Foto: Adobe Stock

Em busca do marmelo perdido

Povoado no sul de Minas guarda as memórias e as especulações de por que a marmelada deixou de ser onipresente na mesa do brasileiro

*Este texto é uma adaptação do roteiro do episódio “Da marmelada só sobrou o nome”, do Prato Cheio. Escute no tocador acima ou em sua plataforma de áudio favorita.


Quando estacionamos o carro no posto de combustível, quatro letras maiúsculas do outro lado da rua me remetem aos anos 1990: C-I-C-A. A construção que ainda sustenta o letreiro tem a forma típica de uma indústria da primeira metade do século passado. A luz chapada do sol de meio-dia torna ainda mais convincente o cenário que seria perfeito para um filme antigo. Não fosse por certos – muitos – detalhes.

– O que funciona aí dentro hoje em dia? – um de nós pergunta à frentista.

– Essa é a prefeitura – ela responde, com naturalidade, e por uns momentos duvidamos que possa ser verdade. 

Ex-fábrica da CICA, onde atualmente funciona a prefeitura de Marmelópolis. Foto: Luisa Coelho.

Depois de quatro horas pela estrada, esse é o início simbólico, pra mim, de uma missão há muitos anos adiada. Há uma certa urgência: estamos na última semana da colheita de marmelo no sul de Minas Gerais. E não sabemos quantos anos mais irá durar. Agora, por decreto e por exaustão, colocamos a Covid em stand by, junto com o calor de um verão interminável em São Paulo, e subimos as montanhas em direção a Delfim Moreira e Marmelópolis.

Foi mais ou menos em 2015, dois anos antes de criarmos o Joio, que comecei a me perguntar: “O que aconteceu com a marmelada?”. Junto com a goiabada e o marrom glacê, a marmelada compunha a santíssima trindade dos doces de lata. Pequenos luxos simbólicos de uma era em que a cesta básica era um acontecimento mensal na vida das famílias de trabalhadoras e trabalhadores. Na hierarquia dos anos 90, as latas da Cica eram o ápice: um dos itens que deveriam constar de uma cesta básica de respeito. 

O momento de abertura dos doces era, também, um acontecimento na vida de uma família de classe média-bem-na-média: todos deveriam estar presentes para uma divisão quase-religiosa. Esse cuidado, essa certa escassez de doces, essa preciosidade dos atos adquire um caráter diferente depois de anos pesquisando e investigando sobre como a alimentação se transformou ao longo dessas quatro décadas. 

Biscoitos, salgadinhos e chocolates eram um privilégio das classes altas aos quais eventualmente tínhamos acesso. No dia de receber a aposentadoria, quando sobrava uns caraminguás, minha vó trazia um doce da padaria – exclusivamente pra mim, que, pensando agora, talvez fosse o neto preferido. 

Pra ser sincero, quando a cesta de Natal era aberta, torcia para que viesse a goiabada – a marmelada não era o meu favorito, e do marrom glacê só fui gostar muitos anos mais tarde. 

Mas, quando comecei a me questionar sobre o destino da marmelada, fui me afeiçoando ao doce antes mesmo de recordar seu sabor. Coloquei na cabeça que a marmelada era mais uma das vítimas da globalização. Um doce-chave que havia perdido a guerra para o preço cada vez mais baixo dos ultraprocessados, para o fast-food, para a infinita oferta de doces em cidades coalhadas por padarias-bibocas-docerias-lanchonetes. Será que era?

Imagens promocionais das marmeladas Cica e Peixe, que tinham fábricas em Marmelópolis. Foto: Reprodução


O Negresco venceu

Durante vários dias, me pergunto se estamos levando a sério demais uma tarefa banal: por que se preocupar tanto com um doce? Mas não. O que descobrimos em Marmelópolis e Delfim Moreira é a história emblemática de um doce que deixou de ser produto. Que não tinha marketing ou grandes corporações multinacionais por trás, apenas uma tradição que remonta a alguns séculos antes. 

Afinal, como pedir que um doce simples, preparado a partir de uma fruta e cozinhado num tacho sobre o fogão à lenha, compita com a palatabilidade extrema do Snickers ou com as camadas de gordura vegetal e açúcar da Negresco, ambas programadas para despertar os anseios mais primitivos do ser humano por gordura e energia?

“O que levou a Cica a diminuir a produção de marmelo foi o surgimento de outros doces e sobremesas no mercado”, diz César Lourenço Ribeiro Júnior, o Juninho, um dos plantadores que vêm tentando manter vivo o cultivo de marmelo na região. “Na época não se tinha chocolate igual tem hoje. Não tinha outros doces. Era marmelada, goiabada e marrom glacê”, conta ele.

