Foto: Nathália Iwasawa

Mulheres resistem e fazem agroecologia no Polo da Borborema

Há quase 30 anos, sindicatos de trabalhadores rurais fundaram um movimento ímpar no Agreste da Paraíba. Agroecologia é a base da articulação que, hoje, reúne mais de 150 associações comunitárias

Era uma terça-feira do meio de um abril quente quando chegamos no Sítio Caldeirão, na casa de Nina e Givaldo. Na mesa tinha beiju, bolo, frutas e suco. Tudo fresquinho e feito pelas mãos dela. O casal mora num terreno de um hectare desde os anos 90, onde se planta de tudo um pouco: macaxeira, feijão, milho, verduras, batata doce e frutas. 

“Aqui temos manga, caju, jabuticaba, acerola, graviola. Temos pé de café, temos pé de coco, temos ponkan, temos limão. A gente tem o colorau que eu mesma faço. E a gente faz um pouco de verdura para para o consumo de casa”, diz Maria das Graças Domingos Vicente, como foi batizada Nina. 

A propriedade já teve animais de criação, mas hoje o casal se dedica principalmente à produção de frutas, que são beneficiadas ali mesmo, numa casinha onde produzem polpas a partir da colheita. E, como fazem questão de explicar, é só fruta e água, sem conservantes. 


Eles fornecem macaxeira, laranja e manga para o Programa de Aquisição de Alimentos, o PAA, e para o Programa Nacional de Alimentação Escolar, o Pnae. A polpa de fruta é destinada à venda local, mas a casa, como dizem, “está sempre aberta” e dá para chegar com um isopor e comprar direto com eles, como eu mesma fiz. A intenção, porém, é certificar a produção para que possam vender também pelos programas públicos. 

“A gente foi vendo que se perdia muita fruta na nossa região e nem na cidade tem beneficiamento de polpa de fruta. Só quem faz aqui mesmo, quem produz, somos nós”, explica Givaldo Firmino dos Santos. A região a que ele se refere é a Borborema, uma porção geográfica localizada no Agreste Paraibano. 

Estivemos nessa região há quase um ano para entender por que esse território agroecológico se vê ameaçado por aquilo que tem se chamado de transição energética. A visita ao Sítio Caldeirão era importante nesse contexto porque a família conseguiu uma conquista inédita para a região: eles produzem energia solar para o autoconsumo, um modelo chamado de descentralizado. 

São quatro placas instaladas, o que significou uma mudança drástica na conta de energia do sítio. “Nós pagávamos em média R$ 500 de energia. Hoje a gente paga R$ 180, até menos. Estamos em busca de complementar com umas quatro placas pra ver se consegue zerar a energia”, argumenta Givaldo.

O casal foi contemplado por um projeto do Comitê de Energias Renováveis do Semiárido (CERSA), e a instalação das placas aconteceu em 2021. Eles têm uma demanda alta de energia por conta dos freezers que usam para o armazenamento das polpas, que precisam de refrigeração 100% do tempo. Todo esse processo, da conquista das placas fotovoltaicas, foi mediado pelo Sindicato de Trabalhadores Rurais e Agricultores Familiares de Esperança (STRAF-ES), que faz parte do Polo da Borborema. 

“Sair de trás do birô”

O Polo é uma associação entre 13 sindicatos de trabalhadores rurais e dezenas de associações de agricultura familiar do interior da Paraíba, uma região de clima Semiárido, onde o imaginário sobre a seca e a pobreza predomina como discurso único e infalível. 

Por isso, falar em agroecologia em um lugar em que a falta de chuva é uma constante pode, num primeiro momento, soar estranho aos ouvidos. Mas a produção de alimentos é uma realidade – e uma necessidade – das famílias da região, principalmente visando à subsistência. A resiliência para lidar com o bioma fez com que os conhecimentos sobre agricultura fossem passados de geração em geração, uma herança que a juventude carrega, hoje, com orgulho. 

Gizelda Beserra lembra que o Polo da Borborema começa com a articulação entre três sindicatos. “E a maioria das pessoas que estavam na diretoria naquela época vinha também de movimentos, movimentos sem-terra, da Igreja Católica e da própria luta, junto com Margarida Maria Alves”. Gizelda é agricultora e vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Remígio, além de compor a coordenação política do Polo.

