Cresce no mundo o número de artigos que rejeitam parâmetro consagrado por diferenciar comida de formulação; entenda os meandros da reação à classificação NOVA
Se hoje um ultraprocessado é chamado pelo nome, é porque a Classificação NOVA mostrou ao mundo que dar sentido é também mudar o campo de visão. Em vez de restringir o foco ao que um alimento contém, o Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens) da USP, então coordenado pelo professor Carlos Monteiro, passou a investigar de que modo e em que medida ele é transformado. Às vezes, quase nada; na maioria, o bastante para que já não guarde vestígio do que foi. Daí o termo, cunhado em 2009, para descrever o estágio máximo da intervenção humana. Padrão, este, que se impôs nas prateleiras, avançando no mesmo passo em que se agravam os problemas de saúde que o acompanham.
A linha traçada entre comida propriamente dita e formulações industriais prontas para consumo aborreceu as multinacionais do setor. No início, os ataques eram frontais: questionavam sua credibilidade, desacreditavam seus critérios e pressionavam governos a não usá-la em políticas públicas. Quando as fissuras ficaram evidentes demais, o processo de corrosão mudou de forma. A partir daí, a indústria fez da ciência sua arma mais poderosa.
Uma busca pelo termo “NOVA classification” no banco de dados PubMed identificou 114 textos científicos publicados até 25 de setembro de 2025. Entre eles, 17 levantaram dúvidas sobre a abrangência do modelo, destacaram supostas fragilidades nas evidências ou sugeriram cautela em sua adoção. Há ainda trabalhos que operam de forma mais velada, concentrando críticas em desfechos específicos e relativizando o alcance da classificação.
O método é quase sempre o mesmo. Os autores recortam um grupo restrito de produtos – como laticínios fermentados – e analisam a relação com um único indicador de saúde – como doenças cardiovasculares, por exemplo. Quando não encontram associação inequívoca, usam isso para bater no sistema como um todo.
Acontece que a NOVA é uma ferramenta para analisar o conjunto da obra. A ideia nunca foi julgar se iogurte é “bom ou ruim”. O que a classificação possibilita é organizar tudo aquilo que é ingerido, sólido ou líquido, segundo a extensão, o tipo e o propósito das mudanças sofridas ao longo da cadeia. E é justamente nesse uso que se evidencia como formulações de ingredientes – em sua maioria de aplicação exclusivamente industrial – alteram padrões alimentares tradicionais e colocam em risco a saúde pública e individual.
Pergunta errada
Em países onde os ultraprocessados já dominam a dieta, como ocorre nos Estados Unidos e no Reino Unido, até se pode justificar começar a regulação pelos produtos mais nocivos. É um raciocínio que faz algum sentido, reconhece Renata Levy, pesquisadora da Faculdade de Medicina da USP e que ajudou a consolidar a NOVA. O problema é que, em vez de funcionar como ponto de partida, “esse critério acaba sendo manipulado para enfraquecer o controle”.
Um exemplo disso, aponta Renata, é quando o subgrupo analisado não é comparado à versão não ultraprocessada – como pão industrializado frente a pão caseiro –, mas ao restante da dieta. Nesse arranjo, o produto pode parecer mais saudável do que realmente é.
Há ainda estudos que colocam subgrupos de ultraprocessados lado a lado – refrigerante zero contra o comum, por exemplo. Esse tipo de abordagem sugere que há um ultraprocessado “menos pior”, quando, na verdade, a classificação indica que todos carregam riscos semelhantes.
Táticas desse tipo não surgem do nada. Refletem uma tradição da ciência dos alimentos que ainda trata a comida como soma de nutrientes – e a saúde como um receituário individual. Presa a essa lógica, a disciplina acaba deixando escapar a alimentação sob uma perspectiva sociopolítica e cultural.
“Se a pesquisa já nasce desse enquadramento, é comum que as conclusões apenas confirmem o que estava dado desde o início”, observa Ana Paula Bortoletto, outra pesquisadora do Nupens. O efeito é um círculo fechado: perguntas de pesquisa, metodologias e conclusões reforçam a mesma visão fragmentada que já orienta boa parte da produção científica sobre comida.
