Será lançado no Brasil o livro que teve uma influência central na obra do jornalista Michael Pollan. Nutricionismo. A ciência e a política do aconselhamento nutricional, do pesquisador australiano Gyorgy Scrinis, é um trabalho fundamental na crítica à lógica que se tornou predominante na alimentação humana.

A obra é uma parceria da Editora Elefante com O Joio e O Trigo e o apoio da ACT Promoção da Saúde. E já está em pré-venda no site da editora, com previsão de lançamento para o final de março.

A fusão das palavras “nutrição” e “reducionismo” resume o olhar que Scrinis lança para o aconselhamento nutricional e o senso comum em torno do tema. Para ele, a tentativa de explicar todos os problemas alimentares em termos de nutrientes só fez agravar o problema, e retirou das pessoas o poder de decidir de maneira simples sobre algo que fizemos desde sempre. 

“Desde as tentativas dos cientistas do século XIX de calcular a quantidade precisa de macronutrientes e calorias necessárias para o crescimento normal e para a prevenção de deficiências, essa arrogância nutricional foi estendida à distribuição de conselhos dietéticos definitivos para reduzir o risco de enfermidades crônicas, como doenças cardíacas, câncer e diabetes”, escreve.

O ovo é um dos exemplos mais famosos. Ao longo das últimas décadas, foi tido como vilão ou mocinho várias vezes, na companhia do café, do leite e de vários outros alimentos.

Ao longo do trabalho, Scrinis propõe e analisa três diferentes eras do nutricionismo. O encanto com a descoberta dos macronutrientes (proteínas, carboidratos e lipídios) e das vitaminas, em meio à euforia com a promessa de progresso infinito de nossas sociedades recém-industrializadas, marca o momento inicial. 

A preocupação com as doenças crônicas, a partir dos anos 1950 e 60, poderia ter acendido a luz amarela: o reducionismo nutricional estava criando novos problemas, em vez de resolver. Mas muitos especialistas da área dobraram a aposta na busca obsessiva por pequenos-grandes culpados, em vez de entender os alimentos de maneira integral e os padrões alimentares tradicionais. 

Nos anos 1990, com o cenário de enfraquecimento das políticas públicas, as empresas se tornam as principais impulsionadoras das mensagens nutricionais. Novas pesquisas científicas descobrem novos micronutrientes, que são usados para reforçar o medo de que os corpos estejam em perigo e, assim, surgem milhares de produtos prometendo milagres. 

“O nutricionismo produziu pessoas nutricêntricas — os sujeitos do nutricionismo — que se identificam e respondem a esta ideologia de várias formas, passando a compreender o próprio corpo e a experiência com os alimentos como um reflexo dessa abordagem da alimentação”, analisa o pesquisador.

O iogurte Activia é um dos exemplos mais emblemáticos de como ansiedades nutricionais criadas pelas empresas acabam aproveitadas por elas mesmas. A obsessão com a ingestão de cálcio faz supor a existência de uma epidemia de ossos fracos mundo afora.

O trabalho de Scrinis é fundamental para profissionais de saúde que desejam refletir sobre a abordagem predominante e as mensagens difundidas pela indústria de produtos comestíveis ultraprocessados. Mas também é indicado para todos aqueles que desejam entender como se deram as profundas transformações na alimentação humana ao longo das últimas décadas, a ponto de haver se tornado um mais graves problemas de saúde pública do mundo. 

Sobre o autor

Gyorgy Scrinis é cientista, com doutorado em Filosofia e Professor Associado de Política e Diretrizes Alimentares na Escola de Agricultura e Alimentos da Faculdade de Ciências Veterinárias e Agrícolas, na Universidade de Melbourne, na Austrália.

Sobre o livro

Nutricionismo: a ciência e a política da orientação nutricional
Autor: Gyorgy Scrinis
Tradutora: Juliana Leite Arantes
Editora Elefante, com parceria O Joio e O Trigo e ACT Promoção da Saúde
Páginas: 348