O Joio e O Trigo

“Maior produtora de hambúrgueres do mundo” capta dinheiro de investidores para comprar gado do desmatamento

, *colaborou Jelter Meers

Frigoríficos da brasileira Marfrig compram gado de confinamentos do presidente do conselho da empresa, cujos fornecedores acumulam infrações ambientais na Amazônia e no Cerrado; carne empacotada chega a atacadistas europeus e asiáticos

A fim de levantar dinheiro para a compra de gado no Brasil, a Marfrig Global Foods SA comercializou ao menos 11 milhões de unidades de certificados de recebíveis do agronegócio (CRA), ao valor de R$ 1 mil cada uma, para pessoas físicas, empresas, seguradoras, fundos e clubes de investimento, entre outros tipos de investidores. A conta é de multiplicação: desde 2019, a Marfrig levantou R$ 11 bilhões do mercado de capitais para este fim.

Desse valor, metade — R$ 5,5 bilhões — foi usada exclusivamente para compra de gado de confinamentos da MFG Agropecuária, cujo sócio-administrador é o presidente do conselho de administração da Marfrig, Marcos Antonio Molina dos Santos. A compra de títulos de crédito foi realizada diretamente por indivíduos em aplicativos de corretoras de valores ou indiretamente por ordem de investidores a operadores financeiros. 

Parte do dinheiro, no entanto, serviu de caixa para pagar por animais oriundos de áreas desmatadas ilegalmente na Amazônia e no Cerrado, revela o Joio em parceria com o Center for Climate Crime Analysis (CCCA), uma organização sem fins lucrativos que apoia a ação climática global. 

A empresa de confinamento animal MFG, indicada nos documentos de CRAs como o produtor rural recebedor dos recursos da captação, compra gado de outros fornecedores, conhecidos como “fornecedores indiretos”. Os pagamentos da Marfrig que inflam o caixa da MFG têm cronograma previsto até a data do vencimento dos títulos, em 2032. 

Estes CRAs — títulos vendidos no mercado de capitais com a promessa de remunerar investidores com juros pagos pela devedora — foram estruturados pela securitizadoras Ecoagro, a maior emissora de títulos do agro, e pela Opea. Segundo os documentos obrigatórios dos CRAs, sete dessas emissões — tanto da Ecoagro quanto da Opea — serviram para a compra de gado da MFG, empresa de confinamento que se diz “o maior boitel do Brasil”, isto é, o maior estabelecimento especializado em engorda de bovinos de corte do país.

É nas baias da MFG em Mineiros (GO); Terenos (MS); Campo Novo do Parecis, Campo Verde e Tangará da Serra (MT) e Pereira Barreto (SP) onde ocorre o último estágio antes do envio de animais para o abate em frigoríficos da Marfrig. Entre os fornecedores de gado da MFG estão pecuaristas réus na Justiça por falsificação de documentos fundiários e desmatamento da Amazônia Legal e do Cerrado sem autorização do órgão competente. Alguns também são responsáveis pela pressão ambiental no entorno de terras indígenas.

A Fazenda Gera, localizada em Campo Novo do Parecis, no Mato Grosso, é um dos três principais centros de recebimento de animais da MFG. A fazenda tem capacidade estática de confinar até 26 mil animais. Mesmo recebendo rebanhos de propriedades com irregularidades socioambientais, a Gera se mantém na lista de fazendas habilitadas pelo Ministério da Agricultura e Pecuária para exportação para a União Europeia (UE) em 2025.

Igualmente grandes em capacidade de recebimento de animais estão outros dois centros de confinamento da MFG, as fazendas Flores, em Mineiros, e Bonança, em Pereira Barreto. Pela logística, essas propriedades recebem gado de fazendas do Cerrado, bioma com alto nível de ameaça pela expansão do agronegócio. 

Na outra ponta, nossa investigação revela que a carne processada em unidades da Marfrig nas quais são abatidos animais de origem da MFG é enviada a países do continente europeu, onde é distribuída para empresas atacadistas como a belga Intervlees NV e a britânica GPS Food Group UK LTD. 

A Marfrig está em pleno período de alavancagem, termo do mercado financeiro que significa dar impulso à capacidade de investimento: estruturando dívidas cada vez mais longas — onde entram as emissões de CRAs —, e expandindo suas operações com tentativas de incorporação de outras marcas do setor, como a BRF, que processa carne de frango e suína.

