Indústria e aliados no Congresso atuaram em sintonia para garantir a isenção da carne na reforma tributária do consumo

Ainda tem muito salgadinho tipo “isopor” cruzando a porteira fiscal sem pagar pedágio. É que, em mais de uma região do país, legislações estaduais ainda garantem benefícios fiscais a ultraprocessados. Com a perspectiva de uma cesta básica nacional, centrada em alimentos que pouco se afastam da forma original, parecia que as coisas, enfim, entrariam nos trilhos. Mas a graça alcançada veio a reboque de concessões.
Com o aval conjunto do Planalto, Congresso e setor produtivo, itens com impacto expressivo sobre a arrecadação conquistaram espaço na lista de exceções da reforma tributária. Nem os alertas da equipe técnica resistiram àquilo que, uma vez em marcha, ninguém mais detém. O lugar cedido à carne no rol de produtos isentos do novo Imposto sobre Valor Agregado (IVA) é prova disso.
Aconteceu em 10 de julho do ano passado, depois de mais de nove horas de debate na Câmara dos Deputados. Em pauta, o Projeto de Lei Complementar (PLP) 68/2024, que estabelece as regras dos novos tributos sobre bens e serviços no Brasil, além de definir os critérios da futura cesta básica com alíquota zero. Quando a votação já se encaminhava para o fim, um destaque (pedido formal para que determinada emenda ou trecho de projeto seja votado separadamente) de última hora mudou o desfecho da sessão.
Proposta por Rodolfo Nogueira (PL-MS), a mudança no substitutivo da cesta básica zerava os impostos sobre carnes, peixes, queijos e sal — produtos que, até então, teriam um desconto de 60% no Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e na Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), conforme o relatório do Grupo de Trabalho sobre a Regulamentação da Reforma Tributária.
Em entrevista à coluna Entrelinhas, da Gazeta do Povo, o deputado federal do maior partido do poder Legislativo federal brasileiro saiu em defesa da própria obra. “Quando se tributa uma mercadoria, é inevitável que o preço final ao consumidor aumente”, disse Nogueira. Com essa afirmação, porém, ele desconsiderou a proposta do governo, que previa um sistema de cashback justamente para proteger as camadas mais pobres da população.
Ao se referir a críticos da isenção como parte de “um lobby poderoso, formado por grupos influentes”, o parlamentar ajustou a lente para o fundo da cena — deixando o setor da proteína animal em segundo plano.
Para Nogueira, a medida beneficiaria unicamente a JBS, maior processadora de carne do mundo, a quem ele atribuiu o status de “amiga do rei”. Já os pequenos e médios frigoríficos, segundo o parlamentar, ficariam à margem. Difícil entender, então, por que a solução escolhida passou ao largo do fortalecimento de políticas compensatórias — instrumentos que, aliás, já estavam previstos desde o início.
O imposto zero contrariou a proposta da Fazenda, que defendia uma redução de 60% sobre a alíquota de referência. A medida buscava evitar pressão sobre a carga geral do IVA, estimada em 0,53 ponto percentual, de 26,5% para 27,03%.
No entanto, a base governista cedeu. A carne ocupa tamanho protagonismo no prato que sobrou pouco espaço para vaidades individuais. Tantos foram os pretendentes à autoria da medida que seria leviano cravar um só pai.
No fim, coube ao relator Reginaldo Lopes (PT-MG) oficializar o apadrinhamento coletivo: “Estamos acolhendo no relatório da reforma todas as proteínas: carnes, peixe, queijos e, lógico, o sal, porque o sal é um ingrediente da culinária brasileira”, anunciou por volta das 2.
Dali em diante, o pleito era mera formalidade. O destaque foi aprovado por esmagadora maioria: 477 votos a favor e apenas três contrários. Mas o tal alinhamento de astros, ao contrário do que se propaga, não teve nada de espontâneo.
Nome aos bois
Levantamento inédito da Fiquem Sabendo, realizado por meio da plataforma Agenda Transparente, mostra que, entre janeiro de 2023 e março de 2025, representantes do setor da carne participaram de 1.032 reuniões com autoridades do Executivo federal.