“Então a gente olhava no geral e dizia que a coisa estava perdida. Mas quando a gente saiu de trás do birô do sindicato e foi para dentro da propriedade, a gente descobriu que a gente não estava enxergando nada”

O movimento começou em 1996 entre municípios vizinhos: Remígio, Solânea e Lagoa Seca. Nesse momento, havia um interesse em conhecer o território, entender as nuances entre as microrregiões e as diferentes tecnologias sociais usadas em cada comunidade. Euzébio Cavalcante de Albuquerque, presidente do Sindicato de Remígio e do Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural Sustentável, explica que foi feito um diagnóstico nas comunidades, onde eles descobriram “tesouros”. Eles queriam entender o território – conhecê-lo.

Que tesouros eram esses? “Muitas experiências bem-sucedidas feitas por famílias até analfabetas, mas que sabiam como guardar uma semente, que sabiam como não usar o veneno, que sabiam como cuidar de plantas nativas. E sabiam por que escolher essas plantas nativas para ter perto de casa. Que sabiam encontrar água. Então a gente olhava no geral e dizia que a coisa estava perdida. Mas quando a gente saiu de trás do birô do sindicato e foi para dentro da propriedade, a gente descobriu que a gente não estava enxergando nada”, diz Euzébio.

O conhecimento dessas famílias é único e extremamente valioso para a convivência com o Semiárido. Então, sair de trás do balcão – o birô – do sindicato era necessário para que a articulação política andasse em consonância com a realidade rural da região. 

Esses intercâmbios entre comunidades culminaram em um seminário, em 2001, onde agricultores e agricultoras se encontraram e puderam trocar experiências. Para Gizelda, “aprendemos no caminhar a fazer um sindicalismo diferente”.

“A gente antes era visto como os coitadinhos, as pessoas que sofrem, as pessoas que não sabem de nada. É tanto que eu, como uma agricultora que morei no sítio por bastante tempo, vinha para a cidade e sofria muito”, desabafa a vice-presidente do sindicato. “Porque para o pessoal da cidade era para gente estar suja, não era para estudar.”

O “pessoal da cidade” também ia na roça ensinar os agricultores a fazer agricultura. Na verdade, ainda o fazem por meio da Assistência Técnica e Extensão Rural, a Ater, um mecanismo do governo federal para dar subsídio técnico a agricultores e agricultoras. Mas, em muitos casos, a Ater chega sem uma construção de base com a comunidade, sem um conhecimento de convivência com aquela terra. 

O que acaba tornando a assistência uma forma de colonizar o pensamento e os modos de fazer ancestrais daquelas famílias. Gizelda lembra que na época em que era mais nova e ainda não existia o Polo, a  Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) chegava no território “mandando” nos agricultores. 

Agir na base é um princípio fundamental do Polo. As pessoas que estão à frente dos sindicatos são, antes de tudo, agricultoras. Então, o reconhecimento sobre as demandas das comunidades se dá de forma mais orgânica e efetiva. O Polo conta com a assessoria técnica da AS-PTA, uma organização da sociedade civil com sede em Paraíba, Paraná e Rio de Janeiro que trabalha pelo fortalecimento da agroecologia e das comunidades rurais. 

Gizelda faz questão de explicar os limites dessa atuação: “A gente faz uma reflexão que foi feita naquela época [em que a AS-PTA chegou], que a AS-PTA tem um papel, e nós temos outro. Quem tem que coordenar, quem tem que animar e puxar o cordão não é a AS-PTA, é o Polo, somos nós do sindicato.” Ela lembra que a AS-PTA chegou diferente da Emater, ouvindo e respeitando o conhecimento que sempre existiu ali. 

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Ferramentas de luta 

“Nesse contexto aí em nosso território agroecológico, houve um aumento da agricultura familiar e sua diversidade na produção de alimentos. Então, com a cisterna calçadão e com a recuperação do solo e dos riachos, todos começaram a produzir mais”, conta Gizelda. 

A cisterna calçadão é uma tecnologia usada para a captação da água das chuvas, um mecanismo desenvolvido no âmbito do Programa de Cisternas do governo federal, em 2003. A ferramenta é literalmente um calçadão de concreto, de 200 metros quadrados, no qual a superfície funciona como uma área coletora de água, que escoa para a cisterna de 52 mil litros. Diferentemente da cisterna de placas, de 16 mil litros, que é usada para o consumo familiar, a calçadão visa à produção de alimentos. 

Cisterna calçadão. Foto: Camila Boehm/Agência Brasil

Uma vez que os agricultores conseguem aumentar a produção com a chegada e o fortalecimento dessas tecnologias sociais, são necessários caminhos para escoar os alimentos. Foi nesse momento que as feiras agroecológicas ganharam corpo na região. Hoje, elas estão presentes em oito municípios, e são organizadas pela Ecoborborema, uma Organização de Controle Social credenciada pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). A Ecoborborema garante que os alimentos vendidos nas feiras são orgânicos por meio de processos de certificação participativa. Nesse método, as próprias comunidades se fiscalizam e aprendem juntas.

