Só quatro das últimas 15 safras foram rentáveis a produtores gaúchos, estado que entrega hoje mais de 70% da produção nacional. Mas nem todos os produtores são iguais: há até quem ganhe, mas muito mais quem perca 

O Produtor e a “princesa” – nome dado à pá usada no manejo do arroz, inicialmente pela da marca da ferramenta, depois virou costume / Foto: Jefferson De Paula Dias Filho


Com o preço do arroz nas alturas, pela primeira vez não é o varejo que determina o valor da saca. O poder está na mão do produtor, historicamente pressionado pelo governo, pela indústria e pelo próprio comércio – maiores peças de um jogo de xadrez.   

O problema é: só se beneficiam os produtores que têm arroz nessa época do ano para vender. E isso é raro, já que muitos antecipam a venda da produção, ou seja, têm que se endividar para trabalhar.

Nesta safra, pelo menos um terço da produção foi negociada antecipadamente, nos meses de março e abril, com os cerealistas e as indústrias. A outra parcela é comercializada no período da colheita, para saldar os compromissos de curto prazo.

Assim, poucos produtores rurais se beneficiam do atual “recorde nos preços”. No Rio Grande do Sul, a estimativa é de que menos de 10% dos produtores de arroz ainda tenham estoques do grão para negociar.

O mercado do arroz

Pivô de irrigação do arroz e, ao fundo, a plantação / Foto: Jefferson De Paula Dias Filho


O histórico recente da lavoura de arroz não é nada animador: a.produção inclui cada vez mais custos e a saca de arroz vale cada vez menos. De acordo com o Instituto Rio-Grandense do Arroz (Irga), só quatro das últimas 15 safras foram rentáveis para os produtores do estado, que hoje entrega pouco mais de 70% da produção nacional.

Ainda de acordo com o Irga, o custo de produção do arroz em casca por saca de cinquenta quilos ficou em R$ 64,70, 10,52% mais caro em relação à safra passada, quando o gasto para produzir girava em torno de R$ 58,54/saca. Na época de colheita, a indústria pagou, em média, R$ 50 pela saca de arroz – cerca de dez reais a menos que o seu custo.

Não é complicado de entender: o arroz começa a ser plantado no estado sulista em meados de setembro e a colheita é feita nos meses de fevereiro, março e abril – já que as condições climáticas são mais favoráveis para o plantio do arroz irrigado nesse período.

São três os métodos de repasse do arroz, feitos em sacas de cinquenta quilos, dos produtores para a indústria que beneficia, empacota e transporta esse grão: venda direta, o arroz a depósito e a por meio da Cédula de Produção Rural (CPRs). 

A venda direta é a mais simples e a que menos ocorre, já que pressupõe autonomia financeira dos produtores. Nesse método, os agricultores arcam com os custos dos insumos, energia, armazenam o próprio arroz e vendem em qualquer época do ano.

No segundo método, o produtor também arca com os custos da produção, mas deposita o arroz nos silos da indústria e pode vendê-lo quando bem entender, pagando uma taxa de armazenagem e checagem, que equivale a 7% do valor do volume total armazenado. Lá, o arroz é mantido em temperatura e umidade ideais para conservação.

Silos usados para o armazenamento de grãos / Foto: Jefferson De Paula Dias Filho


No entanto, como a maioria dos pequenos e médios produtores não têm dinheiro para arcar com os custos iniciais da produção, negocia com as grandes indústrias com a Cédula do Produtor Rural, que nada mais é do que uma antecipação financeira (uma dívida contraída para trabalhar, como já apontamos), que depois é paga pelo agricultor no final da colheita, ou em dinheiro, ou em arroz.

Pouco antes da pandemia, a equipe do Joio conheceu os arrozais do oeste rio-grandense e conversou com produtores pequenos, médios e grandes, representantes da indústria, jornalistas e pesquisadores da área.

Em uma das entrevistas, a Pirahy Alimentos, dona da marca de arroz Prato Fino e terceira maior beneficiadora do grão no Rio Grande do Sul, atrás da Camil e Josapar, afirmou que cerca de 60% do estoque na safra de 2019 foi negociado nas CPRs. A mesma versão foi emitida por Carlos Scariot, gerente da Camil de Itaqui, fronteira oeste do Rio Grande do Sul.

Ter mais da metade dos estoques de arroz preenchidos no final da colheita, nos meses de março e abril, é conveniente à grande indústria por dois motivos: o preço pago pela saca é mais baixo, devido a grande oferta; é mais fácil controlar a logística dos silos e o que ainda precisa entrar de arroz no ano para ser distribuído no varejo.