As fragilidades não se limitam à forma como os estudos são conduzidos. Um levantamento publicado no periódico World Nutrition mostrou que parte significativa das críticas à NOVA vinha de materiais ligados à própria indústria de alimentos. Coordenado por Mélissa Mialon, o estudo analisou 32 documentos produzidos entre agosto e dezembro de 2018 – de artigos científicos a editoriais, apresentações em congressos, vídeos, sites e até uma audiência pública.
No total, foram identificados 38 autores, sendo que 33 deles tinham algum tipo de vínculo com fabricantes de ultraprocessados – seja por emprego direto, conflitos de interesse declarados (ou ocultos e rastreados online), ou por laços com organizações ligadas ao setor. Somente cinco não tinham vínculos explícitos, dois dos quais eram recém-formados e um sem afiliação conhecida.
O preço da evidência
A ciência é sólida apenas quando preserva sua autonomia. No instante em que interesses externos moldam os resultados, ela perde credibilidade. Eis as formas mais comuns de conflito de interesses:
Financeiro direto
Quando há interesse imediato no resultado, como quando fabricantes de refrigerantes financiam estudos para minimizar os riscos do açúcar.
Institucional
A pressão vem do ambiente. Um órgão público que defende certa política alimentar pode influenciar, mesmo sem dar ordens.
Percebido
Às vezes, basta a origem do dinheiro. Um estudo sobre agrotóxicos bancado pelo setor agrícola dificilmente é visto como neutro.
Intelectual
O apego a uma teoria ou método pode levar o pesquisador a interpretar resultados de forma tendenciosa.
Pessoal
Relações de amizade, rivalidade ou parentesco podem enviesar desde a interpretação de resultados até avaliações de artigos, distribuição de bolsas e decisões em bancas.
Em entrevista ao Joio, Thamillys Rodrigues, doutoranda da Universidade Federal Fluminense (UFF), contou que vem desenvolvendo uma pesquisa inédita em parceria com Mélissa Mialon e Camila Maranha. As pesquisadoras examinaram artigos publicados desde o surgimento da NOVA até 2023. O levantamento reuniu os argumentos mais repetidos contra o modelo.
As linhas de ataque se concentram em três categorias. A primeira – e mais frequente – acusa a NOVA de ser confusa, imprecisa ou pouco adequada para identificar alimentos. A segunda faz a defesa do processamento em si, apresentado como benéfico para a segurança alimentar e nutricional. “Chegamos a encontrar até quem argumentasse que o processamento libertaria as mulheres do tempo gasto na cozinha, como se isso fosse um mérito dos ultraprocessados”, contou. Por fim, há quem aceite a NOVA de modo estratégico: propõem revisões e acoplamentos a outros sistemas, o que pode conter seu alcance.
Conforme Thamillys, os resultados preliminares do levantamento indicam conflitos em diferentes níveis. Em alguns casos, os autores diziam não ter vínculos, embora as pesquisas fossem financiadas por empresas do setor. “Havia situações em que o mesmo pesquisador negava conflito em um artigo e reconhecia em outro”, relata. A contradição não se limita aos autores: alcança também as revistas científicas, algumas há muito associadas ao patrocínio da indústria.
Questionada sobre quais associações mais se destacaram na análise, Thamillys cita a American Society for Nutrition, que tem entre seus patrocinadores empresas como PepsiCo, Mondelez e Mars. Revistas como Nutrients e Nutrition Today também apareceram com frequência.
Paradoxalmente, são os artigos com conflitos de interesse que mais se firmam como referência. É um efeito cascata: um estudo enviesado dá legitimidade a outro, que por sua vez sustenta um terceiro – e assim a dúvida vai sendo manufaturada dentro da própria literatura científica.
Segundo Camila Maranha, a equipe está atualizando as análises para incorporar pesquisas mais recentes. A etapa seguinte será submeter o artigo para publicação. Como o trabalho ainda pode passar por ajustes, os resultados completos só devem ser divulgados após a revisão interna e a avaliação por pares.
