O Joio e O Trigo

O passo a passo do lobby para irmão do Ozempic entrar no SUS

Ministério da Saúde rejeita adoção da liraglutida, que teria custo de R$ 2,6 bilhões ao ano. Articulação passa por viagens de parlamentares e laços da farmacêutica Novo Nordisk com a comunidade médica

Em meio ao tilintar de taças no jardim à beira da piscina, na elegante sede da Embaixada da Dinamarca em Brasília, um seleto grupo de convidados celebrou no último dia 23 o centenário da Novo Nordisk, até pouco tempo atrás uma discreta farmacêutica mais conhecida por produzir metade da insulina consumida em todo o mundo. 

Motivos para celebrar não faltaram. A Novo Nordisk chega aos cem anos como a empresa mais valiosa da Europa, após um crescimento espetacular movido pelo boom de vendas das canetas injetáveis que tiram o apetite. 

Ozempic, Saxenda e Wegovy (este ainda indisponível no Brasil) são os nomes comerciais para semaglutida e liraglutida, duas substâncias desenvolvidas pela Novo Nordisk inicialmente para o tratamento de diabetes tipo 2, mas que se descobriu também ter efeito inibidor do apetite. 

Desde o lançamento das canetas, a companhia dinamarquesa vem registrando resultados de vendas sem precedentes. As exportações desses medicamentos geraram uma entrada recorde de dólares no país, levando o Banco Central dinamarquês a reduzir a taxa de juros. No Brasil, a Novo Nordisk cresceu notáveis 50% nos últimos dois anos. 

A única água na champagne do coquetel bancado pela corporação é a decisão recente do Ministério da Saúde brasileiro de barrar a adoção da liraglutida pelo SUS. Como se verá nessa reportagem, seriam quase R$ 13 bilhões a menos no orçamento público da saúde e a mais no caixa da empresa. 

A liraglutida e a semaglutida imitam o hormônio GLP-1, produzido pelo nosso corpo e secretado pelo intestino, e estimulam a produção de insulina. Agem em receptores do sistema nervoso central para controlar o apetite e retardar o esvaziamento do estômago, fazendo com que a pessoa coma menos e perca peso.  

Esses medicamentos foram aprovados no Brasil e em vários outros países para o tratamento da obesidade. No entanto, vêm se tornando populares também pelo uso estético, ou seja, pessoas que querem perder alguns quilos – e não apenas quem de fato está enfrentando problemas de saúde por conta do excesso de peso. 

Mosaico com doze prints de vídeos postados em redes sociais mostrando dicas de uso do Ozempic e imagens com antes e depois


Basta passar o olho no Instagram ou no TikTok para ver milhares, talvez milhões de postagens, inclusive de médicos, com dicas de uso do Ozempic e de seus similares, além das famigeradas fotos de antes e depois, comumente alvo de críticas por quem discute transtorno alimentar com algum nível de seriedade. 

São consideradas uma nova geração de medicamentos para obesidade e estão sendo recebidas com grande entusiasmo pela maioria dos médicos. E com cautela por uma minoria. Estima-se uma perda de peso mínima de 5% em 12 semanas, percentual que pode variar e aumentar significativamente de acordo com a posologia e o período de tratamento. 

Tornou-se uma espécie de galinha dos ovos de ouro para a Novo Nordisk, fazendo com que o valor da farmacêutica mais do que triplicasse nos últimos anos, alcançando, em 2023, US$ 419 bilhões. Maior do que o PIB da Dinamarca. 

A chamada “febre do Ozempic” fez a companhia abrir os olhos para o Brasil, um mercado gigantesco para esses medicamentos, com mais da metade da população acima do peso recomendável e dois a cada dez brasileiros vivendo com obesidade. 

Faz sentido supor que tamanha bonança tenha levado os serviços diplomáticos da Dinamarca a se empenhar na defesa dos interesses da empresa. As exportações do setor de saúde representam uma fatia importante do PIB dinamarquês e o país vem mantendo uma agenda de cooperação bilateral com o Brasil há alguns anos. 

Novo Nordisk tour

Em março deste ano, enquanto o Ministério da Saúde ainda avaliava o pedido formal da Novo Nordisk para a inclusão da liraglutida no SUS, um grupo de deputados brasileiros ligados à saúde foi convidado a conhecer a Dinamarca, com todos os custos pagos pela embaixada. 

