Pela primeira vez as mulheres aparecem na frente em um indicador de fumo no país; entre os motivos estão o barateamento dos cigarros, a popularização dos vapes e a redução de políticas de combate ao tabagismo

Há cerca de um ano, Bruna* deu o seu primeiro trago em um cigarro. Aos 16 anos, a adolescente viu o cigarro da mãe apoiado em uma mesinha. “Eu vi que as pessoas fumavam para desestressar, então pensei ‘vou ver se é tudo isso que o pessoal fala'”, lembra.
A adolescente estranhou o sabor de cigarro convencional, mas a inclinação para fumar veio com mais força quando conheceu o vape (também conhecido como pod ou cigarro eletrônico), dispositivo composto por uma bateria, um elemento de aquecimento e um reservatório para um líquido que mistura nicotina e aromatizantes.
“Quando fumei cigarro normal pela primeira vez não ficou frequente, eu nunca fui muito fã. Mas depois do cigarro eletrônico, eu voltei a fumar cigarro normal. É bem mais caro, só que ele é muito mais prático, sabe? Não queima o pulmão, não queima a garganta, nem nada assim do tipo. Era o que eu achava quando comecei”, revela.
Histórias semelhantes às de Bruna vêm se tornando mais comum nos últimos anos no Brasil. Os números mais recentes do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), de 2023, revelam que entre as adolescentes de 14 a 17 anos o uso de produtos fumígenos – que incluem cigarros, charutos, cachimbos, narguilés e cigarros eletrônicos – alcança 10,5%. Entre meninos, o percentual fica em 8,3%. É a primeira vez que mulheres lideram um dado de tabagismo no país.
A experimentação pelos Dispositivos Eletrônicos para Fumar (DEFs), nome técnico do vape, também aparece na pesquisa. De acordo com o Lenad, 7,7% dos adolescentes entre 14 e 17 anos do gênero masculino utilizam esse tipo de produto. O número salta para 9,8% quando se trata das meninas na mesma faixa etária. Na população adulta a prevalência se inverte: 7,3% dos homens usam vapes, contra 3,7% das mulheres. Isso acontece mesmo com a decisão de 2009 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de considerar ilegal a venda, fabricação, importação e propaganda de cigarros eletrônicos no Brasil.
Entre as mulheres adultas, a tendência também é de crescimento do hábito de fumar. A prevalência do tabagismo entre as mulheres avançou de 7,2% em 2023 para 9,8% em 2024, um aumento de 36%. No mesmo período, o mesmo dado entre os homens cresceu de 11,7% em 2023 para 13,8% em 2024, o que significa um salto de 18%.
Os dados são do Vigitel, inquérito telefônico do Ministério da Saúde para mapear os riscos de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), realizado nas capitais brasileiras. Os números foram analisados pelo Joio.
Os dados gerais de fumo no país também cresceram, contrariando a tendência de queda das últimas duas décadas. Em 2024 o tabagismo cresceu 25% no país. Nas capitais brasileiras a proporção de adultos fumantes saiu de 9,3% em 2023 para 11,6% em 2024, também de acordo com o Vigitel.
“O tabagismo convencional sempre foi sempre maior entre os homens do que entre as mulheres, isso de alguma forma está se invertendo. O que se tem é uma experimentação muito maior. Elas experimentam e depois migram para outros produtos. Ou usam concomitantemente”, analisa André Szklo, pesquisador da Divisão de Controle do Tabagismo e outros Fatores de Risco do Instituto Nacional do Câncer (INCA).
O pesquisador diz ainda que a indústria do tabaco tem um histórico de se aproximar e explorar grupos minoritários. Segundo ele, o discurso falacioso de redução de danos associado aos cigarros eletrônicos, em comparação aos cigarros tradicionais, parece ter tido maior impacto entre as mulheres e, especialmente, entre as meninas. “Como as minorias costumam ser grupos mais vulneráveis e frequentemente agredidos socialmente, a indústria se apresenta como uma aliada, oferecendo uma falsa sensação de acolhimento. É como se dissesse: ‘estamos com vocês, é importante lutar pelos seus direitos, pela liberdade de expressão, pela liberdade em ser quem você é’. E, nesse contexto, insere a ideia de que ‘você também tem a liberdade de fumar’”, explica o especialista.
Bruna é retrato desse público-alvo. Ela não tem dificuldades para comprar cigarros eletrônicos numa tabacaria, que ela busca antes das “resenhas” com os amigos. A praticidade e o sabor do aparelho enganam. O pneumologista Sebastião Costa explica que o cigarro convencional tem 1 mg de nicotina, enquanto os dispositivos eletrônicos podem chegar a carregar 50 mg da substância.
