O Joio e O Trigo

Antes do Agro, Brasil era grande importador de alimentos? Pera lá que não é bem assim

Dados do Ministério da Fazenda mostram que o trigo era o único gênero alimentício importado em grande quantidade – e continua assim

Os representantes do agronegócio gostam de usar dois argumentos para justificar a relevância do setor. 

O primeiro deles diz que “o Brasil alimenta o mundo” – e não tem confirmação científica, como mostramos recentemente – enquanto o segundo garante que antigamente o país “era um grande importador de alimentos”.

Nas entrelinhas vem escrito que, graças ao Agro, teríamos alcançado uma musculatura produtiva que nos permitiu superar a dependência da comida vinda de fora e, logo em seguida, virar celeiro do mundo. 

Bom, como um pé atrás nunca é demais, nós decidimos conferir os dados de importações compilados pelo Ministério da Fazenda (atual Ministério da Economia) ao longo das décadas, que constam nos Anuários Estatísticos do IBGE, e vimos que não é bem assim

Considerando sete triênios entre os anos 1962 e 2000, é possível ver que as exportações de carne e frutas superaram as importações destes gêneros durante todo o período. 


Pequena escala

Ao mesmo tempo, as importações de leguminosas, pescados e cereais foram, de fato, maiores do que as exportações. Mas só no último caso – cereais – suficientes para suprir o consumo médio da população brasileira, de acordo com a última Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF).

Entre 1962 e 2000 nós importamos anualmente, em média, 640 gramas de ovos e lácteos por habitante, 620 gramas de pescado, um quilo de legumes e hortaliças e 32 quilos de cereais – principalmente trigo.

Se considerarmos os dados mais recentes de aquisição alimentar da população brasileira, levantados pelo IBGE, veremos que as cifras corresponderiam a 1,8% do consumo atual per capita de lácteos e ovos, 3,8% do consumo de legumes e hortaliças, 22% do consumo de peixes, e 130% do consumo de cereais.

Entre as últimas décadas do século 20 e a POF mais recente (2017/2018), os hábitos alimentares se transformaram, mas ainda assim a pesquisa serve como parâmetro para mostrar que a maioria dos gêneros era importada em volume insuficiente — mesmo que fossem distribuídos igualmente entre a população brasileira, o que não ocorre.

Importação per Capita de Cereais, Leguminosas, Ovos, Lácteos e Pescados de 1964 a 2000. (Fonte: Ministério da Fazenda)


O trigo

O leitor atento vai se perguntar “ué, mas e o trigo?”, no que responderemos “você tem razão, caro leitor. As importações de trigo são mesmo significativas”. 

De 1962 até 2000 esse produto ocupou o primeiro lugar entre os gêneros adquiridos externamente. Foram em média 4,2 milhões de toneladas importadas todos os anos. Mas aí entram alguns problemas. 

O primeiro é que o trigo, apesar de ser matéria-prima para alimentos tão importantes e emblemáticos como o pão e o macarrão, corresponde a apenas uma fração da aquisição alimentar da população. 

Se considerarmos o consumo anual de farinha de trigo, macarrão, pães e bolos, veremos que o brasileiro consome em média 24 quilos desses alimentos anualmente. Isso representa 10% da sua ingestão alimentícia total.  

O segundo é que o Brasil não resolveu, ainda, sua dependência do trigo estrangeiro. Em 2019 o país importou 7 milhões de toneladas de trigo e farinha de trigo, ao passo que a produção interna foi de 5,5 milhões. 

Por último, a professora Renata Motta, que leciona na Universidade Livre de Berlim e lidera o grupo de pesquisa Alimentação para Justiça, lembra que a importação de trigo no século 20 tinha mais a ver com uma questão geopolítica do que com o abastecimento do mercado interno. 

“A dieta do brasileiro não era à base de trigo, como mostra o Atlas da Alimentação do Josué de Castro, publicado em 1946”, argumenta ela. “Na verdade o que ocorria era que o modelo agrário norte americano gerava excedente e esse excedente precisava de escoamento, então eles tinham políticas que incentivavam a compra do trigo por países na sua esfera de influência.” 

