O Joio e O Trigo

Araruta: a planta (quase) esquecida que se recusa a sumir

, de São Felipe (BA)

De origem indígena, o cultivo sobrevive nas roças e quintais de pequenos agricultores, que beneficiam seu amido de forma artesanal até hoje; fécula nunca foi produzida em escala industrial

Dona Bita já havia reparado em uma moita perto de casa. Tinha folhas grandes, florzinhas brancas e, quando arrancada, revelava rizomas gordinhos. “Pensava ser como uma taioba, a raiz assim”, relembra a agricultora, fazendo referência à “batatinha” que cresce no subsolo. Ela não sabia se a espécie tinha nome ou serventia, nem que ela viraria sua principal fonte de renda alguns anos depois. 

A tal da planta é a Maranta arundinacea, vulgo araruta. Já Dona Bita é o apelido de Benedita Mota dos Santos, moradora de Jaqueira, comunidade rural do município de São Felipe, no Recôncavo Baiano. Quem as apresentou foi a então extensionista rural Jalmira Barbosa, em 2009, em um evento na associação de moradores do bairro. Funcionária da hoje extinta Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA), Jalmira e outros extensionistas rodavam a região e realizavam eventos para apresentar espécies e manejos para os agricultores.

Naquela ocasião, Jalmira levantou uma rama de folhas grandes, com um punhado de rizomas brancos. “Quem conhece essa planta?”, perguntou aos quase 30 agricultores presentes, todos moradores das cercanias de São Felipe. Dona Bita a reconheceu de pronto, mas estava tímida. Ninguém fez menção de responder. Quando Jalmira repetiu a pergunta, ela venceu a vergonha e levantou o braço. “Eu falei: ‘eu conheço’. Uma que eu tinha, uns pezinhos aqui.” 

A extensionista então marcou uma visita para conferir se era mesmo a Maranta arundinacea que estava brotando por lá. Era. “Aí ela veio e começou a falar que era araruta mesmo. Que era tipo medicinal, que quem mais colhia essas plantas eram os índios. Que era [planta de] roça dos índios”, relembra a agricultora.

Benedita Mota dos Santos e Raimundo da Cruz Santos, conhecidos por Dona Bita e Raimundo do Braço Preto,
colhem quase duas toneladas de araruta por ano. Foto: Flávia Schiochet / O Joio e O Trigo

A araruta é uma planta nativa da América do Sul. Há indícios de seu cultivo há mais de 7 mil anos, desde as Guianas até o Rio de Janeiro, com usos registrados ao longo do tempo pelos povos Caraíba e Pataxó. Os Caiapó plantavam araruta às margens das trilhas e em meio às florestas, junto de mandioca, do taro, do inhame e da batata-doce, e a usavam na alimentação e também para sarar picadas de insetos e tratar ferimentos.

Na medicina popular brasileira, o mingau de araruta é oferecido aos convalescentes e às crianças com problemas gastrointestinais. Na forma de pasta, é usada como alívio para assaduras e queimaduras. O polvilho substitui tanto o talco dos bebês quanto a farinha de trigo na confeitaria, dando uma textura delicada a bolos e biscoitos. Esses usos foram difundidos ao longo das gerações, mas parecem ter minguado com o êxodo rural e o avanço da industrialização sobre a alimentação.

Glossário

  • Amido: Extraído de partes comestíveis de cereais (como milho), tubérculos (como batata), raízes (como mandioca) ou rizomas (como a araruta). É mais fino que a farinha, pois não contém fibras ou outras partes da planta, apenas os grânulos de amido.
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  • Farinha: Obtida a partir da moagem de partes comestíveis de cereais, leguminosas, frutos, sementes, tubérculos e rizomas.
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  • Fécula: Nome dado para o amido extraído de raízes, tubérculos ou rizomas, ou seja, de partes subterrâneas de uma planta.
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  • Goma: Fécula umedecida, tal como a tapioca, que é polvilho doce com um teor de água.
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  • Polvilho: Amido fermentado, com capacidade de expansão. O processo do polvilho doce de mandioca (também chamada de fécula) é mais curto do que o do azedo.
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Fonte: Ofícios-circulares 01/2022 e 02/2021 do Ministério da Agricultura e Pecuária.

