Monitoramento em 18 países indica aumento de lobby por parte de multinacionais de alimentos e bebidas, e iniciativas como doação de refrigerantes a centros de combate à obesidade

No longínquo início dos tempos pandêmicos as pessoas estavam em casa. Recolhidas e indiscutivelmente temerosas. Pandemia do novo coronavírus do primeiro ao último jornal. Nem o programa de receitas escapou. Enquanto o mundo inteiro ocupava-se com o turbilhão de novidades, um desafio rondava a indústria de alimentos ultraprocessados.

Como garantir as vendas – ou melhor, como aumentar o lucro e dar retorno aos acionistas – quando a garantia da saúde das pessoas nunca foi tão importante? Soou o alarme nos escritórios de Nestlé, Pepsico, Coca-Cola, McDonald’s, Burger King e amigas, principalmente nos países de baixa e média renda. 

Buscando entender como essas multinacionais fizeram de um limão uma limonada, a Global Health Advocacy Incubator (GHAI) – Incubadora de Defesa da Saúde Global, em tradução livre – lançou na terça-feira (17) um relatório inédito

De março a junho deste ano, a GHAI, em parceria com organizações locais e globais de saúde, realizou um monitoramento que investigou as interferências das principais corporações de bebidas e alimentos no desenvolvimento e na implementação de políticas públicas, na visão da população sobre os ultraprocessados e na garantia do acesso à informação.

Organizações no Brasil, mas também em Barbados, Colômbia, Jamaica, México, África do Sul e Estados Unidos participaram diretamente do levantamento de dados, e essa união reuniu informações de 18  países e quase 300 exemplos de ações da indústria.

O monitoramento incluiu, como método de pesquisa, análise de narrativas, escuta da sociedade e monitoramento de mídia. No Brasil, a ACT Promoção da Saúde contribuiu a partir da visão tupiniquim e mostrou como as histórias que o Joio vem contando refletem as políticas transnacionais das chamadas big food.

O relatório aponta que “essas companhias investem em múltiplas estratégias de marketing, durante a pandemia do Covid-19, e apelam para sentimentos como nostalgia e conforto”.

Nesse sentido, a GHAI apontou dois eixos principais para a classificação de estratégias:

  1. Uso do contexto de pandemia, às vezes com discursos pejorativos sobre a realidade, para reforçar as vendas dos produtos;
  2. Construção de um discurso publicitário enquanto fazem alianças com o poder público e barram políticas de promoção à saúde.

No webinar de lançamento do relatório, a vice-presidente da GHAI, Holly Wong, destacou que foram observados padrões de comportamento das big food em diversos países, o que prova que elas partem de políticas internacionais para a captação de mercado. 

Nutri-washing, publicidade infantil e propaganda enganosa

“Com qual desses itens do menu você se isolaria?” Essa foi a mensagem veiculada em abril pela Burger King Brasil. O consumidor tinha à disposição as “casas” para escolher e cada uma representava um combo – com hambúrguer e acompanhamentos – da rede de fast food. Com uma tática parecida, a Mars dos Estados Unidos mudou o rótulo do M&Ms com os dizeres: “Envie um abraço virtual”.

Na China, a Mondelez percebeu uma queda nas vendas, então, incentivou os consumidores a cozinharem com Oreo em casa. O representante de vendas da multinacional aconselhou as famílias a compartilharem um lanche porque “traz de volta um sentimento de normalidade, de união, acalmando a todos”.

A indústria de fast food também aumentou o marketing de entregas a domicílio, sugerindo que as pessoas ficassem em casa e pedissem comida por aplicativo. 

“Fique em casa. Fique divertido (ou fique bem)”, dizia a mensagem publicitária da Oreo

O relatório apontou que houve um incremento de publicidade voltada ao público infantil, usando imagens de crianças e mensagens que encorajavam o consumo dos produtos. 

Mensagens que “limpam” a imagem das big food também foram um recurso muito utilizado.

A Burger King Brasil aparece mais uma vez porque anunciou que doaria uma parte da venda de todos os hambúrgueres para o Sistema Único de Saúde (SUS), numa estimativa de R$ 1 milhão. Pelo site da rede de fast food, é possível confirmar que a doação foi feita. O valor, comparado aos quase R$ 50 milhões lucrados pela companhia em 2019, não faz cócegas na gigante dos hambúrgueres, principalmente porque esse tipo de ação é investimento, não gasto, uma vez que o mercado adere à imagem solidária da empresa e passa a consumir por preferência e identificação a ela.

Esse recurso é conhecido como nutri-washing (ou lavagem nutricional) e, segundo o relatório, “essas campanhas ajudam os consumidores a sentirem-se bem em contribuir com uma causa social, mesmo na compra de produtos não saudáveis”.

As propagandas enganosas também são parte do pacote. O documento da GHAI aponta que o International Life Sciences Institute (ILSI), entidade criada pela Coca-Cola na década de 70, posicionou alimentos processados ​​como seguros durante a pandemia, “afirmando que esses produtos foram fabricados usando medidas para reduzir o risco de contaminação química e física, e assim preservaria a saúde da população”. 