Grande parte dessa articulação esteve nas mãos da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) e da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), que, no mesmo período, somam 515 compromissos distintos com representantes do governo. Procuradas, as três entidades preferiram não se manifestar.
Já no Congresso Nacional, um outro recorte chama atenção: Leonardo Minaré Braúna, assessor técnico da Aprosoja Brasil, lidera o ranking de presença com 24 visitas registradas na Câmara dos Deputados. A soja, vale lembrar, não é apenas o principal item da pauta de exportação brasileira — também alimenta os rebanhos que abastecem a indústria da carne.
Na sequência, aparece Suelen Romagna Zottele, coordenadora de Relações Governamentais e Institucionais da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), com 21 visitas — o segundo maior número entre os representantes da cadeia da carne. Ana Paula Cenci Vidal, da Associação Brasileira dos Criadores de Suínos (ABCS), somou 19 encontros. Helena Romeiro de Araújo, da MBRF, empatou com Jairo Gund, diretor-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Pescados (Abipesca), ambos com 16 registros.
Junho de 2024, mês anterior à votação da regulamentação da reforma tributária — aprovada em 10 de julho pela Câmara dos Deputados — concentrou 26 visitas, o maior número de todo o levantamento. Só Helena Romeiro de Araújo registrou cinco passagens pelos gabinetes parlamentares naquele mês. Ana Paula Cenci Vidal teve três registros no mesmo período.
Considerando apenas 2024, Leonardo Minaré Braúna, liderou o ranking com 16 visitas. Helena Romeiro de Araújo aparece logo em seguida, com 15 registros no mesmo ano, enquanto Ana Paula Cenci Vidal figura com 12 passagens. A constância desses nomes ao longo dos meses indica uma atuação metódica, com presença recorrente em fases decisivas da tramitação legislativa.
O mês de outubro de 2024, que concentrou 16 visitas de representantes do setor, coincidiu com a aprovação, no Senado, do plano de trabalho da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) para o projeto de lei complementar (PLP 68/2024).
Embora o texto da reforma já preveja a criação do Comitê Gestor do IBS, a definição de sua estrutura e atribuições foi remetida a um projeto específico: o PLP 108/2024, aprovado pela Câmara em agosto. A movimentação do setor nesse momento indica atenção redobrada à governança tributária — já que a forma como o comitê será composto e os critérios de rateio podem influenciar, ainda que de modo indireto, a manutenção de vantagens.
Naquele mesmo outubro, Braúna foi o frequentador mais assíduo, com três registros no mês. Um deles, no dia 17, teve como destino o gabinete do deputado Sérgio Souza (MDB-PR), ex-presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA). O político também recebeu, em duas ocasiões, Daniel Felipe Marra e Rosa, representante da Abramilho. O vídeo abaixo reforça o alinhamento entre os interesses do setor e a atuação do parlamentar.
Em dezembro de 2017, o paranaense foi citado na Operação Carne Fraca como destinatário de uma propina mensal de R$ 20 mil, acusação que ele sempre negou. A investigação revelou um esquema de corrupção entre fiscais agropecuários e frigoríficos. O objetivo era fraudar os controles sanitários e liberar carne imprópria para o consumo no Brasil e no exterior.
Meses antes, em março daquele ano, Souza já manifestava preocupação com os impactos da operação sobre as cadeias produtivas de aves e suínos.
Leonardo Minaré Braúna, Ana Paula Cenci Vidal, Helena Romeiro de Araújo, Suelen Romagna Zottele e o deputado federal Sérgio Souza foram procurados, mas não se manifestaram até a publicação da reportagem.
Carnívoros no fronte
Os frigoríficos também estiveram na linha de frente do imposto zero. JBS, Marfrig e Minerva somaram 248 encontros com autoridades do Executivo federal entre 2023 e março de 2025.
No ranking de lobistas mais ativos, nomes ligados à JBS ocupam posições de destaque. Carlos Cidade, diretor de Relações Institucionais da empresa, participou de 63 reuniões com autoridades federais e acumulou 61 horas de encontros oficiais. Outros representantes da indústria aparecem entre os mais frequentes — muitos deles identificados formalmente como lobistas em listas da sociedade civil.
