Foto: Marcos Oliveira / Agência Senado

Guinada eleitoral à extrema direita no Congresso deixa bancada do fumo mais radical

Em meio à retomada dos níveis de tabagismo e uma renormalização do fumo, que põem décadas de políticas de saúde em risco no Brasil, aumento da bancada do PL fortalece agro e ala ultraliberal, mas conservadorismo religioso pode frear agenda pró-cigarro

Enquanto o Brasil vê uma retomada em seus níveis de tabagismo e uma ameaça inédita a décadas de avanços no controle do tabaco, a ampla vitória bolsonarista nas eleições legislativas fortaleceu políticos da bancada do fumo ligados à extrema direita. No entanto, deixou de fora nomes de centro que apoiam a indústria do cigarro, como o deputado federal Heitor Schuch (PSD-RS) e a senadora Soraya Thronicke (PSD-MS), que perderão seus mandatos no fim do ano. Neste pleito, a bancada do PL tirou cadeiras do Centrão.

Apesar dos desfalques, a linha-dura da bancada do fumo segue de pé na Câmara com os deputados federais Afonso Hamm (PP), Alceu Moreira (MDB-RS), Covatti Filho (PP-RS), Marcelo Moraes (PL-RS), Pedro Westphalen (PP-RS) e Pezenti (MDB-SC). No Senado, com a aposentadoria do senador gaúcho Luís Carlos Heinze (PP-RS) e o revés eleitoral de Thronicke, o setor precisará encontrar novos porta-vozes. O petista Paulo Pimenta tentou abocanhar esse filão durante sua campanha no Rio Grande do Sul, mas perdeu. No lugar, Marcel van Hattem (Novo) e Sanderson (PL) foram eleitos ao Senado pelo estado. A dupla é simpática ao setor, mas não tem o agro como pauta principal.

Na avaliação de especialistas consultados pelo Joio, é cedo para dizer se o novo Congresso irá embarcar em pautas defendidas pelo setor fumageiro, como afrouxar leis antitabagismo, liberar cigarros eletrônicos e sachês de nicotina ou enfraquecer reguladores, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), responsável pelo veto aos vapes no país. 

Isso porque, neste cenário, duas variáveis pesam: qual será, na prática, o perfil do conservadorismo que saiu vitorioso nas urnas, se mais alinhado a medidas ultraliberais e empresariais ou a valores cristãos e pautas de costumes. A disputa entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), ainda em aberto, também irá nortear essas agendas. 

“O resultado das urnas gera uma grande preocupação para a saúde pública, no sentido de o Congresso estar mais voltado aos interesses privados do que aos coletivos”, diz o cientista político Marcello Baird, diretor de advocacy da ACT Promoção da Saúde. “Mas, nesse equilíbrio do conservadorismo, é preciso ver qual vai ser a face dele, se ele pode apoiar o controle do tabaco ou eventualmente do álcool versus uma aproximação grande com a indústria.”

O tabagismo mata cerca de 174 mil brasileiros e causa um prejuízo econômico de R$ 153 bilhões ao ano em custos ao SUS e à economia, segundo estimativas do Instituto de Efetividade Clínica e Sanitária (IECS) levantadas em parceria com a Fiocruz. 

Evangélicos contra o fumo

Nos últimos anos, a religião foi um fator importante para frear a pauta pró-fumo no Congresso. Em 2025, o avanço de um projeto da senadora Soraya Thronicke que libera vapes no país travou após pressão do pastor Silas Malafaia. O resultado do pleito, no entanto, fragilizou a bancada. No geral, lideranças evangélicas e pastores deram lugar a crentes jovens e mais vinculados ao bolsonarismo do que às igrejas, como Nikolas Ferreira (PL-MG) e Lucas Pavanato (PL-SP), que não têm posição clara sobre o tabaco.

Apesar da incógnita em nível federal, a maior vitória para o setor fumageiro foi nos governos estaduais do Sul, que abriga mais de 135 mil famílias plantadoras de tabaco, as principais empresas exportadoras da folha do país e as fábricas de cigarros da Philip Morris, fabricante do Marlboro e L&M, e JTI, do Camel e Winston. Os três governadores vencedores na região são do Partido Liberal (PL): o ex-juiz Sergio Moro, no Paraná; o político de carreira Jorginho Mello, em Santa Catarina; e o ex-militar Luciano Zucco, no Rio Grande do Sul. Além disso, dos seis senadores eleitos, quatro são do PL e dois do Novo.

Isso fortalece um poderoso bloco pró-fumo na região, mantido por políticos ligados às agendas ultraliberal e de segurança pública. Zucco, por exemplo, participou de ao menos dois jantares promovidos pela indústria a aliados políticos ao longo de 2025. Sua vice no Rio Grande do Sul é Silvana Covatti, mãe de Viviana Covatti, ex-lobista da JTI, e do deputado federal Covatti Filho, um dos principais políticos da bancada do fumo. 

Bancada do fumo tem mais votos, mas perde representante 

O resultado da Assembleia Legislativa gaúcha, o principal estado fumicultor do país, também frustrou políticos pró-fumo de centro, como os deputados estaduais Airton Artus (PDT), Elton Weber (PSD) e Pedro Pereira (PSD), que não foram reeleitos. 

Enquanto isso, bolsonaristas aliados da indústria, como Marcus Vinícius (PP), viram seu eleitorado crescer. Vinícius tem entre seus principais apoiadores Maciel Marasca, diretor municipal do PP em Venâncio Aires (RS) e um dos donos da Tabacos Marasca, indústria exportadora sediada no município gaúcho e uma das principais fornecedoras da folha para fábricas de cigarro paraguaias. Ele viu sua votação dobrar de 30 mil, em 2022, para quase 60 mil este ano.

