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“Na América Latina, os governos progressistas assumem a fé colonial moderna”

Em entrevista, o pesquisador argentino Horacio Machado Aráoz afirma que Lula e companhia perderam a capacidade de renovar ideias, e diz que Elon Musk e Bill Gates renovam o ímpeto colonialista do século 16

Estávamos digerindo a duras penas a vitória de Javier Milei nas eleições argentinas, em novembro passado, quando nos sentamos para conversar. Do outro lado da câmera, em Salvador, na Bahia, Horacio Machado Aráoz se questionava sobre o futuro da própria atividade e da ciência em um país governado pela extrema direita. 

“Acho que isso é um sintoma muito claro dos tempos”, reflete o pesquisador do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas (Conicet) e professor da Universidade Nacional de Catamarca, na Argentina. “Como a sociedade assume cotas de inconsciência, com cotas de indiferença, com cotas de distanciamento.”

Aráoz é uma espécie de teórico do colonialismo. Em Mineração, genealogia do desastre (2020), livro que eu traduzi para a Editora Elefante, ele fala da violência como elemento fundante da América Latina, e de como foi essa a ferramenta que garantiu a acumulação capaz de engendrar o surgimento do capitalismo na Europa. 

Cinco séculos depois, temos a sensação de que esses desdobramentos serão eternos. Mas, na verdade, o capitalismo está em fase terminal. Pelo menos do ponto de vista dos recursos naturais que sustentaram esse processo. Nessa etapa, o que resta pela frente é a lucratividade como sentido da vida humana. 

O motivo da entrevista ao Joio era refletir sobre a ideologia do progresso: por que, mesmo diante do esgotamento iminente desse sistema, continuamos apegados à ideia falaciosa de que a humanidade está destinada a uma constante evolução? Para Horacio, uma das razões é que seguimos presos a uma ciência metafísica que ignora a materialidade daquilo que produzimos e consumimos. 

Olhando para as últimas décadas, ele avalia que os governos de Lula, Kirchner e aliados perderam a capacidade de renovar aquilo que oferecem em termos de imaginário sobre a vida. “Os governos progressistas assumem a fé colonial moderna. Eles acreditam que há apenas uma linha evolutiva da humanidade que é dada pela história e pela trajetória científica, tecnológica, econômica e política do Ocidente.”

Confira a seguir os principais trechos da conversa. 


A eleição de Javier Milei e a fé no progresso

A eleição de Milei tem tudo a ver justamente com a forma como essa ideologia do progresso, do desenvolvimento que tem suas raízes coloniais, vem mudando desde o século 16. E para onde e como tem se movimentado. Essa ideia de desenvolvimento, de evolução, começa lá no século 16. Está começando a tomar essa forma moderna. Isso se consolida com [René] Descartes e [Francis] Bacon. 

Nessa ideia do Iluminismo e de uma razão que busca, digamos, controlar a natureza para colocá-la sob o domínio da vontade humana. E que esse império da vontade humana era, é genérico, digamos, quando Bacon o pronuncia. Hoje, é cada vez mais específico, determinado e unilateral. A regra da vontade humana é a lucratividade. 

Então, eu acredito que hoje, nessa fase neoliberal que é a fase terminal, caótica e crítica, um capitalismo que se mostra cada vez mais inviável, a lucratividade é o único horizonte de sentido na vida humana. Isso é um sintoma muito claro dos tempos.

Como a sociedade assume cotas de inconsciência, com cotas de indiferença, com cotas de distanciamento. Temos que nos perguntar quais são as outras sociedades e os outros modos de vida que estão fora do sistema, porque nem todos vivem dentro disso, mesmo aqueles de nós que dizem fazer parte disso, mas temos um olhar crítico. Porém, temos que assumir que o curso hegemônico dominante da dinâmica social vai nessa direção e que está na direção errada. 

Quando a ideologia do progresso se mostra materialmente inviável

É o período pós-guerra, entre os anos 1960 e 1970. É precisamente aqui que assistimos à irrupção de dilemas éticos e políticos que se colocam ao curso do que chamaríamos, entre aspas, o progresso científico e tecnológico. E não por acaso, justamente no âmbito desse período de crise do capitalismo, que vai desde a Primeira Guerra Mundial, a crise de 1929 e a Segunda Guerra Mundial se desencadeia toda uma institucionalização e industrialização do sistema científico e tecnológico que está passando por uma mudança muito, muito forte. É uma parte fundamental do que seria o novo regime de acumulação centrado no planejamento estatal, tanto à maneira keynesiana, digamos no bloco ocidental liderado pela Otan, pelos Estados Unidos, quanto no mundo soviético. 