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Falsas controvérsias
Os conflitos de interesse na ciência, porém, não se medem só em cifras. O caso mais evidente é o financiamento privado, que compromete a credibilidade de estudos independentes mantidos por agências públicas de fomento, como a Capes e o CNPq no Brasil.
Mas há também influências menos óbvias. Paradigmas científicos que priorizam nutrientes isolados ou dietas individuais, por exemplo, podem dificultar o reconhecimento do processamento industrial levado ao extremo como um problema sistêmico. Identificar essas engrenagens exige atenção a todas as suas formas – das mais explícitas às mais dissimuladas.
É isso que um núcleo criado por professores da UFF e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) se dedica a fazer. Formado oficialmente em maio do ano passado, o ObservaCoI (Observatório Brasileiro de Conflitos de Interesse em Alimentação e Nutrição) atua em três frentes: produzir e difundir conhecimento sobre interferências do setor de alimentos; formar pesquisadores e gestores para reconhecer e enfrentar essas práticas; e apoiar órgãos públicos e organizações sociais na proteção de políticas contra essas influências.
A declaração de conflito de interesses é um mecanismo criado justamente para dar transparência às pesquisas científicas. Em artigos acadêmicos, os autores devem informar se têm vínculos financeiros, profissionais ou institucionais que possam influenciar – ou parecer influenciar – os resultados do trabalho.
Para Beatriz Gouveia, pesquisadora-gestora do Núcleo Executivo do ObservaCoI e representante da Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável, esse gesto é insuficiente. “Não adianta ter esse espaço no artigo se os pesquisadores não sabem como usá-lo, se os leitores o ignoram ou, pior, se não existe nenhuma checagem para verificar se a declaração é verdadeira e completa.”
Os jogos de influência raramente se revelam de imediato. Eles se insinuam nos agradecimentos, nas fontes de financiamento, nas filiações institucionais. Rastreá-los exige tempo e cuidado – e não serve para apontar culpados individuais, mas para revelar como a própria estrutura da pesquisa favorece esse tipo de vínculo.
Custos de publicação cada vez mais altos, pressão por produtividade e ausência de políticas voltadas ao interesse público tornam a ciência mais vulnerável à influência privada. Pesquisadores, grupos e institutos passam a depender do financiamento de empresas e indústrias, o que aumenta o risco de captura corporativa.
Impacto na regulação
Em 2023, o Comitê Científico Consultivo em Nutrição (SACN, na sigla em inglês), ligado ao governo britânico, publicou um parecer sobre “alimentos processados” – e o termo polido não é coincidência. O documento reconheceu a importância da NOVA: entre oito classificações analisadas, foi a única considerada adequada para uso no Reino Unido. Mas não deixou de apontar limitações.
A categoria “ultraprocessados” seria ampla demais e de difícil aplicação em pesquisas populacionais, defendeu o comitê. Estimativas de consumo variam, as listas de exemplos mudam e, em alguns casos, nem todos os produtos classificados como alimentos ultraprocessados (AUPs) se mostraram igualmente nocivos. Para o SACN, isso levanta a dúvida se os efeitos negativos se devem ao processamento em si ou, simplesmente, ao perfil nutricional típico desses produtos: ricos em açúcar, sal e gordura, pobres em fibras e vitaminas.
Para o professor Tom Sanders, emérito de Nutrição e Dietética no King’s College London, o posicionamento do SACN é um acerto. “Não há evidência confiável disponível para tirar conclusões firmes sobre os riscos dos ultraprocessados”, afirmou. Ele ressalta que os estudos até agora são quase todos observacionais e, portanto, “estão sujeitos a viés e confusão”.
