O Joio e O Trigo

No Brasil, maior gestora de fundos do planeta tem investimento três vezes mais poluidor que na Europa e nos EUA

BlackRock diz que mercado financeiro levará a uma economia de baixo carbono. Mas, a depender do fundo da empresa no país, temperatura global aumentará acima de 3 graus, numa catástrofe planetária

A BlackRock se autoproclama mentora de uma revolução: o gigantismo da maior gestora de ativos financeiros do mundo seria o suficiente para forçar as grandes empresas a construírem um capitalismo plenamente sustentável social, econômica e ambientalmente. Mas, no que depender do portfólio da empresa no Brasil, o futuro será bem diferente: o suficiente para estourar o cenário mais dramático traçado para o avanço das mudanças climáticas no século 21. 

Títulos, ações, moedas estrangeiras e fundos fizeram da BlackRock a primeira empresa do mundo a controlar mais de US$ 10 trilhões em ativos – equivalente a seis PIBs do Brasil. A compra de participações acionárias relativamente pequenas, mas com direito de voto, e a influência sobre o restante do mercado dão à gestora o poder de pressionar decisões. É difícil imaginar uma corporação no mundo que não tenha ao menos uma fatia adquirida pela BlackRock. 

O crescimento vertiginoso deu ao CEO Larry Fink protagonismo nas discussões sobre investimentos e sobre o próprio futuro do capitalismo. A carta endereçada anualmente a seus pares no mercado tornou-se um documento amplamente debatido. Nos últimos anos, a BlackRock tem sido porta-voz das iniciativas de ESG (ASG, em português), um conjunto de medidas corporativas que, na visão do mercado, solucionariam as angústias do século 21. Segundo essa visão, a adoção, por empresas, de estratégias ambientais (o A da sigla), sociais (o S) e de governança (o G) seria o suficiente para harmonizar investimentos e as necessidades humanas. 

“Faz dois anos que eu escrevi que o risco climático é um risco para os investimentos”, disse Fink na carta enviada em 2022 ao mercado. “E nesse pequeno período, vimos uma mudança tectônica no capital. Investimentos sustentáveis atingiram agora US$ 4 trilhões. Ações e ambições em torno da descarbonização também cresceram. Este é apenas o começo.”


Porém, a compreensão do mercado sobre o que é sustentável e de baixo carbono difere bastante das evidências científicas e da compreensão de movimentos sociais sobre o assunto. 

A geografia também é determinante na discussão: temos visto as corporações adotarem padrões diferentes nos países do Norte e do Sul. O Joio comparou os indicadores de sustentabilidade do fundo multimercado da BlackRock no Brasil com os principais fundos da empresa. Os dados foram coletados em 2 de fevereiro de 2023, e pode haver ligeiras variações devido à compra e venda de ativos. 

Um presente insustentável

O iShares MSCI Brazil ETF é o principal fundo multimercado da BlackRock no Brasil. No começo de maio, era formado por 49 ativos, entre ações, títulos e moedas estrangeiras, num total de US$ 4,5 bilhões em valor. Os maiores pesos no fundo são de ações de Vale (16,35%), Petrobras (duas cotas, num total de 12,49%) e Itaú Unibanco (7,42%). 

O fundo brasileiro apresenta indicadores piores em praticamente todos os quesitos elencados pela própria empresa. A comparação foi feita com os maiores fundos da BlackRock nos Estados Unidos e na Europa, além de um fundo criado na Austrália especificamente com indicadores de ESG. 


A nota geral do fundo brasileiro em relação a ESG é BBB. Ou seja, num ranking geral de fundos que vai de AAA a CCC, este é o quarto nível, num total de sete. Na nossa comparação, o único fundo que teve um desempenho igual foi justamente o fundo composto por ações de mercados emergentes, como Brasil, Índia e China. Nos demais casos, as notas variaram entre AAA (máxima) e A (terceira maior). A nota geral do fundo em termos de ESG também é baixa: 5,28, num total de 10, contra 8,09 do maior fundo nos Estados Unidos e 9,06 do maior fundo na Europa. 

O mesmo se deu em relação às emissões de carbono. A BlackRock fornece um indicador para calcular quais são as emissões necessárias dentro de um determinado fundo para realizar US$ 1 milhão em vendas de ativos. Como diz a própria empresa, “isso permite realizar comparações entre fundos de diferentes tamanhos”. O fundo brasileiro obteve uma nota de 331, contra 144 do maior fundo nos Estados Unidos e 124 do maior fundo na Europa – em outras palavras, o fundo brasileiro tem um impacto três vezes pior, em termos de mudanças climáticas, que o europeu. 

Novamente, a situação se repete em relação às projeções da empresa quanto ao Acordo de Paris, de 2015, que busca limitar o aumento da temperatura global a no máximo 2 graus celsius, o que implicaria criar uma economia de baixo carbono ao longo dos próximos anos. Como diferentes núcleos de pesquisa têm alertado, um aumento quase certo de 1,5 grau será desastroso, ao passo que um aumento na ordem de 3 graus pode ser terminal para a humanidade e para milhares de outras espécies animais e vegetais. 