A ciência aprofunda, então, sua subordinação aos interesses geopolíticos e estratégicos das grandes potências. E, por outro lado, a configuração do aparato militar industrial articula essa convergência entre grandes empresas transnacionais, entre capitais que têm suas sedes nessas grandes potências, mas que começam a transnacionalizar seus processos produtivos. Então a guerra permite uma escala global que assegura o salto disso. Trata-se, digamos, da incubadora sociológica das grandes inovações científicas e técnicas do século passado. Essa estrutura institucional não foi desmantelada. 

Os primeiros alertas dessa inviabilidade são antigos

Mas aí, nos anos 60 e 70, o mundo assiste à irrupção dos grandes avanços, entre aspas de novo, científicos e tecnológicos daquele contexto. A chamada Revolução Verde na agricultura. Já sabemos que é uma revolução preta por causa do petróleo e do uso de todo esse material que obviamente tem origem nos subprodutos da indústria bélica. A corrida espacial, o pouso na Lua e, sobretudo, a corrida armamentista, no âmbito da Guerra Fria e do confronto nuclear. Esses são os grandes avanços científicos e tecnológicos que começam a produzir um forte deslumbramento. 

E também preocupação sobre o que é o curso da ciência, o que é e quem é que decide os rumos da inovação e da pesquisa científica. Há obras emblemáticas: Rachel Carson em 1962, Primavera Silenciosa, e os textos do biólogo Barry Commoner, em 1963, expõem essa preocupação. Tem uma obra chamada Ciência e Sobrevivência, que enfatiza essa preocupação com os impactos imprevistos, indesejados ou minimizados desse avanço científico e tecnológico. Ou seja, há o uso de agrotóxicos e fertilizantes químicos na agricultura, a questão das emissões de dióxido de carbono pela queima de combustíveis fósseis e a questão da radioatividade. 

São os três grandes temas que apareceram como as principais forças poluidoras que, de mãos dadas com o desenvolvimento científico e tecnológico e a industrialização em larga escala de uma sociedade de consumo de massa, causaram isso. Então, em 1970 já há essa preocupação no texto. Ele começa dizendo: “O período da fé inocente na ciência e na tecnologia está chegando ao fim”. É aí que começa o fim. Uma fé ingênua ou uma fé interessada porque hoje a gente sabe que as grandes empresas petrolíferas conheciam os efeitos das alterações climáticas que iriam causar. Isso em 1970. Temos estudos sobre isso. Já se sabia, mas foi deliberadamente omitido. Eu diria que isso é uma fé culposa. 

Em 1972, há também o relatório do Clube de Roma sobre os limites do crescimento. O relatório liderado por Donatella Meadows, do MIT [Instituto de Tecnologia de Massachusetts, universidade dos Estados Unidos]. E fala justamente dos limites do crescimento. Sabemos que esse padrão urbano, industrial, de consumo e de produção de resíduos não é sustentável a longo prazo. Se continuarmos neste caminho, estamos caminhando para uma catástrofe de dimensões imprevisíveis. Na época, esse texto gerou profunda preocupação, e até mesmo entre as elites econômicas e políticas do mundo. Há uma consciência de duas coisas: o esgotamento dos recursos e a capacidade de afundamento da coisa. Assim, torna-se científica e incontestável a verdade de que o crescimento sustentável não é possível, que a ideia de crescimento econômico é contraditória à ideia da sustentabilidade da vida em um planeta finito. 

Também nessa época existe uma outra corrente, que é a economia ecológica. Justamente nessa época, em 1971, Nicholas Georgescu-Roegen escreveu “Economia e a Lei da Entropia”. Nesse texto, ele enfatiza uma questão que me parece ainda fundamental para se pensar.

A economia convencional, a economia política, esta da ciência liberal burguesa, entende e analisa os fluxos econômicos em termos de valores financeiros, mas desconsidera completamente o mundo material e o mundo da energia e os fluxos dessa energia. Isso é o que seria uma ciência metafísica.