O movimento da feira da Ecoborborema, em Campina Grande, começa cedo, às 4h da manhã. Foto: Nathália Iwasawa

A Ecoborborema, porém, não tinha condições organizativas e legais para participar de programas públicos e outros sistemas de venda direta. Então, o Polo decidiu criar a CoopBorborema – para “fortalecer os espaços do mercado agroecológico que nós já tínhamos”, conta Gizelda. Além das feiras agroecológicas, o Polo tem a Quitanda Regional, que fica na sede da AS-PTA, no município de Esperança, e funciona como um centro de distribuição, e tem as Quitandas Municipais, que funcionam localmente. Além disso, hoje, o Polo se movimenta com a venda de produtos para outras organizações da Paraíba e de Pernambuco.

“Temos vários desafios, mas também são muitos aprendizados. Depois da CoopBorborema, a gente aumentou a circulação dos produtos”, conta Gizelda. “Estamos beneficiando os derivados de milho, como vocês viram, que é o flocão, o xerém e o fubá.”

Os produtos da paixão, como são chamadas as joias produzidas pelas famílias do Polo da Borborema, levam esse nome porque derivam daquilo que é mais precioso pro agricultor: as sementes crioulas, aquelas que são selecionadas de safra em safra e guardadas para o próximo plantio. No Polo, existem bancos de sementes comunitários, que são casinhas para armazenar e organizar os tesouros. 

Mulheres na linha de frente contra os empreendimentos eólicos

As mulheres são protagonistas nessa luta e não é de hoje. Margarida Maria Alves, a agricultora e sindicalista paraibana de Alagoa Grande, foi assassinada pelas mãos de latifundiários na frente de casa, em 1983. Ela foi uma grande defensora dos direitos humanos e hoje é um dos grandes exemplos de resistência que inspiram o movimento de mulheres do Polo da Borborema e tantas outras lutas do campo.

Quando alguém vai bem, toda a comunidade anda junto e aquilo que é entendido como desenvolvimento não tem lugar para pousar. 

No último dia 15 de março saíram às ruas cinco mil mulheres em Areial, na Paraíba, organizadas pela Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia, em sua 15ª edição. Este é o terceiro ano consecutivo que a Marcha tem como tema a luta das mulheres da Borborema contra as energias renováveis, principalmente a eólica, da qual falamos aqui no Joio em podcast e em reportagem

15ª Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia em Areial, Paraíba. Foto: Túlio Martins/Arquivo AS-PTA

Os parques eólicos estão se instalando em comunidades rurais da Caatinga, provocando danos socioambientais imensuráveis. Gizelda conta que, durante as obras para a construção dos empreendimentos, muitos forasteiros chegam nos territórios. Então, além de a vegetação ser suprimida, a fauna ser ameaçada, estradas serem abertas, a população ainda se vê ameaçada por essa presença de homens desconhecidos. 

“Tem a questão da prostituição e o assédio às filhas e filhos de agricultores. Então, muitas mulheres ficam grávidas desses homens”, explica Gizelda. “Lá na comunidade eles engravidam e vão embora. Aí são chamados de Filhos do Vento. Porque o pai vai embora.”

Como na zona urbana, no campo há perigos diferentes para mulheres. Por isso elas estão organizadas a partir de pautas próprias. São elas que, além de fazer o trabalho doméstico comum, ainda cuidam dos quintais produtivos e da porção da propriedade mais próxima à casa. São elas que fazem a gestão da água e da alimentação da família. Ao mesmo tempo, são as que sofrem assédio e violência doméstica.

A Marcha surge em 2010 exatamente a partir desse olhar. Gizelda se orgulha do movimento que ajudou a fundar. “Essas mulheres estão na marcha sabendo por que estão marchando, sabendo o que estão reivindicando e o tema que a gente está pautando.”

A solidariedade é algo onipresente nos lugares por onde passamos durante a apuração. O desejo de trocar, de ver o outro prosperar, também. Porque, quando alguém vai bem, toda a comunidade anda junto e aquilo que é entendido como desenvolvimento não tem lugar para pousar. 

“A gente vai plantando sementes naquele chão, né? E as sementes vão tendo frutos, frutos de consciência política, sabendo o que está fazendo, que também compreende que tem um sindicato forte no seu município, que também não está só, a comunidade não está só”, completa Gizelda. Não é possível dizer que o Polo da Borborema resistirá para sempre às investidas de empreendimentos como o da energia eólica, mas que a articulação é forte e está pronta para o enfrentamento, isso é verdade inconteste. 

Por Nathália Iwasawa

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