Com 93 nomes mapeados, os dados mostram um esforço organizado do setor da carne para garantir espaço e voz em Brasília. Em 2024, dois mediadores de interesses figuraram entre os profissionais de relações institucionais e governamentais (RIG) mais admirados, segundo o Anuário Origem Latam 2024: justamente o diretor de Relações Institucionais da JBS, Carlos Cidade, e a gerente-executiva de Relações Institucionais e Governamentais da BRF e da Marfrig, Helena Romeiro de Araújo. Ambos já haviam sido citados no ano anterior.
Em entrevista ao anuário, Cidade destacou a isenção da carne na cesta básica como um dos grandes feitos de 2024. Segundo ele, o Congresso apenas oficializou um cenário já consolidado: desde 2009, a proteína animal vinha livre de tributos federais e, em boa parte dos estados, o ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) já era reduzido ou sequer era cobrado. Para Cidade, o governo teria errado o alvo ao propor cashback como alternativa — uma medida que, em suas palavras, “não beneficiaria as camadas mais pobres da população”.

Embora tenha mobilizado 77 nomes junto ao governo federal, a JBS ainda mantém sua articulação centralizada em figuras-chave — caso de Cidade, que também representa marcas como a Seara, conforme registro no site da Abia. Desde 2020 na JBS, o executivo é responsável pela gestão do relacionamento institucional com os poderes Executivo e Legislativo, nas esferas federal, estadual e municipal. Exerce também funções de interface com entidades setoriais e nacionais.
Discrição, no mundo dos bastidores, pode ser sinônimo de eficácia. No mesmo anuário, Cidade resume a lógica com um conceito que considera fundamental: ser “no profile”. Em tempos de polarização, argumenta ele, o segredo para manter os canais abertos com todos os espectros políticos é justamente não parecer inclinado a nenhum. A baixa exposição, entretanto, não implica pouca influência.
Pelo contrário: o movimento que resultou na inclusão da carne na cesta básica nacional com alíquota zero, conduzido em sintonia com grandes frigoríficos, expôs a influência de atores que costumam atuar longe dos holofotes — ainda que tenham muito a ganhar com os resultados.
Nem Cidade nem a JBS responderam aos questionamentos da reportagem.
O plantel habitual
A Fiquem Sabendo, em parceria com o Joio, fez um levantamento sobre a atuação de lobistas na Câmara dos Deputados. Entre janeiro de 2023 e abril deste ano, os registros obtidos por meio do Sistema de Identificação de Visitantes (SIVIS2), solicitados via LAI, mostram quem mais participou de reuniões com autoridades.
Alguns representam entidades setoriais como a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) e a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).
Outros defendem os interesses de gigantes do setor, como JBS, Marfrig e Minerva. De acordo com o levantamento da Fiquem Sabendo realizado com base na Agenda Transparente, as três respondem por 95% dos compromissos do setor da carne com o Executivo federal. Se fossem realizadas em sequência, essas reuniões tomariam quase 11 dias corridos — mais do que muitos trabalhadores conseguem desfrutar de folga ao longo de um ano inteiro.
Veja a relação completa apurada pela reportagem.
O Joio procurou todas as pessoas citadas. A JBS chegou a afirmar que responderia, mas não enviou posicionamento até o fechamento do texto. A BRF/Marfrig alegou que o tema deveria ser tratado por entidades representativas, como a Abiec — que também não se manifestou. Nenhum dos outros nomes mencionados retornou o contato.
Poucos falam por muitos
Embora tenham sido mapeados 552 atores ligados à indústria, apenas cinco acumularam quase 12% do tempo total de reuniões com o Executivo federal.
A lista reúne nomes classificados pela Fiquem Sabendo como profissionais de relações governamentais e pela ONG Proteção Animal Mundial como agentes privados influentes no Congresso.