“A nicotina é responsável pelo infarto miocárdio, hipertensão, trombose pulmonar, AVC. O que tenho conversado muito com meus colegas do Brasil é que estamos esperando, em pouco tempo, uma epidemia de doenças cardiovasculares entre os jovens. Isso porque 1 mg de nicotina do cigarro convencional já produz 30% dos infartos em qualquer parte do mundo, então imagina 50 mg com esses jovens inalando várias vezes compulsivamente”, contextualiza o médico.
Costa, que também é presidente do Comitê Antitabagismo da Associação Médica da Paraíba, acredita que houve um “remodelamento da consciência social” por causa das políticas públicas antitabagistas, mas há uma preocupação latente.
“Em 1990, 34% dos brasileiros fumavam. Hoje, mesmo com o crescimento recente, os fumantes representam 11,6% da população. Antigamente fumar era charmoso, era quase obrigatório entre os jovens e entre os adultos. Mas os programas de combate ao tabagismo que consertaram a população não fizeram isso no meio jovem, e o cigarro eletrônico hoje é para os jovens, o charme e elegância que tinha o cigarro convencional há 30 anos”, comenta.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) classifica o tabagismo como uma pandemia. Fumar é a principal causa de morte evitável no mundo, com cerca de 8 milhões de óbitos por ano. O fumo está relacionado ao surgimento de, pelo menos, 50 doenças, entre elas diabetes, hipertensão, doenças respiratórias, diferentes tipos de câncer, tuberculose, impotência e infertilidade, de acordo com dados da própria OMS.
O Inca, vinculado ao Ministério da Saúde e responsável pelo Programa Nacional de Controle do Tabagismo, considera que o tabaco causa a maior parte de todos os cânceres de pulmão no país e é um fator de risco significativo para AVC e ataques cardíacos. A fumaça também prejudica quem convive com fumantes: a OMS chega a contabilizar mais de 1,2 milhão de mortes em decorrência do fumo passivo no mundo.
Os cigarros eletrônicos também são considerados uma ameaça à saúde. A recomendação da OMS é que os vapes sejam tratados da mesma forma que o tabaco convencional.
Imagem e imaginário
Durante boa parte do século 20, especialmente entre as décadas de 1940 e 1970, o cigarro foi transformado pela indústria tabagista em um símbolo de status, elegância e modernidade, com um discurso direcionado ao público feminino.
O cinema de Hollywood e a publicidade desempenharam um papel central nessa construção. Atrizes icônicas, vistas como símbolos de beleza, sensualidade e glamour, eram retratadas com um cigarro em mãos, em gestos atrelados à sofisticação. Fumar tornou-se algo “chique”, um emblema da mulher que estava na moda e “à frente de seu tempo”.

A mensagem era clara: se as estrelas de cinema, que personificavam o sucesso, fumavam, a mulher comum que desejasse atingir aquele patamar deveria imitá-las. A fumaça, em cenas de filmes noir ou em poses de modelos, era parte da construção narrativa. As publicidades chegavam a atrelar o uso do cigarro à “conquista” da magreza, do corpo tido como ideal. No Brasil a dinâmica se repetia nas novelas.
Segundo a psicóloga Mônica Andreis, que atua na linha de frente do combate ao tabagismo, a publicidade positiva em volta do cigarro teve impactos atemporais. “A indústria explorou esse tipo de conceito no passado e isso prejudicou muito as mulheres. Algumas delas com muito receio de parar [de fumar] e engordar, por exemplo. Essa questão da pressão social, pelo ideal de beleza, veio muito forte”, explica a especialista.

Quem conhece bem os efeitos da construção midiática é Suellen**, 42 anos, que foi fumante por três décadas. O hábito – que se transformou em vício – começou entre a infância e a adolescência. “Eu era uma criança, achava bonito porque via minha mãe fumar, então comecei a fumar escondido”, conta.
Suellen seguiu fumando na adolescência. Ela conseguia os cigarros nas idas ao mercado para comprar maços para os familiares. Quando adulta, começou a fumar mais de uma carteira por dia e não enxergava os danos que a prática poderia causar, até que os filhos fizeram um alerta sobre os riscos à saúde causados pelo tabagismo.
Para o pneumologista Sebastião Costa, a principal preocupação diante do aumento de meninas e mulheres fumantes é a continuidade do hábito. “Por questões hormonais, as mulheres têm mais dificuldade de parar de fumar, a relação com a nicotina é mais persistente por ser uma droga ansiolítica. O período menstrual provoca mais tensões. No consultório fica evidente: apesar de fumarem menos cigarros por dia, elas precisam de mais esforço para parar”, explica.