É verdade que a maior parte dos estudos é do tipo observacional. Ensaios clínicos são caros e logisticamente difíceis, já que exigem controlar rigidamente a dieta dos participantes. Ainda assim, em 2019, Kevin Hall, do National Institute of Diabetes, Digestive and Kidney Diseases do NIH, conseguiu manter voluntários sob uma dieta totalmente controlada por um mês. O estudo mostrou que uma alimentação baseada em ultraprocessados levou ao ganho de peso e à piora de marcadores de saúde, mesmo quando os padrões nutricionais eram equivalentes aos de uma dieta com alimentos minimamente processados. Esse tipo de experimento normalmente não é citado pelos críticos.
Entretanto, antes de se aposentar, Sanders atuou como consultor para diversas empresas e entidades ligadas à fabricação de ultraprocessados. Ele próprio reconhece ter prestado serviços ao Conselho Consultivo de Cereais Matinais, ligado à Federação de Alimentos e Bebidas do Reino Unido, e também à indústria do aspartame, há mais de uma década.
Mais um ponto delicado envolve o financiamento da própria instituição onde atuou. Em 2006, o King’s College London recebeu 4,5 milhões de libras da Tate & Lyle, gigante do setor de açúcar e adoçantes. Oficialmente, o recurso foi destinado ao Centro de Pesquisa Clínica do hospital St. Thomas’ e, segundo Sanders, não financiou pesquisas sobre açúcar. Ainda assim, o vínculo com uma empresa interessada na imagem de seus próprios produtos compromete a independência acadêmica – nem que seja por vieses inconscientes dos pesquisadores.
Em um de seus documentos, a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia) recorre ao profissional para sustentar a acusação de que a classificação NOVA estaria “sujeita a viés” dos investigadores. O alvo da crítica é o Nupens – grupo que construiu sua reputação pela recusa sistemática a qualquer vínculo com o setor produtivo.
A Abia, de outra forma, tem mais de 80 associadas, entre elas a Coca-Cola, a Danone, a Garoto, a Nissin e a PepsiCo.

Intriga internacional
Uma das tentativas de minar a NOVA despertou a indignação de mais de cem cientistas independentes, especialistas em saúde pública e pesquisadores em nutrição.
A empreitada liderada por Susanne Bügel, professora de Nutrição Humana da Universidade de Copenhague, pretendia criar uma “nova geração” da classificação NOVA. O sistema passaria a incorporar critérios como composição nutricional, presença de fibras e até a matriz alimentar. Para os proponentes, isso traria uma visão “mais equilibrada” e evitaria que alimentos industrializados potencialmente saudáveis fossem “demonizados” pela atual classificação.
A proposta foi recebida pela comunidade científica como um ataque direto à NOVA original. Ao resgatar antigos sistemas centrados em nutrientes e perfis de alimentos, a “Nova 2.0” acabaria diluindo a evidência já consolidada em mais de 500 estudos que associam o consumo de ultraprocessados à obesidade, ao diabetes tipo 2, a doenças cardiovasculares e até a transtornos de saúde mental.
Também poderia gerar confusão entre governos, organismos internacionais e sociedade, que já vêm usando a NOVA como referência em políticas públicas. A classificação, vale lembrar, foi adotada pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) e pela própria OMS.
O vice-presidente da Fundação Novo Nordisk, financiadora do projeto, não hesita em descartar o parâmetro. Arne Astrup ataca a definição de ultraprocessados, que seria, segundo ele, vaga, contraditória e sem base nutricional sólida. Argumenta ainda que a classificação gera equívocos recorrentes, chegando a penalizar alimentos considerados “saudáveis” – o que, em sua visão, comprometeria a adoção da NOVA em políticas públicas. Astrup, no entanto, há anos mantém laços com empresas que faturam alto com ultraprocessados, como Arla, McDonald’s, McCain Foods e Nestlé.
O próprio laboratório Novo Nordisk deixa seus interesses à mostra. A multinacional norueguesa é a fabricante do Ozempic e do Wegovy. Criados para tratar diabetes e obesidade, viraram febre pelo efeito de emagrecimento rápido – e rendem bilhões. A mesma fundação ligada a uma gigante que lucra com ultraprocessados tentou financiar um revisionismo da NOVA.
