Três novos estudos engrossam o caldo de evidências científicas de que o consumo de ultraprocessados está relacionado à piora de diversos indicadores de saúde

A pandemia de covid-19 tem levado dor e luto aos quatro cantos do mundo, mas não “só” isso. A convivência com a doença ensina importantes lições todos os dias. Talvez, a mais pertinente delas seja a compreensão de que a ciência é tão essencial quanto demorada: entender os problemas e apontar soluções leva tempo, porém é o melhor caminho para enfrentar as peças que o mundo nos prega.

Depois de algumas décadas de escrutínio pela ciência, o cigarro passou de companheiro fiel a inimigo mortal dos humanos. Apesar de ainda haver um grande número de fumantes, hoje é muito difícil encontrar alguém que desconheça os malefícios do tabagismo — e esse mérito é, em grande parte, da ciência. 

Quem passa agora pela bancada dos cientistas são os alimentos ultraprocessados, aquelas preparações industrializadas ricas em sal, gorduras, açúcar e aditivos com nomes impronunciáveis. Esse campo de estudo é recente — o termo “ultraprocessado” foi criado há pouco mais de dez anos — mas o rumo dos salgadinhos, sorvetes, refrigerantes, iogurtes saborizados, bolachas e companhia parece ser semelhante ao do cigarro.

Como já mostramos no Joio, existe um consenso científico de que os ultraprocessados são danosos à saúde e estão diretamente relacionados a uma série de doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes, hipertensão, câncer e obesidade. Condições que, como também mostramos, agravam seriamente os casos de covid-19.

Neste ano, enquanto o mundo todo observava o avanço do novo coronavírus, três importantes estudos se somaram ao coro de evidências que contraindicam o consumo de ultraprocessados. A ciência até pode tardar, mas não falha.

As pesquisas

Em fevereiro, um artigo publicado no International Journal of Food Sciences and Nutrition apontou uma relação entre o consumo de ultraprocessados e o excesso de peso, hipertensão, dislipidemia e síndrome metabólica. Um resultado semelhante ao de outro trabalho publicado cinco meses depois, no British Journal of Nutrition, que concluiu que altos níveis de consumo de ultraprocessados estavam relacionados ao aumento de sobrepeso e obesidade (+39%), circunferência da cintura (+39%), níveis baixos de colesterol “bom” (+102%) e síndrome metabólica (79%). 

Mais recentemente, em agosto, um estudo publicado no International Journal of Obesity revelou que pessoas que consomem ultraprocessados regularmente têm chances 26% maiores de desenvolver sobrepeso e obesidade. No atual contexto de pandemia, esse dado se torna mais alarmante: uma pesquisa recente da Universidade da Carolina do Norte apontou que pessoas obesas infectadas pelo novo coronavírus têm risco 113% maior de serem hospitalizadas, 74% maior de serem admitidas em UTIs e 48% mais chance de morte.

É claro que foram publicados mais do que três artigos sobre os efeitos do consumo de ultraprocessados nos últimos meses. Mas, com a produção científica descentralizada e as diversas bases de dados para consulta, é muito difícil mapear tudo o que é publicado. É justamente por isso que os três artigos mencionados merecem destaque: todos seguem um modelo chamado de “revisão sistemática”. 

Esse tipo de artigo tem um grande valor científico porque, como diz o próprio nome, analisa sistematicamente a bibliografia existente. Linhas gerais, os pesquisadores usam uma metodologia rígida para vasculhar tudo que já foi publicado sobre um tema, mas as revisões sistemáticas têm outras vantagens: avaliam e qualificam a metodologia dos estudos, apontam falhas ou lacunas no conhecimento criado e servem como base para tomada de decisões por gestores e formuladores de políticas públicas.

“Isso se reflete nos guias alimentares e outros documentos com recomendações sobre alimentação e saúde, em diretrizes e protocolos clínicos que guiam orientações alimentares em contextos específicos e até mesmo na decisão sobre quais alimentos devem ser alvo de políticas públicas”, explica Maria Laura Louzada, professora da Faculdade de Saúde Pública da USP e pesquisadora do Nupens (Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde Pública).

