinho agora, pra você liberar um espaço na memória e, na volta, conversa mais sobre esse império das técnicas. 
INTERVALO
Hugo Fanton
A imagem que me veio pensando sobre isso foi do Parceiros do Rio Bonito, lembra do livro? 
Victor Matioli
Esse é o Hugo Fanton de novo. E ele trouxe pra prosa o trabalho do sociólogo Antonio Candido. Lembra que a gente já falou sobre o livro Os parceiros do Rio Bonito? Foi lá no episódio “O deserto do caipira”, da última temporada.
O Antonio Candido analisa a transformação da cultura caipira com a chegada do capital a sociedades que mantinham relações pré-capitalistas, na base da troca e da produção própria. Isso na metade do século passado. 
Hugo 
E o capital vai chegando e o capital chega com a cerca. Ele chega com a propriedade. A expulsão daquelas pessoas e a completa transformação no modo de vida delas
Victor Matioli
Até então aquelas pessoas não se preocupavam com o conceito de propriedade. Elas simplesmente viviam na terra e a terra fornecia o alimento. Com isso, não tinham necessidade de consumir fora, na cidade, e portanto não tinham necessidade de acumular dinheiro. 
Hugo 
Enfim fazendo um paralelo né? A chegada dessa produção técnica globalizada né, ela tem essa lógica de transformação completa da organização da vida social. 
Victor Matioli
Em outras palavras, a uberização pode ser a cerca que faltava pra confinar e matar a criatividade dos pobres. A solidariedade que deixava tão otimista o Milton Santos.
Como a técnica se dissemina muito mais rápido do que em outros períodos da história, a nossa leitura é de que empresas como Uber e iFood estão levando a transformação do espaço a lugares nunca antes alcançados. Elas não estão simplesmente oferecendo empregos: estão padronizando comportamentos e dinâmicas de vida. 
No primeiro bloco a gente conversou sobre os dois circuitos das cidades. Nesse bloco, a gente vai falar sobre a técnica. 
Milton Santos
As pessoas não estão trabalhando com a noção de história. Estão trabalhando com a noção de técnica. É diferente. Todo o discurso atual é um discurso da técnica. O próprio vocabulário é um vocabulário da técnica.
Victor Matioli
Tem uma ironia gigantesca que a gente não pode deixar passar: o iFood chama os entregadores de parceiros. 
Dos parceiros do Rio Bonito aos parceiros do iFood. 
Milton Santos
A empresa acaba ditando comportamentos. Ela dita comportamentos aos indivíduos que trabalham nela, mas aos que trabalham em torno dela
Victor Matioli
Antes existia uma grande diversidade de técnicas, porque elas tavam ligadas às necessidades de um determinado espaço. Então, um povoado podia criar técnicas avançadas de saneamento porque tinha sofrido com uma doença. Uma fábrica de calçados podia ser uma inovação genial pra uma cidade, mas completamente desnecessária pra outra. O ônibus é um ótimo meio de transporte pra áreas planas, mas não consegue subir uma favela. Ou seja, as técnicas evoluíam de acordo com as necessidades das sociedades. 
Nas últimas décadas, a evolução marcou uma unificação das técnicas com uma finalidade também única, que é a expansão das corporações e do dinheiro para o nível global. A técnica passa a comandar o sentido das nossas ações. 
Milton Santos 
O que me parece que aconteceu é que ao longo do século a ciência foi ganhando peso, expressão. Houve a união da ciência com a técnica. Ambas passaram a ser utilizadas pelo mercado, o mercado se expande planetariamente.  
Victor Matioli
Tem uma palavra fundamental nesse universo startupeiro: escala. Fazer uma startup é basicamente dar escala a um negócio que já existia. O iFood, mesmo, nasceu de um atendimento telefônico que ganhou escala ao migrar pro smartphone. É só isso. O mundo não começou no dia em que essas tecnologias nasceram. E a gente não tá vivendo o fim da história. 
