Arte: O Joio e O Trigo; Fotos: Michael Dantas

‘O filho que ninguém quer’: Balbina, o elefante branco da Amazônia 

, de Balbina e Manaus (AM)

Quase 40 anos após a construção da hidrelétrica, comunidades enfrentam insegurança alimentar e falta de energia elétrica e de água potável. Sem reparação histórica, os impactos chegam à quinta geração de atingidos

Balbina era um sonho para Antônio Jorge Martins, mais conhecido como Carroça, que acompanhava de perto, sem energia nem saneamento básico, a construção da hidrelétrica. A promessa de moradia digna, trabalho e qualidade de vida, bem como a abertura de estradas para servir à execução da obra, significava avanço principalmente para seu pai, que já morava ao derredor e trabalhava nas obras no início da década de 80.

Essa felicidade logo se desfez, durando só até a finalização da obra para quem vive às margens do rio Uatumã, em Balbina, cidade localizada a 80 quilômetros de Presidente Figueiredo e a 200 de Manaus. Bastou a hidrelétrica começar a funcionar, em 1989, para que o sonho virasse um pesadelo.

“Não conversávamos sobre o impacto. Nessa época era uma coisa de grande relevância que ia trazer emprego e geração de renda para todo o município. Só que aí é o seguinte: veio o maior desastre ecológico ambiental do Amazonas”, conta Carroça, que é fundador e morador da comunidade São Jorge, no Ramal da Morena.

O funcionamento da hidrelétrica começou com o represamento do rio para encher o reservatório. Nesse processo, 3 mil quilômetros quadrados de florestas de igapó e terra firme foram para baixo d’água, transformando os antigos cumes da região em um labirinto de mais de 3,5 mil ilhas. Até aquele momento, quem vivia a jusante (abaixo) não mensurava o que estava por vir: foi apenas quando as turbinas começaram a girar e a liberar água que Carroça entendeu o verdadeiro impacto da hidrelétrica. 

“Quando abriram as comportas, minha amiga, morreu tudo quanto foi peixe, passou seis anos para você ver uma piaba, e quando veio foi aquele [peixe] jacundá.” Carroça, aos 69 anos, ainda lembra bem do cheiro de água podre que emanava da decomposição dos animais e das árvores. Morando a cerca de 20 metros do rio, ele precisou conviver com o cheiro por mais de seis meses seguidos.

“Tinha um buraco aí para dentro, aí eles [chefes da Eletronorte] pegavam os barqueiros e enchiam de peixe, cento e poucas canoas daquelas grandonas, colocavam nas caçambas, jogavam naquele buraco e enterravam.” 

Balbina nasce da “ordem e progresso” da ditadura militar como parte do II Plano Nacional de Desenvolvimento, lançado em 1974 pelo general Ernesto Geisel com a promessa de fornecer energia elétrica à Zona Franca de Manaus. Na finalização das obras, a herança construída já não era motivo de orgulho nem mesmo para a Eletronorte, que resolveu não anunciar publicamente o início da operação, em 1989.

Com um financiamento de um bilhão de dólares dos cofres públicos, o equivalente a R$ 20 bilhões de reais em 2026, a usina nunca gerou energia suficiente para atender Manaus, que atualmente consome até oito vezes mais que os 250 megawatts que a usina propusera gerar. 

O registro histórico do Operador Nacional do Sistema Elétrico mostra que a média de produção de Balbina sempre esteve muito abaixo do esperado. Em 2016, por exemplo, gerou apenas 55 megawatts. No ano passado, foi o dobro, 110 megawatts, mas ainda muito distante da projeção inicial.

Décadas depois, Balbina segue ineficiente. O que sobrou para as dez comunidades ao longo do rio Uatumã foram a falta ou uma grande instabilidade no fornecimento de energia elétrica. Falta de saneamento básico, de indenização e de titulação das terras completam a lista de problemas. 

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Beleza ou ilusão? 

Ramal da Morena e rio Uatumã a jusante da hidrelétrica. Foto: Michael Dantas

Quem visita o lago de Balbina e avista a estrutura da hidrelétrica no meio do rio, encontra beleza na planície tomada pelo Uatumã. Aos fins de semana, turistas realizam pesca esportiva do tucunaré, se hospedam nas pousadas e comem em restaurantes locais. Mas poucos sabem que, no exato lugar onde está fincada a hidrelétrica, há uma cachoeira submersa. 

“Aqui onde chamam de usina hidrelétrica é em cima de uma cachoeira chamada Caldeirão, além de ter o vulcão”, explica Carroça. “Lá era fundo e eles estouraram, mudaram o curso da água. Dali da hidrelétrica para baixo tem mais uns cinco prédios para baixo [de fundura], vai embora, tinha a laje e a queda [d’água].” 

A área do rio Uatumã guarda o vulcão Amazonas, considerado o mais antigo do mundo, com cerca de 1,8 bilhão de anos, conforme estudo publicado na revista científica Journal of South American Earth Science. 

Próximo à cachoeira havia muitos seringais, onde Carroça andava com o seu amigo Mão Branca para tirar borracha. O mesmo amigo, já falecido, foi indenizado em apenas 150 mil cruzeiros pela Eletronorte, um valor considerado baixo na época. “Eu disse de bom tom, ‘os rapazes estão lhe roubando’, e ele disse ‘não estão nada, rapaz’”.

Mantendo uma antiga relação com a região, Carroça é um maranhense que chegou no Amazonas em 1973 para trabalhar no Centro de Operação de Guerra fazendo a segurança dos trabalhadores durante a construção da BR-174 e da estrada de Balbina. Depois, trabalhou como policial e passou a visitar conhecidos da região, até se mudar de vez para o Ramal da Morena e fundar as primeiras comunidades na área, onde vive até hoje. 