O cultivo permaneceu em alguns quintais, mas seu nome e funções se perderam no tempo. Não é raro se deparar com gente que franze o cenho ao ouvir uma menção à araruta. Quando se fala em espessantes e amidos, o de milho é o mais comum. A produção industrial deste e de outros ingredientes barateou o que era um artigo de luxo no início do século 20, como o trigo. 

Rústica, a araruta se adapta facilmente a oscilações de temperatura e chuva, e muitas vezes brota onde nem sequer foi plantada. Seu ciclo leva de 10 a 14 meses, quando os rizomas amadurecem e podem chegar a 20% de amido. Por ser uma planta rizomatosa, ou seja, de caule subterrâneo, espoca novos brotos e raízes espontaneamente. Se, após a colheita, algum pedaço de rizoma ficar debaixo da terra, a planta pode voltar a germinar mesmo sem cuidados.

A generosidade em se multiplicar não se reflete no rendimento da fécula: de um quilo de rizoma, extraem-se entre 150 e 200 gramas. O restante são longas e abundantes fibras, que dificultam seu beneficiamento. Esta característica é uma suspeita do porquê a araruta não foi “escolhida” para a produção e beneficiamento em larga escala. “A questão do rendimento pode ser um fator limitante, porque o rizoma é fibroso e o processo de extração é um pouco mais cauteloso do que o de outros grãos, como, por exemplo, o milho”, explica Vinícius Correia, engenheiro de alimentos e pesquisador da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig). De um quilo de milho, pode-se tirar até 730 gramas de amido.

A mandioca, por sua vez, tem um rendimento levemente superior ao da araruta, chegando a 390 gramas de amido por quilo de raiz, e seus usos estão mais arraigados na cultura alimentar brasileira: é dele que se faz tapioca, pão de queijo e biscoito de polvilho.

Apesar de a mandioca ser uma raiz e a araruta, um caule, o processo de extração do amido é similar (veja infográfico acima). São Felipe fica próximo à Serra da Copioba, onde também nasce o rio de mesmo nome. Lá, produz-se uma farinha de mandioca especial, a Farinha da Copioba. Ela é colhida, triturada e torrada no mesmo dia, um processo que garante que a massa não fermente. O resultado é uma farinha fina, amarelada, crocante e sem acidez.

Além da receita local, os municípios de São Felipe, Maragogipe e Nazaré também produzem farinha de mandioca tradicional. A maior parte das roças fica mesmo em São Felipe, que já teve incontáveis casas de farinha e segue como fornecedor de matéria-prima para os vizinhos – foram colhidas 8 mil toneladas de mandioca em 2025. Não há números consolidados para a araruta. 

Como a região tem um histórico de séculos de produção de farinha e goma de mandioca, sua população está familiarizada com os processos. E, quando conheceram a araruta por intermédio da EBDA, muitos agricultores se interessaram de pronto, incluindo as mudas em meio às outras roças. 

Com Dona Bita não foi diferente. Em 2009, ela e o marido, Raimundo da Cruz Santos, passaram a catar todas as ararutas que encontravam. Em questão de meses, reuniram 26 mudas e começaram uma roça. Casados há 41 anos, eles sempre trabalharam lado a lado, limpando canteiro, capinando, semeando e colhendo mandioca, cará-mimoso, milho e amendoim, principais produtos da região. Ambos trabalham desde a infância: Dona Bita tem 59 anos, dos quais 49 de enxada na mão. Seu Raimundo tem 72 anos e começou aos 8 nos campos de tabaco e mandioca da região.  

