A revolução que vivemos nos modos de comer aumenta realmente nossas opções e liberdade? Esta série é um mergulho na fervura dos fenômenos desencadeados pelo surgimento do ambiente alimentar digital

Blade Runner se tornou um clássico do cinema por, ainda em 1982, imaginar o que o futuro reservava. Dirigido por Ridley Scott, o longa aborda, entre outros temas, as mudanças trazidas pelo desenvolvimento tecnológico. Entre carros voadores e clones autômatos de humanos, o filme, apesar de toda a genialidade, deixou de imaginar uma invenção que estaria no auge no mesmo ano de 2019 em que desenrola o seu enredo. Não concebeu a criação de plataformas digitais para comprar comida.

Na obra de ficção, uma das primeiras cenas mostra o protagonista Rick Deckard (Harrison Ford) atravessando a rua em uma noite chuvosa para comer o macarrão de um vendedor. No mundo real, se ele estivesse no 2019 que já passou, com certeza faria diferente: colocaria a mão no bolso, tomaria o celular e abriria um aplicativo para fazer o seu pedido.

Há quase 40 anos, quando Blade Runner foi lançado —ou há mais de 50, desde a publicação de Do Androids Dream of Electric Sheep?, livro de Philip K. Dick que inspirou o filme—, não era possível, no entanto, conceber que alimentar-se, uma das mais triviais necessidades humanas, seria tão fortemente impactada por novas tecnologias. O exemplo dos apps de entrega se tornou icônico, mas a virada cibernética, que marca a crescente da informação e das tecnologias sobre a vida humana, provocou muitas transformações nos modos de comer.

As mudanças são tantas que mesmo pesquisadores da área da alimentação têm dificuldades para tirar conclusões sobre o que está acontecendo. Trata-se de um universo grande para descobertas. 

Estima-se, por exemplo, que em 2020 o Brasil tinha 17,9 milhões de usuários de plataformas digitais de delivery e que esse número pode chegar a mais de 25 milhões de pessoas em 2024, segundo um levantamento da empresa Statista, que produz estatísticas sobre marketing. Tem mais: um relatório do Instituto Foodservice Brasil mostrou que em 2019 foram 3,2 bilhões de pedidos de comida por plataformas digitais na América do Norte, Europa, China e Japão, quase o triplo dos 1,1 bilhão de pedidos em 2013.

No meio científico, fala-se hoje em ambiente alimentar digital, buscando um conceito que tente dar conta de fenômenos diversos. Entre eles, estão não só os aplicativos de delivery, mas as propagandas em redes sociais, o uso de algoritmos para direcionar anúncios, as condições de trabalho em plataformas virtuais e a influência maior ou menor de diversos atores no mundo digital.

Alguns cientistas já demonstraram que até assistir ao Netflix pode alterar o modo como você se alimenta. Em outros casos, os anúncios na barra de rolagem de uma rede social podem induzir as escolhas para matar a fome. Além disso, a mera presença de uma guloseima no perfil de um influenciador digital tem potencial para estimular o maior consumo deste alimento.

Por ambiente alimentar, puro e simples, entende-se o local físico onde há disponibilidade de alimentos sob a influência de fatores econômicos, como o custo da comida, fatores políticos, como incentivos e restrições governamentais, e fatores socioculturais, como o comportamento das pessoas ou a influência de hábitos coletivos para privilegiar a escolha de certos alimentos. 

Em O Joio e O Trigo, já visitamos o assunto algumas vezes, como em uma série sobre o ambiente alimentar na cidade de São Paulo. Agora, debruçamo-nos sobre o admirável mundo novo que a tecnologia traz à alimentação. Esta reportagem dará sequência a outras que vão falar do mundo do trabalho, dos usuários e da história de algumas das mais bem sucedidas plataformas digitais de consumo de comida.

Nem real nem virtual: os dois

O ambiente alimentar digital, por sua vez, não é um simples desdobramento retórico, de adição de palavras. Quem se debruça sobre o tema define-o como um lugar relacionado ao ambiente físico, mas que coexiste com fatores externos, como a internet. “Alguns pesquisadores dizem que o digital não é imaterial nem material, ele é os dois. Dizem que ele é sociomaterial”, afirma a cientista brasileira Sabrina Ionata, da Universidade de Ciências Aplicadas do Interior da Noruega (INN University).

“O ambiente alimentar digital tanto expande o real, físico, quanto cria novos ambientes digitais, como comunidades no Facebook e grupos de jogos online. São todos esses lugares que existem no mundo digital, mas não existem no mundo físico”, detalha ela, cuja pesquisa de doutorado procura delimitar precisamente o que é esse novo conceito.