Para Carroça, a morte de milhares de árvores de madeira de lei sem aproveitamento nenhum foi premeditada. Ele conta que os funcionários da Eletronorte garantiam que haveria a retirada da madeira antes do enchimento do reservatório, mas a promessa nunca foi cumprida. Embora já desconfiasse de que a área alagada seria maior do que o anunciado, ele não imaginava a dimensão. Por causa da topografia plana da região, a água se espalhou por uma área gigantesca, transformando Balbina em uma das maiores emissoras de metano dentre as usinas hidrelétricas da Amazônia e do mundo.

“Além do cedro e do mogno, que tinha demais lá em cima, alguns anos depois foi dito que vinha uma empresa para tirar esse cedro, que era para fazer móvel, aquele negócio todo, e não veio. E sabe-se que a castanheira, o cedro, o mogno e a borracha apodrecendo ali [no rio] viram uma estufa de grande veneno para a água”, diz. 

Seringueiras, Cedro e Mogno apodrecem lentamente liberando gases efeito estufa para a atmosfera. Foto: Michael Dantas

Projetada para ser uma grande geradora de energia, Balbina fracassou. Atualmente, a geração  em megawatts é 42 vezes menor que a de Tucuruí, segundo a Comissão da Verdade de Balbina, criada em 2025 para apurar danos e propor ações de reparação, integrando  representantes da sociedade civil, universidades e a Defensoria Pública do Estado (DPE). Os paliteiros — ou melhor, as árvores mortas, como o cedro e o mogno — agora fazem parte do roteiro de quem está turistando, sendo cobrados até R$ 150 por lancha só para chegar até eles. 

Basta se aproximar da floresta morta para notar a mudança de coloração da água para um tom esverdeado, cada vez mais forte conforme a lancha se aproxima, o que revela, após quase 40 anos da criação do lago, a lenta decomposição da madeira. 

Esse processo também representa para Carroça a deterioração da sua relação com o rio, que foi morrendo junto da paisagem. “A gente não ia mais para o rio, iríamos fazer o quê lá? Era uma podridão do caramba”, exclama.

O contraste do antes e depois do Uatumã o fez questionar as decisões tomadas pela Eletronorte através de dois assistentes sociais e um chefe da estatal. Carroça relata que a versão oficial era de que, se faltasse água, mandariam trazer de fora. 

Outra de suas reclamações foi sobre o destino da madeira nobre, retirada pela Andrade Gutierrez a mando da Eletronorte.

“A madeira ia toda para o fogo. Eu questionava o pessoal da Eletronorte por que não botavam a madeira para as pessoas fazerem as casas. Queimavam para não doar. Era madeira para fazer móvel para levar para São Paulo. A própria Eletronorte fazia isso”, relata.

Carroça afirma que os questionamentos lhe renderam ameaças de morte e tentativas de assassinato, além de perder a possibilidade de ter uma das casas deixada pela Eletronorte ao fim da obra. “Tentaram me matar duas vezes aqui dentro para calar minha boca. Tinha um cara que tirava ouro lá em cima e ele foi um dos que foram mandados pela empresa para me fechar. Passou três dias querendo me encontrar. Quase matou o meu cunhado pensando que era eu.”

Cemitério de árvores de Balbina virou ponto turístico. Foto: Michael Dantas

A fome do ‘desenvolvimento’

Os impactos não ficaram apenas na mudança de paisagem e na falta de indenização. Eles se estenderam para a principal fonte de carne na Amazônia: os peixes. A memória de Carroça guarda lembranças das observações que fazia na beira do rio. “Eu cansei de ver oito surubins marchando aqui na reta do sol. Bem aqui tem uma pedra grande, que você olhava com a claridade do sol e via tudo lá dentro. Via umas lajonas e o peixe lá dentro só na manha”, conta, apontando para o rio. 

Ele recorda também de não se preocupar com comida. “Eu cansei de, por exemplo, botar a malhadeira no igarapé de manhã cedo e vir trabalhar. Quando dava nove horas eu ia lá e estava cheio de peixe, levantava, tirava o peixe para almoçar e jantar e tirava a malhadeira porque não precisava mais. Era peixe demais.” 

Muitos passaram a caçar em outros lugares ou a comprar comida na cidade para sobreviver quando a podridão tomou conta. 

“O pessoal que caçava tinha que pegar a mata central porque o animal, aqui, não vinha. Á água não estava boa e o animal não vinha beber. A paca, a cutia andam na beira do rio pra pegar algumas coisas, frutas e tal, mas esse tipo de animal sente [o mau cheiro] e vai embora, ele já sabe que tem perigo.” 

Caroline Monteiro, coordenadora do Movimento de Atingidos por Barragem (MAB) do Amazonas e moradora desde criança do Ramal da Morena, é uma das principais lideranças da região. Ela é da terceira geração de atingidos em sua família. Assim como Carroça, ela também recorda da fartura: antes da UHE os peixes pulavam para dentro da canoa e ela recolhia quando ia esgotar a água, chegando a encher um balde sem precisar pescar. 

Depois da hidrelétrica, além da escassez de peixe ela se deparou com a falta de água potável. “Uma tentativa que eles fizeram para remediar foi furar poços em algumas comunidades, em algumas residências. A Andrade Gutierrez chegou a furar esses poços. Só que, quando encheu [o rio], alagou todos os poços e as águas se contaminaram. As pessoas ficaram com problemas de pele, tiveram problemas gástricos, ou seja, a água ficou imprópria para banhar, para beber, para cozinhar”, denuncia.