Plantação de trigo no estado americano de Idaho (Foto: Adobe Stock)


Onde há fumaça…

No documento “Visão 2030: O Futuro da Agricultura Brasileira”, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) afirma que “nos últimos 40 anos, o Brasil saiu da condição de importador de alimentos para se tornar um grande provedor para o mundo”.

Da mesma forma, a chefe geral da Embrapa Informática, Silvia Massruhá, declarou em entrevista recente ao Joio que “50 anos atrás, éramos importadores de alimentos. Essa situação se reverteu. Nos convertemos em produtores e exportadores”. 

Quer mais uma? Em entrevista ao portal Giro do Boi, a agrônoma Maria de Lourdes Mendonça, chefe da Embrapa Solos, disse o seguinte: “Passamos de grandes importadores de alimentos na década de 70 a 80 para grandes exportadores mundiais de alimentos, fibras e energia”. 

A ideia aparece em reportagens e webinars, por exemplo, e tem sido mobilizada pelo agronegócio como uma maneira de barrar as críticas ao setor. 


… há fogo

Para o pesquisador Acácio Zuniga Leite, da Associação Brasileira de Reforma Agrária, o fato de o Brasil ter se tornado grande exportador de matérias-primas agrícolas não significa que o problema do abastecimento interno tenha se resolvido. 

“A prova disso é que, apesar de não ter havido escassez, o preço do arroz e do óleo de soja disparou durante a pandemia”, argumenta ele. “Isso porque nós estruturamos cadeias de commodities e desestruturamos cadeias alimentares.”

Leite entende a narrativa do Brasil que teria sido “grande importador de alimentos” como uma tentativa de legitimação do agronegócio perante a sociedade. “Como a agropecuária responde por apenas cinco por cento do PIB nacional, então eles buscam mostrar que são maiores do que de fato são”, diz. “O objetivo é ter incidência política e manter alguns privilégios.” 

Para Renata Motta, da Universidade Livre de Berlim, “qualquer fala que diz que a produção gera consumo ignora a organização social presente nas etapas dos sistemas alimentares”.

“Tratar o tema da segurança alimentar meramente como um problema de toneladas é excluir tudo que a economia e a sociologia mostram”, diz ela. “Já que o acesso à alimentação é altamente estratificado e não depende apenas da produção agrícola.” 


Já imaginou sua vó comendo pera importada? 

No período temporal analisado na reportagem, alguns gêneros se destacaram entre os mais importados. 

O mais notável é a maçã, que ficou em segundo lugar até o último ano para o qual há dados oficiais divididos por gênero alimentício específico (1984). Depois vem o bacalhau, que marcou presença no top five até 1975

Outros itens associados ao consumo da classe média urbana – como aveia, leite em pó e pera – também apareceram. A tabela completa com os seis itens mais importados, ano a ano, de 1962 a 1984, pode ser acessada aqui.


Alimentos básicos

Nessa mesma janela, algumas culturas importantes como mandioca, batata doce e feijão entraram em declínio. 

Em 1974, produzíamos 24 milhões de toneladas de mandioca. Hoje são 17 milhões. Já a produção de feijão multiplicou-se por 1,2 e a produção de batata-doce caiu pela metade. Enquanto isso, a população do país mais do que dobrou – éramos 104 milhões em 1974, somos 212 milhões hoje. 

Conforme mostramos recentemente no Joio, o Ministério da Agricultura projeta uma redução de até três vezes na área cultivada de arroz para o ano de 2030. Nesse meio tempo, a soja e o milho devem crescer 27% em hectares plantados. 

Se confirmado o avanço mais drástico dos dois grãos, a área cultivada com arroz tende a se reduzir de maneira ainda mais acelerada. Nesse caso o Brasil pode se converter em um grande importador de alimentos – ao contrário do que prega o Agro. 

Enquanto Brasil se convertia em grande exportador de commodities, produção de alimentos básicos estagnou ou entrou em declínio. (Fonte: Produção Agrícola Municipal/IBGE)

Texto alterado às 18:40 do dia 16/09/2021 para corrigir a data de publicação do Atlas da Alimentação de Josué de Castro. A reportagem informava que o Atlas, que consta no livro “Geografia da Fome”, havia sido publicado em 1964, quando na realidade o ano de publicação é 1946.

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