Depois de um estudo duvidoso viralizar, a defesa da suplementação como prevenção à covid-19 foi encampada por empresas e governantes brasileiros. Ministro da Economia Paulo Guedes é figura central

Já explicamos aqui por que um texto italiano não é uma evidência científica capaz de embasar decisões sobre a saúde pública. Mesmo assim, a questão saiu dos grupos do zap e chegou até Brasília. No início de abril, Jair Bolsonaro publicou um tweet prometendo zerar os impostos da vitamina D. No mesmo dia, mais tarde, ocorreu uma reunião do ministro da Economia, Paulo Guedes, com o secretário-executivo da pasta, Marcelo Pacheco dos Guaranys, e empresas do varejo nacional. 

Como de praxe, Bolsonaro usa o Twitter pessoal para fazer comunicados do governo


Por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) soubemos que o encontro foi para discutir medidas de redução do impacto da covid-19. Além dos representantes do Ministério da Economia, estiveram presentes representantes do Banco Central, do Instituto para Desenvolvimento do Varejo (IDV) – incluindo o presidente do Conselho da Raia Drogasil – da União Nacional de Entidades do Comércio e Serviços (Unecs), da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), da Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce), da Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (CACB) e da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL). Segundo informações saídas do ministério, não houve relatório ou gravação da reunião. 

Fato é que quatro dias depois o Ministério da Economia publicou a Resolução nº 31, que concede redução temporária, para 0%, da alíquota do Imposto de Importação da vitamina D e outros insumos. O texto diz que o objetivo da medida é facilitar o combate à pandemia do coronavírus. Ele é assinado por Marcelo Pacheco dos Guaranys. Pouco mais de uma semana após, Paulo Guedes assinou a Portaria nº 158, estabelecendo as condições para zerar o imposto. 

Dois dias depois do tweet de Bolsonaro, Guaranys se reuniu com o secretário-executivo do Ministério da Saúde, João Gabbardo. Solicitamos informações sobre a reunião por LAI, mas não obtivemos retorno. 

No dia seguinte à redução da alíquota, o Ministério da Saúde publicou um aviso de chamamento público, convocando empresas interessadas em fornecer, em regime de contratação direta, insumos estratégicos para a saúde. Dentre eles, suplementos com vitamina D. Também recorremos à LAI para saber detalhes dessa contratação, o destino dos insumos e quais empresas foram selecionadas. Novamente, nenhuma resposta. 

O professor de Direito Tributário da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), João Hélio Coutinho, explica que o Imposto de Importação tem uma função “extrafiscal”, ou seja, que vai além da arrecadação de recursos para o Estado. E, na prática, representa uma parte pequena da arrecadação total. O objetivo principal é, na verdade, a regulação do mercado. 

“A União, que é quem tem competência tributária em relação ao imposto de importação, utiliza desse imposto, juntamente com o imposto de exportação, como instrumentos de regulação do comércio exterior, ora estimulando o comportamento dos agentes econômicos, ora desestimulando-os”, explica Coutinho. Esses agentes a quem o professor se refere são tanto as indústrias quanto os consumidores. 

É importante dizer que essa redução da alíquota não significa necessariamente uma redução do valor do produto que contém a vitamina D e que chega ao consumidor nas prateleiras. O preço final do produto inclui variáveis, além dos custos de produção. No entanto uma coisa é certa: qualquer ação que enfraquece a regulação do mercado fortalece as grandes empresas. 

O assessor regional de nutrição e atividade física da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), Fabio Gomes, explica que a indústria utiliza diferentes formas de expandir a venda de produtos. Isso envolve não só o investimento em publicidade, mas, também, as atividades políticas corporativas, “que tentam modificar as políticas de governo de tal forma que elas possam favorecer os interesses da empresa”. Estratégia bastante conhecida da indústria de alimentos ultraprocessados, agrotóxicos e tabaco, por exemplo.

“Posso fazer a publicidade e a publicidade vai fazer com que aumente as vendas dos produtos que quero expandir, mas, se eu conseguir alcançar uma mudança estrutural em uma política de governo, que reduza impostos, que desregule a publicidade, que permita uma maior permeabilidade e uma maior desregulação do mercado, pro meu produto, pra minha operação como empresa, tenho uma combinação perfeita. Então, a estratégia dessas empresas tem como finalidade desregular ao máximo o mercado”, explica Gomes. 