No quintal de Caroline, o poço construído pela Andrade Gutierrez a cerca de dez metros do rio permanece do mesmo jeito desde que o entregaram: sem utilidade. Doenças como febre amarela e malária se alastraram com o desmatamento gerado pela construção. 

Até os dias atuais, ter água potável ainda é uma dificuldade das dez comunidades diretamente impactadas pela hidrelétrica ao longo do rio. Conforme Caroline, análises recentes da qualidade da água dos poços, realizadas pela Fiocruz em parceria com o Movimento de Atingidos por Barragens (MAB), revelaram que todos são impróprios para consumo humano. 

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Quem manda no pulso de inundação?

No fundo do seu quintal, Caroline Monteiro mira o rio. Caminhando pelas bordas do terreno, observa que o barranco cedeu mais, o trapiche (plataforma de madeira sob a água) e a escada que há ali já estão sendo engolidos mais uma vez pelo assoreamento e pelo controle artificial do fluxo do rio exercido pela hidrelétrica. 

“Isso acontece todo dia, ele [rio] seca e enche todo dia, então o nutriente que era pra ficar, não fica. O barranco vai cedendo. O barranco era maior, a gente tinha o trapiche, o jirau nem dá para ter mais. A gente está tentando botar mais barreira, isso aqui é uma tentativa de barragem que a gente está fazendo para ver se segura a terra”, diz, apontando para as madeiras segurando o solo. 

Diferente do fenômeno das terras caídas em rios de água branca, como o rio Amazonas, marcado pela frequente queda de sedimentos das margens, o Uatumã é considerado um rio de água preta, arenoso e pobre em nutrientes. Isso significa que o desbarrancamento de suas margens não ocorre de forma natural e o seu pulso de inundação foi mudado completamente.

“Tanto que os barrancos de terras caídas são em um rio muito forte, em um rio novo. Isso aqui é um rio velho. A água escura, ela é uma água velha, ela é uma água antiga. Olha o que está acontecendo”, complementa Caroline. 

De manhã, as águas são mais calmas e baixas, descendo o nível ao longo do dia. Quando a noite se aproxima, o rio começa a ficar mais rápido e a subir rapidamente: não são centímetros, são metros.  

Caroline Monteiro nos fundos de seu terreno, atingido pela erosão e pelo desbarrancamento resultantes dos impactos da UHE Balbina no Ramal da Morena. Foto: Michael Dantas

“A gente está falando de dois, três metros a mais. Aí tem as consequências. Vai assoreando a terra, vai desbarrancando. A gente não tem mais as muitas praias onde desovavam os tracajás, as tartarugas. As praias que existiam, o rebojo leva, a água, essa alteração cíclica de subir e descer todos os dias vai levando as areias.” 

Caroline, assim como outros moradores, perdeu a liberdade de tomar um banho na beira do rio sem se preocupar com o fluxo da água. Tampouco se consegue construir nas bordas. 

Sem energia ao lado da hidrelétrica 

Na comunidade Fé em Deus, Humberto Ferreira, de 61 anos, começa a arrumar suas coisas para atravessar para o outro lado do rio antes das cinco da tarde. O percurso leva cerca de 15 minutos no motor de 15 cavalos, mas é desafiador: as águas não parecem mais as mesmas, o rio se agita e forma muitos redemoinhos, corre mais rápido, a canoa balança, parte da água entra e ele precisa fazer uma curva arriscada. 

Humberto pilota em direção à comunidade Fé em Deus à margem direita do rio Uatumã. Foto: Michael Dantas

Mas por que Humberto está atravessando em direção ao Ramal da morena, se sua casa fica ali mesmo, na comunidade? Porque, embora ele viva ao lado de uma hidrelétrica, não tem energia na própria casa. 

O processo de mudança gradual vivido por Humberto também ocorreu com boa parte de quem vive hoje no Ramal da Morena: muitos são antigos moradores da comunidade Fé em Deus. Criado para permitir a passagem das turbinas durante a construção da UHE, o Ramal da Morena tornou-se uma área habitacional ao acolher ex-comunitários da Fé em Deus, que buscavam melhores condições de vida, como acesso à energia, escola e água potável, e ex-trabalhadores da hidrelétrica, que ficaram sem moradia após a conclusão das obras. 

Na outra margem, na comunidade São José, um amigo cedeu parte do terreno para abrigar a família de Humberto à noite, em uma casa improvisada para acolher o filho, que possui Transtorno do Espectro Autista (TEA) e exige cuidados redobrados. 

Ao guiar a equipe de reportagem no terreno da sua casa sem energia, a primeira coisa que Humberto relata é que não consegue deixar a canoa atracada na beira sem se preocupar. “A gente deixa a canoa aí e vai trabalhar lá em cima, tem roça no fundo. Tem que vir de vez em quando dar uma olhada aqui, que quando enche muito a corda fica curta e a canoa não sobe.” 

Ele ri da situação pelas inúmeras vezes em que esquece algo próximo da beira. “A gente está por aqui e vai lavar roupa [no rio], né? Mas se você deixar um balde de roupa naquele trapézio de ferro lá e sair um pouco para andar dentro do sítio, quando voltar já foi embora. Você pensa que alguém levou. Você passa duas horas para dentro e o rio enche em questão de uma hora e seca em questão de uma hora também. Você chega e está tudo molhado. A água já foi embora”, explica. 