Ao conhecerem a araruta, notaram que seu manejo dava menos trabalho e que sua venda rendia mais. “É o que dá mais e é menos tempo [de manutenção]. A mandioca dá muita despesa, é tanta coisa que faz nela. E aí gostei mais da araruta. Eu faço mais ligeiro, aqui eu só dou a limpa e está madura”, explica Seu Raimundo.

Em questão de anos, a araruta substituiu a maior parte dos 8 hectares manejados pelo casal. “A gente dividiu aqui para araruta e [cará-]mimoso. Vou parar de plantar mandioca. Estou plantando só para as formigas comerem a folha”, repassa Dona Bita, apontando para uma área em que o cará subia pelas estacas e que ainda tinha um ou outro pé de mandioca, o suficiente para consumo próprio. 

O restante é araruta, em campos em que ela varia de recém-plantada a moitas já grandes, com as folhas reluzindo sob o sol de maio. Daquela planta outrora desconhecida, Dona Bita e Seu Raimundo extraíram 1,7 tonelada de fécula em 2025, que esgotou em questão de meses. “Fiquei sem a goma. Graças a Deus, vendi tudo”, conta a agricultora, que naquela semana usava os últimos gramas de fécula para tratar do estômago combalido do marido após uma virose.

É difícil saber se esse volume é muito ou pouco em relação à produção nacional atual, pois não há registros do cultivo nos anuários estatísticos ou na Produção Agrícola Municipal (PAM) do IBGE. Seu sumiço nos registros oficiais não é de hoje: a araruta aparece nominalmente apenas em dois censos agrícolas do Brasil.

No de 1950, ela aparece na categoria “outras culturas temporárias”, ao lado de cará, bertalha e chicória, com 3.491 toneladas de rizoma produzidas nas cinco regiões do Brasil, sendo a maior parte em Santa Catarina e Pernambuco. 

Já no Censo de 1960, o volume caiu mais de 70% e chegou a 979 toneladas, com a maior parte da produção concentrada na região Sul. Apenas sete produtores, em todo o Brasil, extraíram 11 toneladas de fécula, a maioria no Nordeste. Mesmo assim, os números eram irrisórios, porque não há detalhamento das cidades, nem o destino dessa produção. Depois disso, ela sumiu – das estatísticas. Seu volume pode ter sido agrupado na categoria “farinhas e féculas não especificadas”, mas rastrear onde e quando ela foi plantada em grande volume se torna tarefa quase impossível.

Como se esconde uma planta

Olhar para a mata e identificar o que cresce ali é um conhecimento quase inato para quem mora e trabalha no campo. Quando agricultores não conseguem diferenciar uma moita de espécie nativa, isso sinaliza que algo apartou essa população do conhecimento construído junto do território. 

É uma consequência direta da Revolução Verde. A partir da década de 1950, a industrialização do campo popularizou o uso de um pacote tecnológico – sementes híbridas ou transgênicas, fertilizantes químicos, agrotóxicos e máquinas agrícolas – e tornou a alimentação mais homogênea. Na história da humanidade, cerca de 7 mil plantas já foram usadas. Atualmente, esse número é de 30 espécies, sendo que arroz, trigo e milho correspondem à metade do consumo mundial de calorias. 

A araruta foi uma das plantas que perdeu terreno para o avanço da agricultura industrial. “Com a Revolução Verde, as pessoas passaram a pensar que só o que tivesse tecnologia embutida seria bom e promissor para o futuro. As culturas que tinham um pacote tecnológico definido seriam aquelas com maior rentabilidade e maior produtividade”, explica Izabel dos Santos, engenheira agrônoma e pesquisadora da Epamig. 

Por ser uma planta de quintal mais do que uma planta de roça, a araruta costumava ser cultivada para consumo próprio ou para produção em pequena escala. Sempre foi um cultivo de subsistência, uma coisa da agricultura familiar mais tradicional. Não houve esse desenvolvimento de um pacote tecnológico e ela foi sendo abandonada”, completa a pesquisadora. Em questão de gerações, deixar de manejar uma espécie faz com que o conhecimento associado a ela se perca.