Pressionada pela polêmica, a Novo Nordisk voltou atrás e eliminou de suas comunicações qualquer referência à NOVA, atendendo à exigência de seu criador.
Para especialistas ouvidos pelo Joio, a resistência às críticas aos ultraprocessados não se deve apenas a disputas acadêmicas ou à influência da indústria. Ela tem também um componente cultural. Nas últimas décadas, esses produtos passaram a representar conveniência, progresso e acesso – valores que moldam o cotidiano das pessoas e reforçam a ideia de que comer rápido é viver bem. É mais simples pôr as evidências em dúvida do que reconhecer o alcance das mudanças que elas exigem.
Há ainda um ponto que quase nunca entra nas discussões. Mayara Quintanilha, do ObservaCoI, lembra que o método foi desenvolvido em um país do Sul Global, o que ajudaria a explicar a resistência de parte da comunidade internacional. Ideias que nascem fora dos grandes centros de pesquisa, diz ela, costumam ser recebidas com desconfiança. “Existe, sim, preconceito de parte de pesquisadores do Norte Global em relação a ideias que surgem de países de baixa ou média renda”, afirma.
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Falsas controvérsias
Outros pesquisadores envolvidos em conflitos com a Classificação NOVA são Thomas Henle, da Alemanha, e Susana Socolovsky, da Argentina. Professor de Química de Alimentos na Universidade Técnica de Dresden, o alemão é cofundador da Lohrmanns Brew – um projeto acadêmico que cruzou os muros da universidade para virar negócio. A ideia é oferecer um espaço com foco na produção de cerveja, mas que também contempla o desenvolvimento de outras bebidas, como opções proteicas, probióticas e funcionais.
Junto de Hannelore Daniel, ex-diretora de Fisiologia da Nutrição Humana na Universidade Técnica de Munique, Henle soltou em 2 de abril de 2025 uma carta aberta para criticar a NOVA e a suposta falta de objetividade do termo ultraprocessados. Pedem que cientistas e meios de comunicação abandonem esses conceitos em favor de critérios “baseados em evidências”.
Os autores acusam o parâmetro criado pelo Nupens de ser parcial, já que, segundo eles, acaba servindo para atravancar o caminho de fabricantes. Mas, enquanto denunciam um suposto viés numa ferramenta que ampliou o entendimento sobre alimentação, ambos admitem vínculos profissionais com companhias como Tate & Lyle, Ferrero, AB InBev, Savanna e Royal Cosun, além de entidades da indústria láctea.
A argentina Socolovsky segue a mesma linha. Fez carreira prestando consultoria regulatória e científica para multinacionais de ingredientes alimentícios na América do Sul, Europa, Estados Unidos, Canadá e Japão. É presidente da Pentachem, empresa de consultoria com sede em Buenos Aires, além de comandar a Asociación Argentina de Tecnólogos Alimentarios (AATA).
Para ela, escolhas saudáveis dependem apenas da composição nutricional dos alimentos. A pesquisadora se opõe a diretrizes que desestimulam o consumo de ultraprocessados, que poderiam encolher o mercado dos produtos defendidos pela indústria.
Henle e Socolovsky estiveram no Brasil em agosto para participar de um evento promovido pela Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (Sban), que mantém entre seus patrocinadres algumas das maiores multinacionais do setor: Unilever, Nestlé, Herbalife, dsm-firmenich, PepsiCo Health & Nutrition Sciences (H&NS), PMAN, Coca-Cola, Danone Nutricia e Ajinomoto. O simpósio se propôs a discutir os supostos “limites” do termo ultraprocessados e a submeter a Classificação NOVA a um exame de credibilidade científica.
As falas repetiram os argumentos de que faltariam definições objetivas e consensuais sobre o que caracteriza um ultraprocessado. O termo carregaria ainda um “juízo de valor”, estigmatizando práticas industriais cuja missão alegada pelo lobby empresarial é a de reduzir o desperdício e contribuir para a alimentação da população.
Não surpreende que o ILSI, o Instituto Internacional de Ciências da Vida, também faça pouco caso do conjunto de evidências que aponta para o potencial de ultraprocessados encurtarem a vida.