Ao mesmo tempo, esse ganho de escala muda absurdamente o impacto que essas empresas são capazes de produzir. 
Milton Santos
E quando as técnicas que vêm, eram do século passado se juntam nos últimos 25 anos às técnicas da informação, então se criam as condições para a produção de um mundo só que não havia até então. 
Victor Matioli
Nos anos 80 o Milton já falava em mundialização, o que na década seguinte ficou conhecido como globalização. E essa foi a palavra-chave da última fase da obra dele. A gente recomenda o livro “Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal”.
Diante dessas técnicas, todos nos sentimos constantemente ignorantes. Hoje em dia temos inovações quase diárias. E guiadas por um punhado de corporações que tentam prever qual será o impacto de cada uma delas. Mas nem sempre acertam, ou nem sempre querem prever os efeitos colaterais. 
Essas inovações nunca podem ser criticadas ou problematizadas. Muito menos descartadas. 
Milton Santos
Creio que a brutalidade está aí instalada. A globalização se caracteriza pela produção estrutural da violência. Nunca houve na história um período no qual as realizações mais fundamentais da vida histórica tivessem que ter como base a produção também da violência 
Victor Matioli
Tem uma frase muito importante do Milton Santos: a tecnologia é mais aceita do que compreendida. 
Ele criticava a construção ideológica que apresentava como novo padrão moral algo que era imoral. E que a competitividade só é aceita por causa de uma certa confusão dos espíritos criada pela força da propaganda positiva em torno da globalização. 
Se os espíritos andavam confusos naquela época, imagina hoje. O Google te vendendo produtos a cada palavra que você busca. O Facebook te impondo um discurso embolhado. Algoritmos com a capacidade de reger os nossos atos de maneira tão sutil que nós nem imaginamos. 
Milton Santos
O mundo até recentemente não era competitivo no sentido da competitividade. Havia a competição. A competição eu acho que ela tinha alguns códigos morais. A competição inclusive podia existir paralelamente à compaixão. E a competitividade exclui a compaixão. 
Victor Matioli
Tem outra frase do Milton que segue atualíssima: “A competitividade comanda a ação. O consumo comanda a inação.”
Todos os dias nós somos colocados a competir por likes, atenção, compartilhamentos. Somos bombardeados com notícias. Sentimos alegria raiva frustração, tudo ao mesmo tempo. E em seguida aparece uma publicidade do iFood no Instagram, o que nos leva à inação. 
Mas isso é pouco comparado com a vida dos funcionários do iFood. O algoritmo que dá notas aos entregadores cria uma competição, no sentido de competitividade, em tempo real. Isso define quem vai ganhar os próximos pedidos e quem vai ter trabalho na semana seguinte. 
Esses mecanismos são a ferramenta mais sofisticada inventada até hoje pra manter o controle sobre trabalhadores precarizados e pressionados ao extremo. Se o seu ganha-pão dependesse de um sorriso, você daria ou não um sorriso? Se o seu ganha-pão dependesse de correr absurdamente, colocando a sua vida em risco, você correria ou não?
O lado vencedor da globalização tem uma outra visão.
Diego Barreto
Os últimos vinte anos nesse país o Brasil definitivamente se integrou. Se integrou na cadeia logística, se integrou na cadeia financeira, se integrou na cadeia cultural, se integrou na cadeia de transferência de capital, de transferência de capital humano pelo mundo, se transferiu se integrou na cadeia de telecomunicações 
Victor Matioli
O diretor financeiro do iFood deu alguns exemplos daquilo que ele considera avanços. Telefone celular, cartão de crédito internacional, a possibilidade de ir pra Disney. 
Diego Barreto
Se nós voltarmos 30 anos no tempo quando boa parte nós aqui estávamos nascendo, ou muito próximo disso, as oportunidades que existiam para os nossos pais, para os nossos avós eram ínfimas.