Participaram da viagem Zacharias Calil (União Brasil – GO), Silvia Cristina (PL-RO) e Daniel Soranz (PSD-RJ). Benedita da Silva (PT-RJ) também foi convidada, mas declinou porque estava se recuperando de uma cirurgia, segundo informou sua assessoria. 

“Foi uma visita muito produtiva”, relatou à reportagem Daniel Soranz. “Essa viagem foi de deputados ligados à área da saúde com o objetivo de conhecer o sistema deles, os principais pontos de discussão e a transferência de tecnologia. A gente teve discussões muito importantes, como o combate ao tabagismo e como estão lidando com os cigarros eletrônicos lá. Outro ponto importante foi a visita à Novo Nordisk, que tem uma fábrica no Brasil e que produz um terço das insulinas mundiais aqui.” Soranz está licenciado do cargo de deputado desde maio deste ano, quando voltou a ser o secretário municipal de Saúde do Rio de Janeiro.

Os deputados, segundo Soranz, também estiveram no parlamento dinamarquês para conhecer a dinâmica de tramitação das pautas de saúde e o sistema de compras públicas. 

Dias antes, outro grupo de parlamentares esteve na Dinamarca a convite da embaixada em um roteiro que também incluiu a Novo Nordisk. Participaram da viagem os deputados Marcel Van Harten (Novo-RS), Lucas Redecker (PSDB-RS), Kim Kataguiri (União Brasil-SP), Rosângela Moro (União Brasil-SP) e o senador Marcos Pontes (PL-SP).  

Viagem foi custeada pela Embaixada do país no Brasil. Crédito: Reprodução Instagram deputado Marcel Van Harten

Em fevereiro deste ano, outro grupo de parlamentares do Brasil viajou para a Dinamarca. Visita à Novo Nordisk também fez parte do roteiro. Crédito: Reprodução Instagram deputado Marcel Van Harten

Apresentação da Novo Nordisk em call para o grupo de deputados brasileiros. Crédito: Reprodução Instagram Deputado Zacharias Calil

Roteiro dos deputados ligados à área da saúde incluiu visita a hospital da Novo Nordisk, na Dinamarca. Crédito: Reprodução Instagram Deputado Zacharias Calil

Nenhum dos parlamentares informou oficialmente a viagem. Segundo uma resolução de 2003 da Mesa Diretora, fica a critério de cada deputado relatar as missões oficiais que não são pagas com recursos públicos. 

Procuramos Silvia Cristina (PL-RO), mas ela não nos retornou até o fechamento deste texto. A deputada é vice-presidente da Comissão de Saúde e liberou cerca de R$ 15 milhões em emendas para o sistema de saúde do seu estado até novembro deste ano, segundo consta em sua página no site da Câmara dos Deputados.   

Cirurgião pediátrico atuante, Zacharias Calil é um deputado ativo nos temas ligados à saúde de modo geral – e à obesidade em particular. Apenas este ano, liberou R$ 28,8 milhões em emendas parlamentares para custeio de serviços de assistência hospitalar e ambulatorial em seu estado. Desde o início do mandato, foram R$ 127 milhões destinados a municípios goianos e ao estado de Goiás. 

“Muitas pessoas sofrem com a obesidade e precisam recorrer a medicamentos que auxiliem no processo de emagrecimento, sobretudo quando a dieta e a prática de exercícios físicos não se mostram suficientes para o tratamento. As pessoas utilizam inúmeros medicamentos que são fabricados para outras doenças, mas que, consequentemente, promovem o emagrecimento. Entendo que é importante que tenham tratamento específico e direcionado”, informou o deputado Calil, ao responder por meio da assessoria se era favorável à inclusão da liraglutida e da semaglutida no sistema público de saúde. 

Ele também é autor de um projeto de lei que sugere a criação de Centros de Referência Especializados no Atendimento Integral às Pessoas com Obesidade. Apresentado em fevereiro deste ano, o PL 343 foi apensado a outro semelhante e aguarda tramitação.

A embaixadora da Dinamarca Eva Pedersen esteve em Goiás em novembro em visita articulada pelo deputado Zacharias Calil (à esquerda na foto). Crédito: Divulgação Secretaria de Estado de Saúde de Goiás

A criação desses centros atenderia ao que se considera uma brecha no tratamento de pessoas que vivem com obesidade. O SUS oferece remédios apenas para as doenças crônicas relacionadas ao sobrepeso, como diabetes, hipertensão e dislipidemia.   