Até o momento, os achados sobre alimentação no mundo digital reconhecem que se trata de uma espécie de “não-lugar imaginário”, o universo virtual, mediado pela relação humana com a tecnologia. “Ela expande a experiência do indivíduo com o mundo, em termos materiais e socioculturais. E isso afeta o modo como as pessoas podem fazer escolhas alimentares. Pode-se problematizar se são escolhas ou não. Mas, supondo que sejam escolhas, são as escolhas feitas por meio das tecnologias nos ambientes digitais”, diz Ionata.

O estudo sobre as relações humanas com a tecnologia, embora seja embrionário na área da alimentação, não vem de hoje. Um dos autores a deixar uma contribuição importante para entender a equação homem-máquina foi o filósofo francês Gilles Deleuze (1925-1995). Ele é tido como um dos primeiros a relacionar o surgimento das tecnologias digitais ao exercício de poder, fosse ele político, econômico ou cultural. 

As inovações tecnológicas são necessariamente formas de controle, segundo o autor. “Não é uma evolução tecnológica sem ser, mais profundamente, uma mutação do capitalismo (…) O que ele quer vender são serviços, e o que quer comprar são ações. Já não é um capitalismo dirigido para a produção, mas para o produto, isto é, para a venda ou para o mercado. Por isso ele é essencialmente dispersivo”, escreveu Deleuze no ensaio Post Scriptum sobre as Sociedades de Controle, com tradução de Peter Pál Pelbart.

O filósofo afirmou, ainda, que as tais novas tecnologias têm conexão com suas precursoras. Isso é semelhante ao que ocorre no ambiente alimentar digital, que reproduz características do ambiente alimentar físico, seu antecessor. 

Isso é o que explica a pesquisadora Laís Vargas Botelho, mestranda do programa de epidemiologia em saúde pública na Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Segundo ela, uma das maiores semelhanças é a repetição, no digital, dos atores que influenciam o ambiente físico.

“Existem formas diferentes, que são digitais, mas a maioria dos atores são os mesmos, com particularidades, mas condutas semelhantes”, detalha Botelho, que estuda no mestrado as implicações do uso de ferramentas digitais de delivery para a saúde pública. Entender mais detalhadamente a influência do mundo digital é uma das motivações da pesquisa dela. 

“As grandes redes de varejo de supermercado, que já concentram o mercado físico, são as que mais têm presença no ambiente virtual. São as que são mais promovidas por influenciadores. Grandes redes de fast-food, que têm mais poder de destaque em plataformas digitais, têm mais condições de oferecer frete gratuito, cupons de promoção e outras formas de atrair clientes”, afirma.

Com a influência de tantos fatores, é inevitável uma pergunta de cunho filosófico sobre o mundo digital: o que determina a escolha alimentar de alguém neste ambiente?

Livre-arbítrio digital

A liberdade de escolher ou simplesmente o ato de escolha é um tema revisitado por diferentes obras e autores. Blade Runner deixou a sua contribuição. Em uma das passagens mais icônicas, o replicante Roy Batty (Rutger Hauer, 1944-2019), o androide que é o antagonista do filme, está frente a frente com o seu antípoda, o protagonista Richard Deckard, sob a chuva, na cobertura de um prédio em que os dois travaram um duelo mortal.

Naquele momento, Batty tem a chance de eliminar o algoz, pondo fim à principal perseguição do filme. Ele tem um problema, contudo. Como é um ser robótico, sua vida está programada para acabar próxima daquele instante. Confrontado com o dilema de vida ou morte, escolhe um caminho que conduz o longa-metragem a um desfecho imprevisível, acompanhado de um dos mais belos monólogos da história do cinema.

Claro, na vida nem tudo é uma questão tão profunda e absoluta como a cena de Blade Runner, sobretudo quando se trata de decidir um prato diante de uma tela. Mas a influência que os ambientes digitais têm nas escolhas alimentares é uma inquietação crescente entre aqueles que estudam o tema.

“O que me preocupa mais é quanto a gente está entregando nossas escolhas nas mãos de terceiros. Se eu faço muitas compras online, os sites começam a me recomendar produtos. Imagina se tudo isso está integrado com minhas redes sociais, aonde eu vou, as pessoas que eu conheço, se você junta tudo isso numa base de dados. Com base nessa persona digital, você começa a pensar até que ponto isso influencia. O quanto aquilo é uma escolha?”, pergunta-se a cientista Ionata.