“Hoje é muito muito fácil ir no mercado pegar um produto enlatado, levar no micro-ondas e em três minutos ele está pronto”, reclama Moisés Cunha Lima, por sua vez o último fabricante da marmelada do município. 

Mas, durante nossa estadia em Marmelópolis, descobrimos que, como tudo nesse mundo, essa história não era tão simples assim. A derrocada do marmelo tinha a ver não apenas com a entrada de outras guloseimas recheadas de gordura hidrogenada no mercado, mas também com os preços baixos praticados pelas fabricantes de marmelada, a crise de sucessão de lavradores e até com o clima cada vez mais quente da Serra da Mantiqueira – que castiga os marmeleiros, árvores de clima temperado, originárias do Cáucaso.

Antes de viajar, sabíamos pouco sobre Marmelópolis. A página da prefeitura é lacônica. O povoado é minúsculo. Praticamente não há registros históricos. Também sabíamos pouco sobre o marmelo. Algumas fotos na internet nos permitiam chutar que a fruta tem algo a ver com a pêra, mas nosso conhecimento parava por aí. 

“Olha, vem sentir o cheiro.” Juninho abre o refrigerador repleto de marmelo. E o cheiro doce toma conta do espaço. Na cozinha, uma cesta ainda tem as frutas que restaram da colheita. De fato, o marmelo parece com a pêra, e o marmeleiro se parece com a pereira. Mas existe uma pequena diferença que muda tudo nessa história: o marmelo fresco é ácido. Desagradável. Logo, dificilmente teria sucesso em feiras livres, sacolões e supermercados. O único destino viável, pelo menos em termos de escala, é a industrialização, para ser transformado em polpa e, depois, em doces. 

Em Marmelópolis, um dos produtores não quis conversar conosco porque estava chateado: toda a produção do ano, oito toneladas, estava apalavrada com uma fabricante de Goiás que, na hora H, decidiu não comprar. Como o marmelo estraga rápido, e como hoje em dia há pouquíssimos fabricantes, dificilmente um agricultor encontra alternativas. Essa é certamente uma das razões para o declínio. Mas, para entender a queda, precisamos chegar ao ápice.

Marmelos ainda no pé, em lavoura localizada em Marmelópolis. Foto: Ricardo Castro.


No casco do burro

“O movimento na cidade era muito grande”, conta a delfinense Joelma Pádua, hoje secretária de Agricultura do município. “Essa rua estava cheia de caminhões com marmelo, tirando a massa, as latas. A população toda trabalhava nas fábricas.” 

Os relatos que ouvimos de todos os moradores com quem conversamos – anciões, lavradores, fabricantes de marmelo ou simplesmente gente comum que sempre viveu na cidade – descrevem um lugar totalmente voltado ao cultivo da fruta. Nada menos que 20 mil toneladas de marmelo produzidas, e 23 fábricas destinadas à produção de marmelada.

Marmelópolis e Delfim Moreira preenchem todos os requisitos esperados para um povoado-mineiro-clichê. Meia dúzia de ruas de pedra. A igrejinha. A praça. As montanhas circundantes. Mas nenhuma das duas parece querer se encaixar nessa fantasia. Pelo menos na cabeça dos moradores mais antigos, daqueles que viram o ciclo do marmelo. 

Marmelópolis. Foto: Divulgação

Não que em algum momento tenham sido cidades grandes: nos anos 50, Delfim Moreira tinha 13 mil habitantes. Mas o movimento era diferente. É o movimento que parece deixar saudade. “As chaminés apitando”, recorda Joelma. “Era a marca registrada do município. Era muito gostoso. A gente nasceu vendo isso. Então era muito gostoso. Era muito. Tenho na memória até hoje.” 

Joelma nos leva para um tour imaginário pela antiga fábrica da Cica. Onde hoje é o gabinete do prefeito, antes funcionava a casa do administrador da unidade. É um sobrado a um só tempo bonito e simples, que parece condensar os sentimentos guardados na memória de quem viveu o ciclo do marmelo: como costuma acontecer, o passado soa mais ajustado e belo. 

“Vocês acham que o elefante deveria ficar na prefeitura ou no museu?”. Edméia Guimarães Alkimin nos faz a mesma pergunta algumas vezes ao longo de duas horas. E nós não temos resposta. Joelma a convocou pelo telefone, e nos disse que falaríamos com a responsável pela salvaguarda do marmelo em Delfim Moreira. 

Edméia chega com uma assadeira repleta de marmelos, e disposta a contar o que sabe, mas também ansiosa com a discussão sobre o elefante: uma chapa metálica de um metro de comprimento, com o logotipo da Cica, que costumava ficar acima do letreiro da empresa, na porta da atual prefeitura. “Eu acho que deveria ficar na entrada da prefeitura. Era o lugar dele.”