Porque ela é abstraída dos processos materiais reais da vida. Não podemos medir a eficiência em termos de valores financeiros, mas sim em termos de eficiência energética e eficiência material. Abre-se, assim, todo um novo campo que continua a ser cada vez mais importante. 

Nesse contexto, já está claro o problema desse credo de um crescimento onde vamos crescer e onde os setores sociais oprimidos ou que estavam fora desses centros de consumo vão poder ser incorporados. Nesse quadro de mobilidade social ascendente, para torná-la uma sociedade ideal de classe média com consumo crescente. 

O conceito de desenvolvimento sustentável nasce contraditório

Cientificamente, temos os argumentos desde a década de 1970 de que isso é uma falácia. Assim, o conceito de desenvolvimento sustentável que foi criado em 1984 nasceu como um oximoro científico. Se entendermos desenvolvimento como um crescimento contínuo e linear dos processos de produção e consumo, isso não é sustentável por sua própria definição. 

E é interessante, em 1974 já havia consciência disso na América Latina. Há um texto escrito por Celso Furtado, grande economista brasileiro, que é publicado na revista El Trimestre Económico, do México, e se chama “O Mito do Desenvolvimento e o Futuro do Terceiro Mundo”. Comentando o relatório do Clube de Roma, ele aponta que os autores mostram que, se a pressão sobre os recursos continuar nessa dinâmica crescente, o sistema tenderá inevitavelmente ao colapso. 

No artigo, Furtado diz: “Permitiu explicitar um fato fundamental que o homem nunca quis enfrentar. É o fato elementar de que o processo de civilização, tal como o praticamos, tem um caráter essencialmente destrutivo. A criação de valor em nossa civilização engendra processos irreversíveis de desorganização do mundo físico. Assim, grande parte dos nossos processos produtivos envolve a transformação da energia disponível em energia não disponível.” 

O que isso significa para os países do Terceiro Mundo? “Isso significa que o estilo de vida produzido pelo capitalismo industrial deve ser preservado para uma minoria. Qualquer tentativa de generalizar esse modo de vida para o resto do mundo levará ao colapso.” É por isso que digo que essa ideologia do desenvolvimento era cientificamente infundada já na década de 1970. O que resta perguntar é: por que ela permaneceu relevante em termos culturais e em termos políticos? 

Justamente nos anos 70 começamos a viver os primeiros governos neoliberais, com o golpe no Chile e as gestões de Margaret Thatcher, no Reino Unido, e Ronald Reagan, nos Estados Unidos. Isso é contraditório? 

Não é contraditório. Em nada. É perfeitamente lógico. E, na verdade, revela qual é a natureza do neoliberalismo, ou uma de suas dimensões-chave fundamentais. Porque naquele pós-guerra, todos os países do Sul global, tanto a América Latina, que iniciava o processo de industrialização substitutiva de importações, quanto a África, que iniciava seu processo de descolonização, havia uma disputa subterrânea Sul-Norte pelo controle dos recursos naturais. Há uma onda de nacionalizações de recursos que está marcando essa disputa. 

E o golpe de Estado, aqui no Brasil, em 1964, e o golpe de Estado, especialmente em 11 de setembro de 1973, no Chile, marcam o início de como as elites do norte tentaram resolver essa crise de recursos. Em outras palavras, o neoliberalismo diz: “Vamos produzir uma reorganização do sistema colonial para garantir as bases de abastecimento e as cadeias de suprimentos desse consumo desigual do mundo, que sempre fez parte do geometabolismo do capital”. 

O capitalismo é o capitalismo colonial desde o início. Quando dizemos colonial, não estamos falando apenas de discriminação racista contra populações, mas também de uma apropriação desigual dos recursos territoriais, das energias vitais dessas populações racializadas. O colonialismo sempre tem essa dimensão de um consumo material, energético, desigual do mundo, elites que se apropriam e consomem o que tiram dos outros. 

Quando Salvador Allende nacionalizou o cobre, em 1971, o Chile era o fornecedor de 47% de todo o metal consumido no mundo. O cobre era um mineral fundamental para as indústrias da época, como ainda é hoje. Mas sobretudo neste momento de construção, o sistema elétrico, os bens de consumo duráveis que foram o emblema desse capitalismo keynesiano, são todos bens intensivos em cobre, podemos dizer. E havia duas empresas americanas que extraíam o metal do Chile e aquelas que processavam cobre nos Estados Unidos. E as minas também, duas empresas americanas. Então, o golpe de Estado é basicamente da cor do cobre. 