Humberto em seu terreno, às margens do rio, onde constantemente perde pertences devido à subida e descida abrupta das águas. Foto: Michael Dantas

Na picada subindo em direção à casa, ele avisa: não tem muita coisa e, sem energia, nem vale a pena ter. Para mostrar o lugar, ele pega uma lata velha de leite em pó e preenche com óleo e um pouco de algodão para acender uma chama. Para viver ali, só se for à moda antiga.

“Eu vim várias vezes andando da boca do ramal para reunião [sobre energia] aqui, conheci um rapaz [da concessionária de energia] e ele falou: ‘Nós estamos vendo sua necessidade, mas não tem condição de atravessar uma energia de lá para cá’.” 

Humberto diz que a principal justificativa da Âmbar Energia (antiga Amazonas Energia) para levar energia até a comunidade é o “custo alto” devido à distância entre as casas e à quantidade de habitantes.

Desde que teve início a onda de privatizações, atribuir as responsabilidades dos problemas energéticos no Ramal da Morena ficou cada vez mais difícil para os impactados. Tudo começou em 2018, quando no governo de Michel Temer a Eletronorte leiloou a Amazonas Energia, vendida ao grupo Oliveira Energia-Atem. 

Com a privatização, a Amazonas Energia acumulou R$ 13 bilhões em dívidas, gerando risco de colapso e apagões no Amazonas, o que fez com que a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) e órgãos reguladores aprovassem a transferência da concessão para a Âmbar Energia. A empresa, do grupo J&F, dos irmãos Joesley e Wesley Batista, notórios pelo envolvimento em escândalos de corrupção na JBS, assumiu formalmente a gestão do serviço no Amazonas em abril de 2026. 

Além das trocas na concessão de energia no Amazonas, houve também a privatização da Eletrobrás e da subsidiária Eletronorte, hoje sob a marca Axia Energia. Tudo isso gerou uma confusão institucional que vai das inúmeras placas com logotipos extintos no Ramal da Morena ao constante “empurra-empurra” de responsabilidades entre as companhias. 

Humberto, que ocupa o terreno desde 2012, lembra que a área já abrigou 60 famílias. Hoje, pela falta de eletricidade, apenas dez permanecem continuamente. “Muitos não fazem nada porque não tem energia. Aqui tudo é sítio, cheio de fruteira”, lamenta. 

Mesmo com um terreno de dois mil metros quadrados de fundo, ele não produz muito pela impossibilidade de armazenamento devido à falta de energia. Ele até parou de pescar para vender e agora faz bicos como pedreiro para complementar a renda.  

“Quando tem fruta eu tiro para mandar para Manaus”, afirma. O escoamento depende de um ônibus que passa apenas duas vezes por semana. Sem refrigeração, Humberto precisa colher a produção horas antes do embarque. Além da corrida contra o tempo, nem sempre há espaço suficiente no veículo para transportar tudo. “É tucumã, cupuaçu, açaí, a gente tira e pensa que o ônibus vai levar. Se você tirar dez sacos de açaí, dez sacos de cupuaçu, o ônibus vem cheio e você vai ficar só olhando.”

Ele sonha com o dia em que terá a regularização de sua terra para conseguir crédito bancário e a compra de insumos básicos para a produção, como um gerador e uma embarcação maior. A falta de regularização fundiária é um problema generalizado no Ramal da Morena, bloqueando o acesso dos produtores a políticas públicas.

Perguntada sobre a ausência de eletricidade na margem direita, a Âmbar Energia informou que a malha atual atende a “critérios técnicos e regulatórios” e que a expansão depende de “estudos de viabilidade técnica, da capacidade do sistema existente e do enquadramento nos programas de universalização”. A concessionária acrescentou que “existem projetos previstos no âmbito desses programas que poderão contemplar o atendimento da região nas próximas etapas de implantação”, sem estipular prazos ou garantias de execução.

A Âmbar reforçou que o empreendimento não atende diretamente o município: “A Usina Hidrelétrica de Balbina não realiza o abastecimento direto do município de Presidente Figueiredo e da Comunidade de Balbina. A energia gerada é injetada no Sistema Interligado Nacional por meio da rede de transmissão enquanto a distribuição aos consumidores é realizada conforme a configuração e a operação desse sistema.”

A empresa também se eximiu de avaliar a contradição vivida pelos atingidos por Balbina, declarando que “questões relacionadas à implantação, aos impactos socioambientais e à operação da Usina Hidrelétrica de Balbina não fazem parte das atribuições da distribuidora”. 

Como piorar o crime ambiental de Balbina 

Em março de 2016, a promessa de transformar a hidrelétrica de Balbina em um modelo de transição energética foi anunciada pelo então ministro de Minas e Energia, o atual senador Eduardo Braga (MDB-AM). Na ocasião, o projeto de instalar placas solares flutuantes sobre o reservatório foi defendido como uma estratégia para mitigar os impactos históricos da usina. 

Ao justificar a necessidade do investimento milionário, Braga foi contundente: “Este lago de Balbina é um dos maiores lagos do mundo. É um dos maiores crimes ambientais que a engenharia já cometeu neste país. Como mitigar o custo deste crime? Melhorando a relação custo-benefício desta usina de Balbina.”  

Para tentar reverter esse cenário, o plano injetou quase R$ 100 milhões em recursos (R$ 49,9 milhões da Eletronorte e R$ 49,942 milhões da Chesf). O cronograma oficial estipulava janeiro de 2019 como prazo para a conclusão das pesquisas e a ampliação do sistema, que deveria gerar energia para abastecer cerca de 540 mil residências.

Passados sete anos do prazo estipulado e já em 2026, a realidade constatada no local expõe um cenário de abandono do patrimônio público. A tentativa de mitigar o crime resultou em um novo prejuízo: o sistema de painéis solares nunca operou e as estruturas encontram-se completamente paradas e deterioradas, enquanto as comunidades permanecem sem energia.