De acordo com as cotações do arroz em casca do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/USP), no final de março o preço da saca de cinquenta quilos de arroz custava aproximadamente R$ 50, mas alcançou o dobro do valor no início do mês de setembro e até hoje permanece em alta.

Estratégia ou reflexo?

O tom de Raul Borges é enfático quando afirma que a alta do arroz é uma estratégia da indústria para regular os preços da safra de 2021.

“Isso é uma partida de xadrez que iniciou há um mês e vai terminar em dezembro, janeiro. A indústria está com arroz guardado, está ganhando. Ela comprou mais de 50% na colheita e ainda tem estoques”, afirma o produtor e presidente do Sindicato de Itaqui e Maçambará.

Raul acredita que a isenção da taxa de importação do arroz para os países de fora do Mercosul só colabora para abaixar os preços da saca na próxima safra e prejudicar os produtores que, em tese, teriam condições de receber mais de R$ 80 por saca, um valor recorde. Quanto mais arroz importado, maior oferta, e menor o preço pago aos produtores.  

“Poderiam ter segurado na exportação, não precisava importar. O mercado se regularia. Agora, nós temos que monitorar para ver se vai faltar alimento no mercado ou não, para não importar mais do que realmente precisa. Porque, com estoques maiores, isso abaixa os preços na negociação de 2021”, explica.

É possível que a indústria brasileira tenha estoques de arroz produzido nacionalmente até o final do ano para abastecer o varejo. Então, qual o real motivo dos preços em uma tendência de alta? 

Para Cleiton Santos, jornalista e analista do mercado de arroz há mais de 20 anos, a alta teve vários motivadores. Por exemplo: o Brasil, nos últimos três anos, exportou mais do que importou e produziu menos do que historicamente produzia. Dessa forma, as duas pontas se enxugaram. A balança comercial foi positiva: exportamos mais de um milhão de toneladas líquidas, mas a importação estagnou.

Além disso, a pandemia criou condições favoráveis à exportação. A expectativa era de que o Brasil exportasse um milhão e meio de toneladas de arroz ao longo do ano comercial – que vai de março a fevereiro. Porém esse número deve ser bem maior: até setembro, o país já exportou mais de um milhão e trezentas toneladas.

“O que aconteceu foi a antecipação dessa venda. Junto com o aumento do consumo interno, tivemos um choque de realidade. O mercado externo operou normalmente, mas o mercado interno teve outro comportamento”, afirma Cleiton.

Por isso, para o jornalista, a alta do arroz foi mais um reflexo do que uma estratégia. “Não acho que o governo seja tão inteligente. Acho que ele agiu pressionado. Mas faz sentido, já que, ao importar mais, a indústria que está comprando o arroz entra mais abastecida para a próxima safra.”

É importante entender que o pânico criado pela indústria, que deflagrou a alta no arroz, não foi o fato de ela estar desabastecida, mas por acreditar que ficaria desabastecida entre janeiro e fevereiro, com preços numa escalada. 

Além disso, ao retirar a Tarifa Externa Comum (TEC) sobre quatrocentas mil toneladas de arroz, o governo não teve intenção de baixar os preços do grão, mas de estabilizá-los. Isso porque os preços externos estão com patamares dos preços brasileiros. Compramos arroz de qualidade muito inferior pelo mesmo preço.

O xadrez

Panícula de arroz após a colheita / Foto: Jefferson De Paula Dias Filho


No tabuleiro do arroz, o varejo é o rei. É a peça responsável por movimentar os preços de mercado e determinar a margem de lucro do alimento básico e tradicional da população brasileira.

O arroz é aquele alimento da cesta básica, que fica no fundinho do supermercado, mas já chamando a atenção nos cartazes de entrada. O que os gaúchos denominam “alimento chamariz”: serve de isca para a venda de produtos com margem de lucro mais alta, como os ultraprocessados.

“O varejo, historicamente, é quem impõe os preços, que trabalha a margem do mercado. Para o varejo, o arroz sempre foi um alimento de chamariz. Ele fica no fundo da loja, em promoção, para que o consumidor vá comprar o arroz que precisa, mas, no caminho, pegue um chocolate, uma pizza congelada, um ultraprocessado qualquer, porque eles têm uma margem muito mais substancial”, explica Cleiton.

A rainha do tabuleiro é a grande indústria, representada por três fábricas que beneficiaram, em 2018, pouco menos de 30% de todo arroz do estado: Camil, Josapar e Pirahy. Segundo o Irga, as três indústrias apuraram, em 2018, cerca de 1,5 milhão de toneladas de arroz.