A principal orientação é sobre mudança de hábitos e prática de atividade física. 

Pessoas com IMC maior que 40 ou maior que 35 e que tenham comorbidades são direcionadas para a Atenção Especializada e encaminhadas para a cirurgia bariátrica, se desejarem e estiverem aptas. 

Em nota enviada após a publicação da reportagem, a Novo Nordisk informou que as visitas às instalações “na Dinamarca se deram devido à liderança e ao destaque da companhia no País, sem relação com a proposta de submissão de Saxenda® ao SUS”. Em seguida, acrescentou que “está comprometida, no mundo todo, em ampliar o acesso às suas tecnologias para o tratamento correto da obesidade, condição crônica que, de acordo com o Atlas Mundial de Obesidade, afeta cerca de 40 milhões de pessoas somente no Brasil. Por isso, decidiu submeter a liraglutida, comercialmente denominada Saxenda®, à avaliação para incorporação ao SUS, visto que o atual protocolo para o tratamento da doença possui uma lacuna, entre a mudança de estilo de vida e a cirurgia bariátrica”.

Saúde pública, interesses privados

A ausência de uma alternativa medicamentosa para a obesidade no âmbito do SUS é frequentemente criticada por entidades médicas e associações de pacientes. O problema é que praticamente todas elas mantêm um relacionamento bem próximo dos fabricantes desses medicamentos –  algumas, na verdade, são patrocinadas diretamente por essas empresas. 

“Mais de 40 milhões de pessoas no Brasil vivem com obesidade. A gente tem uma lacuna na linha de cuidado”, afirmou Conrado Carrasco, gerente sênior de Relações Institucionais da Novo Nordisk, durante uma live promovida pelo Painel Brasileiro da Obesidade, iniciativa do Instituto Cordial, um think tank patrocinado pela farmacêutica dinamarquesa. “As pessoas estão tendo o seu direito a se cuidar de alguma forma negligenciado. Não tem alternativa para além de mudanças no estilo de vida, mudanças na alimentação, no estímulo à atividade física. As cidades precisam melhorar, o manejo na Atenção Básica, as referências nos serviços de saúde precisam melhorar e precisam melhorar as alternativas terapêuticas.”

Não foi tarefa fácil encontrar um médico isento e reconhecido por seus pares que concordasse em conceder entrevista uma vez informado o tema da nossa reportagem: a incidência da Novo Nordisk para emplacar compras públicas de seus medicamentos. 

A discussão se embaralha ainda mais porque o argumento a favor da abordagem medicamentosa se soma a reivindicações básicas, como a necessidade de equipamentos médicos e hospitalares adequados, como macas, cadeiras e balanças. 

É consenso entre especialistas que não há tratamento medicamentoso que funcione a longo prazo sem uma efetiva mudança nos hábitos alimentares e de vida: é preciso comer melhor, dormir adequadamente, praticar atividades físicas e na grande maioria dos casos ter acompanhamento psicológico contínuo. Uma realidade inacessível para muita gente. 

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Custo alto e incerteza sobre relevância clínica

Este argumento, somado ao alto custo desses medicamentos, levou a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) a rejeitar, por unanimidade, a inclusão da liraglutida 3mg no tratamento de obesidade pelo SUS. “O Comitê considerou que a tecnologia não é custo efetiva, dado o seu elevado impacto orçamentário e a necessidade de o SUS ofertar efetivamente um tratamento focado na modificação do estilo de vida, com suporte psicológico aos pacientes”, informa o relatório final.

O preço comercial do Saxenda (nome comercial da liraglutida) é de R$ 686 a cada embalagem com três canetas com 6 mg cada. Para o tratamento da obesidade, são necessárias pelo menos cinco canetas por mês. O Ozempic (semaglutida) é ainda mais caro: a versão de 1mg pode ultrapassar R$ 1.000.

Segundo projeções apresentadas pela própria Novo Nordisk e confirmadas pelo comitê que estudou o pedido de inclusão do medicamento, o custo para o SUS seria significativamente alto: R$ 12,6 bilhões para tratar, por cinco anos, 2,8 milhões de pacientes com a liraglutida 3mg. Este cálculo considera as pessoas com IMC superior a 35kg/m², pré-diabetes e risco de doenças cardiovasculares.