Victor Matioli
As palavras que ele escolhe são muito emblemáticas do raciocínio que guia o Vale do Silício.
Diego Barreto
Qualquer um de vocês quiser neste momento e para os Estados Unidos vocês vão tirar um passaporte em duas semanas. Vocês vão tirar um visto em duas semanas. Vocês vão comprar passagem no mesmo dia em algum site e vocês vão embarcar no outro dia para os Estados Unidos. A percepção de mobilidade e a percepção de risco é completamente diferente
Victor Matioli
Puts, aliás, eu preciso correr pra terminar essa gravação. Esqueci que tinha um voo pra Orlando daqui a pouco. Deve ser a minha “percepção de mobilidade” me sabotando.
Diego Barreto
A mulher no Brasil apareceu com uma força tal que o mercado consumidor hoje olha para a mulher como a pessoa que toma a decisão de consumo.
Milton Santos
Creio que se incorpora um exército de consumidores. Mas eu não confundiria a figura do consumidor e a figura do cidadão porque o consumidor ele busca bens finitos que acabam com o próprio consumo. O cidadão é a busca do bem infinito, isto é, aquilo que quanto mais eu consumo, mais posso dar. 
Victor Matioli
Um livro que a gente recomenda nessa hora é “O espaço do cidadão”, de 1987.
Milton Santos
Essa que é a grande problemática do nosso tempo, quer dizer, essa formidável força do consumo que agora se ampliou com a informação orientada ao consumo com um pensamento único que reduz a possibilidade de um debate mais… 
Diego Barreto
Há vinte trinta anos atrás só existia São Paulo e Rio de Janeiro. Hoje Recife é uma cidade pujante. Goiânia é uma cidade pujante. Florianópolis é uma cidade pujante Cuiabá é uma cidade pujante, entre outras. 
Victor Matioli
Nesse caso, a própria existência de uma cidade depende de estar atrelada ao mercado. Uma cidade passa a estar no mapa se tá inserida num certo conjunto de relações com o circuito superior. 
Diego Barreto
Conseguir hoje um desenvolvedor para programar alguma coisinha e colocar uma ideia de pé é fácil. Há 20 anos atrás, impossível. Pegar um avião e ir para a Europa, ir para a Ásia, ir para os Estados Unidos para pesquisar alguma coisa, para entender alguma coisa, é fácil.
Victor Matioli
Não sei se você reparou que tá faltando uma coisinha no discurso do diretor do iFood. Um continentezinho chamado África. Porque só existem os lugares capazes de oferecer inovações. Ou aquilo que é inovador do ponto de vista dessas corporações. 
Eu fico pensando como deve ser triste olhar pro globo terrestre e só enxergar o Norte. Só enxergar o circuito superior. Quantas camadas da realidade são desprezadas por esse pensamento único? 
Diego Barreto
O problema é que essa nova economia, ela gera uma série de desafios para todos nós. Ela é combativa. Ela é transparente. Ela demanda um nível de discussão que nem todo mundo gosta 
Victor Matioli
Calma calma. Combativa? As startups combatem quem? 
Bom, vamos falar de transparência, então. A gente tenta há pelo menos três anos obter dados sobre o iFood. O número real de entregadores, a remuneração real dada a eles, quais áreas da cidade têm mais pedidos.
Uma pesquisa da organização Aliança Bike buscou mapear o perfil dos entregadores que usam bicicletas. 99% eram homens, 71% negros. A metade tinha entre 18 e 22 anos. Três em cada quatro ficavam mais de doze horas por dia conectados ao aplicativo. E o maior salário registrado foi de 1460 reais. 
Diego Barreto
O que essas empresas têm em comum, elas têm em comum a não ligação com aquilo que a gente chama de velha economia. Essas empresas para crescerem e aparecerem, elas não são dependentes de capital. Elas não são dependentes de capital político. Elas não são dependentes de hierarquia. Elas não são dependentes do comando e controle. 
