Lula com Rubens Ometto, presidente do Conselho de Administração do Grupo Cosan e de duas empresas que fazem parte da holding, Raízen e Comgás. Foto: Palácio do Planalto

Governo Lula, ano um: perto das corporações, não tão perto da sociedade

Sucessivos exemplos expõem um mandato desconectado da ideia de que o poder privado é o grande problema a ser enfrentado no século 21. Governistas parecem satisfeitos em consertar o telhado de uma casa que veio abaixo

Quase trinta anos atrás, os Titãs lançaram um álbum que os reposicionou no cenário nacional. As versões levinhas e despretensiosas de Titãs Acústico abriram alas para um sem-fim de bandas tentarem a sorte na mesma toada. Lançado tardiamente, em 2023, Lula Unplugged é um apanhado de sucessos requentados e compilados sem critério. Não dá pra imaginar quando é cedo ou tarde demais pra dizer adeus, pra dizer jamais. 

Despolitizado e distraído, o atual governo não cansa de acumular símbolos negativos de desconexão com o problema central do século 21. O Ministério do Desenvolvimento Social tem a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia) e a Ambev como “parceiras” no combate à fome. A primeira-dama move mundos e fundos contra a taxação de produtos importados. A JBS (“Tem que manter isso daí”) é vista como um ator estratégico na agenda de “desenvolvimento econômico”. Seria possível passar dias listando exemplos de uma visão ingênua ou alheia do governo Lula a respeito de corporações.

As grandes empresas são o maior problema do século 21. Nós poderíamos dizer que o governo Lula está vivendo no século errado. Mas, na verdade, as coisas fora do lugar significam que tudo está no lugar: não é que o governo e o PT não saibam quais são os problemas; é que eles já não têm capacidade de contestação.

É impossível ignorar a conjuntura, que de fato é terrível. O Congresso Nacional privatizou a política brasileira para atender aos interesses de um punhado de pessoas. A instabilidade é grande. O mercado financeiro é maior ainda. Tecer uma crítica tampouco significa desconhecer os esforços de aproximação com organizações da sociedade e a reabertura de conselhos de participação e de outras instâncias de decisão, bem como a capacidade de criar novas políticas a partir da escuta e do diálogo. Não se trata de promover a infeliz equiparação entre Lula e Bolsonaro.

Porém, sem enfrentar corporações, não se enfrenta nada. Nem mesmo a fome, que foi a grande promessa da campanha eleitoral e que foi reiterada por Lula como centro de seu mandato – apesar de empurrar para 2030 a perspectiva de que o Brasil atinja o que já havia sido atingido em 2013, com a saída do Mapa da Fome. Tampouco se enfrenta a desigualdade, evocada por Lula em sucessivos encontros multilaterais: ele nomeia a doença, mas não aponta a causa. Muito menos o colapso climático que, em tese, seria estruturante de todas as políticas públicas do atual mandato.

Neste século, não há nada maior que o poder privado. As corporações são, hoje, maiores do que boa parte dos Estados Nacionais – ainda que uma porção grande dessa fortuna seja mera especulação. Patrimônios individuais são maiores que os Estados nacionais – de novo, com uma dose generosa de especulação. 

Pobreza extrema e riqueza extrema crescem

Os relatórios da organização internacional Oxfam, divulgados todos os anos em paralelo ao Fórum Econômico Mundial, são desesperadores. O número de bilionários e a concentração de renda avançam a um ritmo de progressão geométrica. No levantamento de janeiro de 2023, vemos que “o 1% mais rico do mundo ficou com quase 2/3 de toda riqueza gerada desde 2020 – cerca de US$ 42 trilhões -, seis vezes mais dinheiro que 90% da população global (7 bilhões de pessoas) conseguiu no mesmo período (…) Pela primeira vez em 30 anos, a riqueza extrema e a pobreza extrema cresceram simultaneamente”.

A riqueza de 81 bilionários equivale ao patrimônio de 3,5 bilhões de pessoas. Fonte: Oxfam, relatório A sobrevivência do mais rico

Por incrível que pareça, quem mais próximo chega de discutir o problema real é o ministro da Fazenda. E não que Fernando Haddad esteja confrontando o poder privado – a conquista crescente de apreço pela Faria Lima é o melhor indicador de que não. Mas, incumbido de olhar as finanças públicas, Haddad sabe o quanto de dinheiro está faltando ali. E para onde foi esse dinheiro. 

O sequestro do orçamento público explica uma parcela enorme do aumento da desigualdade e dos problemas cotidianos de precarização da vida.

Entre tantos casos, o Grande Levante do Shopee constituiu um exemplo de primeira hora e, ao mesmo tempo, dos mais emblemáticos deste primeiro ano de governo Lula. De como ele se mesclou à ideologia do capital como valor absoluto e incontestável do século 21. 

Vamos lembrar: foi uma ofensiva contra a intenção de Haddad de cobrar impostos de plataformas que importam produtos. A vitória momentânea em favor de corporações, com o recuo do governo, mostrou como muitos aceitam de bom grado a confusão entre lucro e interesse público. 

Foi o triunfo do consumo, inerentemente excludente, sobre a cidadania, necessariamente coletiva e redutora da desigualdade. Dito com outras palavras, o triunfo da ideia de que a vida se realiza pelo consumo, e de que o gozo individual da compra se sobrepõe à realização coletiva da conversão de impostos em políticas. 