Letreiro da Cica com a imagem do elefante. Foto: Marcos Hermanson.

Foi quando entendemos que existe algo mais do que simbolismo no fato de a prefeitura ficar no local da antiga fábrica. Entre todas as empresas, a Cica era a maior, e foi aquela que definiu a ascensão e a queda do marmelo. Quando ela chegou, em 1944, a produção de marmelo mudou de escala. Quando ela se foi, em 1985, tudo veio abaixo: o IBGE registra que o Brasil passa de 69 mil toneladas naquele ano para 30 mil no começo dos anos 90, e 15,9 mil em 1995. 

Que a sede da administração municipal estampe “Cica”, e não “prefeitura”, é a confirmação de quanto a história de Delfim Moreira está atrelada a uma empresa. A chapa metálica com o elefante está a alguns metros dali, na antiga estação ferroviária, onde em tese funciona um museu. 

É quase possível pegar nas mãos o sentimento que dominava essa região nos anos 50, 60 e 70. A ferrovia havia chegado em 1928. Linhas telefônicas foram instaladas. Algumas ruas estavam sendo asfaltadas. As pessoas tinham trabalho e renda. A palavra “desenvolvimento” se espalhava pelo mundo de carona com a industrialização, que trazia a promessa de que a urbanização resolveria os problemas que assolaram a humanidade durante milênios. 

“Eu e a minha irmã, a gente sentava lá em cima no barranco e ficava olhando a cidade enquanto fazia bordado”, conta Edméia. “Aquele tempo era muito bom. Minha mãe e meu pai trabalhavam nas fábricas. E a gente cuidava da casa.” No começo de cada ano, a época da colheita trazia o maior movimento. Safristas vinham de outras regiões para ajudar a colocar o marmelo nos jacaços dos burros, onde a fruta era transportada até as fábricas. 

“Eu nasci em Queimada”, conta seu Irênio Alves Ribeiro. Com 92 anos – e meio, como ele faz questão de enfatizar – Irênio é um dos poucos nascidos em Queimada. O avô dele, Manuel Ribeiro de Carvalho, decidiu sair de Delfim Moreira em busca de abrir novas terras. Parou alguns quilômetros depois, o que, para a época, num terreno acidentado, era uma distância considerável. “Eu conheci aqui com 13 casas. Só 13 casas.” 

Na sede da prefeitura, retratos que deveriam estar nas paredes repousam sobre uma cadeira enquanto é realizada alguma reforma. “Queimada, 1932”, diz uma das imagens, com não mais do que meia dúzia de casas e duzentas pessoas – na maioria, homens usando terno. Em uma imagem panorâmica, três anos mais tarde, a chaminé da primeira fábrica de polpa de marmelo domina o cenário. 

Queimada, em 1932, e a primeira fábrica de polpa de marmelo, em 1935. Foto: Marcos Hermanson.

A história oficial é de que as primeiras mudas chegaram à região de Delfim Moreira no século 19. Em Queimada, que na época era um distrito de Delfim Moreira, na década de 1910. “Aí veio a Colombo pra cá, os portugueses, e arrendaram os marmelar. Meu pai foi um homem de muita cabeça e não quis arrendar, não”, celebra seu Irênio. Vestindo uma camisa limpíssima, com a barba branca bem aparada, ele dá o retoque final assim que sabe que dará uma entrevista: tira do bolso um pente fino com o qual alinha os cabelos brancos, longos até a altura do ombro.

Lata de marmelada Colombo, que também tinha fábricas em Marmelópolis. Imagem: Reprodução


“Essas baixadas, tudo era marmelar. Lá onde meu caçula mora dava dois milhões de quilos. Era uns três mil pés de marmelo, com 28 a 30 mil quilos por ano. Eu sofri pra curar o marmelo. Ê se sofri. Comecei a trabalhar com 12 anos. Isso no marmelo. Que antes trabalhei na farmácia”, conta. 

Quando o marmelo cresceu, Queimada quis ser independente. E, assim, em 1963, passou a ser o município de Marmelópolis. “Eram duas fábricas no [bairro do] Sertão. A Cica aqui, três. A do meu primo João, quatro. A do Evaristo, cinco. No Cubatão, seis. Vinha quinze, vinte tropas pra ajudar a puxar marmelo”, recorda Irênio. Do alto da montanha, basta virar a cabeça para enxergar a fábrica do primo João: ruínas que mais tarde visitamos para ver a chaminé e a caldeira, somadas a um amontoado de pombas que fizeram morada sob o telhado caindo aos pedaços.  

Ruína de antiga fábrica de massa de marmelo no centro de Marmelópolis. Foto: Marcos Hermanson.