Marcos Molina declarou nas demonstrações financeiras da Marfrig de 2024 que “no pilar ESG [Ambiental, Social e Governança], a Marfrig continua sendo reconhecida e lidera os principais rankings de sustentabilidade, se destacando como a empresa mais bem avaliada em seu segmento”. 

Em 2019, a empresa decidiu buscar títulos de dívida verde, ou seja, investimentos baseados no suposto cumprimento de metas ambientais. Ao elaborar diretrizes relativas a essa frente, a Marfrig declarou a meta de rastrear 100% de seus fornecedores indiretos — que não vendem diretamente para a empresa, mas para fornecedores diretos, como a MFG — até 2025, aplicando um formulário de solicitação de informações para os pecuaristas de quem compra diretamente.

Em 2024, a empresa reafirmou a meta pública de atingir 100% da cadeia de fornecedores indiretos até 2025, declarando ter rastreado “88,8% dos indiretos na Amazônia e 79,6% no Cerrado”.

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Origem: Amazônia desmatada

Um dos exemplos de falhas na cadeia de rastreamento da Marfrig está em Cotriguaçu, no Mato Grosso. É lá que dezenove fazendas formam o conglomerado da família Fabris Gradela. Parte das áreas sofre desmatamento constante desde 2008. De lá pra cá, 2.695 hectares foram devastados a corte raso, o que deixa o solo totalmente exposto ou com pouco resquício de vegetação.

Dentro do período de emissões de títulos de dívida da Marfrig para compra de gado, isto é, a partir de 2019, foram desmatados 876,5 hectares em propriedades dos Fabris Gradela. Segundo os termos de securitização consultados pela reportagem, o dinheiro da captação dos títulos foi usado para comprar gado da MFG, empresa para a qual a família vende parte de sua produção.

Uma das fazendas que abasteceu a MFG em 2024 é a Sanga My, área de 3.766 hectares que faz divisa à margem oeste com a Terra Indígena (TI) Escondido, área protegida de 169 mil hectares onde vivem famílias do povo Rikbaktsa. Outras fazendas da mesma família fazem fronteira com a TI, a noroeste e a sudeste, criando uma zona de pressão ambiental.

Em maio de 2024, Beatris Tormena Fabris Gradela, esposa de Cassio Roberto Gradela, principal dono das propriedades analisadas pelo CCCA, emitiu documentação de envio de 600 animais da fazenda Sanga My para a fazenda Gera, da MFG. 

Outras fazendas de propriedade dos Gradela enviam animais para a Sanga My, cuja atividade agropecuária virou objeto de suspeita do Judiciário.

Cassio Roberto Gradela virou réu após denúncia do Ministério Público Federal (MPF) apontando o uso de documentos fundiários falsos, envolvendo a Sanga My e a fazenda Dom Ângelo, ao sul da primeira. Segundo o MPF, a intenção do pecuarista foi escapar de sanções do Ibama por desmatamento ilegal cometidos na Dom Ângelo.

Na fazenda Dom Ângelo, uma área de 195 hectares foi embargada pelo Ibama em nome de Cassio Gradela pela destruição da floresta entre 2010 e 2012. Segundo o MPF, Gradela apresentou ao órgão ambiental documentos de arrendamento da área, para se livrar da responsabilização da infração, que seria imputada ao real proprietário. No entanto, tanto a situação de arrendamento quanto o RG do suposto verdadeiro dono da área eram falsos, diz a denúncia.

À época do embargo, o Ibama checou as informações de desmatamento em campo, afirmando que “o próprio gerente da Fazenda Sanga My, de propriedade do réu, teria confirmado que a área vizinha (Fazenda Dom Ângelo) era de seu patrão [Cassio Gradela], sendo ele o responsável pelo desmatamento constatado durante uma fiscalização ambiental”.

Só mais tarde, em 2017, a fazenda Dom Ângelo foi comprada oficialmente por Cassio Gradela e sua esposa Beatris.

O desmatamento na propriedade está distante apenas nove quilômetros da TI Escondido. No Brasil, não há legislação para evitar o desmatamento no entorno de TIs. Para Unidades de Conservação (UC), ao contrário, uma faixa adicional de proteção pode ser definida pelos planos de manejo, chamadas de “zonas de amortecimento”.

“A manutenção dos processos ecológicos estabelecidos na área protegida é ameaçada quando não há manejo adequado da zona de amortecimento”, afirma Louise Nakawaga, coordenadora de projetos do Boi na Linha, programa da organização Imaflora em parceria com o MPF. 