Victor Matioli
O algoritmo não é um mecanismo de comando e controle? 
Existe um patrão mais errático, incompreensível e imprevisível que um algoritmo? Uma nota baixa por parte de um cliente pode levar o trabalhador de aplicativo a ser desativado – uma expressão suave pra dizer que o cara perdeu o emprego ou no mínimo vai ficar suspenso por uns dias. 
Escuta o que o Paulo Lima, o Galo, um líder dos entregadores antifascistas, relata num vídeo do The Intercept Brasil.
Paulo Lima
Se você é grevista nos aplicativos, o que que acontece? O aplicativo ele te rastreia, vê quem tá fazendo greve, e todo mundo sabe que quem tá fazendo greve começa a receber menos pedido. Ou zera de pedido. 
Diego Barreto
O que essas empresas da Nova Economia estão deixando para o Brasil ao fazer empreendedorismo é um Brasil diferente e um Brasil em que o sobrenome não tem valor. É um Brasil que a tua opção sexual não tem valor. Que o sexo não tem valor. Que a tua pele não tem valor. O que tem valor é a meritocracia.  
Victor Matioli
O Brasil tem só nove unicórnios, ou seja, nove empresas de alta tecnologia que valem mais de um bilhão de dólares. Isso quer dizer que só nove pessoas tiveram uma boa ideia no Brasil? Evidente que não. O sol continua nascendo pra poucos. Na verdade, pra ainda menos, se a gente considerar que essas empresas praticamente apagam a existência de uma classe média. 
Diego Barreto
Meritocracia. Quem é bom quem é que é bom e inteligente. Quem colabora quem se comporta quem desenvolve sobe.
Victor Matioli
O diretor do iFood tá criando uma nova justificativa ideológica pra superexploração do trabalhador. Quem merece vira empresário. Quem não merece… E não basta ser bom: é preciso obedecer.
Milton SantosHoje o pensamento que domina, esse pensamento ele próprio é violento porque se eu peço ao outro que pense como eu penso eu estou impondo uma forma de ver o mundo que é minha.
Victor Matioli
Bom, essa é a hora de mais um intervalinho pra refrescar as ideias. Na volta, a gente viaja da era da brutalidade à era da delicadeza. 
INTERVALO
 
Victor Matioli
O capitalismo só cresce se o capital avançar mais que o trabalho. Isso pode ser feito de duas maneiras. Ou aumentando a produtividade. Ou diminuindo o valor do trabalho com demissões e corte de direitos. É por isso que o capitalismo precisa de crises periódicas que permitam avançar em uma dessas duas frentes. 
O que o Milton Santos observava lá nos anos 1990 é que agora a crise é uma constante. Olhando o Brasil de hoje, acho que ninguém tem dúvida, né? 
O Diego Barreto diz que as empresas do capitalismo de plataforma se orgulham de não depender do Estado. Será que é isso mesmo? Não dá pra dizer que Uber e companhia tenham produzido as condições que criaram um exército de trabalhadores precários. 
Mas também não dá pra dizer que elas tenham ficado paradas. Só assistindo. A Uber desafiou leis municipais de transporte em todo o planeta.
No Brasil, em 2017, o então senador Lindbergh Farias apresentou um projeto de lei pra garantir remuneração a entregadores e motoristas. As corporações do setor se mobilizaram e mataram o projeto no berço. 
De lá pra cá, a discussão no Congresso Nacional foi pouca, quase nada se a gente pensar que essas empresas estão entre as maiores empregadoras do país. 