As estratégias de interferência da indústria na política partidária são diversas. Desde o engajamento em uma pauta específica até a criação de laços mais íntimos com os governos. Independente da forma, o objetivo é o mesmo: influenciar a criação de políticas que servirão de alicerce para a expansão da indústria. 

No altar do lucro

Pode parecer novidade o interesse do Ministério da Economia na pauta da saúde. Mas Paulo Guedes já mantém laços com o setor há algum tempo.

Nos cinco anos que antecederam a entrada de Guedes no Ministério da Economia, ele foi presidente da Bozano Investimentos, da qual só se afastou dias depois da eleição de Bolsonaro. A missão era investir em empresas com potencial de abrir capital na Bolsa de Valores, para depois ganhar com as ações. Após a saída do atual ministro, a gestora de capital mudou o nome para Crescera Investimentos.

Passado algum tempo investindo em educação, os esforços da Bozano se voltaram para investimentos na saúde. Segundo levantamento do The Intercept Brasil feito em 2018, algumas das empresas nas quais a empresa apostou enquanto Guedes era presidente foram a Hypera Pharma, o plano de saúde Hapvida, laboratórios Fleury, a holding Hospital Care S.A (guarda-chuva de várias marcas) e a rede de escolas privadas de medicina BR Health. 

Ainda que Guedes não esteja mais na Bozano para colher diretamente os frutos do que plantou, a legislação que trata do conflito de interesses em cargos do Poder Executivo federal não impede que ele seja cotista de fundos das empresas em que investiu quando estava na Bozano. Ou qualquer outra. 

Essas informações são sigilosas. Não dá pra saber se Guedes continua apostando as fichas nessas empresas. Assim como não conseguimos prever o futuro, para saber quanto tempo ele ficará no governo, também não sabemos se, depois que sair, voltará para a posição que ocupava na Bozano, atual Crescera.

No vai e vem do peão Guedes no tabuleiro do mercado/governo, como saber qual será o próximo movimento para lucrar?

A realidade é que todas essas empresas só têm a ganhar com a política que Guedes defende. O ministro se pós-graduou na Escola de Chicago, berço da corrente liberal que defende a desregulamentação total da atividade econômica. Em quase todos os textos que publicou no site do Instituto Millenium, organização da qual é fundador, ele critica a cobrança de impostos e defende a redução de alíquotas. 

Zerar o imposto de importação para a vitamina D, agora, não é coincidência ou um esforço para combater a pandemia. É a desculpa perfeita para emplacar políticas que enfraquecem a regulação do mercado por meio do Estado e beneficiam as peças do tabuleiro que Guedes deixou montado antes comandar o Ministério da Economia.

Indústria ataca em todas as frentes

Além do lobby, a importância e a credibilidade das pesquisas científicas também são amplamente exploradas pelas indústrias, que, essencialmente, objetivam maximizar os lucros por meio do respaldo de pesquisadores. 

Desde o final do século passado, muitos pesquisadores, pesquisadoras, jornalistas e demais responsáveis pela promoção da saúde pública apontam os conflitos de interesses nas condutas das corporações em relação à pesquisa e à divulgação científica.

Esse tema não é novidade aqui no Joio. Já mostramos que o Congresso Brasileiro de Diabetes teve farta distribuição de doces. No Congresso Internacional de Nutrição, Coca-Cola à vontade. No início deste ano, a diretora da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (Sban) afirmou que poderia emagrecer comendo McDonald’s. O que esses casos têm em comum são os patrocínios das indústrias de ultraprocessados. 

Todos por um: Indústria, “ciência” e poder público se unem na defesa de interesses privados.

Segundo a professora da Escola de Nutrição da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) e integrante da Aliança Pela Alimentação Adequada e Saudável, Cláudia Bocca, o aparelhamento da ciência pela indústria de alimentos é uma real ameaça à qualidade e aos resultados das pesquisas. “É uma influência muito insidiosa, que pode afetar a formação, a pesquisa, a prática clínica e  as políticas públicas”, diz Cláudia.

No caso da vitamina D, já apontamos que um artigo estadunidense, principal fonte que sustenta as recomendações de suplementação, foi atravessado pelos laços entre os autores do estudo e instituições que fabricam testes e suplementos. 

Além disso, esse “estudo” por si só não sustenta a indicação. Trata-se de um texto que usa uma revisão da literatura disponível sobre o tema. Dentro das pesquisas na área de nutrição, ele não é considerado uma revisão “sistemática” e, portanto, metodologicamente não segue os padrões das melhores pesquisas em saúde.