Não é de hoje que Lula evoca a compra como uma realização central da vida, mas, atualmente, a contradição entre consumo e cidadania tornou-se tão grande que o primeiro obrigatoriamente aniquila o segundo. Temos de decidir se uma vida próspera significa acesso à picanha ou ao SUS

Quando o consumo consome a política

Mais recente e menos estrondosa, a Epopeia do Bis marca outro caso emblemático de uma coalizão de governo acrítica a corporações. Tudo começou com um patrocínio da marca de chocolate ao youtuber Felipe Neto. Bolsonaristas propuseram um boicote por meio da promoção do concorrente KitKat. Petistas contra-atacaram com postagens nas quais consumiam Bis, em um suposto apoio a Felipe Neto. 

Um episódio tonto, tontíssimo, mas também simbólico. É, de novo, pela realização do consumo que se tece a política, a ele subordinada. Os petistas elegem os bolsonaristas como ameaça e uma corporação de ultraprocessados como aliada – o amigo do meu amigo é sempre meu amigo?

Aliás, a parceria do Ministério do Desenvolvimento Social com corporações em nome de combater a fome é de extrema infelicidade. Tanta que fica difícil listar os problemas. Ultraprocessados são um enorme problema de saúde pública e um causador de déficit de nutrientes, que é uma manifestação de má-nutrição – justamente algo que o ministério deveria combater.

Corporações da área são parte da equação que desestruturou completamente as culturas e os sistemas alimentares, e por consequência a promoção da segurança alimentar e nutricional – de novo, algo que o ministério deveria promover. Mas o ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Wellington Dias, demonstra uma enorme ignorância com o assunto. 

“A indústria, um dos setores mais prósperos da economia, pode contribuir com a nossa causa”, declarou, em comunicado divulgado pelo governo. “Faremos um esforço em comum para termos um planejamento nessa área, contando com a experiência da Abia para nos dar apoio na inclusão socioeconômica dessa parcela da população. Sabemos da importância dessa ação para o desenvolvimento do Brasil, tirando pessoas da pobreza e incluindo na economia formal.”

O histórico dessas empresas com parcerias é suficiente para saber que se trata de marketing, e não de bem público. O entorno do ministro é formado por pessoas vacinadas quanto à discussão sobre conflito de interesses e socialwashing: impossível dizer que Wellington Dias estava desavisado dos riscos.  

Wellington Dias faz parceria com associação que reúne corporações como Nestlé e Danone. Foto: Roberta Aline/MDS

No fim, a Epopeia do Bis e as parcerias do ministério, somadas a tantos e tantos exemplos diários coletados internet afora, mostram um governo e uma base de apoio tomados pela euforia do marketing e das plataformas sociais. Um governo tomado pela necessidade constante de espetáculo e bafafá, pela ridicularização do outro, pelo debate rasteiro. Um debate mediado por corporações, diga-se, e não por quaisquer corporações, mas por aquelas que desestruturaram as democracias em todo o planeta, e que provavelmente darão conta de varrer do mapa o lulismo tão logo uma eleição se apresente.

Adeus, luta de classes

Mais grave, esse eterno gracejo confina a política e dispensa a luta de classes da qual o PT emergiu, no fim da ditadura. Os governos anteriores de Lula e Dilma já haviam dado demonstrações de esgotamento do imaginário e do frescor de ideias que marcaram as décadas iniciais. 

O que estamos assistindo agora é um desdobramento entristecido e decadente da despolitização das próprias lideranças petistas. Como se quer mudar o mundo com base em ideias superficiais? Sem conhecer as estruturas? Sem questioná-las? 

Simples: não se quer mudar o mundo. O governo parece satisfeito em conter uma pequena infiltração no telhado de uma casa que já veio abaixo. Essa é a hora de reconhecer que há milhares de servidores bem intencionados tentando remontar o que sobrou do Estado. Construir políticas que promovam bem-estar e reduzam a desigualdade. Esse texto não é uma crítica a elas. Pelo contrário. Sem elas, estaríamos ainda mais fundo nesse poço. Mas, ao mesmo tempo, é importante dizer que no centro do governo, nos pontos nevrálgicos, o que se vê é um Alemanha vs Brasil por minuto. É 7 a 1 em favor das corporações e contra a sociedade. É um clima terrível, Galvão.

A crescente desaprovação do governo, consolidada na recente pesquisa Atlas Intel, é indicativa de que há um mal-estar. Ao se recusar a enfrentar os grandes problemas da vida das pessoas, o governo Lula está caminhando por uma seara assombrosa. Não se trata de nutrir uma visão inocente, que desconsidera o avanço da extrema-direita, o poderio do centrão (e das corporações que o lideram) e os riscos de novos golpes. Mas de se perguntar: ao recuar totalmente e aceitar o jogo ditado por um punhado de privilegiados, o governo não está justamente agravando esse cenário? Qual é o plano? É garantir que Lula viva mais 80 anos e fique nos salvando eternamente? 

Até mesmo a imensa capacidade do presidente em construir símbolos parece esvaziada. Lula, obviamente o maior desses símbolos, forjou-se na era industrial. Um metalúrgico no espaço geográfico central de um Brasil que saía da ditadura. Hoje, o próprio berço de Lula está desfeito: o ABC paulista é uma região pós-industrial de trabalhadores precarizados. Uma sombra do que foi. Acabou-se a energia vital que fez dos sindicatos – e de Lula – os protagonistas de uma era.

O Brasil, hoje, é financeiro. E o governo não parece ter ideias – embora tenha ideia – suficientes para lidar com essa estrutura de mundo. Lula está preso ao mito de que é o único capaz de promover um ganha-ganha. O único capaz de conciliar capital e trabalho. É o comandante de um transatlântico que tenta manobrar em um rio da Amazônia, sem enxergar que o rio secou. As águas jorram agora em outro lugar. 

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Por João Peres

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