A reportagem não identificou transporte de animais da fazenda Dom Ângelo para a Sanga My, embora elas estejam interligadas fisicamente por outras áreas dos Gradela, como as fazendas Santo Antônio e Pirapora. 

Mãe de Beatris Tormena Fabris Gradela, Iolanda Tormena Fabris declarou uma propriedade no Cadastro Ambiental Rural (CAR) em 2014, mesmo estando a área sobreposta a uma Unidade de Conservação. 

O Parque Nacional do Juruena, que fica ao norte da TI Escondido, é de proteção integral, isto é, sua área só pode servir às atividades de uso indireto do solo, como pesquisa científica e turismo ecológico. Mesmo assim, a família registrou o perímetro da fazenda Tucano Amarelo inteiramente dentro do parque, oito anos após sua criação, com 834 hectares de sobreposição.

Em resposta à reportagem, Cassio Roberto Gradela afirmou que “não houve autoria ou participação” dele ou de sua esposa no caso de desmatamento ilegal na fazenda Dom Ângelo e que “não houve, em nenhum momento, qualquer movimentação de gado entre a mesma e as demais fazendas”. 

Sobre a fazenda Tucano Amarelo, Gradela informou que a propriedade foi adquirida seis anos antes da criação do parque, que não realiza atividades na área e que “o registro do CAR foi realizado por tratar-se de uma obrigação legal para todos os imóveis rurais em território nacional”.

Compliance ambiental da Marfrig não filtra fornecedores de Molina

A Marfrig afirma em documentos de conformidade ambiental que é mais rigorosa que a legislação brasileira na hora de escolher seus fornecedores.

Entre as exigências da sua política de compra de gado estão, por exemplo, a obrigação do fornecedor de apresentar o Cadastro Ambiental Rural (CAR).

Captura de tela de check-list das exigências da Marfrig para fornecedores inclui o CAR, ou Rural Environmental Registry, na sigla em inglês (Fonte: Marfrig Sustainable Transition Bond Framework 2019).

Mesmo declarando que estendeu para quase 90% a checagem destes critérios para fornecedores indiretos na Amazônia, a Marfrig deixou passar em seu filtro um pecuarista que coleciona registros de CAR cancelados ou pendentes por irregularidades ambientais.

Walmor José Bianchi, sua esposa Nelivania Nunes dos Santos Bianchi e Fernando Rodrigo Bianchi possuem 13 fazendas entre Juína e Cotriguaçu (MT), a que chamaram de Monte da Vitória e Esperança. Em algumas delas, Walmor cria bovinos, que fornece para a Marfrig. Antes de desembarcarem nos frigoríficos da multinacional brasileira, no entanto, os animais são vendidos para a MFG. 

A família Bianchi enviou, em maio de 2024, 720 animais da fazenda Monte da Vitória VII para a fazenda Gera, da MFG. A Monte da Vitória VII possui pendências no CAR por não apresentar 122 hectares mínimos de reserva legal (RL) de acordo com a sua área, conforme norma do Código Florestal para o bioma amazônico. 

Walmor Bianchi responde na Justiça do Estado do Mato Grosso pelo desmatamento não autorizado em várias áreas da fazenda Esperança I, II e III – cinquenta hectares de vegetação nativa entre 2017 e 2021, e outros 128 hectares em área de reserva legal, com embargo em 2021. 

É da fazenda Esperança II de onde seguem animais para outras fazendas de propriedade dos Bianchi, como a Monte da Vitória VII, que vende rebanhos para a MFG. A reportagem não tem indícios, porém, de que o gado de origem da Esperança tenha sido financiado com recursos de CRAs. 

No ano passado, Walmor Bianchi entrou com mandado de segurança e teve sucesso ao pedir o desembargo da área, a fim de livrar sua fazenda do impedimento de desenvolver atividades comerciais. 

No conglomerado de fazendas chamadas Monte da Vitória, Bianchi soma 500 hectares de reserva legal desmatada, que precisa recompor para regularizar o CAR. Só depois disso ele teria aval, segundo o check-list da Marfrig, para fornecer gado à empresa. 

Fernando Rodrigo Bianchi, que é dono de algumas matrículas da fazenda Monte da Vitória, também possui uma madeireira em Cotriguaçu. A empresa Global Madeiras soma R$ 893,8 mil em multas por infrações ambientais, sendo que, deste valor, R$ 850 mil se devem a uma única infração.

