Marion Nestle diz que advertência em ultraprocessados funciona melhor que modelos da indústria

Uma das maiores especialistas em nutrição no mundo considera que oposição do setor privado a sistemas em discussão na América Latina é a melhor evidência de que são efetivos

Marion Nestle, professora do Departamento de Nutrição e de Estudos da Alimentação da Universidade de Nova York, afirmou que os sinais de advertência em ultraprocessados são o melhor modelo de rotulagem frontal disponível. Em editorial para o American Journal of Public Health, uma das maiores pesquisadoras em nutrição do mundo saiu em defesa do modelo adotado em 2016 no Chile.

“Até o momento, a melhor evidência de quão bem os modelos de rotulagem frontal afetam as escolhas alimentares é a intensidade da oposição da indústria de alimentos”, comentou. Para ela, os sinais de advertência funcionam melhor que o NutriScore, modelo adotado pela França no final do ano passado.

Além de assinar o editorial, ela também integra a lista de 26 pesquisadores da área que apoiam a adoção desse sistema no Brasil, conforme documento divulgado na última semana pela Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável. Esses pesquisadores consideram haver “fortes evidências científicas” a embasar o modelo apresentado à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).

A expectativa dos sistemas de rotulagem frontal que estão sendo estudados e adotados em vários países do mundo é mudar o comportamento dos consumidores e garantir uma reformulação de produtos para garantir a redução nos níveis de sal, gordura e açúcar.

O sistema francês classifica os produtos de A a E de acordo com o cruzamento de uma série de informações nutricionais. A adesão é voluntária, o que significa que alguns fabricantes podem evitar adotar esse padrão em ultraprocessados cuja classificação seja muito ruim.

“As brigas em torno da rotulagem frontal devem ser entendidas como um exemplo do conflito entre os imperativos de marketing da indústria de alimentos e a saúde pública. Se nada mais, as iniciativas de rotulagem frontal – assim como os esforços de aprovar a taxação de refrigerantes – deixam claro que as empresas de alimentos não pouparão esforços para derrotar iniciativas de saúde pública capazes de reduzir as vendas de produtos não saudáveis, mas lucrativos”, resume Nestle.

A Anvisa deve concluir este ano a discussão sobre um padrão de rotulagem frontal. O órgão público até aqui não sinalizou publicamente a preferência por um modelo. A indústria defende que se adote um semáforo que mostraria as cores verde, amarelo e vermelho para os nutrientes-chave.

 

Já o modelo apresentado pelo Idec tem como base o sistema chileno de advertências. São triângulos pretos que alertam para excesso de sal, açúcar, gorduras e gorduras saturadas, além de acusar a presença de edulcorantes.

 

 

A Anvisa informou recentemente que também analisa o NutriScore, encampado por aqui pela Associação Brasileira de Nutrologia (Abran), conhecida pela proximidade com a indústria. O modelo foi protocolado fora do prazo, durante uma reunião em fevereiro. Pedimos acesso aos documentos apresentados pela entidade, mas, como de costume, a agência reguladora ignorou nossos pedidos, assim como se negou a oferecer qualquer explicação a respeito.

Para Marion Nestle, não deve haver surpresa na oposição que a indústria faz aos modelos de rotulagem. Ela considera que o NutriScore é superior aos sistemas defendidos pelas empresas, mas inferior aos sinais de advertência. Além do Chile, o Uruguai e o Peru estão próximos de adotar esse padrão, e o Canadá partiu da ideia chilena para desenvolver os próprios alertas, também com previsão de implementação este ano.

O texto de Nestle foi escrito como comentário a um outro artigo, que narra as estratégias das fabricantes de ultraprocessados para tentar derrotar o NutriScore. Chantal Julia e Serge Hercberg, epidemiologistas que tiveram participação na elaboração do modelo francês, comparam as táticas da indústria de alimentação às utilizadas pelas corporações dos cigarros.

“Distorcer as evidências científicas, pressões políticas e econômicas, desestabilizar os opositores na ciência, postergar a decisão e oferecer substitutos à política proposta”, elencam. Os autores contam que se levou quatro anos no processo de discussão do NutriScore e destacam o papel negativo da Nestlé, que tentou comandar a implementação de um modelo similar ao agora defendido no Brasil.

“Exemplos de lobby intenso no campo da taxação (particularmente no caso da indústria de bebidas açucaradas) mostraram o tamanho da briga que a indústria de alimentos pode promover contra políticas públicas de saúde”, alertam. “O exemplo francês mostra o esforço intenso que qualquer política pública na área de nutrição pode ter de encarar para ser bem-sucedido, em um tempo no qual ações urgentes são necessárias para frear o aumento de doenças relacionadas à nutrição no mundo.”

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