Para a pesquisadora, esse tipo de estudo é especialmente importante para a ciência de alimentação e nutrição, que sofre ataques constantes por parte de grandes corporações do setor. “A gente sabe que nem sempre a indústria de alimentos confronta as pesquisas com ciência”, comenta. “Muitas vezes, são usados mecanismos de poder econômico e político e até mesmo narrativas que tentam desqualificar de forma injusta pesquisadores ou grupos de pesquisa.”

É mais fácil para as grandes produtoras de alimentos ultraprocessados desacreditar uma pesquisa específica ou questionar a metodologia usada por um grupo de cientistas — algo frequente, por exemplo, para o Nupens, do qual Maria Laura faz parte. Contestar revisões sistemáticas é mais complicado. Desqualificá-las significa, em tese, desqualificar toda a ciência criada sobre um tema por pesquisadores do mundo todo. A esta altura já sabemos que não existem limites para a cruzada anticientífica da indústria de alimentos, mas as revisões ajudam a proteger o conhecimento dos ataques.

Fora dos laboratórios

Cresce, de um lado, o corpo de evidências científicas de que a comida-porcaria é prejudicial à saúde. Do outro, cresce o consumo dessse tipo de preparação. A última Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do IBGE, referente aos anos de 2017 e 2018, revelou que os alimentos ultraprocessados compõem cerca de 20% da disponibilidade calórica diária dos brasileiros. O que mais preocupa é a discrepância geracional dos dados: entre os adolescentes, 27% das calorias provém de ultraprocessados, quase o dobro do valor encontrado na população idosa (15,1%). Os mais jovens também consomem nove vezes mais bebidas lácteas e vinte vezes mais salgadinhos do que os mais velhos.

Para Maria Laura, o crescimento do consumo de ultraprocessados remonta à década de 1980, com os acordos firmados entre os governos brasileiros e as grandes empresas fabricantes de alimentos. “Essas políticas e acordos desregulamentaram a indústria, abriram os países ao investimento estrangeiro e permitiram que as transnacionais assumissem as empresas nacionais”, explica. A presença das corporações alimentícias restringiram, segundo ela, a atuação dos governos para implementar políticas públicas que desencorajassem o consumo de ultraprocessados. Contudo não é só isso.

O aumento da renda e do poder de compra tornaram os alimentos industrializados mais acessíveis para um contingente populacional cada vez maior — fator agravado pelo progressivo barateamento dos ultraprocessados. “Nos países de renda média e baixa, a propaganda direta e específica para comunidades de renda mais baixa também tem ajudado a acelerar a penetração das empresas nos mercados emergentes.”

Novamente, se a saúde pública guiar as decisões dos formuladores de políticas, o destino dos ultraprocessados deve ser semelhante ao do cigarro. Para a pesquisadora do Nupens, algumas das medidas adotadas para frear o avanço do tabagismo também deveriam ser empregadas na comida-porcaria. “Essas estratégias incluem, por exemplo, medidas fiscais que aumentem impostos sobre alimentos ultraprocessados e subsidiem a produção e a oferta de alimentos in natura ou minimamente processados, a restrição da publicidade de ultraprocessados, a adoção de rótulos de alimentos mais informativos e com alertas proeminentes, a regulação da oferta de ultraprocessados em espaços institucionais, além de ações educativas e de comunicação”, argumenta.

Em pouco mais de uma década de pesquisa mais intensa, a ciência já produziu conhecimento suficiente para contraindicar o consumo de ultraprocessados e comprovar os prejuízos à saúde individual e à coletiva. Do outro lado, a indústria de alimentos renova os métodos e reforça estratégias de marketing para garantir novos consumidores. Se depender da dedicação dos cientistas ao tema, a vida das fabricantes de ultraprocessados deve ficar cada vez mais difícil.