Obviamente, uma série de coisas são desencadeadas ali. Mas, no âmbito do neoliberalismo, isso já foi muito estudado pelas ciências sociais e tudo isso começa a ser articulado em um processo de reorganização da divisão internacional do trabalho, que leva ao que vemos hoje. A China como a grande oficina do mundo, onde o capital global se aproveita e explora a mão de obra barata. África e América Latina como grandes fornecedores de matérias-primas. É por isso que estou dizendo que não é contraditório, é lógico. Hoje podemos ver como o neoliberalismo reorganizou essa divisão internacional do trabalho. 

A América Latina foi reprimarizada. Assim, o ciclo neoliberal dos anos 1970 até os dias atuais é um ciclo que produziu uma grande transformação da estrutura social, territorial e produtiva da América Latina. Concentração, estrangeirização e, sobretudo, reprimarização e redirecionamento do nosso comércio com a China. 

Agora nossas matérias-primas vão para a China. Hoje, a grande quantidade de biomassa que sai de nutrientes, minerais e recursos energéticos vai alimentar a China. Isso está tentando mudar um pouco, porque, no contexto da crise energética, a Europa está tentando capturar sol e ar da América Latina para tirá-lo na forma de hidrogênio. 

Mas hoje, o raio-x da estrutura neoliberal do mundo nos mostra isso. Esse neoliberalismo implica um processo de aprofundamento da desigualdade estrutural entre elites cada vez mais concentradas, cada vez mais integradas e que têm o controle das cadeias de extração, transformação, comercialização e consumo. E tudo isso sob a aceleração de uma lógica financeira onde o aparelho produtivo está de alguma forma subordinado ao aparato financeiro. 

A rentabilidade financeira implica uma aceleração dos tempos. Então se coloca dinheiro em um prazo fixo e isso gera uma renda. Agora, o sistema produtivo tem problemas crescentes em como gerar uma renda a partir de um processo material – não de um processo financeiro, que é abstrato. Portanto, a pressão da renda financeira significa que, à medida que ela passa para a economia real, essa economia real tem que acelerar cada vez mais. Ou seja, quando nos anos 1970 sabíamos que tínhamos de reduzir os níveis, reduzir as escalas, reduzir as velocidades de reintegração nos ciclos da vida, a economia neoliberal ou o capitalismo neoliberal está a conduzir-nos a uma dinâmica de aceleração. O que vemos em tempos mais curtos, em volumes cada vez maiores, em infraestruturas cada vez mais gigantescas. Quando deveríamos ter que tirar o pé do acelerador, estamos fazendo o contrário. 

Olhando para os governos progressistas, por que adotaram para si uma modernização conservadora? 

Porque eles são progressistas. Na verdade, esses governos são progressistas. E o que significa ser progressista? Acreditam no progresso, assumem a fé colonial moderna.

Eles acreditam que há apenas uma linha evolutiva da humanidade que é dada pela história e pela trajetória científica, tecnológica, econômica e política do Ocidente. Então, com todas as críticas que eu tenho aos governos progressistas, eles são consistentes nisso. Eles acreditam no progresso e esse é o problema. Progresso é colonialidade, é justamente ignorar o que nos ensina Aníbal Quijano [sociólogo peruano] e todo o pensamento crítico latino-americano. De Celso Furtado. 

Ou seja, esses países estão, entre aspas, no topo não por causa de qualquer superioridade ética, moral, científica, intelectual, organizacional ou política. Mas por uma superioridade militar que se arroga a apropriação desigual do mundo através da violência. Então, tornar-se como eles significa que teríamos que encontrar alguma outra zona de sacrifício para deslocar os custos materiais dessa desapropriação. Por isso, acredito que na década de 1970, quando já se iniciava a crise do modelo de industrialização substitutiva de importações, havia uma discussão na América Latina sobre quais eram os caminhos de desenvolvimento a serem seguidos. 