O poder sem voto
O lobby, convém lembrar, não é proibido no Brasil. Em 2022, a Câmara aprovou um projeto para regulamentar a prática de influenciar decisores públicos para promover interesses específicos de grupos ou organizações. O texto prevê regras de transparência e a proibição de vantagens indevidas. Mas a proposta segue parada no Senado.
Enquanto não houver legislação específica, a atuação de representantes governamentais — como nos casos mencionados — não configura crime nem ilegalidade. É justamente essa lacuna que preocupa.
Para o Núcleo Gestor da Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável, que respondeu à entrevista em conjunto, esse vácuo normativo perpetua a assimetria entre interesses que incidem sobre a formulação de políticas públicas. “A representatividade no processo decisório fica comprometida, já que os interesses da população tendem a ter menos espaço e recursos para influenciar essas decisões”, sustenta a coalizão.
Essa concentração de influência se reflete também na forma como o poder público conduz o debate. “Interesses corporativos, como no caso do agronegócio ou da indústria de produtos alimentícios ultraprocessados, conseguem atuar de forma mais incisiva nos poderes Legislativo e Executivo, moldando políticas que contrariam as evidências científicas e os princípios de saúde pública”, alerta a Aliança.
Felizmente, há mecanismos que ajudam a revelar o que se passa por trás das cortinas. A Lei de Acesso à Informação (LAI) é um deles. Com base nesse instrumento, a agência Fiquem Sabendo protocolou 152 pedidos de informação a fim de apurar a atuação de grupos organizados em defesa da desoneração de carnes no mercado interno.
Ocorre que a conversa ao pé do ouvido nem sempre deixa rastros. A Câmara dos Deputados informa que mais de mil pessoas foram ouvidas pelos grupos de trabalho que analisaram os dois projetos de regulamentação da reforma tributária. O GT dedicado a debater o PLP 68/24, que instituiu novos impostos sobre o consumo, promoveu um total de 22 audiências públicas, 140 encontros com setores específicos da economia e três eventos externos.
No entanto, ao solicitar ao Departamento de Comissões da Câmara dos Deputados o inteiro teor ide todas contribuições, sugestões, subsídios, documentos técnicos, notas técnicas e assemelhados recebidos por e-mail, o Joio descobriu que não havia qualquer material sobre a desoneração tributária das proteínas de origem animal.
A secretária-executiva da Coordenação de Comissões Temporárias da Câmara dos Deputados, Roberta Mascarenhas, enviou convites para mesas de diálogo à ABPA, Abras, JBS, Abiec e ProBrasil. Em contraste, não há registro de trocas de e-mails com organizações da sociedade civil contrárias à renúncia fiscal. Tampouco o órgão disponibilizou atas ou materiais complementares dos encontros mantidos.
Encomendado pelo Senado, o relatório do Grupo de Trabalho criado pela Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), em 2024, traz uma síntese das discussões sobre o novo sistema de tributos.
Ao longo de 21 audiências realizadas a partir de agosto de 2024, representantes de mais de 200 segmentos apresentaram suas demandas PLP 68/2024, que regulamenta o IBS, a CBS e o Imposto Seletivo.
Em 10 de setembro, durante sessão dedicada ao cashback e à Cesta Básica Nacional de Alimentos (CBNA), atores ligados a entidades setoriais usaram o espaço para contestar as bases técnicas do governo.
Paulo Rabello de Castro, consultor da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), alegou que a lista proposta “desidratava” os itens essenciais, deixando de fora carnes e peixes. Também criticou o teto de 26,5% para a alíquota de referência, sugerindo que o Senado deveria trabalhar para evitar um aumento exagerado da carga tributária sobre alimentos.
Gesner Oliveira, sócio-executivo da consultoria empresarial G.O. Associados, levou ao debate um estudo com o qual buscou rebater a ideia de que a carne seria a grande vilã no aumento da alíquota de referência. Segundo ele, “o impacto no preço das carnes seria seis vezes maior para os mais pobres do que para os mais ricos”.
Já Luiz Cláudio Carvalho, representante da Abiec, argumentou que a oneração das carnes implicaria uma redução em seu consumo, o que, em sua visão, prejudicaria a população.