E não foi apenas com a araruta. Outras também sumiram de vista – seja porque a agricultura comercial reduz a biodiversidade dos campos com agrotóxicos, seja porque as culturas alimentares e conhecimentos populares do campo foram minguando conforme o meio rural se esvaziava no último século. Assim, espécies que antes eram familiares a muita gente começaram a passar despercebidas. Ou a serem estigmatizadas. “A gente largou serralha, taioba, ora-pro-nóbis, por quê? Porque era comida de pobre, era comida ‘de antigamente’”, elucubra Santos, da Epamig. 

No entanto, na cultura popular, sempre há experiências latentes, esperando a hora certa para ressurgirem. Quem teve olhos e ouvidos atentos notou essa contingência. Dois movimentos paralelos nos anos 2000 foram fundamentais para a araruta voltar às roças, às despensas e à boca do povo. Um deles foi uma contribuição indireta de um olhar acadêmico. O outro, mais direto, foi a escuta atenta de um agricultor.

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Resgates paralelos

Em 2007, o biólogo Valdely Kinupp defendia sua tese de doutorado: um levantamento de centenas de plantas alimentícias não convencionais encontradas na região metropolitana de Porto Alegre (RS). O trabalho chamou a atenção para espécies que caíram em desuso, mas que tinham potencial para voltarem ao prato. O autor já vinha publicando uma série de artigos científicos há alguns anos, e seguiu desenvolvendo a pesquisa sobre essas plantas. Em 2008, nascia então o termo Panc e, com ele, uma nova lente para olhar o “mato” do campo e o que brota nas frestas das cidades. Em 2014, publicou um livro junto do botânico Harri Lorenzi, que reúne 351 plantas e mais de mil receitas. 

Naquela década, a internet entrava em sua versão interativa, com o lançamento de blogs e redes sociais que davam vazão aos interesses pessoais dos usuários. E o movimento de redescoberta de plantas quase esquecidas deu origem a um circuito próprio, com comunidades online para auxiliar na identificação de Pancs, blogs para postar receitas, listas de e-mail e fóruns para marcar expedições de coletas e facilitar a troca de mudas e sementes. Dinâmicas que já existiam desde que a espécie humana desenvolveu a agricultura, mas que se intensificaram com as novas ferramentas virtuais. 

Na mesma linha do tempo, mas fora da rede mundial de computadores, o agricultor Pedro Coni voltava a morar no sítio de sua família, em Conceição do Almeida, no Recôncavo Baiano. Era 2008 e ele, então com seus 50 e poucos anos, deixava o centro urbano para se dedicar à agricultura orgânica. Seu interesse era descobrir e viabilizar insumos, como fertilizantes, mas sua natureza curiosa e exploradora acabou tornando-o um “agitador cultural”: ao saber de tecnologias e novas formas de manejo, informava os conhecidos e também procurava os órgãos de assistência técnica para difundir as novidades.

Pedro Coni, entusiasta e divulgador da araruta. Foto: Flávia Schiochet / O Joio e O Trigo

Da mesma forma que ele ia atrás de oportunidades, pessoas o procuravam pedindo ajuda ou um contato. Em uma dessas, um amigo precisava encontrar uma planta misteriosa para o tratamento de um sobrinho. “Um casal está com um filho com um problema seríssimo, em Feira de Santana. E não tinha nada que curasse. Levaram a um médico em Salvador, chamado Antônio Sturaro, e aí ele disse: ‘Rapaz, só tem uma coisa para salvar seu filho. É você usar a araruta. Agora, que seja uma verdadeira. Veja se lá no seu município você encontra’”, recorda. 

Sturaro receitava mingau de araruta para crianças com problemas no trato gastrointestinal e também como alternativa para fazê-las ganharem peso. Com a escassez da fécula na região, o médico chegou a importá-la. A maior dificuldade era encontrar uma fécula que não fosse de mandioca ou de milho, um tipo de confusão comum ao falar de araruta. O amigo tranquilizou a família ao mencionar as habilidades de Seu Pedro, conta o agricultor: “Ele disse ao médico: ‘Se esse cara não achar, mais ninguém vai achar aqui na Bahia’”. 