Placas solares abandonadas na sede da Axia Energia em Balbina. Foto: Michael Dantas

Procurada pela reportagem, a assessoria do parlamentar informou que ele exerceu o cargo apenas entre janeiro de 2015 e abril de 2016: “Após o encerramento de sua gestão, o acompanhamento, a fiscalização e a execução do projeto mencionado passaram a ser de responsabilidade dos órgãos competentes e das empresas responsáveis por sua implementação. Dessa forma, esclarecimentos sobre a situação atual do projeto e sua execução devem ser prestados pelos responsáveis diretos pelo empreendimento.” 

Cadê a manutenção, Âmbar?

São 6 horas da manhã, e os moradores já retomam a missão de limpar o Ramal da Morena. Enquanto alguns colocam a mão na massa, cortando galhos presos aos fios de energia e capinando as margens, outros caminham por quilômetros sob o sol forte para se juntar aos colegas que estão em um trecho adiante. O trabalho teve início em janeiro e já se estende até abril: eles seguem de ponta a ponta do ramal, que possui 38 quilômetros de extensão.

Augusto Cunha, agricultor do Café Balbina da comunidade São José, limpa os fios de energia em trabalho voluntário. Foto: Michael Dantas

A ação é comunitária e mantida por vaquinhas. Cada morador contribui com o que pode para comprar o material de roçagem e garantir a alimentação de quem passa nisso o dia inteiro.

O trabalho comunitário foi o meio que os moradores encontraram para evitar dias e até semanas sem energia elétrica e internet. Sem manutenção adequada, árvores caem sobre a fiação, e os postes remanescentes de madeira não resistem, provocando apagões. 

Eles já fazem a própria prevenção, solicitando o desligamento dos fios nas áreas em que estão trabalhando. Essa autogestão vem de longa data: para ter energia no final da década de 90, os próprios moradores firmaram um pacto com a Manaus Energia e a prefeitura e tiveram de abrir caminho, carregar madeira e colocar fios nos postes. 

A história é conhecida de sobra por Antônio Jorge Martins, o Carroça, que chegou a comprar o próprio contador. “Nós íamos trabalhar, tirávamos a madeira, e a prefeitura dava o jipe pra gente carregar. Aí a Manaus Energia trazia um fio pra gente. Depois que a gente chegava à noite íamos jogar os fios para os postes”, relata.

A melhoria na estrutura da rede demorou mais de duas décadas para chegar. “Nós tivemos que passar alguns anos só com o rabo de tatu. Um fio só. Uns seis anos atrás que fizeram, botaram poste… Era tudo de madeira. Aí depois botaram esses três fios e o poste de cimento.” 

Hoje, apesar de pagarem contas que chegam a R$ 300, os moradores continuam cobrindo a ausência da concessionária. 

“Ninguém faz coisa nenhuma. E a gente paga caro, um serviço péssimo”, desabafa Carroça, ao ressaltar que a manutenção da fiação depende da união da comunidade. “Nós estamos fazendo um trabalho todos os sábados, um trabalho de limpeza abaixo do fio.” 

Carroça mostra conta de energia de março de 2026 que chegou a R$202. Foto: Michael Dantas

A iniciativa dos moradores em assumirem a roçagem e a limpeza debaixo das linhas de transmissão acabou virando referência. Outros ramais, que chegaram a ficar oito dias seguidos sem energia, também começaram a limpar por conta própria.

Mesmo com o esforço da comunidade, em 1º de julho de 2026 o Ramal da Morena ficou quase três dias consecutivos no escuro. Pouco depois, em 9 de julho, após a reportagem de O Joio e O Trigo questionar a Âmbar Energia, a empresa enviou uma equipe para limpar o ramal. A ação gerou revolta na liderança Caroline Monteiro, já que os moradores passaram mais da metade do ano sem qualquer resposta ou presença da concessionária no local.

Questionada sobre os apagões e a falta de manutenção, a Âmbar alegou que em 30 de junho foram registrados dois eventos de interrupção no fornecimento de energia, ambos atendidos no mesmo dia, devido a um “provável curto-circuito transitório”. Já o fornecimento no dia 1º de julho foi interrompido às 15h50 devido a um “cabo partido e um isolador danificado” e restabelecido às 23h09 do mesmo dia, justificando a demora pela “elevada densidade de vegetação e extensos trechos de difícil acesso” da área rural.

Sobre a falta de estrutura e o fato de os comunitários realizarem a roçagem por conta própria, a concessionária afirmou que, desde que assumiu a distribuição no Amazonas, em abril de 2026, vem implementando um plano de modernização que contempla “limpeza de faixa ao longo da rede, inspeções técnicas, substituição de componentes e manutenções programadas” no Ramal da Morena. Para manutenção, a Âmbar informou que possui uma agência em Presidente Figueiredo com 20 eletricistas divididos em quatro equipes, incluindo um plantão de 24 horas, e estimou em cerca de sete horas o tempo médio para atendimento a ocorrências.

A promessa do PDS 

Num trecho da estrada que leva ao Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) Morena, criado pelo Incra, uma única mulher quebra o cenário dominado por homens. Chama a atenção pela firmeza com terçado na mão, botas nos pés e camisa de manga longa, encarando o sol para capinar a vegetação que ameaça a fiação. É Luzia Berenice Ramos, de 49 anos, garantindo que o ramal não fique no escuro.