Na antevéspera da votação do destaque na Câmara, a entidade divulgou nota à imprensa defendendo a inclusão das carnes na cesta básica. Alegava que a exclusão “causaria severo impacto no acesso aos alimentos nutricionalmente recomendados (…) aumentando a insegurança alimentar” e que a medida lhe parecia “inconstitucional” à luz da Emenda Constitucional nº 132.
A visão diverge da defendida pelo Ministério da Fazenda, representado por Rodrigo Orair, diretor da Secretária Extraordinária da Reforma Tributária. Ele defendeu o mecanismo de cashback como instrumento de justiça fiscal, voltado à redução das desigualdades. No entanto, evitou comentar os impactos específicos da isenção das proteínas de origem animal.
Cabe ressaltar que nenhum encontro oficial tratou do impacto nutricional da carne ou de formas de combater a fome. As pautas se limitaram a reduzir impostos, ampliar a competitividade no mercado externo e atender demandas do agronegócio.
Nem antes a sociedade civil teve o mesmo espaço que o setor produtivo. Em 2023, representantes de fabricantes de produtos alimentícios participaram de 69 reuniões com o alto escalão do governo Lula para discutir a reforma tributária — número revelado por um levantamento prévio da Fiquem Sabendo.
Apenas a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia) marcou presença em cerca de um terço desses encontros. Enquanto isso, a Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável — coalizão que reúne entidades como Idec, ACT, Abrasco e Asbran — somou apenas 14 registros de agenda no mesmo período. A indústria, sozinha, foi recebida quase cinco vezes mais.
Questionada sobre sua participação no debate, a Abia declarou, em nota: “Durante a tramitação da reforma tributária, a Abia foi convidada com frequência para participar de diversos debates e apresentar dados e informações sobre a indústria brasileira de alimentos. Isso porque é a representante do setor no País e porque tem como missão promover o diálogo, baseado em evidências, com todos os setores da sociedade. Sua atuação é legítima e conduzida de forma ética, fundamentada em dados econômicos, sociais e científicos.”
Quem banca a bancada do boi
Em 2022, sócios de frigoríficos e associações do agronegócio irrigaram as campanhas eleitorais com cifras milionárias. Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), organizados pelo Base dos Dados, mostram que as maiores fatias partiram de empresas como a Plena Alimentos (R$ 320) e o Frigosul (R$ 70), responsáveis, juntas, por R$ 390 mil em doações.
Entre os partidos mais beneficiados, destacam-se o PL e o PSC, que concentraram os maiores aportes do setor. Candidatos alinhados à pauta agropecuária também figuram entre os principais destinatários dos recursos. O ex-deputado federal Osires Damaso (PSC-TO), por exemplo, recebeu R$ 300 mil da Plena Alimentos, enquanto a ex-ministra da Agricultura Tereza Cristina (PP-MS), hoje senadora, foi beneficiada com R$ 70 mil em doações do Frigosul.
As doações não se limitaram a transferências diretas. Houve também cessões de veículos e outros bens, sinalizando uma estratégia diversificada de apoio. Os cinco maiores doadores individuais ligados ao setor de carnes declararam R$ 390 mil em contribuições.
O padrão chama atenção: as doações se concentram em candidatos de partidos com forte presença na Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA). O caminho do dinheiro expõe a musculatura política do setor no Congresso, onde atua para calibrar decisões sobre a reforma tributária e para afrouxar ou travar políticas ambientais.
Embora legais e transparentes, essas movimentações evidenciam como a influência econômica se traduz em capital político. Em um sistema tributário que já favorece grandes grupos com desonerações bilionárias, as doações reforçam a simbiose entre o agronegócio e a política nacional.
Nenhuma empresa do setor da carne aparece formalmente entre os doadores da FPA, já que a legislação proíbe doações empresariais. Mas nomes ligados a frigoríficos surgem nas prestações de contas como pessoas físicas. É o caso de Diego Riva Magnabosco e Paulo Eduardo Manfrin Pereira, sócios da Frigosul, e de Marcos Antonio de Faria Maia, dono da Plena Alimentos. No total, eles direcionaram R$76,6 mil em doações.