Um artigo publicado no periódico científico Addictive Behaviors confirma a percepção. O estudo concluiu que as mulheres mostram uma tendência 2,1 vezes maior do que os homens de tentar parar de fumar e desistir já no primeiro dia. De acordo com a pesquisa, o público feminino precisa de mais suporte para parar de fumar, com foco em políticas públicas que considerem pressões relacionadas à gravidez e trabalho doméstico.
O trabalho foi realizado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), da Faculdade de Medicina do ABC, da Columbia University e da University of Pennsylvania. As análises foram realizadas em 12 dos países que concentram dois terços dos fumantes do mundo: Bangladesh, Brasil, China, Egito, Índia, Indonésia, México, Rússia, Tailândia, Turquia, Ucrânia e Vietnã.
Além de se viciarem mais rápido e terem mais dificuldade em largar o cigarro, mulheres fumantes apresentam um risco relativamente maior de apresentar doenças relacionadas ao tabagismo do que os homens. O tabagismo afeta, ainda, a qualidade da saúde reprodutiva das mulheres. As fumantes têm maior probabilidade de sofrer infertilidade, abortos espontâneos e complicações durante a gestação.
Pressão estética segue em jogo
A adesão aos fumo entre mulheres jovens vem diante de uma nova dinâmica midiática. No TikTok, plataforma chinesa de vídeos curtos com mais de 91 milhões de usuários no Brasil, uma busca pelo termo “tabaco” mostra vídeos onde os jovens aparecem fumando e atrelando o hábito a algo ‘cool’.
Em um vídeo com mais de 25 mil likes, uma usuária compartilha que não vai parar de fumar. Outra jovem mostra com empolgação o presente criativo que ganhou, um conjunto de batons que imitam um maço de cigarros. O unboxing já acumula 38 mil curtidas. Um terceiro perfil compartilhou as dificuldades em largar o cigarro e cair no vício do vape. Com quase 86 mil likes e mais de 600 comentários é possível ler respostas como “eu só paro quando eu tô sem dinheiro pra comprar” e “você está salvando sua vida com os pods, não liga pro que essas pessoas desinformadas falam sobre. Na Inglaterra eles já são receitados por médicos”.
Relatórios de organizações antitabagistas, como a Truth Initiative e a Campaign for Tobacco-Free Kids, mostram que a indústria do cigarro contrata influenciadores para promover seus produtos de forma disfarçada nas redes sociais, especialmente os cigarros eletrônicos e dispositivos de tabaco aquecido.
Segundo a psicóloga Mônica Andreis os conteúdos atuam como uma isca para os jovens seguidores. “Uma vez que ele pega a isca, ele desenvolve a dependência rapidamente, se torna um consumidor regular. Por isso precisamos falar sobre a proibição desse tipo de publicidade velada na internet”, alerta.
Uma boa parte dos vídeos listados com a #vape, no entanto, já são conteúdos contra o tabagismo. São comuns diários que contam o esforço de usuários – a maioria mulheres jovens – para abandonar o vício em cigarros eletrônicos.
Neles, as criadoras contam como começaram a usar os vapes, passando pelos impactos negativos e a vontade de parar de fumar. Luana Cavalcante (@luluty_ no Tiktok) é de Fortaleza, tem 7,6 milhões de seguidores e cria conteúdo sobre a busca por uma rotina mais saudável. Em um vídeo que se aproxima de 4 milhões de visualizações, ela fala sobre diversos problemas de saúde decorrentes do uso de cigarros eletrônicos, além de mostrar a intenção urgente de parar de fumar.
Já o influenciador Patric Santanna (@patricsantanna) decidiu usar o humor em um vídeo curto. O post passa de 45 mil visualizações e fala sobre a “felicidade” do pulmão ao recusar vape quando alguém oferece.
Um conteúdo viral sobre o assunto foi publicado pela ex-BBB Vanessa Lopes, que tem mais de 14 milhões de seguidores no Tiktok. Ela publicou um vídeo sobre os impactos do uso de vapes para sua saúde.
Na publicação, Vanessa diz que precisou fazer uma cirurgia para lidar com os impactos que o cigarro eletrônico causou na voz. “Eu tive um calo na prega vocal, pneumonia, bronquite e piorou minha asma, tive que reaprender a falar. Não é fácil, a abstinência de se livrar de um vício é bizarra. Mas eu consegui parar colocando na balança o que era mais importante para mim”, desabafou a influenciadora. Em outros conteúdos, ela compartilhou os desafios do período em que estava tentando parar de fumar, com conselhos e uma espécie de suporte emocional.