No que depender do portfólio da BlackRock no Brasil, o pior não demora a chegar. A própria empresa estima um aumento de temperatura superior a 3 graus, a seguir por sua carteira atual de investimentos em nosso país. E, aqui, é importante dizer que nenhum fundo consegue ficar abaixo de 2 graus de elevação da temperatura, o que coloca um grande asterisco no otimismo de quem entende que o capitalismo terá como encontrar uma saída para a enorme crise climática do século 21. 

O portfólio da BlackRock no Brasil também apresenta problemas quanto ao Pacto Global das Nações Unidas, uma iniciativa voluntária que, em tese, guiaria a boas práticas empresariais, alinhadas aos Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável. Nos dados coletados em fevereiro, 20% do fundo era composto por empresas envolvidas em violações do acordo – entre os demais fundos pesquisados, os índices foram de 0% a um máximo de 3,47% (caso da Europa). Em maio, esse índice havia caído a 16,75%, o que decorre de mudanças na composição da carteira. 

Apesar de fornecer uma comparação entre seus fundos em termos de sustentabilidade, o que a coloca num lugar diferente das demais gestoras de investimentos, a BlackRock avisa que essas questões “não deveriam ser tomadas em conta isoladamente, mas são um tipo de informação que os investidores podem querer considerar. A menos que esteja expresso na documentação do fundo e incluído como um objetivo do fundo de investimento, as métricas não mudam o objetivo do fundo de investimento ou restringem o universo de investimento”.

Uma questão de geopolítica

A comparação entre os fundos da BlackRock oferece também reflexões sobre geopolítica e a divisão do trabalho no mundo. Se o planeta é apenas um, e em certo sentido as mudanças climáticas afetarão toda a superfície da Terra, como construir economias de baixo carbono apenas no Norte? 

“O ritmo da mudança será muito diferente em países desenvolvidos e em desenvolvimento”, escreveu Fink ao mercado. “Mas todos os mercados vão demandar investimentos inéditos em tecnologias de descarbonização. Nós precisamos de descobertas transformativas comparáveis à invenção da lâmpada elétrica, e precisamos semear investimentos para que sejam escaláveis e acessíveis.”

O documento do CEO da BlackRock reflete a crença de que o universo das startups oferecerá a saída para a crise climática, com soluções que virão pelo consumo – e não pela mudança do padrão de vida que nos trouxe até aqui. “Nós investimos em sustentabilidade não porque sejamos ambientalistas, mas porque somos capitalistas e agimos em nome de nossos clientes”, diz. “Toda empresa e toda indústria será transformada pela transição a um mundo de carbono zero. A questão é: você irá liderar ou será liderado?”

Larry Fink, CEO da BlackRock. Foto: World Economic Forum (CC BY-NC-SA 2.0)

No que depender do fundo da BlackRock no Brasil, há pouca esperança de mudança em direção ao carbono zero. A carteira de investimentos reflete a própria estrutura da economia nacional, hoje baseada em commodities e extrativismo. A maior corporação do portfólio, a Vale, é uma mineradora sobre a qual pesam casos de poluição e acusações de violações dos direitos nas comunidades em que atua ou atuou, no Brasil e na África. 

A BlackRock detém US$ 26 milhões em ações da Rumo. No ano passado, a maior operadora ferroviária do país fez um acordo com o governo de Jair Bolsonaro para não figurar na Lista Suja do Trabalho Escravo. Por duas vezes, em 2010 e 2015, a corporação foi flagrada em crime de trabalho análogo à escravidão. Na primeira ocasião, foram resgatados 51 operários de canteiros de obras no estado de São Paulo. Na segunda, motoristas de caminhão cumpriam jornadas extenuantes, de até 34 horas.

Como mostramos no Joio, a dificuldade do mercado em oferecer mudanças sociais efetivas não se limita à BlackRock. A Rumo habita o Índice de Sustentabilidade da B3, a bolsa de valores brasileira, e acumula premiações nessa mesma área. 

A proprietária da Rumo, Cosan, também integra o fundo da BlackRock – e a lista de empresas flagradas que já foram flagradas em trabalho análogo à escravidão. A fabricante de açúcar e álcool é alvo de diversas ações nas áreas ambiental e trabalhista. Segundo um relatório de 2020 da ONG Amazon Watch, o sucesso empresarial “esconde uma história de seis décadas de violações de direitos dos Povos Indígenas no Mato Grosso”. Nos anos 60, Rubens Ometto, hoje próximo ao bolsonarismo, ganhou autorização do governo federal para criar a Agropecuária Suiá-Missu, numa área estimada em 1,7 milhão de hectares. O empreendimento violou os direitos dos povos Xavante de Marãiwatsédé, expulsos de seu território durante a ditadura civil-militar. 