Também membro da Escola de Nutrição da Unirio e membro da Aliança, o professor Fernando Lamarca diz que uma revisão narrativa de literatura não é capaz de suportar nenhuma recomendação. 

“Ainda mais se tratando de um contexto de pandemia, que seria uma recomendação em saúde pública. Não posso sair suplementando uma população inteira. Quando a gente vai para a declaração de conflitos de interesses, tudo isso parece ser reforçado. Salta mais aos nossos olhos esses indícios de fragilidade”, alerta Fernando.

Membra da Aliança e discente de nutrição da Unirio, Maria Birman lembra que o conflito de interesses caracteriza-se quando o “interesse secundário” pode influenciar no “interesse primário” de uma pessoa ou de uma instituição. 

“Nesse caso, teoricamente, o interesse primário é produzir conhecimento, é fazer pesquisa. A venda de vitamina D faz com que eu desconfie do quanto desse interesse secundário eles [pesquisadores alinhados com empresas] têm – de vender vitamina D, de ganhar dinheiro e manter empregos dentro de uma empresa – vai influenciar no interesse primário”, ressalta Maria.  

Tendência vs ciência 

A pesquisa científica na nutrição pode ser enviesada de diversas formas. Desde o objeto e o método escolhidos para pesquisar, a hipótese formulada para testagem, até a manipulação dos resultados e conclusões. Maria lembra que uma forma simples e muito eficiente de tendenciar uma pesquisa é fazer a pergunta certa para favorecer determinado produto. 

Outras formas de direcionar pesquisas e prescrições em favor dos produtos e serviços prestados pelas corporações são expostas no livro Uma Verdade Indigesta, de Marion Nestle, com base no contexto estadunidense. 

No Brasil não é muito diferente. São grandes e pequenos eventos patrocinados, brindes e pagamentos de viagens, inscrições e estadias para congressos, além de parceiros da indústria ocupando cadeiras de conselhos na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). 

Não é por acaso que a Danone, em parceria com a Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias, está doando R$ 1,5 milhão em suplementos para profissionais de saúde durante a pandemia.

Fabricantes de suplementos de vitamina D apoiam evento on-line da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran). Na ocasião, o produto era a pauta principal. 

Como destaca Cláudia Bocca, essa influência ocorre de formas objetivas, como o financiamento de centros de pesquisa e recrutamento de pesquisadores, como também de formas indiretas e mais subjetivas. 

“Doar uma canetinha parece uma coisa muito pequena. As pessoas acreditam que ninguém vai sugerir pro paciente o uso daquele suplemento. Mas isso também acontece”, explica a pesquisadora.  

Utilizando-se dessa estratégia de financiar as próprias pesquisas, a Hypera Pharma, a mesma que recebeu investimentos da Bozano, criou um centro de “inovação” em 2017, o Hynova. Segundo relatório da empresa, em 2019 o centro já contava com mais de 330 profissionais trabalhando em cerca de 160 projetos simultâneos. Foram investidos R$ 243,1 milhões em pesquisa e desenvolvimento.

Só no ano passado, a Financiadora de Inovação e Pesquisa (Finep), vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, repassou ao programa de inovação da Hypera Pharma R$ 111 milhões. É a empresa do setor que mais recebeu recursos públicos no Brasil nos últimos 16 anos, segundo levantamento do Repórter Brasil, chegando a R$ 1,6 bilhões.

O Joio procurou cinco sociedades da área de nutrição e alimentação. A já mencionada Abran e a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) não quiseram se pronunciar.

A Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (Sban), cuja ex-diretora disse que poderia emagrecer comendo McDonald’s, garante, em nota assinada pela presidente da entidade, Olga Maria Silvério Amancio, que “o profissional da área da saúde deve e precisa conhecer tudo o que está disponível no mercado para ter base para esclarecer bem todos os questionamentos de seus clientes”.  

Trocando em miúdos, a nota revela que a indústria que paga para estar nos eventos conquista o reconhecimento dos profissionais, que prescrevem o que julgam “melhor” para quem pode pagar. 

No texto, Olga ainda frisa que a SBAN têm um documento de política de relacionamento, colaboração e patrocínio com o setor privado. Um texto de 2013 que pode ser um passo em direção ao gerenciamento dos conflitos, mas não um solucionador da questão, como apontou Marion Nestle em Uma Verdade Indigesta

Segundo Nestle os efeitos do financiamento são reais, mas, normalmente, ocorrem em um nível do inconsciente. Um artigo publicado no Journal Accountability in Research confirma que muitos dos profissionais que recebem financiamento lidam com sentimentos e ações contraditórias sobre as relações acadêmico-setoriais.