Já cinco dos seis deputados federais gaúchos que fazem parte da linha dura da bancada do cigarro também tiveram um crescimento eleitoral expressivo. Alceu Moreira (MDB) – cujo ex-assessor de gabinete Cleber Silveira se tornou gerente de Assuntos Corporativos da Philip Morris – teve quase 100 mil votos a mais, de 125 mil para 217 mil neste ano. Afonso Hamm (PP) amealhou metade disso, saltando de 109 mil para 152 mil. Outros parlamentares pró-fumo como Marcelo Moraes (PL), Pedro Westphalen (PP) e Covatti Filho (PP) obtiveram avanços mais modestos. A meta do grupo é desestruturar o combate ao fumo no país.

Moraes, por exemplo, defende que o país deixe a Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco (CQCT), um acordo internacional coordenado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para reduzir o tabagismo e as mortes causadas pelo tabaco em nível global. Tido como exemplo internacional de sucesso por reduzir sua prevalência de tabagismo de 35% em 1989 para 12% em 2019, o Brasil é um dos principais alvos do lobby fumageiro para flexibilização de medidas antifumo. No último governo Bolsonaro, Moraes articulou uma paralisação da comissão mantida pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca) para implementar medidas da CQCT no país.

O saldo eleitoral dá fôlego para novas investidas no Congresso pela liberação de cigarros eletrônicos, debate que empacou no Senado após a oposição evangélica. “Acho que a indústria sai fortalecida das eleições e pode ter condições de aumentar a pressão [em favor dos vapes], mas o lado contrário à liberação também é forte, tanto entre grupos defensores da saúde pública quanto conservadores”, avalia Baird. “Não será uma batalha fácil para nenhum lado e o que pode pesar é a posição do Executivo.”

Um desfalque para a bancada foi a derrota de Heitor Schuch (PSD), nome mais próximo ao centro político. Por anos, Schuch foi o responsável por travar o avanço de projetos de lei antitabagismo na Comissão de Indústria, Comércio e Serviços (CICS) da Câmara dos Deputados. Agora, ao menos 22 propostas que estão paradas na mão do parlamentar têm a chance de avançar em 2027, se a indústria não der jeito de colocá-las na mão de mais um aliado.

Na avaliação de gestores ligados ao controle do tabaco no governo federal, o momento será de “mudanças na configuração” do grupo no Congresso.  

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O que esperar do próximo presidente

No último governo Bolsonaro, os esforços contrários à redução do tabagismo se concentraram principalmente no Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), que mantém a Câmara Setorial do Tabaco, um fórum que reúne as entidades que representam o setor. Na época, a indústria conseguiu paralisar o grupo antitabagismo do governo federal, a Comissão Nacional para Implementação da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco (Conicq), mas não teve sucesso em redirecionar o posicionamento brasileiro junto à CQCT e à OMS.

Com o retorno de Lula à presidência em 2023, a Conicq foi reativada, e o país retomou políticas antifumo que estavam congeladas desde 2016, como o aumento do preço mínimo dos cigarros. Além disso, a Anvisa reforçou seu veto aos cigarros eletrônicos em 2024, e o governo criou o “imposto do pecado” em sua reforma tributária, uma taxa extra sobre produtos nocivos como álcool, bets ou cigarros, medida que rendeu um prêmio da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) aos ministérios da Saúde e da Fazenda. Até o momento, as alíquotas desse novo tributo não foram definidas.

Ainda é difícil prever o que será de uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro, que terminou o primeiro turno presidencial à frente de Lula e, até o momento, lidera as pesquisas para a segunda rodada. Sua equipe econômica tem criticado a reforma tributária e já sinalizou querer remendá-la, mas sem sinais claros sobre manter ou ajustar o imposto do pecado. 

O presidenciável também disse que indicaria ao Ministério da Saúde o médico oftalmologista Cláudio Lottenberg, presidente da Confederação Israelita do Brasil (Conib) e ex-conselheiro do Hospital Israelita Albert Einstein, profissional que já criticou vapes e o tabagismo em suas redes e artigos de jornais. Lottenberg, no entanto, é muito criticado por bolsonaristas devido à sua postura pró-ciência. Por isso, aliados do senador não descartam que Flávio quebre sua promessa e indique outro nome à pasta em caso de vitória.   

O segundo mandato de Donald Trump nos EUA pode dar uma pista sobree como deve ser um eventual governo do filho de Jair Bolsonaro. Se depender de um alinhamento entre bolsonarismo e trumpismo, o cenário é nebuloso. Em maio, uma semana após receber doações milionárias das empresas de tabaco e jantar com lobistas, Trump interveio na Food and Drug Administration (FDA), a Anvisa norte-americana, para liberar vapes e sachês de nicotina de sabores frutados e atraentes a adolescentes.

Desde que voltou à Casa Branca em 2024, o presidente estadunidense também suspendeu o avanço de novas políticas antifumo pelo FDA, como uma proposta de banir cigarros mentolados, já que o mentol é um aditivo que comprovadamente deixa fumar mais viciante. Além disso, as Câmaras de Comércio dos EUA também têm sido mobilizadas globalmente para fazer lobby pró-nicotina no exterior, em países como Bulgária, Malásia e Ucrânia. 

No caso de Flávio, também pesam as conexões do filho de Bolsonaro com o advogado Willer Tomaz, considerado seu amigo próximo e dono do jatinho mantido em sociedade com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro no qual o senador pegou carona em viagens aos EUA. Além de investigado por vínculos com casas de apostas e o escândalo do INSS, Tomaz é advogado da Quality In, fábrica de cigarros do Rio de Janeiro ligada à Máfia dos Cigarros e ao jogo do bicho.

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