Dito e feito: Seu Pedro a encontrou no quintal de uma senhora a poucos quilômetros da sua casa, na cidade de Dom Macedo Costa. “Era a Dona Jovem, nome de Juventina. Ela fazia fécula para a família, e em troca de galinha, de ovo, esses negócios”, recorda. Um costume bastante parecido com o de povos originários, que a mantinham por perto como uma reserva de alimentos e de medicina. 

Muda garantida, o sobrinho do amigo se recuperou tomando mingau. Seu Pedro, que não tinha registro de já ter visto aquela planta, encantou-se com as propriedades e a facilidade em cultivá-la. Em seu sítio, multiplicou as mudas recebidas de Dona Jovem até chegar às milhares. “E aí eu chamei as instituições de pesquisa, como a Embrapa e a EBDA, para a gente fazer um dia de campo. Fiz um projeto de resgate do cultivo da araruta no Recôncavo da Bahia e consegui um apoio do Banco do Nordeste”, conta Seu Pedro. 

Quem estava do outro lado do balcão era Jorge Silveira, à época gerente da EBDA e colega de Jalmira Barbosa. A empolgação de Seu Pedro contagiou a equipe, que deu vazão a experimentos paralelos. “Coloquei a fécula de araruta dentro da água para pubar, igual faz com mandioca, que em uma semana está puba. Deu um mês e a araruta não pubou. Ela tem muita fibra, e a molécula é diferente”, aventa Silveira.

Jorge Silveira, extensionista aposentado. Foto: Flávia Schiochet / O Joio e O Trigo

Nos preparativos para o primeiro dia de campo, Seu Pedro dividiu as mudas em pacotes com 12 unidades e fez uma imensa panela de mingau. “A EBDA fazia a mobilização e eu fazia a divulgação. Depois, fizemos um segundo dia de campo, e aí veio a TV Bahia, depois veio o Globo Rural. Aí estourou, e nós vendemos muita muda. Veio o Slow Food, eu fui para Brasília, para Turim na Itália, para Lima, no Peru. Corri meio mundo falando sobre araruta”, relata Seu Pedro. “É uma planta tipicamente brasileira, mas que [ainda] poucos brasileiros conhecem.”

De anônima à fonte de renda

Caminhando de sapato social pela roça, Nailson dos Santos Conceição se agacha para puxar uma moita de araruta do solo. Os rizomas ainda pequenos soltam água quando o agricultor os aperta – era final de maio, e aquela araruta teria mais cinco meses para amadurecer. Ele avança mais alguns passos e arranca outra planta, esta maior. Separa um rizoma quase do mesmo tamanho do anterior, mas observa que ela é diferente: “Aqui a raiz ficou velha e brotou”, ensina. Isso porque não houve colheita daquele talhão na safra anterior. Nailson e sua família plantaram tanto que não deram conta de colher. E aí, a araruta rebrotou no campo.

Nailson mostra a diferença entre o ponto de maturação dos rizomas. O imaturo, à esquerda, tem mais água.
Foto: Lorena Tabosa / O Joio e O Trigo

Em 2025, Nailson plantou em 1,5 hectare, dividido em três roças. Duas são arrendadas e mudam de endereço conforme a oportunidade – às vezes, calha de o dono do terreno pedir a área de volta, e Nailson tem de ir atrás de outra. A terceira fica ao lado de sua casa, na comunidade Sapezinho do Bom Gosto, onde ele nasceu e cresceu. A última safra rendeu 2 toneladas de fécula, vendidas quase inteiramente para uma indústria de alimentos em São Paulo. Além disso, a família entrega mensalmente 20 quilos de fécula para o Pnae, que viram mingau nas panelas das merendeiras. 