Os problemas de escolha estão ligados aos tipos de exposição que o mundo digital faz dos alimentos. Eles são dois, segundo Botelho. Um é intencional, como ao procurar por receitas na internet ou pesquisar sobre alimentos antes de fazer compras. Já o outro é não intencional, como ao receber propagandas nas mídias sociais ou ao assistir ao conteúdo patrocinado de um influenciador. 

“Essa forma não intencional de se relacionar com o digital é bastante problemática”, afirma a pesquisadora da Fiocruz. “A maioria das pessoas não tem a habilidade de avaliar o grande volume de informações a que elas são expostas. Elas não sabem o quão influenciadas podem ser. Na internet, tudo acontece de forma muito rápida.”

Em suma, as decisões cabem tanto à razão quanto à emoção, de acordo com um estudo feito pelos pesquisadores Vincent Cheow Sern Yeo, See-Kwong Goh e Sajad Rezaei, da Taylor’s Business School, na Malásia.

Eles investigaram quais as motivações para uma pessoa adquirir comida no meio virtual. Economia de tempo, praticidade ao acessar uma plataforma, descontos ao fazer compras e até mesmo motivações hedonistas ou a sensação de fazer algo divertido eram alguns dos fatores de influência no mundo virtual encontrados pelos cientistas.

O ambiente digital também fomenta a formação de um público cativo. No Brasil, por pertencerem ao grupo que têm mais acesso à internet, jovens e adultos até 40 anos constam como os principais usuários das plataformas online. Mas outras evidências mostram que há uma predisposição de o mundo virtual recrutar os mais jovens para escolhas alimentares não exatamente sadias.

Um dos principais alvos do direcionamento da publicidade e propaganda de comidas não saudáveis é —vejam só—  o grupo que ainda está desenvolvendo as capacidades de fazer escolhas: as crianças.

Pesquisadores de saúde pública da New York University, nos Estados Unidos, analisaram 418 vídeos de influenciadores digitais infantis no YouTube e encontraram neles 291 referências a comida e bebida. Em mais de 90% delas, havia a exibição de refrigerantes, hambúrgueres e outros produtos de marcas como Coca-Cola e McDonald’s.

Para evitar que essa maior exposição leve ao maior consumo de alimentos ruins, os autores do estudo afirmaram que é necessário que o governo federal daquele país amplie as regras sobre publicidade em meios digitais. 

Os achados foram publicados no artigo Child Social Media Influencers and Unhealthy Food Product Placement (“Influenciadores de mídia social infantil e localização de produtos alimentícios não saudáveis”, em tradução livre), publicado no periódico da American Academy of Pediatrics.

No entanto, da mesma maneira que exibem comida não saudável, as plataformas digitais poderiam incentivar mais o consumo de alimentos saudáveis, de acordo com a pesquisadora Paula Horta, professora-adjunta do departamento de Nutrição da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Ela recomenda que a exibição digital de alimentos venha acompanhada de mais informações, como os selos nutricionais presentes no ambiente alimentar físico. “Poderíamos pensar em iniciativas semelhantes à da rotulagem. E também tentar dar um maior destaque da publicidade ao que é mais saudável. É uma estratégia que poderia ser aplicada ao ambiente virtual”, sugere.

O excesso de exibição de itens não saudáveis dificulta que as pessoas façam escolhas digitais mais adequadas à saúde, segundo Botelho. “Uma vez que você é exposto de maneira desproporcional a alimentos não saudáveis, isso entra em uma questão de discutir o que é realmente escolher. Essa desproporção mostra uma competição desigual entre as possibilidades, e a escolha é algo que está no campo das possibilidades”, pondera.  

“Estamos vivendo um processo de desumanização. Parece ficção científica. Ao incorporar o digital, a gente está só expandindo o humano ou está cedendo alguma coisa para que o digital entre? É uma pergunta existencial mesmo, que acho importante ser feita, porque a alimentação tem identidade, tem significados para a gente”, acrescenta Ionata.

Entre ofertas e serviços

Uma das áreas que cientistas investigam, no momento, é a influência que o ambiente alimentar digital tem no desenvolvimento de fatores de risco e de doenças crônicas não transmissíveis, dois problemas de saúde reconhecidos como uma pandemia pela Organização Mundial de Saúde. No Brasil, mais de um quarto da população (26,8%) estava obesa em 2019 e 61,7% estava acima do peso, segundo a última Pesquisa Nacional de Saúde.

Em parte, atribui-se o aumento do excesso de peso entre os brasileiros à piora da qualidade da alimentação. No país, há nos últimos anos um aumento da ingestão de comida ultraprocessada —que é aquela com elevado índice calórico, além de excesso de sal, gorduras e açúcar e aditivos alimentares; alguns exemplos são macarrões instantâneos, refeições prontas congeladas, refrigerantes, salsichas e outras guloseimas.