Milton Santos
Há um mundo que está aí e que utiliza de meios materiais que a humanidade obteve no fim do século para produzir aquilo que eu considero como uma perversidade 
Victor Matioli
A gente quer compartilhar um segredo de quem investiga corporações: é importante analisar o que tá presente no discurso de uma empresa. Mas é ainda mais importante analisar o que tá ausente
Na publicidade e nos discursos feitos pelos diretores da empresa, a ênfase fica na tecnologia, nos restaurantes e nos consumidores. Os entregadores são um apetrecho. O problema pro iFood é que sem as ações, sem os entregadores, o objeto não tem nenhum valor. Assim como a África e uma penca de municípios, os entregadores não aparecem no mapa do iFood. 
Paulo Lima (Galo)
Tamo aqui no dia 1º de julho mostrando que se a gente se unir a gente pode trazer o poder pra mão da gente, certo?
Victor Matioli
Breque: o nome que os entregadores dão às paralisações do serviço não poderia ser mais preciso. Se eles brecam, o iFood cai. Os gigantes da uberização têm os pés de barro. A capacidade de jogar os custos nas costas dos outros é também uma fraqueza.
Já a promessa de algo disruptivo é só o sonho dos magnatas dos primórdios do capitalismo, agora transformado em realidade graças à tecnologia. A ideia de explorar os outros até o limite não tem nada de novidade. 
Já nos anos 90 o Milton Santos dizia que a gente não deve rejeitar a técnica. Porque a técnica em si não é boa ou ruim: ela precisa dos humanos pra produzir ações. Então, nós devemos entender as técnicas e fazer um bom proveito. 
Milton Santos
Estamos já deixando a era tecnológica e entrando na era demográfica ou popular. Estamos já entrando nessa era, que é uma mudança de qualidade, digamos, nas relações humanas.
Victor Matioli
Se a gente quer ser justo com o pensamento do Milton Santos, deve terminar esse episódio de maneira otimista. Porque era assim que ele pensava o mundo, e foi assim que ele chegou ao final da vida. 
Milton Santos
Há um turbilhão, há uma efervescência de baixo que a gente não está podendo captar completamente, nem integralmente, mas que há, e que vai um dia ou outro confluir com a produção de ideias para forçar um outro caminho.  
Victor Matioli
Na visão do Milton Santos, as condições técnicas que a humanidade alcançou já não eram adequadas a um mundo capitalista, justamente porque permitiam superar esse mundo. 
Paulo Lima (Galo)
Ninguém aqui é empreendedor de porra nenhuma. Nós é força de trabalho nessa porra
Victor Matioli
A tecnologia de aplicativos como Uber e iFood é extremamente simples. Como diz o Diego Barreto, é fácil conseguir um desenvolvedor pra fazer uma programação. 
Por outro lado, é difícil pensar que possa acontecer uma mudança positiva olhando pro Brasil de 2021. Mas a história, às vezes, só precisa de uma fagulha pra tomar rumos que quase ninguém tava conseguindo enxergar. Quase ninguém. 
Milton Santos
O que eu creio que vai criar esse novo mundo será uma volta e agora é possível. A ideia de que não é necessário ser grande nação também não é necessário ser uma grande nação. Essa história de ser grande potência que nós brasileiros ainda desejamos ser primeiro mundo. Grande bobagem. O que nós temos que ser é um grande país. Um grande país é aquele que cuida de seu povo.  
Victor Matioli
O Milton Santos vinha se referindo a esse período popular da história por um nome muito bonito: a era da delicadeza. 
Milton Santos
Essa era da delicadeza tem que existir antes na nossa cabeça. Como possibilidade
Victor Matioli
É uma era da delicadeza porque nasce da solidariedade entre os pobres. Em contraposição à crueldade criada pelas elites. 
A pesquisa desse episódio foi feita pelo Hugo Fanton. O roteiro é de João Peres. A produção-executiva é de Marina Yamaoka. A narração é minha, Victor Matioli.A edição de áudio é de Victoria Zanardi. As redes sociais ficam a cargo de Amanda Flora.O design é de Denise Matsumoto.
Muito obrigado por ter ficado até agora. Até o próximo episódio, tchau!
Por Redação

Matérias relacionadas