Formado em técnico agrícola e vindo de uma família com casa de farinha, ele aprendeu desde cedo a descascar, cevar, lavar e secar polvilho. Boa parte da sua vida profissional foi dedicada à assistência técnica a agricultores familiares, junto a cooperativas e sindicatos. Em 2021, decidiu se dedicar apenas à agricultura.

Assim como Dona Bita e Seu Raimundo, foi por meio da EBDA que Nailson teve contato com a planta, ainda em 2009, mas só começou a plantar dois anos depois. No início, ele e a esposa Silene preparavam sequilhos para a alimentação escolar. A extração era completamente manual, e fazer fornadas de biscoitos na sequência se tornou exaustivo. Vender só a matéria-prima, naquele período, não fechava as contas. Então, o casal voltou aos cultivos tradicionais da região, como mandioca, amendoim e milho. 

“Entre 2008 e 2010, a araruta teve uma expansão grande no nosso município. O pessoal começou a produzir em uma escala maior, só que depois foi diminuindo”, explica. Apoiados pela assistência técnica e extensão rural estadual, os agricultores adaptavam maquinário e técnicas da extração de goma de mandioca para usar na de araruta. Não havia à época – e ainda não há – equipamentos próprios para o beneficiamento da araruta. 

Além disso, a falta de mão de obra rural pesa no tamanho da área e quais cultivos os agricultores conseguem manejar. “Não tem mais gente no campo para cuidar. [A população mais velha] Vai perdendo a força. Os filhos não querem… Pergunta se tem algum filho cavando e plantando”, atenta Jorge Silveira. Somado à extinção da EBDA em 2015, muitos agricultores ficaram sem apoio para continuar as adaptações. O mercado que mal havia sido aberto para a fécula de araruta ainda não estava consolidado. Por isso, muitos pararam com o cultivo, Nailson incluso.

Até receber uma ligação em 2020. “Esse cliente me achou e começou com o ‘aperto de mente’ para eu voltar a plantar”, conta, referindo-se à indústria de São Paulo, seu principal comprador até hoje. Ele não levou a proposta muito a sério e manteve poucas plantas na roça. Quase um ano depois, quando começou a colher, recebeu outra ligação: o cliente queria saber se já estava tudo pronto. Não estava. O que Nailson colheu mal rendia 15 quilos de fécula. 

Qual não foi a surpresa do agricultor quando recebeu o pagamento adiantado de R$ 1.500 por 50 quilos, a serem entregues escalonados nos meses seguintes. Nailson correu atrás de colher tudo o que encontrava e beneficiar – à mão e com pressa – o quanto antes. Foi mandando em remessas de três a cinco quilos até completar a encomenda. Para não passar pelo mesmo susto no ano seguinte, planejou-se para colher 150 quilos. O cliente, então, foi a São Felipe para conhecer as plantações e fechar um acordo duradouro. Em menos de dois anos, Nailson multiplicou por dez o volume fornecido à indústria: 1.500 quilos. 

E só não aumentou mais porque em 2024, ele assumiu uma nova função, que o faz usar sapatos sociais mesmo no lamaçal: como secretário de Agricultura de São Felipe. Hoje, ele se divide entre o gabinete, no centro da cidade, e a plantação, que fica a cerca de 15 quilômetros da sede. 

Mais recentemente, os agricultores que ainda cultivam araruta, como Dona Bita, Seu Raimundo e Nailson, começaram a adaptar o maquinário de casas de farinha para facilitar o trabalho. Mas ainda é bastante manual: o casal de Jaqueira usa um descascador de mandioca que funciona à manivela e uma cevadeira que um sobrinho metalúrgico produziu. Já Nailson trocou as polias de uma centrífuga extratora de goma para diminuir a rotação do tambor e poder usá-la para araruta, que tem um amido mais leve que o da mandioca. “Ela rodava muito rápido. Como a araruta é leve, quando girava, sujava tudo”, explica Nailson.