Então tem várias linhas se abrindo. Nessa época, em 1968, Fernando Henrique Cardoso e Faletto escreveram Dependência e desenvolvimento na América Latina. Rui Mauro Marini escreve Dialética da Dependência. E fala sobre o processo de superexploração. Mas mesmo os autores econômicos mais ortodoxos, como Raúl Prebisch, da Cepal [A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe foi criada em 1948 para colaborar com os governos latino-americanos no desenvolvimento econômico de seus países], começam a dizer que temos que pensar no estilo de desenvolvimento que poderíamos seguir, completamente diferente dos países industrializados. Não vamos conseguir industrializar nos mesmos moldes, temos que buscar outros padrões de desenvolvimento. 

Então temos esse o texto fundamental do Celso Furtado, “O mito do desenvolvimento”, e lá na Cepal muito tardiamente nasceu uma linha de pesquisa que fala sobre estilos de desenvolvimento e começa a perguntar sobre questões ambientais e dizer: “Como podemos realmente garantir níveis básicos de bem-estar para toda a nossa população sem afetar o meio ambiente? Temos que buscar outras formas de desenvolvimento que não as do Ocidente.” 

Esse caminho foi completamente truncado porque foi esmagado pelo ciclo de violência, do terrorismo de Estado que devastou e do ciclo da dívida externa nos anos 1980. E isso abriu caminho para essa reconfiguração neoliberal que estava apenas começando a surgir. No final dos anos 1990 e início dos anos 2000, quando o boom das commodities começou a surgir, houve uma transição. A crise da dívida, nos anos 1990, que seria o Consenso de Washington em 2000, e então chegamos ao Consenso de Pequim. E fala-se do Consenso das Commodities. Falamos do Consenso de Pequim, porque há, de fato, uma sobreposição no eixo econômico da América Latina onde a China começa a desempenhar um papel fundamental. 

O Consenso de Washington foi um conjunto de recomendações imposto em 1989 aos países “em desenvolvimento” por instituições financeiras multilaterais, em especial o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, com apoio do Departamento de Estado dos Estados Unidos. 

O Consenso das Commodities é uma expressão impulsionada especialmente pela pesquisadora argentina Maristela Svampa para expressar o período aberto pela globalização econômica, com uma reabertura da divisão internacional do trabalho que reprimariza as economias da América Latina.

O Consenso de Beijing expressa o amplo predomínio da China sobre os países da América Latina em meio ao boom das commodities minerais e agrícolas. 

O boom das commodities se transforma em ressaca

E onde caímos numa armadilha, a meu ver. Os governos progressistas caíram nessa armadilha porque ciclos de bonança econômica com essa matriz primária de exportação sempre existiram até, digamos, o século 19. E o que Prebisch [da Cepal] está dizendo sobre a deterioração dos termos de troca é que é uma coisa de longo prazo e é uma tendência. Isso não significa que não possa haver períodos curtos em que os preços, as commodities, estão em alta. 

Foi o que de fato aconteceu no ciclo curto entre 2000 e 2013, aproximadamente. Acredito que há aí um efeito pernicioso, uma combinação contingente entre a colonialidade de uma ideologia progressista, um ciclo de mercadorias favoráveis que permitiu uma redistribuição de renda sem afetar a concentração da economia real, e uma vontade de poder – de permanecer no poder – que a tornou mais econômica, em vez de gerar outro caminho que significaria uma disputa pela reorganização da estrutura social e produtiva.  

Foi mais fácil redistribuir renda através da tributação, redistribuir entre aspas. Depois vem essa onda neoliberal, em um momento em que os preços das commodities estão caindo e estamos voltando à crise estrutural que arrastamos desde os anos 1970. Então, politicamente, me parece que justamente o erro dos governos progressistas, para além dessa raiz colonial de origem, é pensar a democratização em termos de integração pelo consumo.

Não há nada mais despolitizado do que o consumo. Assim, os governos progressistas, ao invés de serem antineoliberais, provocaram uma aceleração das subjetividades neoliberais porque configuraram imaginários de subjetividade onde parece que a ideia de bem-estar deve ser integrada a um mercado de produção e consumo. Isso foi possível por um período muito curto, onde de fato era necessário melhorar a renda, os níveis de consumo desses setores populares que vinham de uma crise muito forte. Mas com uma reestruturação dos padrões de consumo e uma reestruturação da estrutura produtiva e, portanto, da estrutura de propriedade. 