Este valor representaria quase vinte vezes o orçamento das ações de Alimentação e Nutrição para a Saúde, que contempla ações de prevenção à obesidade, nos últimos dez anos. Entre 2014 e 2023, o Ministério da Saúde investiu cerca de R$ 635,8 milhões, já corrigida a inflação do período. Este cálculo, no entanto, pode não incluir outras ações da própria pasta e de outros ministérios que também contemplem medidas preventivas. 

Estimar o quanto o Brasil investe na prevenção e no tratamento da obesidade revelou-se uma tarefa quase impossível, dado o aspecto multidisciplinar do tema e sua dispersão dentro da estrutura orçamentária do país.

“Desde a Atenção Primária à Saúde, no contexto de implementação de Academias de Saúde, até ações de Alimentação e Nutrição, visando políticas de alimentação saudável, todas perpassam pela prevenção à obesidade. A forma como cada gasto é descrito em cada subfunção, no entanto, dificulta a precisão do quanto efetivamente está sendo destinado à uma determinada iniciativa”, explicou Victor Nobre, assistente de Relações Institucionais do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS).

Fecha-se uma porta, abrem-se janelas

Estreitar laços com deputados, gestores, autoridades estaduais e municipais de saúde faz muito sentido no momento em que o orçamento federal de saúde vem encolhendo e as emendas parlamentares ganham uma fatia cada vez maior desse bolo. “Nota-se que os investimentos não só vêm diminuindo ao longo dos últimos anos, como a responsabilidade sobre sua alocação é cada vez mais transferida aos parlamentares, cujos critérios são políticos, em detrimento de uma visão estratégica para estruturação da rede pública de saúde”, informou o IEPS, em nota técnica a respeito do orçamento de 2023.  

Representantes da Novo Nordisk no Brasil, embaixadora da Dinamarca Eva Pedersen, o prefeito de Campinas Dário Saadi e autoridades municipais aparecem sentados em uma mesa. Atrás deles, há uma projeção com o título Cities Changing Diabetes Campinas
Representantes da Novo Nordisk no Brasil, embaixadora da Dinamarca Eva Pedersen, o prefeito de Campinas Dário Saadi e autoridades municipais na renovação do projeto Cities Changing Diabetes. Iniciativa busca prevenir também a obesidade promovendo caminhadas e palestras educativas. Crédito: Divulgação Prefeitura de Campinas

O caso de Goiás, por sinal, chama atenção. O estado criou um protocolo para o tratamento de obesidade em crianças e jovens entre 12 e 21 anos com a liraglutida. Para participar, “os pacientes precisam apresentar uma relação de documentos e exames, ter prescrição e laudo elaborado por endocrinologista, e laudos de exames gerais”, informou, em nota, a Secretaria de Estado de Saúde de Goiás. Também é necessário fazer acompanhamento multidisciplinar. Em 2020, a Anvisa ampliou o uso do liraglutida para adolescentes a partir de 12 anos com peso acima de 60 quilos. 

Como o projeto acabou de ser implantado, ainda não é possível saber se houve avanço com os pacientes contemplados. A previsão é que Goiás gaste, em 12 meses, cerca de R$ 400 mil na compra do medicamento produzido pela Novo Nordisk. 

Goiás também tem comprado a liraglutida para atender, na grande maioria dos casos, decisões judiciais em ações movidas por pacientes. Nestes casos, não é possível saber se os remédios estão sendo utilizados para diabetes ou obesidade. Em liraglutida, foram empenhados até então R$ 380 mil neste ano, segundo as informações disponíveis no sistema de transparência do governo goiano. 

Um casamento bem-sucedido

Se a essa altura é possível afirmar que os ultraprocessados, tema recorrente de nossa cobertura, não deveriam fazer parte dos nossos hábitos alimentares, o mesmo argumento não pode ser replicado para a indústria farmacêutica. Dependemos dos seus produtos para o tratamento e a cura de muitas doenças, sejam elas ligadas ao modo como vivemos ou nos alimentamos, sejam causadas pelo acaso do destino ou por uma infeliz combinação de genes.

A explosão nas vendas desses medicamentos é um sintoma preocupante da busca por soluções simples para problemas complicados em uma sociedade gordofóbica e contraditoriamente obesogênica. A tal ponto de uma declaração de um CEO do Walmart sobre uma eventual redução nas vendas entre usuários de Ozempic ter causado um enorme rebuliço entre grandes grupos varejistas e fabricantes de alimentos. A Nestlé, por exemplo, informou que já se prepara para criar uma linha de suplementos voltados para este público. 