Luzia carrega no histórico de migração a busca por um pedaço de terra. Vinda originalmente de Minas Gerais, passou por Rondônia, viveu às margens do rio Madeira e morou na comunidade Rumo Certo antes de desembarcar em Balbina, em 2007. “Quando eu vim pra cá, eles [Incra e Idam] disseram que era uma área de assentamento, uma área sustentável, que eles iam dar assistência. E iam sair casas de alvenaria, era água e tudo, energia. E quando eu cheguei não era essa a realidade”, recorda.

A promessa de um modelo de assentamento com foco no apoio comunitário ficou restrita ao papel. “O PDS foi gerado porque, segundo eles, era uma área sustentável. Eles iam manter. Teria uma cesta básica por mês, o benefício, iam ajudar na energia, na água, na escola dos nossos filhos. E, na verdade, não é isso. Eles abandonaram o PDS”, afirma Luzia, que hoje depende do Bolsa Família, do Seguro-Defeso e do trabalho de diária para sobreviver.

Placa do PDS Morena deteriora na entrada da comunidade. Foto: Michael Dantas

Conforme o estudo “Impactos sociais da desterritorialização na Amazônia brasileira: o caso da hidrelétrica de Balbina”, de Renan Albuquerque e José Oliveira, o PDS Morena foi criado em 2000 como a primeira experiência de Desenvolvimento Sustentável para assentamentos no Brasil. 

Fruto da mobilização das associações comunitárias das áreas de risco, em parceria com a prefeitura local e o Incra, a iniciativa buscava abrigar até 160 famílias atingidas e mitigar os impactos da desterritorialização forçada provocada pela usina. A promessa central de regularizar a posse da terra esbarrou no próprio ordenamento jurídico, já que o assentamento sobrepõe uma área de preservação e mantém a ocupação em um impasse fundiário até hoje.

Atualmente, o PDS abriga cerca de 58 famílias, menos da metade da capacidade projetada pelo Incra. Desse total, poucas ainda pertencem ao grupo original de atingidos.

A ausência do Estado se reflete no colapso dos serviços básicos do dia a dia. A escola da comunidade está de portas fechadas, caindo aos pedaços. Sem posto de saúde e infraestrutura básica, as poucas crianças que restam no PDS precisam se deslocar a outra comunidade para estudar e se consultar. 

A falta de perspectiva de trabalho e de continuidade nos estudos expulsa as gerações mais jovens. “Os meus filhos não estão mais comigo. Só tem o caçula que está comigo. As duas outras moram no Mato Grosso”, conta. “Eles têm que sair porque estão começando a vida. A gente fica sem trabalho para eles.”

O filho que permanece ao lado de Luzia é Lucas Ramos Tavares, de 18 anos. Nascido em Presidente Figueiredo e criado no PDS, o jovem acabou de concluir o ensino médio, mas esbarra na falta de oportunidade no assentamento. “Não é sustentável, não”, diz Lucas. “Para um jovem viver aqui não é sustentável, não. Porque não tem estudo avançado, tipo uma faculdade, algo assim.”

Para Lucas, a falta de estrutura acabou até mesmo com os planos de continuar trabalhando na roça. Embora goste da vida na comunidade, cursar Engenharia Agronômica para aplicar no PDS exigiria uma mudança para a cidade e custos estimados por ele em ao menos R$ 3 mil mensais, um valor fora da realidade da família. 

O jovem já projeta o mesmo destino dos antigos colegas de turma. “A maioria já foi tudo embora. A maior parte. Eu estou aqui, mas também estou com planos de sair para morar em outro estado”, revela. “Se eu sair, eu não volto mais, não.”

Lucas Ramos Tavares, filho de Luzia, planeja sair da cidade devido à falta de estudos no PDS. Foto: Michael Dantas

Até o escoamento da produção enfrenta barreiras severas. Em época de cheia, o Ramal alaga e o PDS fica isolado, sem poder escoar. Quando o Ramal está transitável e eles têm produção, a comercialização depende dos atravessadores. Para não perder polpas de açaí e cupuaçu durante os apagões, Luzia e o filho recorrem a um gerador a gasolina que consome cerca de quatro litros por noite, uma despesa extra de R$ 40 a cada falha de luz. “Esse ano tem pessoas que não cortaram o cupuaçu porque não têm para quem vender. Aí ficou apodrecendo, jogaram para os peixes.”

O passado no presente

Na varanda de casa, Dalila Rocha Barbosa, de 84 anos, cata feijão enquanto mira, logo à frente, uma sirene enorme instalada no campo de futebol da comunidade São José. O artefato faz parte do sistema de emergência da hidrelétrica de Balbina para casos de rompimento da barragem. 

Como matriarca de uma das famílias mais antigas do local, ela assistiu de perto a todas as fases da transformação do território e agora vive o pavor do alarme, que faz com que qualquer imprevisto seja interpretado como o anúncio de um rompimento. “Fico com medo da sirene tocar, meu Deus. Quando pegou fogo ali naquele coisa da luz eu pensava que já era a sirene. Aí nós saímos correndo”, recorda, sobre o pânico gerado por um curto-circuito na rede elétrica. 

A apreensão atinge o ápice no período das chuvas. “Quando o rio enchia, eu corria para a vila, porque lá é o lugar mais alto, talvez lá não ia alagar. Mas medo eu tinha porque de noite eu ficava escutando a cheia. Qualquer zoadinha que dava, meu Deus, eu corria para abrir a porta para olhar.” 

O trauma da idosa tem raízes no período do represamento do rio para formação do lago de Balbina. Quando se fecharam as comportas, a secagem drástica tirou a água da criação de gado da família. Quando foram abertas as comportas, tudo ficou podre. Como a água do rio não prestou mais, ela levava os animais para beber água em uma cachoeira no fundo do terreno, na época em que vivia na Fé em Deus.