O que aconteceu durante os governos progressistas foi realmente catastrófico em termos de concentração e desindustrialização da economia em termos de complexidade tecnológica, e os setores populares participaram de um nível de renda que foi sustentado por pés de barro. Então a crise que eclodiu em 2008 acabou afetando o ciclo de crescimento do capitalismo mundial, detonou em nós em 2013, quando os preços das commodities começaram a cair. Acho que isso expõe o problema do fracasso da estratégia daqueles que estão em governos progressistas. 

A discussão sobre se eles não queriam ou não podiam prever com isso, por que fizeram o que fizeram e não adotaram outro, tudo isso é entrar em um campo especulativo, certo? Imagine a rebelião de junho de 2013 que começa com a crise de legitimidade do governo petista no governo de Dilma e vamos dizer, o impeachment e tudo isso acaba. E em 2015, onde o kirchnerismo pela primeira vez, o peronismo na Argentina, foi derrotado por uma força de direita através da democracia, algo inédito na história política do país. Uma década depois, o que vemos é que essas forças progressistas não têm outra oferta política para nossa sociedade. Continuam acreditando que é possível aprofundar essa matriz extrativista para pegar uma receita tributária e produzir uma redistribuição que hoje poderíamos dizer que é uma redistribuição meramente compensatória, que tem a ver com planos que o próprio Banco Mundial idealizou para estabilizar uma sociedade não só mais pobre, mas muito mais desigual. Esquemas de transferência condicionada de renda, como o Bolsa Família ou o Minha Casa, Minha Vida, são esquemas do Banco Mundial. 

Há uma contradição nisso: como é que esses governos progressistas desenvolvem políticas sociais que aparentemente são as que lhes dão maior legitimidade, mas são políticas sociais desenhadas pelo Banco Mundial? Que não são para modificar a estrutura social em algum grau, mas para conter e gerar o que chamam de governabilidade de uma sociedade cada vez mais desigual, cada vez mais violenta. Esse é o problema de hoje. Então é por isso que nós temos, entre outras coisas, digamos, todo um terreno fértil através do qual esses novos direitistas emergem. Esses direitistas radicalizados.

Temos uma desigualdade crescente e alarmante, acabamos de passar por uma pandemia e o colapso climático já está presente no nosso dia a dia. Por que não conseguimos desarmar a ideologia do progresso?

Eu tratei disso nas discussões que têm acontecido ultimamente sobre o Antropoceno e o Capitaloceno. É verdade que falar do Antropoceno é ultracolonial porque não é toda a humanidade que produziu os efeitos geológicos. É uma parte da humanidade que são as elites poderosas, as elites capitalistas. Então, desse ponto de vista, a ideia de Capitaloceno é mais apropriada. Mas este Capitaloceno não como uma força universal, mas como uma força colonial. É inseparável das políticas racistas e coloniais que foram constitutivas do capitalismo desde suas origens no século 16 até os dias atuais. O colonialismo e o racismo têm sido parte fundamental da dinâmica da acumulação. 

A outra crítica que fazemos a essa ideia do Antropoceno não é apenas que o capitalismo afetou a atmosfera, mas que é também um modo de produção que nos afeta no nível antropológico, ou seja, a própria condição humana também tem sido um campo de poluição.

A poluição não é apenas geológica ao nível da biosfera. As subjetividades também foram moldadas nesse processo de normalização e institucionalização de uma política de violência, o que está por trás das instituições, da propriedade privada e do individualismo competitivo. E da lógica da guerra, da conquista patriarcal da qual sempre fez parte. 

Antropoceno – este conceito coloca a humanidade como responsável por uma nova era geológica, superando as etapas anteriores ao fazer justamente dos humanos os vetores centrais de profundas transformações nos sistemas planetários. 

Capitaloceno – posteriormente, pesquisadores desenvolveram o conceito de Capitaloceno como uma crítica construtiva ao Antropoceno. A ideia é enfatizar que um pequeno grupo de humanos, e não o todo de nossa espécie, é responsável por essa era geológica. 


Em outras palavras, o que David Harvey [geógrafo britânico] está dizendo aqui já foi dito por Rosa Luxemburgo em 1900. A acumulação por espoliação sempre foi algo que acontecia no início, instalando a propriedade privada. Esta desapropriação acontece hoje quando estão a ser instalados megaparques eólicos que expulsam populações que têm outros modos de vida, com níveis de consumo de energia extremamente baixos e que estão a pagar com os seus modos de vida pela apropriação energética que fazem na Europa em nome da sustentabilidade e de uma economia verde. 