Enquanto conversamos, ao nosso lado a filha de seu Irênio recebe um telefonema da irmã: corre rápido pelo povoado a notícia de que jornalistas estão fazendo uma reportagem sobre o marmelo, e Lia quer nos conhecer. Uns minutos depois, na tela do celular, ela mostra fotos recentes do pai rodeado de sacos da fruta colhida na propriedade da família. “Hoje ele não aguenta mais subir até o marmelar, mas fica lá embaixo acompanhando tudo. Ele faz questão.”

Irênio Alves Ribeiro, de 92 anos, ao lado da colheita de marmelo. Foto: Acervo pessoal.


Basta um sopro

No ápice, segundo os dados do IBGE, o marmelo teve nove mil hectares – em 1968. Em se tratando de frutas, não é uma quantidade desprezível, mas também não é algo de outro mundo. Hoje, por exemplo, o país planta 32 mil hectares de maçã. O ciclo do marmelo não foi um grande ciclo nacional, como a soja, o ouro ou a cana-de-açúcar. Porém, é inegável que teve relevância econômica.  

Segundo a Pesquisa Produção Agrícola Municipal de 2020, restam 72 hectares em todo o país. Basta um sopro para que o marmelo desapareça. Mas, numa certa perspectiva, hoje talvez ele esteja melhor do que há dez anos, quando havia 700 hectares plantados. Os tempos mudaram. A comida das avós entrou na moda. Muitas pessoas querem algo simples e tentam escapar dos ultraprocessados.

E existe alguma articulação. As prefeituras de Delfim Moreira e Marmelópolis trabalham em parceria com o núcleo coordenado por Rafael Pio, do Departamento de Agricultura da Universidade Federal de Lavras. Em Delfim, alguns produtores aceitaram receber plantios experimentais para entender quais variedades de marmelo se adaptam melhor à região e produzem bons frutos. Mas, a muito custo, chega-se a um hectare cultivado. 

“Quando a gente decidiu retomar a Festa do Marmelo aqui em Delfim, em 2015, a gente foi buscar o marmelo de Marmelópolis. Teve gente que falou que isso não fazia sentido. Mas o marmelo não pode ter fronteiras. Eu penso assim”, justifica Edméia Alkimin. A sopa de marmelo foi inscrita como patrimônio imaterial municipal, e incorporada ao cardápio da rede pública de ensino. 

De fato, em Marmelópolis ainda há produtores que plantam com uma certa escala. Mas não tanta. Ricardo Coura de Castro, tratorista da prefeitura, conta que a maior parte dos pedidos de ajuda que recebe vêm de pequenos produtores de leite. Além de auxiliar com o uso do trator, a prefeitura oferece aos agricultores do marmelo alguns insumos importantes para a lavoura.

Enquanto subimos o morro para percorrer uma pequena parte da propriedade de 94 hectares, Juninho conta sobre os planos para as terras que herdou do pai. É um momento de transformações na vida dele. Faz apenas uma semana que Seu César morreu. No dia seguinte, Juninho espera terminar a mudança com toda a família, que deixou Itajubá para, pela primeira vez, viver em Marmelópolis. 

A história de Juninho resume bem o espírito de uma época. O pai assumiu o plantio do avô, enquanto Juninho estudou tecnologia da informação e passou vários anos em Itajubá e no interior de São Paulo. “Foi quando eu conversei com meu pai para eu ajudá-lo aqui na roça. Porque eu não queria mais continuar na área de tecnologia. Eu gostei muito de trabalhar nessa área, mas chega num ponto que a gente fica estressado e a gente fica meio que refém da vida dentro do escritório.”

Durante seis anos, Juninho passava a semana com o pai, e aos finais de semana encontrava a família em Itajubá. “Então foi um período de muita felicidade que eu tive para trabalhar junto com meu pai”, conta. “Aqui tá produzindo dois mil quilos. Quatro anos atrás, não produzia nem 300. O que aumentou foi o fato de a gente ter cuidado melhor dos pés, e o aumento da quantidade de pés. Ano que vem vai começar a produzir bem mais.”

Juninho espera, com o tempo, fazer a própria marmelada. Para ele, a chave está no turismo. “Igual foi no passado, a gente tem consciência que não vai ser mais. Hoje em dia, se perguntar para uma criança, perguntar para um jovem, o que é o marmelo, mesmo quem vive aqui em Marmelópolis ele não vai saber o que é”, conta. “Mas tem mercado para crescimento. E é isso que a gente vislumbra. Quem vem de fora não conhece e acaba comprando os doces locais, a marmelada, a geleia, o licor, a sopa de marmelo.”

*Com a colaboração de Luisa Coelho e Marcos Hermanson Pomar

Matérias relacionadas