Já Ruth Guilherme, que preside a Associação Brasileira de Nutrição (Asbran), tem postura bem diferente. Ela diz que a entidade instituiu critérios específicos para o estabelecimento de parcerias, apoios e patrocínios com a indústria alimentícia por meio de portarias internas, enfatizando que isso representa o envolvimento com as diretrizes e estratégias alimentares nacionais, como o Guia Alimentar para a População Brasileira e a classificação NOVA.  

“Esses critérios estão, portanto, alinhados aos conceitos de saudabilidade e sustentabilidade”, argumenta. 

A Asbran não faz parceria com as indústrias de tabaco, bebidas alcoólicas e açucaradas, de ultraprocessados, de transgênicos, e nem mesmo de produtos para emagrecimento e “nutrição estética”, reforça Ruth.  

Vitamina D: nova santa da saúde mundial?

As apostas da indústria na ciência já revelam resultados. O artigo intitulado “Uma revisão do crescente risco da toxicidade de vitamina D por práticas inadequadas” publicado no British Journal of Clinical Pharmacology evidencia os riscos crescentes sobre o uso indiscriminado da vitamina D pelo mundo. São dados reveladores de como essa única vitamina tem sido estudada e propagandeada como o super nutriente salvador da pátria. Erros de fabricação, prescrições indevidas, automedicação são alguns fatores que levam ao aumento de casos de intoxicação por excesso de uso. 

“É surpreendente que a toxicidade da vitamina D ainda ocorra por falta de orientação e regulamentação claras, apesar da consciência desse problema há mais de 50 anos”, descrevem os autores Peter N. Taylor e J. Stephen Davies. 

Eles concluem que uma legislação simples para garantir a qualidade de todos os produtos de vitamina D, juntamente com o uso limitado e restrição de formulações de doses muito altas, pode reduzir substancialmente os danos futuros às pessoas. Os autores ainda descrevem que a maioria dos casos parece ter sido facilmente evitável.

Para o assessor regional da Opas, Fabio Gomes, esse crescente entusiasmo sobre a vitamina D é um reflexo de uma estratégia que combina o interesse da população em ter uma solução fácil para alguns problemas e uma indefinição relacionada à produção científica, que ajuda a favorecer determinados interesses econômicos. 

“As empresas que têm o interesse de difundir o uso desse suplemento importam o problema de outros lugares, para que as pessoas reconheçam esse problema como um problema também do país e possam começar a buscar solução”, diz. 

Gomes ainda observou que a melhoria dos sistemas alimentares seria o ideal para se ter uma saúde coletiva adequada. Lembremos também que a principal fonte de vitamina D está logo aí, disponível em abundância para os brasileiros: o sol. 

“Milagreiros” lá e cá  

A deficiência da vitamina D é tratada por alguns pesquisadores como uma “pandemia”. O micronutriente aparece como “Santo Graal” da modernidade, um cálice sagrado e salvador. 

O exemplo de conflito de interesses mais emblemático dessa área é do pesquisador Michael Holick, estadunidense responsável pelo maior número de publicações a respeito da vitamina D no mundo. É difícil encontrar alguma pesquisa em que ele não esteja nas referências. Em 2018, o The New York Times publicou uma investigação que comprovou os laços financeiros do cientista com diversas empresas do ramo de suplementos, testes e bronzeamento artificial. A Folha de S. Paulo, dias depois, traduziu a reportagem

Holick é o primeiro autor do Clinical Practice Guideline (Diretriz de Prática Clínica) publicado em 2011 no The Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism, da Sociedade de Endocrinologia dos Estados Unidos. Nesse estudo, que tem contribuição de outros sete autores, concluiu-se que o ponto de corte para medir a insuficiência de vitamina D no organismo passaria a ser maior do que o estabelecido pelo Instituto de Medicina (IOM) dos Estados Unidos. 

Os pesquisadores sugeriram que a deficiência de vitamina D seja definida pela concentração abaixo de 20 ng/ml do sangue, a insuficiência entre 21 e 29 ng/ml e suficiência de 30 a 100 ng/ml. Eles têm estreitos laços com as indústrias farmacêuticas. 

Segundo Fabio Gomes, “quanto mais alto a gente define esse valor, maior o número de pessoas [a precisarem de suplementação]. Se o valor está expressando um problema em saúde é que é a grande questão”.  