Esse processo de extração mais trabalhoso, em que a força física do agricultor e o investimento em testes são fundamentais, tornam o preço da araruta mais alto: em uma feira de produtores locais em São Felipe, o quilo da araruta estava a R$ 50, quase quatro vezes o valor da fécula de mandioca. 

Para Seu Raimundo, um espaço comunitário para beneficiamento da araruta poderia ser uma solução para incentivar mais agricultores, a exemplo de casas de farinha da região, e ajudaria a diminuir o custo de produção. “Ajudaria [ter] uma casa bem feita. Uma casa para araruta mesmo”, observa. No entanto, ele e Dona Bita discordam de quais tecnologias deveriam adotar. Ele quer uma extratora de goma igual à do Nailson. “Eu ainda vou lá ver esse negócio. Mas acho que acredito ainda mais no meu braço”, diz ela.

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Resistente ao calor, à seca e ao tempo

Jorge Silveira havia começado outro movimento em meados dos anos 2010: a produção científica. “Depois de [ter realizado] dois dias de campo, eu disse: ‘bora parar, a gente precisa fazer pesquisa’. Precisava de intercâmbios, comparar variedades”, relembra Jorge. Ele conseguiu apresentar um artigo comparando as formas de produzir mudas, que saiu em 2016, um ano depois de o órgão de extensão rural ter sido descontinuado.

Em outra região do país, as pesquisas continuam até hoje. Em 2010, a araruta também entrou no radar da Epamig, e o órgão de pesquisa iniciou um processo de difusão das mudas para recolocar a planta nos quintais e roças e resgatar o uso de sua fécula. 

Somados os vários dias de campo da unidade de São João del Rey, a pesquisadora Izabel dos Santos estima que foram distribuídos mais de 4 mil rizomas para cerca de 300 agricultores. “[Teve] um ano que nós distribuímos os rizomas. No ano seguinte, uma senhora chegou me entregando o biscoito e a fécula. Isso é muito gratificante”, conta. 

Um dos motivos que fez os pesquisadores mineiros incluírem a araruta nas pesquisas foi sua rusticidade: ainda que ela goste de um período chuvoso, é resiliente a temperaturas acima da média e a regime de chuva irregular – o cenário que as mudanças climáticas já mostraram que será comum nos próximos anos. “A gente acredita que a araruta seja uma das plantas do futuro, porque ela é muito rústica, muito fácil de cultivar. O mesmo material genético cresce bem tanto sob telado, sob sombreamento, sob plástico, numa estufa alta, mas coberta com plástico”, exemplifica Santos, citando os tipos de manejo protegidos que concentram calor. “A temperatura chega fácil a 40ºC e esse material tem comportamento bem razoável nesses ambientes”, completa.

O gargalo continuaria sendo o que vem depois da colheita: o beneficiamento e o escoamento da produção. Em 7 mil anos de cultivo, a araruta nunca ganhou escala e ainda amargou um esquecimento coletivo.

Apesar de estar há quase duas décadas em um retorno gradual e intermitente, ela aguarda, paciente. De carona com Nailson, a reportagem passou por um pasto. “Aqui foi uma área alugada que eu plantei”, apontou, enquanto diminuía a velocidade na estrada de barro para mostrar a área. “O cara precisava plantar capim, aí devolvi a ele.” Isso foi em 2022. Não havia moita alguma remanescente no espaço, mas o proprietário se lembra de Nailson periodicamente. 

“Quando o capim baixa, os ararutas saem. Eu tirei, mas os pedaços ficam, não tem jeito. E brota com muita força. Hoje eu tenho algumas dificuldades em alugar terra para plantar araruta por causa disso também. Porque as pessoas [pensam]: ‘pô, nunca mais vai acabar’”. Aí está uma explicação possível do motivo de essa planta, que jamais esteve em extinção, não ter sumido de vez. Basta um pedacinho de rizoma ficar para trás que a araruta mostra que esquecê-la completamente é impossível.

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