A participação dos ultraprocessados chegou a 18,4% do total de calorias ingeridas por uma família, segundo a mais recente Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF 2017-2018) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Uma década e meia antes, em 2002-2003, a cifra era de 12,6%.

Não existe um indicador público e oficial que informe o quanto o delivery e as plataformas digitais contribuem diretamente para o aumento de consumo de ultraprocessados. Mas é possível fazer uma estimativa usando outros números.

Um deles é o gasto mensal com refeições fora do lar, que corresponde em média a 33% das despesas com alimentação nas famílias brasileiras, segundo o relatório sobre a cadeia de alimentos realizado pelo economista Walter Belik. O levantamento utilizou, entre outras informações, os dados da POF 2017-2018.

O gasto com refeições fora do lar é maior entre a parcela mais rica da população, chegando a quase metade do total despendido com alimentação, de acordo com o estudo. É também no mesmo estrato que há mais consumo de ultraprocessados. Entre os 20% mais ricos do país, a ingestão desses alimentos corresponde a um quarto do total das calorias consumidas, conforme mostrou a Pesquisa de Orçamentos Familiares.

A alimentação fora de casa também é conhecida como foodservice. Nele, estão incluídos restaurantes, lanchonetes, padarias ou, em outras palavras, boa parte dos locais que configuram não só o ambiente alimentar físico, como também o digital. Quase metade desses estabelecimentos, ou 49%, são de fast food, segundo um relatório do Instituto Foodservice Brasil.

Embora não haja um indicativo preciso do quanto o meio digital influencia a qualidade da alimentação da população brasileira, pesquisadores do assunto têm uma certeza: hoje, ele não ajuda a melhorar.

Quando o ambiente prioriza a oferta de alimentos não saudáveis, como os ultraprocessados, costuma-se recorrer a uma imagem intuitiva: pântanos alimentares. São regiões onde é predominante a venda e a exposição desse tipo de comida. Nesses locais é igualmente comum o incentivo ao consumo desses alimentos com a oferta de porções extras, além do estímulo induzido por propagandas e campanhas de marketing.

Pelas características que têm, pântanos alimentares são também considerados ambientes obesogênicos. Isto é, são locais que oferecem condições para que as pessoas ganhem peso e, ato contínuo, tenham mais chance de desenvolver doenças crônicas não transmissíveis associadas ao maior índice de massa corpórea, como alguns tipos de câncer, diabetes e hipertensão.

Pesquisadores não têm dúvidas de que, pelas características, as plataformas digitais configuram um grande pântano alimentar online. Investigadores de diferentes áreas reconhecem que, quanto maior a exposição a um item como um alimento não saudável, maior é a tendência de que uma pessoa consuma esse produto.

Tecnologia e pandemia

Se você chegou até aqui nessa odisseia pelo ambiente alimentar digital, não tenha dúvidas: a maioria da oferta nas plataformas do mundo virtual é a de alimentos não saudáveis. Isso já foi testado e provado algumas vezes. Em uma capital como Belo Horizonte, por exemplo, a disponibilidade de itens ultraprocessados em um aplicativo é consideravelmente maior do que a de alimentos saudáveis, de acordo com um estudo de pesquisadores da UFMG.

Enquanto as opções não saudáveis representam quase 70% do que é ofertado por restaurantes cadastrados, pratos saudáveis compunham apenas 30% da oferta de comida na plataforma em questão.

“É a realidade do ambiente físico e real também no virtual. Encontrar esse resultado já era esperado, principalmente pelo perfil de restaurantes cadastrados: lanchonetes e pizzarias. O que a gente encontra nesses estabelecimentos online também encontra neles fisicamente”, afirma Horta, uma das autoras do estudo, publicado no periódico Public Health Nutrition, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido.

Ao lado de outros colegas, ela também foi uma das responsáveis por medir a quantidade de propagandas de itens não saudáveis durante a pandemia na mesma plataforma de entrega, em um levantamento realizado nas 27 capitais brasileiras. Embora não seja uma surpresa, o achado é revelador: mais da metade dos anúncios eram de refeições ruins para a saúde.

“O marketing ajuda a estimular uma alimentação não saudável”, comenta a professora da UFMG. “Os anúncios indicavam algumas comidas como pizza, hambúrgueres, e não só transmitiam uma mensagem, mas os reforçaram também em um contexto de alimentação e de hábitos não saudáveis”, ela conclui.