Dessa forma, o instituto sugere que alimentos in natura podem estar contaminados, construindo uma visão deturpada sobre o consumo de itens essenciais durante a pandemia. Isso sem contar as várias tentativas da indústria de relacionar seus produtos com aumento da imunidade, exacerbando micro e macro nutrientes, como foi o caso da vitamina D, história que o Joio contou

A promoção por meio de institutos de educação é outro viés de atuação encontrado pela pesquisa. Segundo a GHAI, durante a pandemia muitas plataformas pedagógicas incluíram informações sobre marcas e produtos das big food e disfarçaram o marketing, dando-lhe roupagens educacionais. 

Essas estratégias deturpam a percepção da população sobre as multinacionais e impactam principalmente as crianças, que são a parcela da população mais vulnerável às ações dessas empresas.

Lobby e fronteiras abertas

O relatório demonstra que durante a crise humana e sanitária causada pela Covid-19 a indústria tratou de fazer alianças com governos e sociedade civil para avançar os seus interesses. 

Fazem parte do pacote as doações diretas, como no caso observado na África do Sul. Lá a Coca-Cola “colaborou” com uma ONG, Gauteng Young Vision, doando mais de 500 refrigerantes a famílias vulneráveis, bem como para vários pontos de saúde, como um centro de atendimento à obesidade. 
No Brasil não passamos longe disso. Empresas como Bauducco, Danone e Nestlé doaram mais de 400 toneladas de alimentos ultraprocessados, categoria a ser evitada, de acordo com as recomendações do Guia Alimentar para a População Brasileira.

Doação da Nestlé para a Prefeitura de Registro, no interior de São Paulo (Foto: divulgação)

A vice-presidente da GHAI destacou que muitos grupos vulneráveis que receberam esses produtos já apresentavam deficiências nutricionais e estavam em situação de insegurança alimentar (quando não estão asseguradas as condições de alimentação ideais em uma comunidade). “Nesse contexto, a indústria de alimentos agravou a pandemia que já estava acontecendo”, disse.

Em 27 do total de exemplos coletados para o relatório, foram divulgados detalhes da doação. Ao todo, foram repassados 19 milhões de dólares, 528 toneladas de alimentos e 34 milhões de refeições. A maioria das empresas não especificou os produtos que estavam doando. No Brasil, o exemplo da Hipocrisia S.A é o mais emblemático.

Mais um pouco de lobby

Toda a narrativa criada em cima da pandemia reforçou o lobby da indústria. No México, a tentativa foi de adiar o início da regulamentação de rótulos de advertência por causa da crise. Na Colômbia, a indústria influenciou os governantes a reduzirem esforços em direção a um imposto sobre bebidas adoçadas e freou o projeto de colocação de sinais de alerta na frente da embalagem dos produtos ultraprocessados.

“Da mesma forma, empresas como Nestlé, PepsiCo e Unilever solicitaram aos governos que mantivessem as fronteiras abertas para permitir o comércio de alimentos, argumentando que fazer isso ajudaria a resolver os problemas da fome durante a pandemia”, informa o relatório. O apelo das big food apontou para a necessidade de manter suas atividades, “ao destacar seu compromisso com a distribuição ininterrupta”. 

As alianças feitas com o setor público também se tornaram ainda mais evidentes. Nesse quesito, o relatório recolheu exemplos em Brasil, Colômbia, Jamaica, Malásia, México, Paquistão, África do Sul e Estados Unidos, onde governos e indústria divulgaram juntos informações sobre a Covid-19. A urgente necessidade de informar a população abriu caminhos para que ministérios, secretarias públicas e governos federais abrissem seus canais de comunicação para a parceria.

Além disso, essas alianças foram apresentadas por meio de cerimônias formais, permitindo que as big food mostrassem suas “boas ações” para a imprensa. 

Parte da solução?

Apesar de as corporações do setor enfatizarem o discurso de que são parte da solução para o abastecimento alimentar das comunidades, o relatório indica que não são. Conclui que o setor precisa ser regulado por políticas públicas que não tenham conflitos de interesses, para que as informações sobre os produtos sejam transparentes para os consumidores, como a adoção da rotulagem nutricional frontal.

Em tempos de pandemia – recorda o documento –, os governos devem se responsabilizar por programas de abastecimento saudável (com alimentos frescos) para populações vulneráveis, e durante todo o tempo reforçar o Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA) na elaboração de políticas. As ações devem ter âmbito sistemático entre os poderes nacionais e globais. 

Aumento de impostos sobre ultraprocessados e bebidas adoçadas, proibição de publicidade de alimentos não saudáveis e da venda em ambientes escolares também são medidas a serem implementadas. 

A pesquisadora Camila Maranha, da ACT Promoção da Saúde, destacou que a união entre entidades da sociedade civil é essencial nesse contexto. Por isso a importância das universidades e de organizações como a Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável

Maranha também lembrou que na outra margem dessa realidade está quem realmente precisa de força e subsídios. “Do outro lado há pequenos produtores agrícolas, que não têm tantos recursos. Mas a sociedade civil, ao lado de pesquisadores, tem observado que é importante seguir produzindo esses alimentos para poder sobreviver e melhorar a vida das pessoas nesse período.”