Política pública antitabagista
A historiadora Sarah Milov, em seu livro Cigarette: A Political History, se aprofunda no contexto que mudou os rumos do consumo de cigarro nos Estados Unidos e, por consequência, ao redor do mundo. Ela detalha que em janeiro de 1964 foi divulgado o Relatório sobre Fumo e Saúde, elaborado por Luther Terry, chefe do Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos. O texto trazia um alerta: a chance de fumantes adquirirem câncer de pulmão era dez vezes maior que entre não fumantes, além de haver risco aumentado também para doenças coronarianas, bronquite ou enfisema. Os fabricantes tiveram que inserir alertas sobre malefícios nos rótulos dos cigarros.
No Brasil, os alertas nas embalagens foram inseridos em 1988 a partir de uma medida do Ministério da Saúde. Em 1990, uma nova portaria determinou que a frase “O Ministério da Saúde adverte: Fumar é prejudicial à saúde” passasse a ocupar 100% de uma das laterais das embalagens. Em 2000, a Lei nº 10.167 proibiu a propaganda de cigarros nos meios de comunicação, com exceção da exposição nos pontos de venda, e a partir de 2001, as advertências passaram a incluir imagens impactantes sobre os danos causados pelo fumo.
As políticas públicas resultaram na diminuição da prevalência de fumantes na população brasileira registrada por duas décadas. Mas a ênfase no tabagismo perdeu força. A ausência de reajuste no valor do maço desde 2017 fez com que o preço real do cigarro ficasse defasado, tornando o ato de fumar mais barato. A acessibilidade financeira, junto com a ofensiva da indústria em conquistar novos públicos, atingiu diretamente o público jovem.
A ACT Promoção da Saúde lançou em novembro de 2025 a campanha “O barato que sai caro”. A ação chama atenção para o impacto do tabagismo no país, que ainda registra uma das maiores taxas da América Latina. “São 177 mil mortes por ano, bilhões de reais gastos em saúde e uma prevalência que deixou de cair, especialmente entre os jovens. Por isso, precisamos buscar medidas fiscais que tornem o cigarro mais caro, mais distante dos jovens e menos oneroso para toda a sociedade”, aponta a entidade no documento.
Agora, o governo vem tentando mudar esse cenário. Em 2024 houve uma retomada na política de aumento de preço sobre o cigarro, elevando de R$ 5,00 para R$ 6,50 o valor mínimo do maço. Se os valores fossem corrigidos pela inflação, a carteira já deveria custar ao menos R$ 11,88.
Outra ação foi a criação, em 2023, do Programa Nacional de Controle do Tabagismo (PCNT), do Ministério da Saúde. A medida oferece tratamento antitabagismo no Sistema Único de Saúde (SUS) com ações educativas e oferta de tratamentos com base em diretrizes internacionais.
O pesquisador André Szklo, da Divisão de Controle do Tabagismo e outros Fatores de Risco do INCA, explica que o PNCT atua em várias frentes. Uma delas estimula os fumantes a parar de fumar, atingindo principalmente o público adulto. Outra foca na prevenção da iniciação, que se aproxima diretamente dos jovens e adolescentes.
Entre as ações do programa estão a capacitação de profissionais de saúde, o aumento de impostos sobre produtos de tabaco e as advertências sanitárias nas embalagens. Também há a proibição de publicidade, de vendas online e do consumo em locais fechados.
“O Programa Nacional de Controle do Tabagismo tem grande alcance nos estados e municípios. Costumamos dizer que ele é quase uma internalização da política pública. Isso porque conseguimos, junto aos coordenadores locais, adaptar as ações aos desafios de cada região”, afirma Szklo.
Niviane Ribeiro coordena o Centro de Referência de Prevenção ao Tabagismo de João Pessoa (PB) desde 2009. De mãos dadas com outros órgãos públicos, o programa tem caráter abrangente em ações e locais. “Voltado especialmente para os jovens, reforçamos o Programa Saúde na Escola em parceria com as secretarias de Saúde e Educação. Também trabalhamos com policlínicas, práticas integrativas e atividades de educação física voltadas ao enfrentamento do tabagismo”, diz Niviane.

Segundo Mônica Andreis, a política brasileira de controle do tabaco é robusta, mas precisa ser constantemente atualizada e aplicada nos diversos segmentos da sociedade, seja em unidades de saúde, escolas e espaços públicos, alcançando jovens e adultos. “É muito importante o retorno e fortalecimento dessas políticas públicas de combate que foram descontinuadas na pandemia, com foco na ampliação de tratamentos que se atualizem diante das pesquisas recentes e no investimento o em prevenção para que a gente consiga, de novo, reduzir o consumo de tabaco e outros produtos fumígenos no Brasil”, conclui.
*colaboraram Ana Beatriz Rocha e Bruno Borges.