As áreas desmatadas na fazenda Monte da Vitória e os registros de infrações ambientais da madeireira de Fernando Bianchi não impediram que ele fosse homenageado pelo Centro das Indústrias Produtoras e Exportadoras de Madeira do Estado do Mato Grosso, em julho deste ano.

Walmor José Bianchi não respondeu aos contatos da reportagem.

Gado do Cerrado 

Outro bioma ameaçado no Brasil serve de pasto para a matéria-prima dos frigoríficos da Marfrig. 

Ao menos 109 hectares foram desmatados em propriedades do pecuarista Sebastião Antônio de Carvalho localizadas em Caiapônia-GO. Ele é fornecedor de duas unidades de confinamento da MFG Agropecuária. 

A fazenda Sobradinho registrou um desmatamento de 64 hectares de vegetação nativa depois de 2008. Desses, 38 hectares foram destruídos logo após a primeira emissão de CRA da Marfrig para compra de gado da MFG, a partir de outubro de 2019

Desta área, Carvalho enviou animais para outra propriedade sua, distante 37 quilômetros da primeira, em Jataí-GO. Foram mais de 1.100 animais entre 2019 e junho de 2024 para a fazenda recebedora, chamada Torres Campos Eliseos Lug Pontal, que registrou um desmatamento de 45 hectares desde 2008, segundo análise de imagens de satélite feitas pelo CCCA.

Em fevereiro de 2019, saíram da fazenda Pontal animais para o confinamento da MFG em Mineiros, e em maio de 2020, outra leva de animais para a unidade em Pereira Barreto. As duas unidades da MFG estão entre as maiores capacidades de engorda da empresa. 

“O confinamento de Pereira Barreto ficou pequeno aqui em São Paulo, a gente está rodando cheio e full time desde janeiro, com fila de espera para novembro e dezembro”, disse um gerente geral de confinamento da MFG ao AgFeed, em novembro de 2024.

No mesmo período de início da emissão dos títulos, Carvalho entregou ao menos 555 animais para a MFG em Pereira Barreto e em Mineiros. O pecuarista não respondeu à reportagem até a sua publicação. Do Cerrado e da Amazônia para as unidades da MFG, o gado abatido viaja à Europa.  

A ânsia europeia e asiática pela carne do desmatamento

O longo caminho de fornecimento de gado de fazendas na Amazônia e no Cerrado está só na metade. Os mais de R$ 5,5 bilhões arrecadados na venda de cotas de CRAs para financiar a compra de gado da MFG Agropecuária viabilizam a cadeia de exportação de carne para o outro lado do oceano Atlântico, chegando à Bélgica e ao Reino Unido, de onde segue para vários países da Ásia.

Entre os frigoríficos da Marfrig para onde a MFG vendeu gado estão as unidades de Tangará da Serra, a 260 quilômetros de Cuiabá, e Várzea Grande, no entorno da capital mato-grossense. 

A unidade de Várzea Grande já foi da Mato Grosso Bovinos SA, incorporada pela concorrente Minerva Foods em 2017 e assumida em um contrato de permuta de ativos pela Marfrig em 2019. Foi a partir deste ano, o mesmo do início das emissões de títulos de crédito da empresa, que a Marfrig enviou cargas de carne para a Holanda, no porto de Roterdã, uma das portas de entrada de seu produto na Europa.

A importadora é a Intervlees NV, atacadista belga focada em importação de carne bovina de países da América do Sul e da Nova Zelândia. “Temos uma rotação constante de mercadorias de cerca de 15.000 toneladas por ano. Isso significa que chegam cerca de 300 toneladas de carne todas as semanas”, informa o site da empresa. 

Em 2023, a Intervlees alcançou um capital total de 33,4 milhões de euros – equivalente a R$ 215 milhões, segundo a cotação vigente em 4 de agosto de 2025.

A partir de dados de exportação, a reportagem identificou envio de 103,3 toneladas de carne congelada da unidade de Várzea Grande da Marfrig para a belga Intervlees, entre setembro de 2019 e maio de 2022.

A compradora da Marfrig lucra com a distribuição do seu produto para outras empresas. Entre elas, uma distribuidora de carnes portuguesa, a Antonio N Nobrega Ii Ind & Comercio de Alimentos. A distribuidora ibérica tem histórico de compra de gado do desmatamento na Amazônia, em Mato Grosso, como revelou em 2020 uma investigação do Greenpeace.