Procurada pelo Joio, a  Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML) não respondeu às perguntas e se pronunciou por meio de uma nota elaborada juntamente com a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). 

No documento, publicado também no site da SBPC/ML, a sociedade endossou os 30 ng/ml como valor mínimo para “indivíduos considerados saudáveis, incluindo pessoas com mais de 65 anos e gestantes”. Em 2017, no entanto, a SBPC/ML e a SBEM apontavam que a medição acima 20 ng/ml já era considerada um valor desejável para uma população saudável até 60 anos de idade. 

A SBEM recebe inúmeros patrocínios das indústrias farmacêuticas e não quis se pronunciar. A SBPC/ML também permite a presença das corporações nos eventos que realiza, mas a comunicação institucional de entidade não deixa claro quais são os  “parceiros” e que tipos de patrocínio recebe. 

No Brasil, a definição dos valores de referência fica à mercê da interpretação de estudos – normalmente internacionais – e de diretrizes das entidades médicas. Para Fábio Gomes, isso é uma combinação de fatores que favorece uma “estratégia mercadológica que dirige a solução a determinados produtos e fabricantes desses produtos”.

Não cabe ao Joio estabelecer um consenso entre esses valores de referência. Nosso papel é apontar como a qualidade e o direcionamento das produções científicas, que embasam decisões sobre a saúde coletiva, são prejudicadas por conflitos de interesses gerados pelas corporações.

E se alguém ficou com inveja dos Estados Unidos, calma. No Brasil, também temos um guru da vitamina D. Cícero Galli Coimbra é professor do Departamento de Neurologia e Neurocirurgia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e há mais de dez anos utiliza como tratamento experimental para doenças autoimunes altas doses de vitamina D. Esse método leva, inclusive, o nome dele: “Protocolo Coimbra”. 

Como consta no currículo lattes, Coimbra é fundador presidente do Instituto de Investigação e Tratamento de Autoimunidade. Ele declara, também, que o “Protocolo Coimbra” é utilizado por cinquenta médicos brasileiros e no exterior. 

Em entrevista à revista Veja em 2018, ele sugeriu a suplementação à toda a população em uma dose quase dez vezes maior do que a considerada segura, prometendo praticamente um milagre.   

“Se fosse dada uma complementação de apenas 5 mil unidades por via oral para toda a população urbana adulta, seria possível diminuir, da noite para o dia, de 40% a 50% o número de novos casos de câncer” declarou. 

A professora Cláudia Bocca vê esse tipo de orientação com preocupação. “Nos preocupa a visão da ciência – que muitas vezes acontece – de nutrientes específicos como grandes salvadores da pátria”, comenta. 

Marketing: a alma do “milagre”

A interferência em governos e pesquisas faz parte de um grande pacote da indústria, que também inclui a publicidade. Dentro dos “manuais de ação” das empresas, o investimento em marketing sempre aparece como pilar fundamental para promover o aumento das vendas. 

O assessor da Opas, Fabio Gomes, lembra que, mesmo quando existe a conscientização do consumidor, a propaganda pode levar a fazer escolhas que, racionalmente, não seriam feitas. 

“A publicidade tem essa capacidade. E ela é desenhada para que as pessoas tomem decisões que são, às vezes, decisões subconscientes”, avalia. Ele acrescenta que “as pessoas não estão num vácuo, elas estão sob essa pressão, sob essa agressão da publicidade, cercadas por várias estratégias mercadológicas que vão dirigir uma decisão de compra para algo que é completamente supérfluo para elas”.

No caso da vitamina D, um alarme soou nos escritórios de marketing da indústria de alimentos e suplementos quando o “Estudo de Turim” viralizou. Rapidamente, as ideias apresentadas pelos pesquisadores foram incorporadas à publicidade das empresas. A Nestlé foi uma das que entrou nessa onda, dando atenção especial à presença da vitamina em produtos.

Nestlé faz publicidade no programa “Encontro com Fátima”, da rede Globo. Publicidade veiculada após a publicação do duvidoso “Estudo de Turim” dá destaque a vitaminas.

Outra marca que chama a atenção pela supervalorização da vitamina D é a Addera D3. As campanhas são mais incisivas no incentivo à suplementação em massa e já se mostraram um sucesso para a empresa. A Addera D3 pertence à Mantecorp Farmasa, marca pertencente à Hypera Pharma, aquela empresa citada neste texto que é recordista em recebimento de dinheiro público. Outras marcas guarda-chuva da Hypera são a Skincare e a NeoQuímica. 