O uso de CPFs no lugar de CNPJs é uma prática comum em disputas eleitorais e pode sinalizar uma atuação mais discreta do lobby da carne nos bastidores do financiamento político.
Destinatários das doações de sócios do setor da carne em 2022
Osires Damaso (PSC) – candidato a deputado federal
• R$ 100.000 de Claudio Ney de Faria Maia (Plena Alimentos S/A)
• R$ 100.000 de Denio Altivo de Oliveira (Plena Alimentos S/A)
• R$ 100.000 de Marcos Antonio de Faria Maia (Plena Alimentos S/A)
Tereza Cristina (PP) – candidata ao Senado
• R$ 30.000 de Diego Riva Magnabosco (Frigosul – Frigorífico Sul Ltda)
• R$ 40.000 de Paulo Eduardo Manfrin Pereira (Frigosul – Frigorífico Sul Ltda)
Julio César (PSD) – candidato a deputado federal
• R$ 22.000 de Sergio Luis Bortolozzo (Associação Brasileira dos Produtores de Milho – Abramilho)
Domingos Sávio (PL) – candidato a deputado federal
• R$ 6.667 de Claudio Ney de Faria Maia (Plena Alimentos S/A)
• R$ 6.667 de Denio Altivo de Oliveira (Plena Alimentos S/A)
• R$ 6.666 de Marcos Antonio de Faria Maia (Plena Alimentos S/A)R$ 22.000 de Sergio Luis Bortolozzo (Associação Brasileira dos Produtores de Milho – Abramilho)
Antônio Galvan (PTB) – candidato a senador
• R$ 14.524 de Antonio Galvan (Associação Brasileira dos Produtores de Soja – Aprosoja Brasil)
Delegado Caveira (PL) – candidato a deputado federal
• R$ 2.000 de Benedito Bento de Oliveira (Frigol S.A.)
• R$ 2.000 de Dorival Gonzaga de Oliveira (Frigol S.A.)
• R$ 2.000 de Durval Gonzaga de Oliveira (Frigol S.A.)R$ 14.524 de Antonio Galvan (Associação Brasileira dos Produtores de Soja – Aprosoja Brasil)
Guilherme Piai (Republicanos) – candidato a deputado federal
• R$ 2.000 de Benedito Bento de Oliveira (Frigol S.A.)
• R$ 2.000 de Dorival Gonzaga de Oliveira (Frigol S.A.)
• R$ 2.000 de Durval Gonzaga de Oliveira (Frigol S.A.)
Fonte: Tribunal Superior Eleitoral
No caso de Tereza Cristina (PP-MS), vice-presidente da FPA no Senado, o setor de frigoríficos aparece entre os doadores por meio de Paulo Eduardo Manfrin Pereira e Diego Riva Magnabosco, sócios do Frigosul, de Aparecida do Taboado (MS). Manfrin doou R$ 40 mil. Magnabosco, R$ 30 mil.
No palco do Agro Horizonte, promovido pela Globo Rural em Brasília, a senadora e ex-ministra da Agricultura falou sem rodeios: a reforma tributária favorece o agronegócio. Admitiu que haverá segmentos insatisfeitos, mas disse que, no conjunto, a mudança é “justa”. Para ela, “o agro foi contemplado” e “ficou bem” na nova configuração. Em 12 de dezembro de 2024, um dia após a declaração, o plenário do Senado aprovaria, por 49 votos a 19, o texto-base do projeto de lei complementar que regulamenta a reforma tributária.
A campanha de Domingos Sávio (PL-MG), por sua vez, teve apoio dos três sócios-fundadores da holding CDM, o mineiro Denio Altivo de Oliveira e os paraenses Claudio Ney de Faria Maia e Marcos Maia. Juntos, eles repassaram cerca de R$ 20 mil. O grupo controla a Plena Alimentos, que abastece o mercado interno e exporta carne para a Ásia, Oriente Médio e norte da África. Em 2022, ano das eleições, o frigorífico faturou R$ 3,3 bilhões.