Exportadoras de produtos da Marfrig que são parte da União Europeia, como é o caso da Intervlees, não podem mais comprar gado e seus produtos derivados com origem do desmatamento. A lei antidesmatamento da UE (EUDR) passa a exigir, a partir de dezembro deste ano, a geolocalização das áreas de origem dos animais, incluindo aquelas em que foram mantidos durante o período de recria e engorda. Vários fornecedores da Marfrig, neste caso, não atendem às regras do bloco econômico.

Produzido por organizações da sociedade civil que acompanham a cadeia de suprimentos da pecuária — o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), Instituto O Mundo Que Queremos e Radar Verde —, um relatório de 2024 aponta que o frigorífico da Marfrig em Várzea Grande possui eficácia da política de desmatamento zero “muito baixa” para fornecedores indiretos. 

“Anualmente, avaliando essas empresas, a gente nota que elas não conseguem comprovar que elas têm controle da origem, porque elas precisam chegar no [fornecedor] indireto”, afirma Camila Trigueiro, analista de pesquisa do Imazon e Radar Verde. “Elas não têm controle da sua cadeia de fornecedores no total”, conclui.

Outro frigorífico da Marfrig, o de Tangará da Serra, recebeu ao menos 35.872 animais entre 2019 e 2024 diretamente da fazenda Gera, o confinamento da MFG em Campo Novo do Parecis.

Nesta época, em outubro de 2023, houve exportação de um container com carne desossada congelada para a GPS Food Group, atacadista britânica com intensas relações comerciais com países asiáticos. 

O percurso da carne do desmatamento começa na Amazônia, segue para unidades da Marfrig em Mato Grosso, e continua em navios para o Reino Unido, de onde é distribuído para os mercados no Oriente. Isso ocorre pelas transações da GPS com empresas como a chinesa Dalian Contico International Trading Co e a filipina Century Pacific Food Inc. Esta última afirma possuir uma política na cadeia de fornecedores que “cumpre totalmente com todas as leis e regulações ambientais locais”.

Mesmo que empresas como a Marfrig ainda não apresentem rastreamento de toda a sua cadeia de suprimentos, Trigueiro acredita que a norma europeia já está movimentando empresas do setor para reduzir irregularidades socioambientais.

“Alguns estados já estão tentando se mobilizar, para conseguirem identificar o seu rebanho, terem essa informação, e aí atenderem a um mercado que é mais exigente”, referindo à União Europeia. “Porque não tem nenhum outro mercado que tenha as exigências socioambientais que a EUDR está trazendo”.

A própria Marfrig sinalizou que a regra da EUDR pode se estender para outro mercado importante, a China.

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O que dizem os compradores

A reportagem questionou as empresas citadas por manter pecuaristas envolvidos em casos de desmatamento entre seus fornecedores de gado. 

A MFG informou que as propriedades de Cassio Roberto Gradela, Walmor José Bianchi e Sebastião Antônio de Carvalho, de onde saíram animais para suas unidades de confinamento, estavam em conformidade com todos os critérios socioambientais da empresa. Ainda informou que não é de sua competência verificar a situação de reserva legal de fazendas de seus clientes, quando indagada sobre os passivos ambientais de Bianchi.

Igualmente, a Marfrig declarou que as propriedades de origem do gado dos três pecuaristas estavam em “plena conformidade” com seus critérios ambientais e fundiários.

Nenhuma das empresas, porém, comentou os casos de desmatamento de seus fornecedores em outras fazendas de sua propriedade que enviaram gado para as áreas de fornecimento direto, como é o caso de Sebastião Antônio de Carvalho. 

Tanto a MFG quando a Marfrig declararam que o nome de Cassio Roberto Gradela não consta entre seus fornecedores, mesmo admitindo a compra de gado da fazenda Sanga My, de propriedade do pecuarista. A investigação destaca que encontrou documentação de trânsito animal da Sanga My para a MFG em nome de sua esposa, Beatris Gradela. 

Responsável pela análise de CAR do Mato Grosso, a Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema-MT) informou que não há plano de restauração das áreas desmatadas em reserva legal nas propriedades de Walmor José Bianchi, uma vez que esta etapa só ocorre após a validação dos cadastros ambientais rurais das propriedades, o que ainda não ocorreu nas áreas da fazenda Monte da Vitória.  

Nenhum atacadista de carnes europeu respondeu aos contatos da reportagem.

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