A entidade se apresenta como uma ONG que reúne especialistas da academia, do setor público e privado para “promover a ciência em prol da saúde pública e do meio ambiente”. Mas o passado sugere outro propósito.
Fundado em Washington em 1978 pela Fundação Heinz, Coca-Cola, Pepsi-Cola, General Foods, Kraft (então pertencente à Philip Morris) e Procter & Gamble, o instituto nasceu para interferir no debate científico e proteger os interesses da indústria. E assim segue até hoje.
Só no Brasil, são pelo menos 15 empresas que patrocinam suas atividades. Todas em setores que não costumam se dar bem com regras muito rígidas: fabricantes de ultraprocessados, farmacêuticas, agroquímicas e fornecedores de insumos.
Em vídeo no canal brasileiro do ILSI no YouTube, a bióloga e nutricionista Fernanda Martins fala por mais de 20 minutos sobre os ultraprocessados. Atrás dela, os slides ajudam a compor a imagem da especialista que domina o assunto e conduz o público a uma reflexão equilibrada.
Mas uma rápida consulta ao seu currículo mostra que, há mais de 15 anos, Fernanda integra os quadros da Unilever, multinacional de bens de consumo cujo negócio é diretamente afetado pela Classificação NOVA.
A representante do Ilsi lança mão de uma análise do professor Michael Gibney (1948–2024), do Instituto de Alimentos e Saúde da Universidade de Dublin, na Irlanda. O artigo tenta mostrar que comer muito ou pouco ultraprocessado daria na mesma. Uma conclusão, no mínimo, curiosa: reduz o debate a três nutrientes — calorias, gordura saturada e sódio – como se os efeitos desses produtos pudessem ser medidos tão somente pela tabela nutricional.
Como não raro entre os críticos da NOVA, o autor tinha assento na comissão científica da Nestlé. Em março de 2017, emplacou um comentário no American Journal of Clinical Nutrition. Ao longo de oito páginas, contestava frontalmente os trabalhos do Nupens e concluía que não havia evidência ligando ultraprocessados à obesidade.
O conflito de interesses aparece no rodapé, como manda o protocolo. Já os dois coautores não declararam vínculos — mas colegas de Monteiro descobriram depois que um havia trabalhado para a Nestlé menos de cinco anos antes e o outro prestara serviços a uma empresa de relações públicas que atendia o McDonald’s.
Entre 2009 e 2015, o Nupens fez oito estudos ligando ultraprocessados à obesidade. Hoje, a associação é incontestável.
Ensino capturado pelo lobby científico
A defesa dos ultraprocessados também pode refletir a formação. Em cursos como Ciências dos Alimentos e Engenharia Química, ingredientes culinários costumam ser abordados sob a ótica técnica. São tratados como matéria-prima para processos industriais. A prioridade é conservação, padronização e transporte em larga escala. Segurança microbiológica e eficiência produtiva são as bússolas que guiam esse aprendizado.
No registro tecnológico, o nugget é visto como uma solução engenhosa contra o desperdício. Ele transforma sobras de frango em um produto valorizado, durável e fácil de distribuir. O refrigerante simboliza a padronização global, o mesmo sabor em qualquer lugar do mundo. O biscoito recheado, por sua vez, expressa o domínio técnico sobre textura e tempo, resultado de processos que garantem crocância e longa vida de prateleira.
Um artigo assinado por professores do Departamento de Engenharia de Alimentos da FZEA-USP e do Departamento de Engenharia Química da Escola Politécnica da USP dá a medida de quanto a visão industrial ainda orienta o ensino e a pesquisa em alimentação.
Os autores recorrem à fogueira dos primeiros hominídeos, ao pão e ao vinho da Grécia Antiga, para sustentar que o processamento “faz parte da dieta humana desde os primórdios da humanidade”. A partir daí, tratam o cozimento, a fermentação e a produção industrial como elos de uma mesma cadeia evolutiva — uma linha contínua que naturaliza o ultraprocessamento e esvazia a ruptura conceitual proposta pela Classificação NOVA.