Em 15 anos, 5 mil produtores desistiram da atividade e mais de 70 pequenas indústrias faliram

Contudo, o mercado não é homogêneo. No Rio Grande do Sul, existem 177 empresas de beneficiamento de arroz. As pequenas, cada vez mais absorvidas pelas maiores. Há dez anos, de acordo com o mesmo ranking do Irga, existiam mais de 250 indústrias no Rio Grande do Sul. 

As indústrias de pequeno porte sofrem mais, já que não conseguem adquirir grandes estoques de arroz para armazenar. Elas compram pouca quantidade de arroz na colheita e se tornam menos competitivas durante o ano. Numa crise como a atual, o custo da saca é inviável.

A consequência é a falência e a concentração de mercado. Nos últimos 15 anos, a lavoura de arroz perdeu 250 mil hectares de área plantada. No entanto, a média da lavoura cresceu de trinta hectares para cerca de cem hectares. 

Em outras palavras, os maiores produtores engoliram os menores. Além disso, em 15 anos, cinco mil dos 13 mil produtores desistiram da atividade. Fica evidente que nesse jogo, os peões – os pequenos produtores – são as peças sacrificadas. 

Estima-se que os produtores gaúchos ainda tenham quinhentas mil toneladas de arroz em mãos. Parece muito, mas o valor é parecido com a quantidade que o governo federal liberou para importação sem a TEC, as 400 mil toneladas. A quantidade equivale a 15 dias de consumo da população brasileira.

A água passou do pescoço 

A água não está nos pés. Está no nariz do pequeno produtor / Foto: AgroRevenda

Segundo matemáticos, o xadrez possui 170 setilhões de alternativas ainda nos primeiros movimentos da partida. O grau de imprevisibilidade é grande. Os especialistas em política e em economia buscam informações, estudam para prever o que ocorrerá lá na frente. Porém, na verdade, somos todos espectadores do acaso.

Estamos de mãos amarradas até a próxima safra. Quem diria que uma “gripezinha” mexeria tanto na economia, na solidez das promessas do agronegócio, de entregar alimento para a população?

Desde 2004, entramos gradativamente em um novo modelo mundial, onde a cotação internacional passou a interferir na maneira de precificar o arroz no Brasil. O grão tornou-se um produto massificado, o que é um problema quando se trata de comida. É praticamente indispensável no prato dos brasileiros.

Sem falar que existem famílias camponesas trabalhadoras por trás dos lucros da grande indústria e do varejo, e que a atividade do arroz, assim como a maioria dos exercícios agrícolas, envolve tradição e cultura. Os produtores de hoje são filhos de outros produtores e utilizam técnicas antigas de manejo.

Esses laços de afeto com o cultivo explicam o motivo pelo qual muitos lutam para se manter na atividade, mesmo depois de 11 anos de prejuízo. Provavelmente, uma empresa urbana não seguiria a funcionar. Mas a lavoura do arroz, a grande “indústria” a céu aberto, continua.

“A atividade de arroz é para os grandes produtores e empresários. Está ficando inviável para o médio e o pequeno. Estamos com a água no nariz”, conclui Raul Borges Neto, produtor de arroz.

Na outra ponta está o arroz orgânico. Cerca de 400 agricultores produzem o grão, na região metropolitana de Porto Alegre, de forma compartilhada. Muitos deles migraram da produção convencional para a orgânica como forma de permanecer na atividade e conseguir manter a água nos pés, não no nariz.

A marca de arroz Terra Livre, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), é 100% produzida em assentamentos da reforma agrária, localizados nos municípios de Guaíba, Tapes, Eldorado do Sul, Nova Santa Rita, Viamão, Charqueadas e São Gabriel. Assim como toda a produção sem agrotóxicos, os agricultores utilizam técnicas naturais de controle de “pragas” e plantas invasoras. No caso do arroz, eles afogam o grão e retiram totalmente a água durante a produção, a depender do período do plantio.

O conceito de ‘preço justo’  baseia a atuação do movimento. A ideia é oferecer um alimento a preço palatável para a população, pagando honestamente os agricultores e abastecendo, principalmente o mercado interno.

“A alta dos preços do arroz não atingiu o arroz orgânico. Fizemos os cálculos e vimos que a gente conseguia pagar os agricultores, pagar beneficiamento, transportar e ter uma margem. Então o preço subiu um pouco, mas não acompanhou a especulação do mercado”, conta Edson Cadore, agrônomo e coordenador técnico da produção de arroz do Movimento Sem Terra no Rio Grande do Sul.

Atualmente o movimento entrega arroz para os estados de São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Paraná e para a região Nordeste do Brasil. O arroz representa cerca de 60% da renda anual do produtor, a depender do tamanho da família, que normalmente complementa o faturamento com a venda de hortaliças e leite orgânico.