De acordo com relatório de resultados do primeiro trimestre de 2020 da Hypera, em março a Addera D3 registrou recorde de vendas “sell-out”, termo que se refere à venda direta ao consumidor. A justificativa do relatório para o aumento das vendas é que os “estudos recentes que reforçaram a importância da vitamina D para a regulação do sistema imunológico e redução do risco de infecções respiratórias de origem viral”. Oportunamente, nesse mesmo período, a marca estreou a primeira publicidade na TV.

Nos primeiros três meses de 2020, a Hypera aumentou em 14,4% o investimento em marketing, comparado com o mesmo período do ano passado. Estão incluídas aí propagandas na TV e redes sociais, visitas médicas, promoções, brindes e amostras. Nos últimos anos, a empresa aumentou os investimentos em marketing agressivamente, chegando a quase R$ 850 milhões só em 2019.  

É interessante notar que no relatório de resultados do ano passado a Hypera registrou uma queda de 10% no mercado da vitamina D. Agora, como um milagre que cai do céu, viraliza o tal “Estudo de Turim”. A empresa inicia a campanha no Instagram que denunciamos aqui, infringindo artigos do Código de Defesa do Consumidor e incentivando superdosagens. E as vendas voltam a crescer. 

Algumas publicações denunciadas no Joio foram excluídas do perfil da Addera D3, mas a campanha com influencers continua. Também foi criado o perfil da “Comunidade Addora”, iniciativa do programa de aceleração de negócios de e-health, promovido pela Hypera Pharma.

A Hypera Pharma adotou esse nome em 2017, mas a empresa já existe há mais de uma década. Antes era a Hypermarcas. Cresceu comprando outras marcas do varejo nacional, de palha de aço a molho de tomate. 

A partir de 2010 foi se especializando no setor de medicamentos e cuidados pessoais. Naquele momento, em entrevista à Revista Época, o sócio majoritário da empresa, João Alves de Queiroz Filho, conhecido como “Júnior da Arisco”, deixou explícito o objetivo: ser o maior fornecedor de farmácias do Brasil. E explicou um pouco do modus operandi por trás da compra e venda de outras marcas. 

“Funciona assim: invariavelmente o passo inicial é reformular a imagem da marca absorvida, o que, em geral, envolve o redesenho do logotipo, dos rótulos e das embalagens. O segundo estágio envolve as grandes campanhas publicitárias e promoções nos pontos de venda. Depois, é a vez de um ajuste fino na distribuição. Praticamente, todas as marcas passam por isso”, contou Queiroz Filho à revista Época.

Na época, até a apresentadora Xuxa estava na folha de pagamento da empresa. A previsão era investir R$ 40 milhões só na publicidade da NeoQuímica em 2010 – valor que nem se compara aos cerca de R$ 2,6 bilhões investidos em marketing pela Hypera Pharma desde 2017 até março de 2020. 

Coincidência ou não, a mudança de nome ocorreu pouco antes da Operação Tira-teima, desdobramento da Lava-Jato, realizar mandados de busca e apreensão nas casas de Bergamo e “Júnior da Arisco”. A acusação era o pagamento de propina a parlamentares do alto escalão do partido Movimento Democrático Brasileiro (MDB), a exemplo do então presidente do Senado, Eunício Oliveira (MDB-CE). Há alguns meses a empresa confirmou a existência de “pagamentos comprovadamente indevidos”, que ultrapassaram R$100 milhões.

Práticas corruptas estão intimamente ligadas ao lobby das grandes indústrias. Pesquisas permeadas por conflitos de interesse entram nessa história como justificativas formais para ações que, na prática, só beneficiam a própria indústria. 

Por isso é necessário regular o mercado, a publicidade e a ciência. Em uma reportagem publicada no The Conversation, Lisa Bero, jornalista estadunidense que luta pela divulgação e gerenciamentos dos conflitos de interesses, afirma que são necessárias reformas na pesquisa em nutrição. Entre elas, mudanças de políticas públicas para promover transparência na pesquisa e na acessibilidade aos dados, Universidades para gerenciar conflitos de interesses e padrões metodológicos para criticar e relatar evidências.

Com Jair Bolsonaro, Paulo Guedes e companhia no comando do governo brasileiro, inclusive se aproveitando do caos da pandemia, essa realidade parece bem distante por aqui.