A contaminação seguiu prejudicando a saúde da família por anos. “A água não estava boa, eu ficava com problema de estômago. Eu fazia um exame, dava ameba. Quase que eu morria com ameba. Aí deu vômito nessa criancinha aqui, deu vômito no outro, sempre dava vômito”, conta Dalila. A saúde da família só melhorou quando eles passaram a comprar água mineral.

O passado viveu no presente durante toda a sua vida e do falecido marido, Pedro Pereira. Agente da extinta Superintendência de Campanhas de Saúde Pública (Sucam), criada na década de 70, ele trabalhou no combate aos surtos de malária, febre amarela e outras doenças tropicais intensificadas pelo desmatamento gerado pela hidrelétrica. 

Sem qualquer equipamento de proteção individual (EPI), Pedro manuseava diretamente inseticidas cumulativos e cancerígenos como o DDT (diclorodifeniltricloroetano). “Tinha um negócio que ele carregava nas casas. Aquilo ali saía borrifando dentro das casas das pessoas ou então ele ia fazendo fumaça nos igarapés”, relembra. 

A exposição contínua gerou problemas neurológicos e intoxicação, levando à morte. “O médico falou que o veneno atingiu o cérebro dele e os rins. Comprometeu depois o pulmão, aí era aquela tremedeira. Aposentaram ele porque já não dava mais para fazer [o trabalho]. O pessoal já sentia um tremor na mão dele”.

O histórico de perdas culminou no falecimento de um dos filhos do casal, aos 22 anos, durante a montagem da usina. Ele trabalhava para a Andrade Gutierrez e retornava de um pleito eleitoral na caçamba da empresa quando sofreu um acidente na estrada. 

Ela não se recorda de ter sido indenizada pela morte do filho e nem de seu marido ter recebido indenização pelas doenças que adquiriu. Tudo o que conseguiu, depois de anos na Justiça, foi uma pensão de R$ 2.500, referente à aposentadoria do marido, valor que considera abaixo do ideal pelos 45 anos de dedicação. 

Desordem e regresso 

A destruição deixada pela hidrelétrica foi prevista e alertada. Pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e outras entidades realizaram estudos prévios e constataram a ineficiência do projeto, mas não foram ouvidos. O relatório “Balbina Nunca Mais”, coordenado pela Comissão da Verdade de Balbina, aponta que a Eletronorte também recebeu cartas de instituições inglesas, alemãs, canadenses, filipinas e escocesas questionando a realocação do povo Waimiri-Atroari na área de construção. 

A Eletronorte se justificava afirmando que “somente 490 km² da reserva indígena Waimiri-Atroari seriam alagados”. O resultado final foi seis vezes pior.

Essa contradição entre o colapso socioambiental e o discurso de desenvolvimento reflete-se na postura dos próprios moradores que ajudaram a erguer a obra. É o caso de Sebastião Souza de Alencar, o seu Tião, de 77 anos. Nascido em Itacoatiara e morador do Uatumã desde 1956, hoje ele vive na Vila Atroari, a parte da vila de Balbina reservada aos trabalhadores mais simples e aos operários do canteiro de obras, em nítida divisão com a Vila Waimiri, onde ficam as moradias de alvenaria destinadas aos engenheiros e aos chefes de maior qualificação.

Sebastião Alencar, o Tião, segura com orgulho o livro “Massacre”, de Silvano Sabatini, no qual tem sua história registrada. Foto: Michael Dantas

A casa de madeira de Tião é uma das poucas estruturas que restaram de pé. Em 1992, após a conclusão do empreendimento, a Andrade Gutierrez desmontou e retirou a maioria das mil casas de madeira da vila para enviá-las a outra obra em Roraima, deixando centenas de famílias ribeirinhas desabrigadas e alojadas de forma improvisada nas habitações remanescentes, sem documentação até hoje.

Na juventude, Tião trabalhou diretamente na construção da usina: operou as dragas de areia para a barragem, pilotou as lanchas para transportar material e fez parte de expedições históricas da Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM) e da Eletronorte. Apesar das evidências do impacto ao redor, Sebastião adota uma postura de esquiva e recusa-se repetidamente a classificar a gravidade dos estragos provocados pela hidrelétrica.

Para ele, a destruição da floresta e a mortandade de peixes foram custos secundários e inevitáveis diante do ganho de infraestrutura. “Eu não sou técnico para classificar o grau de destruição. Não vou dizer que não causou um desastre, mas eu e minha família fomos beneficiados”, defende. Tião encara a devastação como uma etapa necessária da evolução e argumenta que a própria natureza já deu conta de compensar o estrago.

Mas ele assume que se sente injustiçado pela falta de reconhecimento do trabalho. Após anos dedicados às obras e ao apoio logístico, foi dispensado sem mais nem menos quando a mão de obra não era mais necessária.

Mesmo tendo sido vereador por dois mandatos em Presidente Figueiredo e atuado na construção da primeira escola rural do ramal, Tião hoje sobrevive com um salário mínimo da aposentadoria. 

Questionada sobre a desmontagem e a remoção das casas que deixaram dezenas de famílias sem moradia, a Andrade Gutierrez informou que “só quem pode falar pela obra é o cliente, neste caso, a Eletronorte”.

A construtora não respondeu nenhuma pergunta sobre a divisão segregadora das vilas operárias por hierarquia de cargos e não explicou o destino dado às madeiras nobres. Tampouco prestou informações sobre indenizações às famílias de operários mortos em acidentes de trabalho durante a construção, sobre medidas mitigadoras para os trabalhadores desempregados após a desmobilização da obra e nem se mantém hoje qualquer programa de reparação para as comunidades impactadas por Balbina.