O impacto antropológico é baseado em um modelo que nunca foi capaz de prescindir da violência. Traz a violência, digamos, da força econômica do mercado, de uma lógica competitiva em que você é deixado de lado. Mas também a violência do aparato repressivo do Estado que acompanha a lógica da acumulação. E que instala parques eólicos, que cria as condições para que as grandes minas continuem expandindo seu processo de extração, que seus crimes socioambientais fiquem impunes, como em Mariana e Brumadinho. Oito anos se passaram e ninguém foi preso. Assim, as vítimas continuam alugando, morando em casas pagas pela mineradora. Para que a impunidade seja garantida pelo Estado. 

Qual é a subjetividade que se constrói com isso? Uma subjetividade que está atrelada à ideia de que a vida tem a ver com o quanto ganhamos, o que podemos comprar, o que podemos consumir. A dimensão do capital no nível antropológico tem a ver com a erosão do que eu chamo de erosão da sensibilidade vital. Perdemos a capacidade de perceber do que nossas vidas dependem. Estamos desconectados dos fluxos materiais da vida. 

Nós, argentinos, nos preocupamos mais com a taxa de câmbio do dólar do que com os níveis de poluição da água. É um problema cognitivo, mas não entendo o cognitivo como algo intelectual, e sim no nível perceptivo e sensorial. Em outras palavras, o neoliberalismo criou, digo eu, monstros hobbesianos e smithianos. Então, essa ideia de Hobbes e Adam Smith de que a espécie humana é uma espécie naturalmente individualista, naturalmente agressiva, e que se eles não estabelecerem limites nós vamos ter uma guerra de todos contra todos e que o mercado está organizando racionalmente essa guerra de forma pacífica, essa ideia é uma ficção antropológica. 

O homem não é bom nem mau, não é que sejamos naturalmente bons, solidários e que não sejamos. Então, o que nós nos tornamos nesses 500 anos onde a guerra de conquista, onde a apropriação, onde o racismo, onde a discriminação foi o meio de produção, da lucratividade dos setores poderosos e que têm o controle das rédeas do mundo? A lógica neoliberal tem a ver com essa erosão da sensibilidade das subjetividades. 

Não são apenas os economistas que vivem na miopia de olhar para os valores financeiros e não saber a materialidade deles, os nutrientes, os ciclos do carbono, os ciclos do hidrogênio, os ciclos do fósforo, todos nós também. De alguma forma, quando estamos presos à dinâmica da vida cotidiana, onde vivemos apegados a objetos, onde os objetos são o que refletem valor para nós, então também há uma questão de erosão da sensibilidade. 

A vida humana depende da cooperação, depende da solidariedade, depende da reciprocidade. Ninguém pode viver sozinho. Sempre precisamos da ajuda do outro, e essa ajuda gera uma obrigação de reciprocidade. Isso, que é elementar, está completamente esquecido. Essa lógica do individualismo competitivo é concretizada. O problema mais profundo de onde a ultradireita, aqueles homens armados que incitam a guerra, não está tão longe do século 16, quando homens armados vinham em caravelas, para dizer: “Bem, vamos saquear o que podemos saquear e pronto, certo?” 

Nesse sentido, vejo uma continuidade colonial muito forte entre aquela época de conquista e a constituição do habitus conquistador. No Elon Musk, no Bill Gates. Não é por acaso que eles são machos, né? Não por acaso, são homens brancos que têm controle de armas. Então, a lógica do progresso é se decompor as proporções geoquímicas da atmosfera, é produzir uma destruição, não dos ciclos da vida, da biodiversidade, mas a lógica do progresso que vem nos desumanizando. É isso que se apresenta como progresso que está nos matando. É isso que está nos tornando mais bárbaros. O que é civilização? O que é barbárie? Quem são os primitivos? Os primitivos são os que estão destruindo a Amazônia ou são os que ainda estão mantendo a Amazônia e os que estão nos permitindo respirar? É graças a esses povos que estamos respirando hoje. Mas nós os consideramos primitivos.

Por João Peres

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