O livro O sabor do açúcar, editado em 2022 pela Papel Social, aponta ainda que a Raízen, controlada pela Cosan, “tem problemas com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), com processo judicial desde 2008. A multinacional é acusada de uso de bem público de terras destinadas a assentamento agrário. De acordo com o Incra, os contratos de compra e venda de cana-de-açúcar firmados pela usina com os assentados disfarçaram contratos de arrendamento, o que configuraria infração ao Estatuto da Terra”.

A BlackRock detém ainda US$ 14,1 milhões da JBS, atualmente a maior companhia de alimentos do mundo em termos de receitas. A ficha da corporação dos irmãos Batista dispensa apresentações. Uma conversa obscura com Michel Temer no Palácio do Jaburu, sugerindo suborno. Acusações de violação das recomendações governamentais no Brasil e nos Estados Unidos contra a Covid-19. Ações trabalhistas, ambientais e fiscais. 

Naturalmente insustentável

Para além do histórico de cada uma das empresas integrantes do fundo da BlackRock, as próprias áreas de atuação não permitem vislumbrar um futuro verde e sustentável. O portfólio da empresa é um resumo do conjunto de setores da economia que nos trouxe até aqui. 

Luiz Marques, professor livre-docente aposentado do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, tem se dedicado a estudar as mudanças climáticas. No livro recém-lançado O decênio decisivo (Editora Elefante), ele promove uma revisão sistemática sobre os fatores causadores da tragédia em curso. Na visão dele, a questão-chave é o encontro entre os setores energético, extrativo e alimentar, impulsionados pela indústria (particularmente de cimento e petroquímica), pelas trading companies e pelo setor financeiro. 

“Em conjunto e em sinergia, esses seis sistemas criaram a civilização termofóssil que hoje ameaça a humanidade e, em geral, a vida pluricelular no planeta”, escreve. “A engrenagem do aquecimento global se origina numa economia baseada na queima de combustíveis fósseis, na monocultura de escala e, em especial, na produção industrial de carne. Essa economia é controlada pelos detentores de capital, cuja razão de ser é a máxima rentabilidade dos investimentos e a reprodução ampliada do ciclo econômico.” Ou seja, longe de solução, o fundo da BlackRock no Brasil é um símbolo do problema e das limitações do mercado em endereçar as mudanças necessárias.   

Estima-se que o sistema alimentar globalizado do qual a JBS é protagonista responda pela maior parte das emissões de carbono. Dentro desse sistema problemático, a produção de carnes é um fator duplamente associado às mudanças climáticas: pelo impacto direto da criação de animais em cativeiro ou na pecuária extensiva e pelo impacto associado à produção de ração animal na forma de soja e milho, cujos desfechos negativos sobre o território brasileiro, e particularmente sobre o Cerrado, também dispensam apresentações. 

Logo em seguida, em termos de emissões, vem o setor de combustíveis fósseis, do qual a Petrobras é uma das maiores corporações globais. 

Porém, a insustentabilidade não se resume ao portfólio brasileiro. Um relatório recém-lançado é crítico quanto às promessas da BlackRock de que o mercado resolverá os graves problemas climáticos. A análise da organização francesa Reclaim Finance se concentrou sobre a Aliança Financeira de Glasgow para o Carbono Zero, conhecida pela sigla GFANZ. A iniciativa foi lançada em 2021, envolvendo corporações e investidores das mais diferentes áreas, dizendo representar em torno de 40% dos ativos financeiros globais. 

Mas, na visão da Reclaim Finance, a maior parte dos integrantes da coalizão segue a investir em iniciativas insustentáveis. “A BlackRock é o maior investidor do GFANZ na expansão dos combustíveis fósseis, com ações e títulos num total de US$ 23 bilhões em empresas de carvão e US$ 170 bilhões no setor de óleo e gás.”

Em fevereiro, a Coca-Cola Company informou ao mercado que a fatia atualizada da BlackRock em sua composição acionária é de 6,6%. Uma redução em relação ao ano anterior, quando a gestora detinha 9,7%, mas ainda uma participação expressiva em uma empresa-líder na venda de produtos associados a cáries e doenças crônicas, como diabetes, que são hoje a maior causa de mortes no mundo. 

No Brasil, a Coca-Cola é a maior beneficiária de um esquema criado nos anos 90 para cobrar créditos em cima de impostos que jamais foram recolhidos. Nossa estimativa é de que, no ápice, a União tenha perdido ao menos R$ 7 bilhões ao ano em tributos não arrecadados e créditos. 

A Receita Federal acusa as grandes empresas atuantes na Zona Franca de Manaus de inflar o preço de insumos para promover “a inclusão das despesas com publicidade e propaganda das bebidas. “A consequência prática deste procedimento foi que, nos últimos anos, mais de um terço dos gastos bilionários com propaganda de refrigerantes e outras bebidas foram pagos pelo contribuinte brasileiro”.

Procurada, a representação da BlackRock no Brasil não respondeu aos pedidos de entrevista.

Por João Peres

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