Fora do polígono

Sob gestão da Axia Energia e da subsidiária Axia Norte, o Plano de Ação de Emergência da Barragem da Hidrelétrica de Balbina delimita uma Zona de Autossalvamento que se encerra abruptamente no quilômetro 13, cobrindo apenas as comunidades Céu e Mar, Fé em Deus e São José.

Placa Rota de Fuga da Axia Energia  no Ramal da Morena. Foto: Michael Dantas

“Na cabeça da empresa, eles pensam que só têm responsabilidade até lá. E, na verdade, todas [as comunidades] têm que ter essa rota de fuga. A gente vai andando, tu percebe que não tem nem placa de segurança direcionando exatamente para onde que é para ir”, denuncia Caroline Monteiro, liderança do MAB.

No início do ramal, funcionam sete sirenes de alerta com algumas placas no caminho direcionando a um ponto de encontro para onde todos devem correr em caso de rompimento. 

Caroline mora na comunidade São José. Para o ponto de encontro mais próximo da casa dela, precisa de cerca de sete minutos correndo. Ela já treinou a emergência de todas as formas: correndo, de carro, carregando os animais. Mas para quem mora em outras comunidades, como na São Jorge ou no PDS Morena, não há rota de fuga, nem sirene, o que significa que eles não ouviriam nada em caso de emergência e nem teriam chance de se salvar. 

No local indicado como ponto de encontro, não há abrigo, cobertura, mantimentos ou infraestrutura para socorro. Trata-se de um terreno descampado, sem elevação em relação ao resto da área que pode inundar. 

Caroline treina anualmente deslocamento de sua casa até o ponto de encontro. Foto: Michael Dantas

A delimitação restrita da zona de risco é contestada pela liderança, que rejeita a lógica espacial imposta pela concessionária para se eximir de obrigações com as comunidades a montante e a jusante, deixando de fora sete das dez comunidades ao longo do rio Uatumã. “Eles dizem que a área de abrangência deles é até onde eles têm que fazer alguma coisa. O polígono não existe. Quem tem que dizer onde é o ponto atingido somos nós, que somos atingidos, e não a empresa”, afirma.

Questionadas, a Axia Energia e a Axia Norte limitaram-se a informar que a UHE Balbina cumpre a Política Nacional de Segurança de Barragens e que mantém atualizado o Plano de Ação de Emergência (PAE).

A empresa confirmou que realiza “treinamentos e simulados a cada três anos” e informou que a última operação ocorreu no início de julho de 2026, mas ignorou as perguntas sobre a delimitação oficial do polígono de inundação, a falta de abrigos nos pontos de encontro e a expansão do sistema de sirenes para o restante do Ramal da Morena.

A concessionária também não respondeu se há planos de desativação da usina em razão de sua baixa eficiência energética, se existem programas de reparação financeira e social às famílias atingidas e se possui registros de auditorias sobre as ameaças de morte relatadas por lideranças comunitárias no período da Eletronorte. A Axia não prestou esclarecimentos sobre a destinação da madeira nobre extraída na construção da barragem nem sobre os critérios de distribuição e remoção de casas de operários.

Esperança e reparação

A promulgação da Lei nº 14.755, em 15 de dezembro de 2023, que instituiu a Política Nacional de Direitos das Populações Atingidas por Barragens (PNAB), representou um marco histórico após quase quatro décadas de organização e resistência do MAB. O texto estabeleceu diretrizes para assegurar ressarcimento, assistência e planos de desenvolvimento local para populações impactadas por empreendimentos hídricos. 

“Há quase 40 anos que existe essa luta para que possa ter a lei que garanta os nossos direitos como atingidos. O que a gente está lutando agora é pela regulamentação. Recentemente, a gente ocupou o Ministério de Minas e Energia para abrir uma mesa de negociação. A lei já foi aprovada. Ela só tem que ser cumprida”, enfatiza Caroline. 

Caroline aguarda reparação passados 37 anos desde construção de Balbina. Foto: Michael Dantas

A regulamentação é a ferramenta jurídica necessária para forçar a criação de comitês locais e regionais deliberativos, nos quais os próprios moradores definirão as prioridades de reparação.

A urgência por reparações esbarra no fator tempo. Ao longo de mais de quatro décadas desde o início da construção de Balbina, grande parte dos primeiros moradores afetados faleceu sem jamais receber qualquer indenização do Estado ou das concessionárias. 

“Eu sou o quê? Um rato de laboratório? Está todo mundo cansado”, afirma. Para Caroline, Balbina “é o filho que ninguém quer”, sendo jogado de um lado para o outro, sem que nada seja resolvido.

Caroline descreve o desgaste acumulado por gerações que atravessaram a vida cobrando direitos básicos, mas reforça que a conquista da PNAB renova o compromisso de não deixar o passivo socioambiental cair no esquecimento.

“Caraca, é a vida toda brigando, brigando, correndo atrás de direito, aí sempre vem a centelha da esperança porque a lei já está aprovada. A gente está nessa luta pela regulamentação. Então, poxa, não quero que essa reparação seja lá para os meus netos, que eu possa pelo menos ver acontecer”, conclui a liderança.


Esta reportagem foi produzida com o apoio da Repórteres Sem Fronteiras (RSF), no âmbito do Programa de Mentoria para Mulheres Jornalistas da Amazônia Legal, e contou com mentoria de Nayara Felizardo, repórter do G1.

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