Quando o GT não incluiu as carnes na cesta com imposto zero, Sávio reclamou:
Embora não tenha sido votada em destaque, o deputado também apresentou uma emenda para desonerar as carnes. Depois de aprovada, Sávio celebrou a medida como uma conquistal. Em nota publicada no próprio site, argumentou: “As carnes são um alimento essencial para a nossa dieta e garantir que elas estejam acessíveis a todos é uma questão de justiça social. Com a alíquota zero, evitaremos um aumento de preços que fatalmente ocorreria com o imposto sobre carnes e queijos”.
Com o resultado já definido pelo acatamento do relator, restava à Câmara apenas a encenação da votação simbólica. Sávio, que também é presidente da Frente Parlamentar do Comércio e Serviços (FCS), ocupou o microfone para transformar o protocolo em tribuna. Falou de “cesta básica nutritiva, saudável, regional” e, num salto rápido, equiparou nutrição à proteína animal. “Como poderia uma cesta básica ser nutritiva e saudável se não tivesse proteína?”, perguntou.
Nenhuma outra fonte proteica coube no discurso. Nem o feijão, que há séculos ocupa o prato do brasileiro, mereceu lembrança. No enredo apresentado, respeitar o produtor é respeitar o brasileiro — desde que ele dependa da carne, e apenas dela, para “ter saúde, para ser saudável”. Chamou de “grande sabedoria” a decisão que, na prática, carimbava o que já estava garantido: a vitória de um setor que nunca precisou de muito esforço para se impor.
Denominador comum
O presidente do PL em Minas integra o grupo de deputados que assinaram emendas idênticas, todas com o mesmo objetivo: incluir proteínas animais na cesta básica. Mas como cinco parlamentares diferentes propuseram exatamente o mesmo texto, no mesmo dia? A BBC News Brasil foi atrás da resposta.
A pista estava nos metadados — uma espécie de “impressão digital” que acompanha os arquivos e revela quem criou, editou ou salvou cada documento. Ao analisá-los, foi possível descobrir que todas as emendas foram escritas pela mesma pessoa: Gabriel Lemos, gerente técnico da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) e do Instituto Pensar Agro (IPA), organização que atua nos bastidores da bancada ruralista.
Apesar de sua atuação direta na formulação das propostas, Lemos não aparece na folha de pagamento da Câmara dos Deputados. Nem como servidor efetivo nem como comissionado.
Em 2019, o site De Olho nos Ruralistas já havia desvendado o mistério. As verbas que chegam à Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) passam pelo IPA, abastecido por 38 associações mantenedoras. Cada uma paga ao menos R$ 20 mil mensais, somando R$ 760 mil por mês. Entre elas está a ABPA, apoiada por empresas como BRF, dona de Sadia e Perdigão, e Seara, braço de aves e suínos da JBS, conforme consta no site da entidade.
Na Câmara, das 809 emendas apresentadas durante a tramitação da reforma tributária, a análise dos metadados empreendida pela BBC News Brasil detectou pelo menos 18 nomes potencialmente vinculados a empresas privadas, escritórios de advocacia ou associações de classe. Procurados pelo veículo, o Instituto Pensar Agro e a FPA não responderam às perguntas enviadas.
A bancada ruralista, que abocanha pelo menos três em cada cinco votos da Câmara, esteve entre as principais defensoras da inclusão da proteína animal. Nos dias que antecederam a votação na Câmara, seus representantes se reuniram repetidas vezes com o então presidente da Casa, Arthur Lira, para tentar resolver o impasse.
Em 23 de julho, o Joio pediu entrevista com o presidente da FPA, Pedro Lupion (PP-PR). Dois dias depois, sua assessoria informou que ele estava em recesso. Um novo contato foi feito ainda durante a pausa nas atividades legislativas, com a sugestão de marcar após o retorno. Não houve resposta até o fechamento desta reportagem.
O Lobby da Carne é um projeto da Fiquem Sabendo, em parceria com O Joio e O Trigo e com apoio da Proteção Animal Mundial.