De certa forma representa um casamento entre duas forças econômicas globais – a indústria farmacêutica e a de ultraprocessados – que movimentam o mundo em uma sociedade que produz mais alimentos (ou produtos) do que devemos consumir e os distribui de forma desigual. A primeira oferece soluções para os problemas causados pela segunda. 

“O padrão alimentar mudou muito. Dando o exemplo do Brasil, a alimentação típica era arroz, feijão, proteína e salada. Hoje, é fast food, é coxinha com suco pronto. As pessoas estão mais sedentárias do que eram há um tempo. Mas o que pesa, principalmente, é a oferta maior de alimentos. E normalmente são alimentos ultraprocessados e açucarados. Uma oferta muito grande, desde a infância, de bebidas açucaradas”, avalia Lívia Lugarinho, chefe do Serviço de Obesidade, Transtornos Alimentares e Metabologia do Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia Luiz Capriglione (IEDE), vinculado à Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro.

Enquanto parece não restar dúvidas da urgência de escolhas políticas que tornem uma alimentação saudável a opção mais fácil, há uma realidade concreta de pessoas que precisam de orientação e ajuda médica individualizada que leve em consideração o contexto de vida deste indivíduo. 

Entre as cerca de mil pessoas atendidas todos os meses no IEDE, em torno de 700 vivem com obesidade. Em média, segundo Lívia, esses pacientes demoram seis anos para buscar atendimento médico. “Você não vê uma pessoa com diabetes ou câncer esperando esse tempo em casa e tentando tratar sozinha até procurar o médico. E é só o que a gente vê no paciente com obesidade.” 

Ela conta que o IEDE foi o primeiro serviço público de saúde a incorporar o tratamento medicamentoso. O instituto hoje conta com a sibutramina, o orlistate e a liraglutida – esta restrita, por enquanto, apenas aos pacientes mais graves. Pelo alto custo, há poucas doses disponíveis. “A autorização é para uso em pacientes com IMC acima de 50. A gente recebe pacientes bem graves. Esses não vão automaticamente para a bariátrica e alguns não têm nem condição de fazer a cirurgia. Temos mais de 80 pacientes com IMC acima de 50. Agora a gente conseguiu ampliar para pacientes com IMC 45”, explica a médica. “E as respostas são muito boas.” 

Embora ainda não existam pesquisas que comparem as substâncias entre si, na prática clínica a liraglutida e a semaglutida têm apresentado eficácia maior na perda de peso, o que explica o entusiasmo dos médicos com a chamada nova geração de medicamentos. Um dos conceitos atuais no manejo da obesidade é a ideia de controle, ou seja, uma perda de peso que reduza riscos de outras doenças já é considerada um grande avanço no tratamento. 

Enquanto me concedia entrevista, Lívia dava entrada nos trâmites burocráticos em uma fundação ligada à Secretaria Estadual de Saúde para a inclusão do Contrave, nome comercial para a associação de bupropiona e naltrexona, recém-lançado pela Merck para o tratamento da obesidade. Os laboratórios cedem esses medicamentos, a princípio, para que sejam realizadas pesquisas, que são submetidas ao Conselho de Ética do hospital. Dependendo do resultado podem ou não ser incluídos no tratamento dos pacientes. 

Com o pragmatismo de quem atende pacientes diversos diariamente, muitos enfrentando algum nível de insegurança alimentar, a nutricionista Thais Mendes tenta equilibrar suas orientações entre o ideal e o possível. “Tento ver qual é a condição do local em que a pessoa mora, como ela pode receber ajuda. Ou então até dentro dos produtos que ela consome, mais processados, dar alguma opção de melhor qualidade que caiba no orçamento. Às vezes a gente consegue substituir por alguns alimentos da época, frutas e vegetais, que a gente consegue um valor mais barato”, explica.

Enquanto seus pacientes particulares chegam com mais informação e dispostos a pagar mais para se alimentar melhor, a grande maioria no IEDE se surpreende ao ouvir de Thais que nem tudo que parece é. “Ficam surpresos quando eu falo que aquele guaraná não é natural, embora venha escrito assim. É uma bomba de açúcar. Em geral, acreditam muito no marketing desses produtos”, conta a nutricionista. 

Um exemplo concreto de um sistema que se sustenta na combinação da ignorância dos consumidores e preços baixos. “Ultraprocessado quase ninguém sabe o que significa. Não uso este termo com os pacientes.”

Por Mariana Costa

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