Ao privilegiar características estritamente técnicas, tende a rebaixar aquilo que o Guia Alimentar para a População Brasileira coloca no centro: a garantia do direito humano a uma alimentação adequada e saudável, a valorização da cultura alimentar e das práticas culinárias, o fortalecimento da agricultura familiar e a promoção de sistemas alimentares sustentáveis, capazes de proteger a saúde coletiva e o meio ambiente.
O que na universidade se expressa como neutralidade científica, nas instituições públicas ganha forma de discurso técnico a serviço do mercado. O Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital) é um dos braços da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (Apta), ligada à Secretaria de Agricultura de São Paulo. Além de manter um programa de mestrado em Ciência e Tecnologia de Alimentos, o instituto se apresenta como defensor dos chamados “alimentos industrializados” – um eufemismo para retratar o que, na prática, são ultraprocessados.
Em agosto de 2023, quando completou 60 anos, o Ital lançou uma página dedicada a enaltecer os supostos benefícios da produção em escala. A ofensiva também incluiu artigos de opinião publicados no LinkedIn de Luis Fernando Madi, diretor de Assuntos Institucionais da instituição, além de coordenador do projeto Alimentos Industrializados 2023, descrito como “um hub de conteúdo que permite uma visão ampla e dinâmica das transformações positivas que as indústrias têm realizado”.
Um dos textos de Madi cita Laura Thomas, autora da newsletter Can I Have Another Snack?, onde ela desmascara o que chama de “pseudociência nutricional”. Em uma série intitulada A verdade sobre os alimentos ultraprocessados, a inglesa menciona um estudo segundo o qual reduzir o consumo de ultraprocessados poderia levar a uma menor ingestão de nutrientes-chave em populações vulneráveis.
O artigo parte do princípio de que, sem fortificação, a nutrição desanda. É um argumento que, em vez de questionar as raízes da má alimentação – como pobreza, acesso desigual a alimentos frescos e políticas públicas insuficientes – acaba priorizando a ideia de que a solução esteja em manter a dependência de produtos ultraprocessados.
Outro texto assinado por Madi traz à tona uma carta de posicionamento da FoodDrinkEurope, lançada em 2023. A principal associação das grandes fabricantes de alimentos e bebidas da União Europeia lançou em junho uma atualização deste mesmo dossiê. O documento reúne uma porção família de críticas à NOVA.
A avaliação começa pela forma: dizem que as categorias são confusas, amplas demais e até ideológicas – afinal, chamar algo de “ultraprocessado” não soaria exatamente neutro. A crítica sugere que o problema está na régua: como confiar em um esquema que coloca no mesmo saco desde cereais matinais até bebidas açucaradas, sem oferecer definições objetivas ou pontos de corte claros?
No limite, é isso que o nutricionismo produz: a ilusão de que um suco em pó pode valer tanto quanto uma laranja, porque ambos oferecem vitamina C. A equação, sustentada por um único nutriente, apaga tudo o que não cabe no rótulo — as fibras, a matriz, os aditivos, o modo como o corpo reconhece e transforma cada um.
Dentro do método científico, toda teoria pode – e deve – ser colocada à prova. Diante de uma nova evidência, o bom pesquisador suspende certezas e pergunta o que precisa ser revisto. O problema é quando o jaleco de cientista dá lugar à beca de juiz. Em vez de se manter aberto, ele monta um caso – escolhe as provas, descarta o que atrapalha e defende a tese do cliente a todo custo.
É nesse ponto que o método científico deixa de cumprir um papel demonstrativo e passa a funcionar como instrumento de persuasão. Ninguém vai acreditar na palavra da Coca-Cola. Mas se eles usarem alguém que pareça independente, pode ser que funcione. E é assim que a dúvida se instala: não pela força dos fatos, mas pela legitimidade atribuída a quem os enuncia. E, como visto na pandemia de covid-19, basta uma incerteza bem difundida para que conclusões baseadas em ciência sejam vistas com descrédito.



